Os Opostos Se Atraem
10 Finalmente
Notas iniciais
Clara andava de um lado para o outro no quarto, despejando o armário inteiro sobre a cama. Não sabia o que vestir e não poder pedir ajuda para as amigas não facilitava muito sua vida. Aliás, elas aparentemente tinham acreditado na desculpa esfarrapada que Clara inventara para o sumiço repentino durante a tarde. Disse que tinha passado mal do estômago por causa do excesso no almoço, e que tinha ido para casa. Obviamente a única que não comprou totalmente a história foi Luiza, e Clara já estava começando a considerar a possibilidade de contar para amiga sobre Marina. Não duraria muito tempo esse segredo. Depois de provar o quinto vestido e não chegar a nenhuma conclusão, saiu pelo corredor decidida a falar com Luuh.
– Eu juro, é verdade Fernanda! – Ouviu a voz de Marina no quarto de e parou, curiosa.
– Você vai sair com a Clara? – Fernanda gargalhava – Clara Fernandes, minha amiga que você supostamente odeia? Tá bom que eu tenho reparado que vocês andam meio estranhas, mas isso já é demais.
– Eu tô falando sério! Preciso que você dê cobertura... – Marina pediu e Clara continuou parada, quase rindo.
– Tá, tudo bem... – Fernanda riu – Mas só uma coisa, Meirelles. Vê se não esquece que a Clara não é qualquer uma. Você a conhece o suficiente pra saber que ela não vai aceitar ser só mais uma na tua lista, e eu te conheço pra saber que você corre de relacionamentos sérios. Além do mais, ela é irmã da Vanessa... Fica ligada, Mari.
Clara ouviu a última frase de Fernanda e uma sensação estranha percorreu seu corpo. E se ela realmente fosse apenas uma da lista? Tinha esquecido da fama de Meirelles no colégio, por alguns instantes. Hesitou em ir até o quarto de Luiza, deu meia volta e bateu sua porta.
Estavam todos jantando quando Marina apareceu na sala de jantar. Clara levantou o olhar e a encarou, perplexa. Marina estava indiscutivelmente linda. Quando seu olhar parou no dela, teve quase certeza de que ia sufocar. Respirar pra quê?
– Fiu fiu, pensa que vai aonde assim tesão? – Gisele fez uma voz afetada e a mesa inteira gargalhou.
– Pro meu encontro! – Marina disse e Clara engasgou com o refrigerante, fazendo Fernanda gargalhar alto.
– Nossa Clarinha, calma! – Vanessa disse rindo e dando um tapinha nas costas da irmã, que ficou corada.
– Vai encontrar a francesa de ontem, Meirelles? – Roberta perguntou e Marina arqueou a sobrancelha, segurando o riso.
– Ela mesma. – Marina sorriu – Agora deixa eu ir, porque fiz a reserva pra oito e meia — Marina frisou bem o horário e Fernanda encarava Clara, quase rindo – E não posso me atrasar. Fui!
Marina saiu pela porta da frente e todos começaram com seus papos paralelos, enquanto Fernanda ainda olhava a amiga sugestivamente.
– Clarinha, você nem tocou no macarrão! – Flavinha disse e Clara sentiu o rosto queimar.
– É que eu ainda tô meio enjoada por causa do almoço, amiga! – Mentiu – Vou subir pra me arrumar, ok?
Clara correu até o quarto e pegou o vestido preto que tinha decidido usar. O vestiu o mais rápido que conseguiu, e começou a arrumar o cabelo e a maquiagem. Ouviu um toque suave na porta.
– Entra.
– Hey, francesa! – Fernanda disse e Clara corou absurdamente.
– Cala a boca, ! Eu vou matar a Marina por ter te contado isso! – Ela disse e gargalhou.
– Isso, pode matar, contanto que não encoste em mim! – Fernanda disse e Clara riu alto – Olha, já tô saindo com a Van e as meninas. A Marina pediu pra avisar que o restaurante é aquele vermelho lá, sabe?
– Ah claro Fernanda, o vermelho lá, claro! – Clara rolou os olhos teatralmente e gargalhou. – Le Petit Bistro, sei exatamente onde é. Agora se manda vai!
– Ui, fala isso de novo? Você ficou tão sexy falando francês! – Fernanda disse e Clara tacou uma almofada nela, gargalhando.
– Tarada!– Clara disse e se aproximou, beijando-a na bochecha.
– Sexy! – Fernanda disse e as duas gargalharam, enquanto fechava a porta.
Marina já estava impaciente. Meia hora de atraso. MEIA HORA! Isso porque tinha pedido pra que Clara viesse o mais rápido possível.
Com o tempo correndo no relógio, Meirelles começara a ficar mais preocupada. Talvez algo tivesse dado errado, Clara não se atrasaria tanto assim. Quarenta e sete minutos era de fato muita coisa. Discou para o celular de Clara rapidamente.
O celular chamado encontra-se desligado ou fora da área de cobertura.
– Merda! Porque tem celular se deixa desligado?
Marina exclamou alto e algumas pessoas olhavam pra ela. Ótimo, agora parecia uma louca que fala sozinha em restaurantes. Discou várias vezes seguidas e nada. Tinha certeza que algo tinha acontecido, que alguma das garotas tinha inventado alguma coisa e que Clara não teria conseguido se livrar. Aquilo era humilhante, um bolo oficial. Meirelles nunca tinha tomado um bolo na vida. Virou um copo de Whisky, irritada, e discou pela última vez. A mesma mensagem. Xingou até a quinta geração da mulherzinha da gravação e saiu do restaurante, ligando para Fernanda, que atendeu só na terceira vez.
– Alô! – Fernanda deu um berro, estava em um lugar muito barulhento. Marina sentiu o ouvido zunir.
– Vai gritar na puta que pariu, ! – Marina disse e Fernanda franziu a testa. Havia algo de errado.
– Nossa, o que aconteceu? A Clara te bateu? – disse brincando e Marina quase tacou o celular num poste. Estava descontrolada.
– Antes fosse! Ela não apareceu, Fê! – Respondeu e Fernanda sentiu o queixo cair.
– Como não apareceu? Ela tava se arrumando pra ir pra aí, Marina! Eu falei com ela!
– Tá, mas ela não veio, caralho!
– Beleza, foi ela que te deu um bolo, não eu! – disse e Marina rolou os olhos. Estava pouco se importando para o momento sentimental da amiga.
– Dane-se! Será que aconteceu alguma coisa? – Meirelles perguntou, pela primeira vez dando lugar a preocupação.
– Deve ter acontecido, liga pra ela!
Marina gargalhou muito alto.
– E você acha que eu já não fiz isso?
– Tá, faz assim... A gente tá chegando aqui no Progression, vem pra cá! Vou tentar falar com a Clarinha ou com alguma das meninas, aí te aviso! Mas vem pra cá! – disse e Marina fez uma careta. Não teria outra saída.
– Tá, tô indo.
Fernanda pegou o celular e discou para Luiza. Foi a primeira que ela lembrou – sempre era, aliás – E a única que parecia saber um pouco mais daquela história. Na primeira vez, chamou até cair na caixa postal. Discou novamente, e ela atendeu na primeira chamada.
– alô!
– Luiza, onde vocês estão?
– QUE? – Ela berrou e Fernanda ouviu Lady Gaga tocando ao fundo – EU NÃO TÔ TE OUVINDO!
– ONDE VOCÊS ESTÃO? – Fernanda berrou novamente e Luiza gargalhou.
– Não to entendendo nada! A gente se fala depois! – Ela disse alto e desligou o telefone na cara da Fernanda.
– Ótimo! – Fernanda rolou os olhos.
– Tava falando com quem, Fê? – Vanessa perguntou e Fernanda fez uma careta.
– Com a Luiza. Ela me ligou sem querer, acho – Mentiu e Fernandes riu – Vamos entrar?
– Aqui galera, camarote para nós! – Gisele chegou com as pulseiras e as três gargalharam – Vou guardar a da Marina no bolso, quando ela chegar eu entrego!
As três caminharam entre várias pessoas e Vanessa se perdeu no caminho, parando pra conversar com uma loira que tinha lhe chamado atenção desde o lado de fora. Gisele e Fernanda riram, e subiram até o camarote. Assim que entraram, Fernanda ficou paralisada. Viu Luiza dançando em cima de uma mesa e ela estava deslumbrante. Mas não foi isso que a deixou paralisada.
– Clara, o que você tá fazendo aqui? – Fernanda gritou e Clara tremeu. Não era para elas terem aparecido. – Desce daí!
– Me erra, Fernanda ! – Clara reclamou e continuou dançando com a amiga.
– Eu preciso falar com você!
– Depois Fernanda, depois... – Clara respondeu indiferente e Luiza sorriu confusa para Fernanda, que rolou os olhos bastante nervosa.
– Não acredito nisso. – Fê disse baixo, mas Clara pode ler seus lábios. Sentiu um peso enorme na consciência e uma vontade de correr até onde Fernanda estava. Mas não o fez. Olhou para frente e continuou dançando. Se resolveria com ela depois.
– Fê, cheguei! – Marina disse ao telefone e Fernanda suspirou alto.
– Tô indo aí entregar sua pulseira! – Ela berrou de volta e desligou, indo até onde Gisele estava e pegando a pulseira com ela.
Desceu as escadas correndo e esbarrou em algumas pessoas lá embaixo. Clara tinha passado dos limites, Fernanda sabia que Marina ia ter um colapso.
– Hey. – Fernanda disse ao avistar Marina e estendendo a pulseira laranja.
– Hey! Alguma notícia da Clara? – Meirelles perguntou e Fernanda coçou a cabeça, depois a balançou afirmativamente. – Fala!
– Ela tá aqui, Mari.
– COMO ASSIM? – Meirelles berrou e algumas pessoas pararam pra olhar pra ela. Fernanda fez sinal pra que falasse baixo.
– Não sei, eu cheguei aqui com a Van e a Gi e ela tá aí com as meninas, dançando. Tentei falar com ela mas...
Fernanda ia dizendo quando viu Marina disparar em direção a porta do lugar.
– Fodeu. – Foi tudo o que Fernanda conseguiu dizer, antes de ir atrás mas perdeu Marina de vista em segundos. Aquilo não daria certo.
Marina entrou no camarote rapidamente e avistou Clara com Flávia perto do bar. Passou como um furacão ao lado de Gisele, que não teve tempo nem de abrir a boca para cumprimentá-lá. Chegou aonde elas estavam e puxou Clara pelo braço, porque ela estava de costas.
– Ei, o que você pensa que... Marina! – Clara exclamou sentindo seu coração pular no peito e totalmente surpresa.
– Preciso falar com você. – Marina disse nervosa, e Clara podia perceber isso em sua voz e no jeito que Marina a olhava. Fernanda chegou correndo.
– Marina, não vai fazer nada que...
– Me deixa em paz, Fernanda. – Marina reclamou – Posso ou não falar com você? – Marina
perguntou olhando para Clara, que sentiu um arrepio na espinha. Estava com medo.
– Tudo bem. – Ela assentiu e foi puxada escada a baixo, quase caindo.
– Eu tô de salto, dá pra parar de correr?
– Foda-se, eu também estou e não to reclamado. – Marina disse alto e tudo o que Clara queria era gritar.
Saíram da danceteria e Clara sentia seu braço doer pela força que Marina estava aplicando. Ainda podiam ouvir a música alta lá dentro, por uma porta lateral.
– Você tá me machucando! – Ela reclamou, ficando nervosa. Marina soltou seu braço bruscamente.
– Você acha que eu tenho cara de idiota? – Marina berrou e Clara ia abrir a boca pra falar, mas Marina não deixou – Você me deixou plantada naquela porra de restaurante por uma hora! Quem você pensa que é?
– Marina, eu...
– Não quero saber, Clara! Eu pensei que você tava falando sério quando disse que era pra eu tentar, se era pra me fazer de idiota, não precisava nem ter falado. – Marina continuava gritando e Clara sentia os olhos arderem.
– Se você não quer me ouvir, pra que você me trouxe aqui pra fora, ? – Clara gritou, e Marina abriu a boca, mas não emitiu som algum. – Eu não disse pra você me conquistar só pra te fazer de idiota! Eu ia naquela merda de encontro!
– E porque não foi? – A voz de Marina agora era mais baixa, Clara quem gritava.
– Porque eu mudei de idéia. – Clara disse quase em um sussurro.
– QUE? – Marina voltou a se alterar. Estava incrédula. Aquilo já era um pouco demais. – Mudou de idéia? – Marina riu sarcástica. – Eu devia ter esperado isso de alguém como você. Clara Fernandes nunca muda, não é mesmo?
– Cala a boca, Marina! Eu ouvi sua conversa com a Fernanda! – Clara disse e Marina parou, extremamente confusa.
– O que teve de errado na conversa?
– Eu não quero ser mais uma na sua lista, Marina. Aliás, eu estou cansada de ser mais uma na lista de todo mundo! Eu não sou um troféu pra você dizer que pegou e sair contando para suas amiguinhas! Sinto muito, docinho. – Clara gritou por fim e Marina ficou sem reação. Viu que a garota ia embora e a prendeu contra a parede.
– Eu não quero você como um troféu. – Marina disse baixo, quase inaudível. Clara sentiu o coração acelerar com aquela proximidade toda. Respirou fundo.
– Prove. Me dê três bons motivos. – Clara disse e Marina rolou os olhos, rindo.
– Você é impossível, docinho.
– Anda logo, Marina. Três motivos. – Clara respondeu firme e Marina deu um passo para trás, pensativa. Clara apenas a encarava, com os braços cruzados.
– Okay, se você quer assim... – Marina disse, levantando um dedo. – Motivo número um: Se você fosse qualquer uma na minha lista, eu não estaria aqui inventando três motivos pra você acreditar em mim. Você é extremamente complicada, eu já teria desistido de você muito antes. Então ponha na sua cabeça que você não é uma garota qualquer. – Marina disse e Clara sentiu os joelhos tremerem, tentando reprimir um sorriso.
– Continue. – Clara disse baixo e Marina sorriu de canto, chegando perto e apoiando os braços na parede, prendendo Clara ali.
– Segundo motivo: Embora você seja irritantemente estranha, com essa mania de colocar regras em tudo e de não confiar em mim, eu sei que você quer isso tanto quanto eu. – Marina fez sinal de silêncio nos lábios de Clara, que já ia se manifestar – Se não quisesse, não estaria perdendo seu tempo comigo aqui fora, e muito menos pediria pra eu te provar alguma coisa. E terceiro... – Marina encostou a boca no pescoço de Clara, que se arrepiou só com o toque.
– Marina...
– Cala a boca.
Marina sussurrou no ouvido de Clara e rapidamente colou sua boca na dela. Não pediu permissão, entrelaçou rapidamente suas mãos em seu cabelo e acabou com qualquer espaço que houvesse ali. Clara sentiu seu corpo inteiro arrepiar quando a língua de Marina invadiu sua boca e tocou a dela. A segurou com força pelo pescoço e intensificou o beijo. Nenhuma das duas sabia quem estava mais desesperada por aquilo – Só conseguiam prestar atenção nos corações estranhamente acelerados e no quanto aquilo era bom. E por mais que Marina tivesse beijado milhares de garotas, nada se comparava com aquele beijo. Aquela garota sabia a enlouquecer de um jeito irreal. Clara mordeu o lábio de Marina devagar, totalmente sem fôlego.
– Esses motivos foram bons pra você? – Marina perguntou com a boca colada na de Clara, que riu abafado.
– Tá pra existir uma pessoa mais metida que você, Marina. – Clara murmurou e as duas abriram os olhos, rindo baixo.
– Eu não sou metida, sou realista.
– Dá pra você calar a boca? – Clara perguntou arqueando uma sobrancelha maliciosamente e mordendo o lábio inferior de Meirelles, que sentiu a nuca arrepiar.
– Só se você me der um bom motivo. – Marina sorriu marota e Clara sentiu borboletas fazerem festa em seu estômago. Riu baixo.
– Só um bom motivo? – Clara fez bico e Marina riu alto. Nunca tinha se sentido daquela forma em relação a uma garota. – Vem cá...
Clara a puxou devagar e os narizes se tocaram, e na mesma velocidade, encostaram os lábios. Marina foi calma dessa vez. Queria sentir cada pedaço de Clara, o fato de não saber se aquilo aconteceria novamente era ao mesmo tempo desesperador e excitante. Desenhou sua boca com a língua e a beijou devagar. Clara suspirou alto, mas não ligou. Eram como se seu beijo fosse moldado pra encontrar o de Marina, por mais estranho que isso pudesse parecer. Marina parou o beijo sem nenhuma vontade e acariciou o rosto de Clara. Aproximou sua boca do ouvido dela e sussurrou:
– Finalmente, docinho.
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