Os Opostos Se Atraem
4 Descoberta
Notas iniciais
– Ah garota, último dia de aula! – Roberta pulava contente e Clara riu.
– Nem acredito! Férias, as tão esperadas férias! Isso é incrível! – Ela disse e Flavinha se aproximou.
– E aí gatinhas, vamos arrasar na festa da praia? – Ela perguntou como se isso fosse muito óbvio, e todas riram. – Clarinha amiga, discurso na ponta da língua?
– Sempre! – Clara sorriu animada.
Clara não era presidente do conselho estudantil, não fazia parte do grêmio e não tinha ligação com nenhuma pessoa envolvida nesses dois quesitos. Bom, sua paixão era pela arte. Ela simplesmente figurava em todas as peças teatrais do colégio, como protagonista ou com papéis de grande destaque. Foi capitã das líderes de torcida durante quase dois anos, mas quando teve que escolher entre as artes dramáticas e os gritinhos empolgados, ficou com a primeira opção, a contragosto de muita gente. Por ser altamente popular no colégio, sempre era escolhida para discursos empolgados nas festas que antecediam as férias, ou a volta as aulas.
– Nem acredito que depois de amanhã estaremos na FRANÇA! – Os olhos de Luuh ficavam iluminados com a idéia.
– Estou contando os minutos! – O braço de Fernanda pousou levemente nos ombros da Luuh, que torceu o nariz e se livrou de Fernanda em dois segundos.
– Bom, a parte de você estar lá não é bem a minha preferida das férias! – Luuh disse jogando os cabelos e Fernanda fez careta.
– Outch, bom dia pra você também! – Fê disse e Clara riu.
– Bom dia Fernanda meu amor! – Ela estalou um beijo na bochecha da Fernanda. – Dormiu bem?
– Uau, que bom humor Clarinha! Estou começando a achar que as horas no banheiro...
– Cala a boca antes que você leve seu segundo toco do dia, bebê! – Clara disse sorrindo e Fernanda riu.
– Qual a primeira aula de vocês? – Fê perguntou.
– Bom, eu e a Roberta temos Física... – Clara passou a mão nos cabelos teatralmente fazendo todos rirem. – A Flavinha e a Luuh tem biologia.
– Biologia só se for com o Cullen. – Marina entrou na conversa fazendo uma voz afetada que ela jurava parecer com a de Clara que rolou os olhos.
– Ai Marina, você cansa minha beleza, sabia? – Ela reclamou e Fernanda riu. – Vem Robby, vamos nos atrasar! – Clara disse puxando a amiga.
– Nos vemos em Literatura, docinho! – Marina deu um berro mais alto e Clara murmurou algumas coisas que Marina não entendeu, mas riu.
As aulas antecedentes ao intervalo passaram rapidamente. Os professores não tinham mais nada para passar para os alunos, apenas as notas e as tão temidas recuperações. A aula dupla de literatura vinha logo após o intervalo, e era a única em que todas as oito se encontravam, coincidentemente. A maior parte da classe gostava muito da Sra. Fletcher, era uma das professoras mais simpáticas daquele colégio. Ela entrou sorridente na sala e alguns baderneiros o que incluía Vanessa e Gisele pararam com a guerra de papel.
– Bom dia queridos!
– Bom dia Sra. Fletcher.
– Bem, último dia de aula, não é mesmo? Vejo que estão animados para se verem livres de nós por um tempo – Ela riu sozinha da própria piada – Srta. Meirelles, sente-se corretamente, não quero alunos com lordose. – Ela disse e Marina assentiu. Clara e Luiza riram. – Continuando. Eu sei que a maior parte dos professores não está fazendo nada nesse último dia, mas eu tenho um trabalho para vocês.
Uma onda de “Ah professora” e “Poxa, último dia!” foram ditas simultaneamente. A senhora de meia idade riu levemente e bateu a mão na mesa para que olhassem para ela.
– Posso terminar, por favor? – Ela disse todos ficaram quietos. – Assim que eu gosto! Enfim, eu acho que vocês vão gostar desse trabalho. Ele não tem nada a ver com literatura, mas com convivência. Quantos anos vocês estudam juntos? Aposto que bastante tempo. Mas aposto também que metade de vocês mal se conhecem. Deixem-me provar minha teoria. Srta. Purcino, qual é o nome desta aluna? – Ela disse apontando para uma garota de cabelos cacheados na segunda fileira da frente e sorriu.
– Er... Evan. – Flavinha respondeu em dúvida e Roberta sorriu para ela.
– Certo, acertou! – A professora sorriu. – Agora me diga: Evan chegou aqui na metade do ano letivo, vinda de uma outra cidade, qual mesmo? – Ela questionou e Flávia não soube responder, fazendo a sorrir vitoriosa. – Bristol, seria a resposta correta, meu anjo. É exatamente isso que eu quero provar para vocês hoje. Vocês são uma sala de aula, mas poucos se conhecem, todos vivem em suas panelinhas sem se importarem com o restante. E hoje eu quero que vocês conheçam o restante. Então eu quero que essa metade da sala escreva rapidamente seus nomes em papéis e passem para frente. Eu vou colocar nessa caixinha. Mas só a metade!
Todos obedeceram sem entender aonde a professora queria chegar. Clara escreveu seu nome em um papel, assim como todas as suas amigas. Vanessa e as amigas estavam na outra parte da sala, então não precisaram escrever.
– Ótimo, tudo aqui? – A professora perguntou retoricamente, chacoalhando a pequena caixa. – Bom, eu quero que cada um desse lado venha pegar um papel. Mas NÃO ABRAM AINDA, por favor. – Ela disse e todos obedeceram.
– Certo professora, mas o que a gente faz com isso? – Uma garota de cabelos extremamente longos e lisos perguntou imediatamente.
– Minha querida Anna, isso que eu vou explicar agora. Bem, cada um de vocês que está com o papel na mão irá vir aqui dizer qual nome encontrou aí dentro. E o nome que estiver aí será seu mais novo amigo! Bom, pelo menos pelas próximas duas horas...
– Como assim? Gisele perguntou do fundo da sala.
– Bem, eu tenho aqui uma listinha com cinco perguntas e uma pergunta surpresa para vocês. Cada dupla vai sair da sala, andar pelo colégio e fazer algo legal juntos, seguir as tarefas. Eu tenho como saber se estão fazendo tudo direitinho, ok? Não tentem trapacear!
Todos começaram a falar juntos e a preocupação da maior parte das pessoas era cair com alguém que não gostava, ou com alguém queima filme, ou coisa do tipo. Sra. Fletcher havia deixado claro que não permitiria que amigos ficassem em dupla, e ela sabia muito bem quem era amigo ali e quem não era. Clara sentiu um arrepio na espinha só de pensar em algumas probabilidades. “Você teria que ser muito azarada!” Ela pensou e prestou atenção quando sua irmã foi chamado a frente para ser a primeira a abrir o papel.
– Angela Williams! – Quem é essa? – Vanessa sussurrou para a professora e uma garota tímida e pequena veio em direção a ela. Vanessa tinha certeza que nunca havia visto aquela garota na vida.
Assim a brincadeira prosseguiu. Luiza havia sido sorteada por um nerd e foi muito zoada pelas amigas por causa disso. Fernanda passaria um tempo com uma líder de torcida extremamente gostosa, palavras dela. Várias pessoas haviam sido sorteadas. Algumas poucas haviam adorado a dupla, mas muitas estavam insatisfeitas.
– NÃO! – Gisele quase gritou ao abrir o papel.
– Gisele Toribio, isso são modos? Quem você sorteou? – Sra. Fletcher perguntou e ela ficou verde.
– A... a... a... – Fernanda gritou um anda logo Gisele e ela parou de gaguejar. – Roberta. Roberta Viana.
Roberta ficou mais verde que Gisele e levantou reclamando tão rápido que ninguém entendeu nada. A professora riu.
– Uau, vejo que formei uma dupla interessante! Sem reclamações, as duas. Não vou mudar coisa alguma!
Mais três duplas formadas e Clara estava quase dormindo na carteira quando Marina foi chamada a frente. Sentou-se corretamente e começou a tamborilar os dedos na mesa. Não, ainda tinha pelo menos cinco pessoas para serem dupla dela. Isso não ia acontecer.
– Que letra estranha! – Marina reclamou e algumas pessoas riram. – Ah, não! – Ela sussurrou e de repente ficou corada. Aquilo não podia estar acontecendo. – Clara Fernandes . – Ela disse muito baixo.
Clara bateu a cabeça na mesa. Algo realmente dizia que aquilo ia acontecer. Logo Fernanda começou com as piadas sobre o banheiro e Vanessa ria escandalosamente. Ela sabia que não adiantaria reclamar. Apenas levantou-se em passos largos e tomou o envelope da mão da professora, voltando ao seu lugar. Todos acompanharam a cena em silêncio.
– É, acho que nosso destino cisma em fazer esse tipo de coisa com a gente... – Marina andava com as mãos nos bolsos ao lado de Clara.
– Eu não acredito em destino. Estou começando a achar que uma pessoa com a sorte como a minha só pode passar por esse tipo de coisa. – Clara respondeu sem olhar.
– Não vai me dizer que você realmente acha que não é sortuda? – Marina rolou os olhos e Clara a encarou de frente pela primeira vez.
– Você não me conhece, Marina. Pare de tentar falar do meu destino ou da minha sorte. – Ela disse num tom de voz amigável, mas as palavras eram ásperas.
– Se você diz. – Marina deu de ombros e sentou embaixo de uma árvore. – Ficamos aqui.
– E quem disse que você quem decide as coisas? – Clara retrucou prontamente.
– Puta merda, cada dia mais chata. – Marina reclamou e levantou. – Qual árvore te agrada mais? – Disse sarcástica. – Pra mim são todas iguais.
– Ah, vê se me erra! – Clara respondeu sentando no lugar em que Marina estava. Ela bufou e sentou ao lado de Clara.
– Vamos terminar logo com isso. – Marina disse pegando o envelope.
– Acho válido. Qual a primeira pergunta?
– “Dentro dos limites do colégio, cada um deve levar o novo amigo para um lugar que realmente gosta, para fazer algo divertido” – Marina repetiu com cara de espanto. – Essa mulher é doida!
– Sempre desconfiei! – Clara riu. – Ela disse que eram PERGUNTAS. Mas tanto faz. Vai, me leva pra algum lugar.
– Primeiro a docinho. – Marina fez um gesto de reverência exagerado e Clara riu.
– Você é insuportável. Anda, me leva pra algum lugar logo.
Clara e Marina andaram lado a lado sem dizer nada por poucos minutos. Ao redor do pátio viam vários de seus colegas se movimentando em duplas. Marina achou graça e riu sozinha. Clara sorriu olhando para os pés.
– Tcharan! – Marina mostrou a cantina para Clara, que teve um acesso de riso.
– A cantina, Marina? – Ela estava quase engasgando de rir.
– Nossa, não vi tanta graça assim... – Marina fez bico e Clara tentou parar de rir, mas achou bonitinho a cara que Marina estava fazendo.
– Não é que seja propriamente engraçado... É que sei lá, é típico. Aposto que metade da galera vai trazer as meninas aqui. Ou vão levá-las pro ginásio.
– Ou para alguma salinha escura para fazer coisas mais divertidas! – Marina bufou e Clara rolou os olhos.
– Pervertida.
– Realista.
– Cala a boca.
– Tá, o que você quer comer? – Marina perguntou olhando a grande placa que tinha os lanches. Normalmente todos usavam o refeitório, a cantina só funcionava em horários alternativos.
– Não sei ainda! – Clara olhava o grande mural de cima abaixo.
– Eu vou pagar, afinal é meu programa. – Marina sorriu e Clara riu, incrédula.
– Meu deus, dentro de toda ogra existe uma gentlewoman! – Ela fez piada e riu verdadeiramente, e aquela risada fazia com que Marina risse. – Ok, eu quero um cheeseburguer sem cebola com batatinhas e uma Coca! Acho que é o número três!
Marina abriu a boca, dessa vez completamente a incrédula. Não imaginava que o pedido dela seria esse.
– Achei que fosse pedir um sanduíche natural! – Marina fez careta e Clara riu.
– Aquilo não mata minha fome.
– Você é estranha! – Marina virou os olhos e pediu dois lanches para a moça.
– Porque estranha? – Clara ainda ria da cara de Marina . – Você acha que eu estou gorda, é isso? Acha que eu preciso desesperadamente de um pé de alface?
– Não, não! – Marina arregalou os olhos. – Eu não vou cair nessa, não vou dizer que você está gorda só pra você me bater.
– Droga! – Ela riu e Marina também. – Mas é sério, por quê?
– Ah... – Marina coçou a cabeça – Porque você não me parece o tipo de garota que se dá ao luxo de comer essas coisas.
A moça colocou os pedidos no balcão e Marina pegou a bandeja. Clara pegou sachês de catchup e mostarda e a seguiu.
– Aonde você vai? – Ela perguntou vendo que Marina se afastava das mesas.
– Eu não sou assim tão previsível, Clarinha. – Ela sorriu e Clara a seguiu.
– Você me chamou de Clarinha. – Ela disse numa voz tímida, quase infantil.
– Desculpe. Não posso? – Marina ficou corada no mesmo instante.
– Não, pode sim, tudo bem.
Marina colocou a bandeja na grama embaixo a uma árvore que fazia uma sombra vasta, em frente à pequena praça que ficava em meio ao colégio. Clara sorriu e sentou-se ao lado de Marina.
– Piquenique! – Ela bateu palmas, novamente parecendo uma criança. Marina riu.
– Gostou?
– Achei... diferente. É, eu nunca fiz um piquenique no colégio! – Clara sorriu sincera.
– É legal comer aqui. A vista é muito melhor do que todos aqueles idiotas que cercam a cantina. – Marina disse um pouco rancorosa e Clara sorriu.
– Também acho.
– Ah, até parece. – Marina revirou os olhos.
– Eu estou com fome, Marina. Será que poderíamos discutir quando eu acabar? – Clara colocou a mão na cintura e Marina riu baixo, assentindo com a cabeça.
As duas terminaram os lanches rapidamente, estavam realmente com fome. Durante esse tempo, não falaram nada, mas tiveram dois acessos de riso. Um pelo silêncio, e o segundo por um garoto que tomou um tombo hilário bem na frente delas.
– Vamos, minha vez! – Clara tentava puxar Marina pela mão, mas ela não levantava. – Anda, Marina! – Ela disse e pisou sem querer num sache aberto de catchup. O líquido voou direto na camiseta de Meirelles, e ela começou a rir muito alto.
– Ah, ÓTIMO! – Marina tentava limpar enquanto Clara ria.
– Nem dá pra ver direito, deixa de ser fresca! Agora vem, vamos para o meu lugar!
As duas andaram um pouco agora comentando do tambo do garoto, e rindo. O lugar definitivamente era mais distante, já estavam andando há alguns minutos. Marina não tinha a mínima noção de onde era, mas era algum local escondido, isso era um fato.
– Clara, estou começando a achar que você vai me estuprar nos matos do colégio! – Marina fingiu desespero e Clara desatou a rir.
– Ai sua idiota! – Ela deu uma tapinha leve no ombro de Marina e pela primeira vez Meirelles percebeu que ela realmente estava brincando ao chamá-la de idiota. Nunca era daquela maneira.
– Aqui. – Clara abriu um enorme sorriso e Marina olhou ao redor de um jardim extremamente bonito, mas que ela nunca tinha visto.
– Nossa! – Marina olhava em volta, pasma. – Você tem certeza que isso é dentro do colégio? – Ela perguntou e Clara riu da sinceridade com que aquela pergunta foi feita.
– Aham. Bem, esse jardim pertence à família da Sra. Cruz, do refeitório, sabe? É dentro do colégio, mas não é do colégio.
– E nós podemos vir aqui?
– Claro. Eu venho aqui sempre, eles já estão acostumados. – Clara sorriu e deitou na grama, olhando o céu limpo e com poucas nuvens.
– Uau. – Marina disse ainda boquiaberta com o lugar que Clara havia escolhido. – Como você descobriu isso aqui?
– Quando eu era mais nova, eu era amiga da Helena, neta da Sra. Cruz. Uma meio indiazinha, lembra? – Clara perguntou ainda olhando pro céu e Marina assentiu. – A gente estudava matemática juntas aqui. Era muito legal, todo dia eu comia bolo de cenoura com cobertura de chocolate. O da Sra. Cruz é o melhor que existe! – Ela sorria e parecia imersa em pensamentos, tão imersa que não viu que Marina a olhava.
– Definitivamente seu lugar foi melhor que o meu. – Marina sorriu e ela também.
– Mas o cheeseburguer estava ótimo!
– Talvez eu venha comer aqui um dia! – Marina sorriu maroto e Clara riu.
– Nesse dia eu virei com você.
As duas sorriram e Clara pegou o envelope, sentando-se.
– Olha, agora é realmente uma pergunta! – Clara disse numa mistura de sarcasmo e espanto.
– Estou até com medo disso! – Marina ainda estava deitada.
– “Como você vê a pessoa que está com você?” – Clara leu e as dias se entreolharam rápido.
– COM OS OLHOS! – Disseram em uníssono e desataram a rir.
– Tá, acho que ela devia prever que muita gente responderia isso. – Marina disse, sentando-se também.
– Hm... – Clara estava pensativa. – O jeito que eu vejo você...
– Você realmente vai responder? – Meirelles franziu a testa.
– E porque não? Já estou aqui mesmo.
– Ok então. – Marina a olhava curiosa.
– Marina Meirelles é uma garota... Estranha! – Clara dizia ainda pensativa. – Estranha porque vive falando mal dos jogadores populares, mas vive correndo atrás de líderes de torcida, o que é controverso...
– Ei, eu não corro atrás de líderes de torcida! – Marina interrompeu e Clara riu.
– Não se esqueça que eu era uma. E que garotas falam tudo! – Ela sorriu vitoriosa e Marina riu. – Bem, eu acho que você não é tão ruim quanto quer aparentar. Você é muito mais doce do que quer mostrar. E você é observadora. E por fim, eu digo que você não me odeia.
Marina estava boquiaberta para tantas conclusões corretas que Clara havia feito. As palavras simplesmente não saíam para que ela respondesse alguma coisa. Clara olhava para o céu quando, minutos depois, ela realmente resolveu falar.
– Em minha defesa, as líderes de torcida me amam – Marina sorriu presunçosa, e Clara riu.
– Nem todas.
– Não tenha tanta certeza disso! – Ela riu maliciosa e Clara rolou os olhos. – E eu nunca disse que odiava você. A gente só briga muito.
– É, também acho.
– Isso quer dizer que você também não me odeia? – Marina perguntou curiosa e as duas estavam finalmente sentadas mais perto.
– É claro que não. – Clara respondeu prontamente.
– Legal. – Foi tudo o que Marina conseguiu dizer.
– Sua vez de falar de mim. – Clara a olhou de rabo de olho.
– Tá. – Meirelles pensou e respondeu rápido. – Você quer que todos achem que você é malvada com os homens e mulheres, mas você não é. Você se preocupa com os outros, mas finge que não. Você mataria e morreria pelas suas amigas ou pela Vanessa, embora vocês duas briguem mais do que não sei o que. A garota que todas as meninas do colégio querem imitar não é verdadeiramente você, é quem você aparenta ser. Você também é muito mais doce do que deixa transparecer, mas não necessariamente comigo – Marina riu baixo. – E você tem um estranho gosto para se apaixonar por vampiros, piratas, bruxos ou qualquer coisa que não exista.
Clara olhava para o rosto de Marina mais incrédula do que nunca. Chacoalhava a cabeça de um lado para o outro, sorrindo.
– Isso foi muito bom. – Ela riu. – E eu devo acrescentar que você é uma espiã contratada. – Clara disse e as duas riram alto. – Uau.
– Acho que podemos pular a parte constrangedora de comentar sobre essa conversa, pulando pra próxima pergunta, não? – Marina perguntou com um sorriso encantador nos lábios. Clara estremeceu.
– Concordo. Pode ler você. – Ela entregou o papel para Marina.
– Ah, essa é legal. Em teoria. – Marina riu. – Eu tenho medo do que possa escutar.
– Fala logo, Marina. – Clara estava curiosa.
– “Faça seu parceiro escutar uma música de sua banda preferida e diga porque escolheu aquela música” – Ela leu em voz alta.
– Gostei dessa! – Clara sorriu. – Vamos até meu armário, preciso pegar meu Ipod.
– Eu tenho aqui no celular, eu acho. – Marina pesquisava suas listas.
– Meu celular está sem bateria. – Clara bufou. – Vamos lá!
Clara e Marina andaram rapidamente até o corredor dos armários. Marina procurava insistentemente algo no celular e as duas não estavam conversando.
– Achei! – Marina sorriu vitoriosa.
– Achei! – Clara disse quase ao mesmo tempo. – Meu Ipod, agora preciso da música! – Ela riu.
– Eu realmente estou com medo. – Marina rolou os olhos. – Eu sinto que não vou gostar de ouvir o que você quer que eu ouça.
– Não julgue um livro pela capa, Meirelles. – Clara sorriu simpática e Marina sentiu um leve estremecer na espinha.
– Vai, vamos acabar logo com a tortura, me dê aqui o Ipod. – Marina disse fechando os olhos e fazendo cara de profundo medo. Clara riu da expressão dela.
Here comes the sun, here comes the sun (Aqui vem o sol, aqui vem o sol)
And I say it’s all right (E eu digo que isto é o certo)
Little darling, it's been a long cold lonely winter, (Queridinha, tem sido um inverno muito frio e solitário)
Little darling, it feels like years since it's been here, (Queridinha, parece que se foram anos desde que esteve aqui)
Here comes the sun, here comes the sun, (Aqui vem o sol, aqui vem o sol)
And I say it's all right. (E eu digo que isto é o certo).
A cara de espanto de Marina era algo que fez com que Clara reprimisse uma risada alta. Ela tinha certeza que essa música seria um choque para Marina.
– Não é possível, você só pode estar brincando! – Marina disse de olhos arregalados.
– Qual o problema? – Clara riu baixo.
– Here comes the Sun! Você não ouve Beatles! EU ouço Beatles! – Marina fitava o visor do Ipod com profunda desconfiança.
– Eu não sabia que eles eram propriedade sua, amorzinho. – Clara riu sarcástica.
– Aposto que é a única deles que você tem.
– Pode checar se quiser.
Marina começou a passar uma série de música dos Beatles no aparelho. Não se dando por vencida, começou a fuçar as outras pastas. Rock. Rock. Rock. Aquilo não fazia sentido, Clara era realmente muito diferente do que imaginava.
– Satisfeita Marininha? – Um sorriso vitorioso se espalhou pelo rosto da garota. – O que você imaginava ouvir?
– Britney Spears. Black music. Sei lá. – Marina ainda estava desacreditada. – Porque escolheu essa música? Você tem várias dos Beatles aqui...
– Foi aleatório.
– Ah, sim.
– Posso ouvir a sua agora? – Clara perguntou pegando o celular e os fones. Marina assentiu.
All this feels strange and untrue (Tudo isto parece estranho e surreal)
And I won't waste a minute without you (E eu não quero passar um minuto sem você)
My bones ache, my skin feels cold (Meus ossos doem, minha pele está fria)
And I'm getting so tired and so old (E eu estou ficando tão cansado e tão velho)
The anger swells in my guts (A raiva me corrói por dentro)
And I won't feel these slices and cuts (E eu não vou sentir esses pedaços e cortes)
I want so much to open your eyes (Eu quero tanto abrir seus olhos)
´Cause I need you to look into mine (Por que eu preciso que você olhe nos meus)
Tell me that you'll open your eyes [x4] (Me diga que você abrirá seus olhos)
Get up, get out, get away from these liars (Levante, vá embora, saia de perto desses mentirosos)
´Cause they don't get your soul or your fire (Porque eles não entendem sua alma ou seu fogo)
Take my hand, knot your fingers through mine (Pegue minha mão, entrelaçe seus dedos entre os meus)
And we'll walk from this dark room for the last time (E nós sairemos deste quarto escuro pela última vez)
Clara escutou a música em absoluto silêncio. Marina olhava para os pés, e as vezes para ela. Clara sorria algumas vezes, mas seu rosto tinha uma expressão indecifrável, o que deixou Marina inquieta.
– Open Your Eyes do Snow Patrol. – Clara sorriu, por fim. – Eu adoro essa música.
– Eu também. – Marina sorriu tímida.
– Porque você escolheu essa? – Clara estava curiosa. Curiosa, inquieta e um tanto trêmula pelo que poderia ser a resposta.
– Foi aleatório. Eu não sabia que você gostava. – Marina sorriu levemente, mas Clara não se convenceu.
– Achei que fizesse algum sentido.
– Talvez faça. – Marina respondeu rapidamente, deixando a garota desconcertada, e um tanto corada. – Você está vermelha! – Marina riu.
– Claro que não! – Clara negou imediatamente. – É o reflexo da blusa daquele menino ali. – Ela apontou.
– Sei...
– Ah, fica na sua Marina. – Ela rolou os olhos e Marina riu.
– Próxima pergunta?
– Por favor.
– “Pergunte algo que sempre quis perguntar para seu novo amigo” – Marina leu em voz alta e as duas se entreolharam confusas.
– Isso vai ser estranho. – Clara franziu a testa.
– Também acho. – Marina concordou. – Vamos sentar ali na árvore de novo?
– Tudo bem. – Clara disse e o seguiu até a árvore novamente. O local não estava muito cheio, poucas pessoas passavam por ali. – Pode perguntar.
– Eu primeiro? – Marina fez cara de dúvida e Clara assentiu. – Ah, preciso pensar, espere um pouco. – Marina disse e Clara sorriu.
– Chiclete? – Clara ofereceu e Marina pegou um.
– Obrigada. Acho que já sei o que vou perguntar.
– Manda a ver. – Clara disse confiante, mas estava com um pouco de medo.
– O que realmente aconteceu pra você ter medo de altura? – Marina perguntou e Clara gargalhou. – Eu fiquei curiosa depois de ontem. Achei que tivesse respondido certo.
– Você respondeu o que qualquer um responderia, eu fiz todos acharem que eu tinha caído da escada. Mas pense bem, isso não me daria medo de altura. – Clara revirou os olhos. – Esse povo acredita em cada coisa.
– Ei, eu também acreditei! – Marina interrompeu e a garota riu.
– Ah, Marina... – Ela olhou para baixo timidamente. – Você vai rir de mim.
– Prometo que não vou. – Marina sorriu.
– Até parece! – Clara ainda olhava pra baixo. – Tudo bem, eu digo. Quando eu era pequena, sei lá, tinha uns seis anos, eu estava com a Vanessa na fazenda da minha avó. A Van disse que eu não conseguiria subir numa árvore, então eu subi. Só que começou a chover muito, com raios e trovões, aquela idiota saiu correndo e me largou lá por umas duas horas – Clara tinha o olhar fixo – foram as piores horas. Eu não conseguia descer. Desde então eu tenho medo de altura. Pode rir. – Clara olhou pra Marina que sorria.
– Eu prometi e não vou rir. – Marina sorriu engraçadamente. – Mas é engraçado. Eu achei que fosse algo com montanhas russas, aviões, sei lá!
– Eu preferia que fosse. – Ela disse e as duas riram. Marina riu um pouco demais, então Clara presumiu que ela estava rindo da história, e deu um tapa no ombro de Marina, que segurou o riso.
– Foi mal! – Marina respondeu e Clara riu. – Vem, levanta!
– Pra que? – A garota franziu a testa, mas foi puxada para cima.
– Vamos subir essa árvore! – Marina sorriu maroto e os olhos de Clara arregalaram.
– Marina, pare com as drogas! Eu não vou subir! – Clara disse entre dentes, mas com vontade de rir.
– Você tem que superar seus medos, docinho! – Marina disse num sorrisinho malicioso e Clara rolou os olhos.
– Eu odeio quando você me chama de docinho.
– Eu sei. – Marina riu e Clara fechou a cara, sentando-se. – Minha vez de perguntar alguma coisa, não?
– Ah droga! – Marina sentou e Clara riu.
– Olha Marina, eu vou te perguntar uma coisa que possivelmente lhe deixará irritada comigo – Clara disse e Marina arqueou a sobrancelhas, curiosa – E você vai achar no mínimo estranho. Prometa que não vai me matar.
– Nossa, mas que pergunta é essa? – Marina riu. – Prometo.
– Bom, é que... – Clara mediu as palavras para continuar. – Há dois meses atrás você, minha irmã e as malucas lá tiveram aquela idéia estúpida de viajar para Manchester para aquele festival de rock, em plena semana de provas. – Ela dizia quando Marina olhou para baixo. – Ah, nem vou continuar.
– Não, tá tudo bem. – Marina sorriu forçado e a olhou. – Continue.
– Eu sei que todas as mães ficaram profundamente irritadas. Eu vi com meus próprios olhos a bronca que a Vanessa levou lá em casa, foi terrível, eu tive dó dela. – Ela suspirou – Mas no dia seguinte ela estava aqui no colégio, com Gisele e Fernanda, mesmo que estivessem de castigo. E você simplesmente sumiu, por uma semana inteira. E quando voltou... – Clara olhou nos olhos de Marina – Estava péssima. Machucada, com olheiras. Mas não só pelas marcas físicas, eu digo como pessoa. Você estava realmente mal, Marina. O que aconteceu?
Marina abraçou os joelhos inquieta. Não esperava por aquilo e falar sobre aquela semana realmente abria feridas que ela não gostava, não era algo agradável de lembrar. Suspirou algumas vezes antes de conseguir explicar.
– Estou surpresa que você tenha reparado. – Marina disse levantando a cabeça levemente. – Tudo bem, eu vou explicar. – Meirelles disse e Clara assentiu. – Aquela semana foi terrível pra mim. Logo quando nós voltamos de Manchester, cheguei em casa e minha mãe estava desesperada. Mesmo depois que a gente ligou e disse que estava lá e tudo mais. Ela estava realmente muito brava.
– Sua mãe fez... aquilo com você? – Clara arregalou os olhos num espanto que foi transmitido por sua voz.
– Não, claro que não! – Marina disse e ela suspirou alto. – Bom, minha mãe namorava um cara naquela época. – Marina torceu o rosto quando lembrou. – E ele parecia um cara legal, pra ela e tal. Mas assim que eu cheguei em casa e vi que minha mãe estava machucada, eu pirei. Aquele filho de uma puta tinha batido nela. Mais de uma vez, e fazia isso sempre, mas eu nunca havia reparado! Ela estava desesperada, sabe? Doeu muito vê-la daquela forma – Os olhos de Marina estavam vermelhos e Clara sentiu os olhos marejarem.
– Marina, eu...
– Deixa eu terminar, okay? – Marina pediu olhando pra baixo e Clara concordou em silêncio. – Eu fui até a casa dele e discuti feio, perdi a noção e esqueci que era mulher e parti pra cima dele ... Mas obviamente ele era mais forte que eu. E eu acabei apanhando. Minha mãe chamou a polícia, e ele foi preso. Eu ainda tenho uma marca nas costas por causa daquele... – Marina parou no meio da frase e ficou quieta.
– Eu sinto muito. – Clara estava realmente comovida com a confissão. Não era algo que ela esperava ouvir. – Desculpe ter perguntado isso, de verdade. – Marina ainda olhava para os pés quando Clara, num impulso desajeitado, a abraçou de lado. Os braços estavam receosos, talvez por toda aquela proximidade que nunca tiveram. Ficaram em silêncio por alguns segundos, quando ela finalmente percebeu o que estava fazendo e se afastou.
– Eu nunca disse isso pra ninguém além das meninas... – Marina levantou os olhos e sorriu brevemente.
– Desculpe por ter perguntado.
– Está tudo bem, de verdade. – Marina piscou e ela sorriu. – Confio em você.
As palavras saíram meio atrapalhadas e Marina quis nunca ter dito aquilo. Droga, aquilo era pra estar em pensamento, não era pra ser dito. Clara ficou igualmente abalada, mas sorriu. Um sorriso doce, diferente dos que costumava dar. Algo que Marina poucas vezes vira.
– Seu segredo estará a salvo comigo. – Ela piscou e sorriu mais uma vez, e involuntariamente Marina sentiu as pernas bambearem. – Última pergunta, que tal?
– Seria ótimo, se não fosse pela pergunta surpresa! – Marina disse e as duas riram. – Lê aí.
– “Conte ao seu novo amigo um segredo seu” – Clara leu em voz alta e riu. – Ah, que ótimo. Acho que fizemos isso.
– Realmente – Marina concordou, rindo. – Mas agora eu quero outro segredo, pode ir falando.
– Ah, que sem graça você! – Clara disse com uma voz infantil e os dois riram. – Então vai você primeiro.
– Tá bom, vai. – Marina pensou. – Eu durmo de meias.
– Ah, grande coisa. – Clara disse e as duas estavam rindo. – Vai, um de verdade.
– Então vai você primeiro enquanto eu penso. – Meirelles pediu com um olhar piedoso e Clara sorriu, concordando.
– Bem... Eu chorei como uma criança quando terminei com o Cadu. – Clara corou e Marina arregalou os olhos.
– Como assim?
– Quando eu descobri a traição... Eu corri para um dos quartos da casa da Miley, dona da festa, com as meninas. Eu estava chorando muito e não queria que ninguém me visse daquela forma. – Ela confessou timidamente.
– Então você... amava... ou ama o Cadu? – Marina perguntou com um olhar estranho, que Clara chutaria ser tristeza, se não conhecesse a pessoa em sua frente.
– Claro que não! – Ela riu alto. – Eu estava chorando porque... – Clara fitou o nada e começou a falar muito baixo. – Porque foi muito difícil aceitar outra traição. As pessoas simplesmente não me levam a sério, não entendo. Sempre tem que aprontar alguma para acabar com tudo. Eu nunca amei o Cadu, na verdade. – Ela olhou para Marina quando percebeu o olhar dela em seu rosto – Eu estava machucada, porque as coisas sempre dão errado comigo. Porque eu nunca vou encontrar alguém que realmente me entenda e que não me decepcione. Porque eu nunca aprendi a amar.
Clara despejou em uma velocidade absurda, mas com a voz extremamente baixa, Marina teve que se esforçar para escutar. De certa forma, a confissão tinha feito bem a ela. Ela precisava colocar aquilo pra fora, e depois do que Meirelles havia dito sobre a mãe, achou justo dizer algo realmente relevante. Marina sorriu calmamente como quem imaginava que o porque do choro tinha sido aquele. E então tocou a palma da mão da garota de leve, quase sem encostar.
– Ei, relaxa. – Marina sorriu. – Nem todos os homens e mulheres do mundo vão te decepcionar. Talvez você só esteja procurando no lugar errado.
Clara retirou sutilmente sua mão dali porque sentia que ia estremecer. Sorriu de volta.
– Espero que esteja certa.
– Acho que estou. – Marina sorriu. – Agora é minha vez, não é? Ok, acho que já sei.
– Conte, conte! – Clara disse curiosa e riu de si mesma.
– Bom, nessa brincadeira... a música que eu escolhi... – Marina estava ficando vermelha de novo. – Tinha um sentido. Não era aleatória.
– Sabia. – Clara riu baixo. – Eu entendi na hora.
– Get up, get out, get away from these liars... – Marina cantarolou baixinho, e depois ficou tímida quando percebeu o que estava fazendo.
– Sua voz é linda! – Clara sorriu e Marina riu.
– Não acho. Mas obrigada. – Ela riu. – Nossa, primeiro elogio que você me faz em todos esses anos! Momento marcante!
– Sua besta, não tente estragar meu humor! – Clara rolou os olhos. Era incrível que estivesse de ótimo humor ao lado de Marina, esperava ter uma péssima experiência dessa aula.
– Preparada para a tal pergunta surpresa? – Marina fez voz de locutora de rádio e Clara desatou a rir.
– Que medo de você.
– Eu tenho medo é desse envelope! – Marina levantou e começou a ler. – “Parabéns, vocês chegaram até a pergunta surpresa!” Marina fez uma voz afetada e Clara quase engasgava de rir. “Agora é a hora mais importante: Escrevam um texto pequeno sobre a pessoa com quem que esteve nessa aula. Sobre o que você achava dela, sobre o que acha agora, mas com uma regra: Fale bem. Fale todas as qualidades de seu novo amigo, eu sei que ele tem muitas! E assim que terminarem, entreguem em minha sala!”
– Oh my God. – Foi tudo o que Clara conseguiu dizer.
– Isso vai ser... interessante. – Marina coçou a cabeça e abriu a mochila – Quer papel, caneta?
– Por favor.
Marina rasgou uma folha de caderno e pegou uma caneta para usar. Deu o caderno para Clara e outra caneta. As duas se olharam por alguns segundos sem escreverem nada. Então Clarinha abaixou os olhos e começou a escrever devagar no papel, concentrada. Marina arqueou a sobrancelha, e sem dizer nada, fez o mesmo. De vez em quando, ela a olhava e via que Clara sorria para algumas das partes em que escrevia. Isso a fez sorrir também. Em poucos minutos Clara acabou o texto e dobrou o papel, esperando pacientemente por Meirelles, que demorou um pouco mais do que ela.
– Acabei. – Marina sorriu.
– Eu também. Vamos entregar? – Ela perguntou já levantando, e Meirelles a seguiu.
Chegaram na sala rapidamente e algumas duplas estavam entregando seus papéis para a professora. Uma pilha de envelopes estava na frente dela, então ambos presumiram que haviam demorado na brincadeira.
– Meirelles, Fernandes ! – A professora sorriu. – Peguem um envelope para cada um, e do lado de fora escrevam “Marina Meirelles sobre Clara Fernandes ” ou vice versa, por favor. Depois coloquem na pilha.
– O que a senhora quer fazer com isso? – Clara perguntou curiosa.
– Nada. Só ter certeza de que vocês cumpriram a brincadeira. – Ela sorriu ao ver que Marina já colocava o envelope na pilha. Clara fez o mesmo, e os dois saíram da sala.
– É... – Marina sorriu com as mãos nos bolsos – Esse último dia de aula foi... legal.
– Também achei. – Clara sorriu – Eu me diverti, hoje.
– Que bom. Eu também. – Marina disse e as duas andaram lado a lado em silêncio até o estacionamento.
– Bom, acho que a gente se vê na França – Clara fez um gesto engraçado e Marina riu. As amiga de Vanessa haviam optado por viajarem em um vôo diferente do das amigas de Clara, para evitar confusões.
– É, parece que sim. – Marina sorriu.
– A não ser que você apareça na festa da praia, hoje a noite. – Clara olhava para os pés.
– Isso é um convite? – Meirelles sorriu vitoriosa.
– Erm. Não. – Clara rolou os olhos. – A festa é para todos os alunos, você já estava automaticamente convidada. – Fernandes disse, e Meirelles murchou.
– Ah, sim. Eu não gosto dessas festas.
– Faça um esforço então... Vai ser... legal. Se você for. – Clara definitivamente estava tímida. Falava muito baixo, coisa que não era normal para ela. Meirelles sentiu um calor estranho por dentro.
– Vou tentar. – Marina sorriu.
Então Roberta chegou correndo e se envolvendo no meio da conversa. Ela estava afobada, os olhos furiosos.
– Ah, você está aqui! Vamos, me dê uma carona pra casa! – Robby dizia rapidamente.
– O que houve amore? – Clara via a raiva transbordar pela expressão da amiga. Até Marina havia percebido. Roberta ia responder, quando percebeu a presença de Meirelles ali.
– Nada. – Ela rolou os olhos. – Vamos, temos muitas coisas pra organizar pra festa! – Robby disse puxando Clara, que começava a tomar distância de Meirelles.
– Marina! – Ela deu um grito em meio ao pátio. Ela levantou os olhos, e Roberta parou de andar.
– O que?
– Tente aparecer. Eu vou esperar.
Clara sorriu largamente acompanhando o enorme sorriso de Meirelles. Ela estava se sentindo bem, há muito tempo não sentia-se assim. De um modo ou de outro, as coisas estavam começando a parecer certas. Marina observou atento as duas garotas até que sumissem de seu campo de visão, com um sorriso idiota no rosto.
– O que foi isso, Clara? – Robby ainda não acreditava no que tinha visto.
– Nada. – Clara sorriu ligando o carro – Porque está tão brava?
– Essa aula foi a pior de todas. Eu odeio a Gisele, odeio, odeio! – Roberta dizia quase esmurrando o banco. – A sua também deve ter sido péssima.
– Hm, eu diria que foi... – Clara procurava alguma palavra que não fosse tão explícita para dizer que tinha gostado do último dia de aula. Robby ligou o rádio.
Tell me that you'll open your eyes… Tell me that you’ll open your eyes…
Clarinha riu baixo e sorriu para Roberta. Não conseguia mentir pra suas amigas.
– Do que está rindo? – Robby franziu a testa, confusa.
– De nada. E minha aula foi ótima. – Ela sorriu sincera, quando um mar de perguntas tomou conta do carro.
Fale com o autor