Os Mutantes de Rineerland
3 Lógica.
Por Clara.
Estava me sentindo extremamente estranha, por alguns segundos, fechei os olhos depois daquela frase sem sentido. Uma falsa brisa passava pela prisão, mexendo com meus cabelos; mas não era possível, apenas havia paredes e nenhuma janela. O toque dos dedos do estranho afundava na minha pele, e durante algum tempo pensei que ninguém estava encostando. A sensação de desamparo saiu do meu ser e se fizesse muita força, eu poderia me imaginar em casa jogando uma partida de damas com meu irmão. Senti algo diferente no rosto, era como se arrancassem um pedaço de mim, mas era só o garoto estranho tirando a mão no meu rosto, para voltar ao seu lugar na prisão.
— O que dizia?
— É muito difícil para você entender. — Notei apenas naquele momento o quanto que sua voz era parecida com a do rei, a forma de pronunciá-las era como a do rei. Só me lembrei naquele momento que ele aos sussurros disse ser o primeiro filho do rei. Não entendi nada. — Não adianta. — Ele cortou minha lista de duvidas ao meio como se lesse minha mente: — Quanto mais forçar, menos entenderá.
— Como assim você é filho do rei? Pensei que o garoto... O nome me foge da mente...
— Hector.
— Sim, Hector... Fosse filho menino único...
— Eu... — Tentou pronunciar com certa dificuldade a frase que parecia perturbá-lo: — Fui a primeira criança. É uma história longa.
— Gosto de histórias... — Procurei em toda minha mente um nome para que pudesse chamá-lo, mas não tinha nenhum que ele teria me dito: — Ainda não me disse seu nome.
— Não sei meu nome. Pode me chamar de P.
— P? — Não entendi inicialmente, por isso, precisava que ele esclarecesse.
— P, prisioneiro, primeiro.
— Vai contar P?
— Acho que vou.
Ainda não tinha visto seu rosto, apenas ouvido sua voz. Ele se arrastou para mais perto das grades que parecia prendê-lo, não a mim:
— Tudo começou a muito tempo atrás... Meu pai ainda era jovem, um simples príncipe da corte, o quarto filho que não tinha chance alguma de se tornar rei. Até que estrangeiros chegaram, e com eles uma doença mortal. Estavam dispostos a se juntarem ao reino e ajudar, mas no primeiro contato que tiveram com a família real, os três primeiros filhos passaram mal, a ponto de infartar. O que levou ao meu pai com apenas quinze anos se tornar o novo herdeiro. Expulsaram a doença, é claro, mas o meu avô foi infectado e morreu. Com quinze anos meu pai teria que se tornar rei, e teria que escolher sua mulher. Minha avó havia falecido seis anos atrás, então não teria quem ajudá-lo. Foi selecionado um duque de confiança para ajudá-lo a escolher. Durante a Seleção da nova rainha uma moça de olhos castanhos que era uma empregada; atraiu meu pai, fazendo-o se apaixonar. Escondeu a mulher, a apresentou como uma rica e se casou com ela. A farsa foi curta, mas já era tarde para acabarem com este amor, tendo sido que o fruto dele, eu no caso, já tinha nascido. Então... A mataram. A falha foi lembrada durante um mês, mas, uma moça realmente rica foi escolhida... E tomou o lugar da minha mãe. Ela tinha o poder de todas as mentes do povo da mão, era uma Torturadora; e meu pai já tinha cansado de mim e minhas conversas sobre mudar o sistema de divisão social, de tornar todos iguais... Concordaram de tirar a lembrança da minha existência de todas as mentes e arrancar meus poderes. Chamaram alguém com esse dom, um raro Inferior, eles podem te rebaixar ou até te tornar um Rubro. Este raro Inferior retirou meus poderes por completo, mas mesmo conseguido arrancá-los, algo diferente permaneceu em mim, meu sangue ficou vermelho, perdendo toda a substância que gerava meu poder. Quando eu chorava ou me cortava sem querer num objeto aqui do calabouço, às vezes, as lágrimas saíam prateadas. Eu sabia de tudo e precisavam me deter para que eu não contasse aos prisioneiros o que entendia, e esse era o único calabouço do palácio. E meu pai, secretamente, não queria destruí-lo. Ninguém podia saber o que eu era. Resolveram tirar minha voz, mas já estava informado quando vieram e fingir faltar capacidade para pronunciar as palavras. E por ai foi. Me substituíram e hoje estou aqui.
— Incrível. — Balbuciei diante tamanha explicação.
— Você ainda não me disse seu nome. — Ele lembrou com um sorriso que iluminou seu lado escuro. Ótimo, consegui ver seus lábios.
— Meu nome é Clara. — Sussurrei.
— Prazer, Clara.
— Prazer, P. — Algo como um flash iluminou seu lado escuro e consegui ver seus olhos... Eram verdes como esmeralda, brilhantes como esmeralda, precisos como esmeralda, encantadores como esmeralda, únicos como esmeralda e belos como esmeralda.
Eram esmeralda.
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