Os Mutantes de Rineerland
4 Clara.
Por P.
A maior fraqueza que podemos ter, filho, é o amor. Nunca se apaixone... Ou pode acabar assim como eu, a sua mãe: morta.
Relembrei novamente as ultimas palavras da minha mãe direcionadas a mim. Olhei entre as grades. Daria de tudo para estar do lado de fora. Senti que Clara se agarrou as grades, se perguntando se eu ainda estava ali:
— P? Ainda está ai? Está me ouvindo? — Ela sussurrava. Sua voz era encantadora, suave. Parecia uma canção. Queria não respondê-la para que ela apenas ficasse ao meu chamado, e eu, ouvindo sua melódica voz.
Mas ela ia pensar que eu estou morto. E seria meio triste, ao menos pra mim.
— Sim, estou. — Minha voz saiu meio fraca e receosa. — Ainda não me contou o motivo de estar aqui...
— Nem eu mesma sei. Sou uma Rubra, puramente Rubra. Uma empregada sem valor que durante a apresentação de uma das pretendentes de Hector, cantou para uma Bonbs.
— Espera... Se está aqui e cantou, e é Rubra; está insinuando que em poderes de Silveira? — Me juntei a ela, me agarrando nas grades para vê-la melhor.
— Não disse isso...
— Mas eles... A família real disse?
— Acho que sim.
— Melhor esquecer isso.
— Por que não me deixa ver seu rosto? — Ela perguntou mudando totalmente de assunto, esticando a mão na minha direção. Me arrastei para trás, desgrudando das grades.
— Não é uma imagem bonita de se ver, pode crer.
— Como sabe disso? Aqui não tem espelho...
— Os poucos espelhos que vi na minha vida, uns três anos atrás, não me mostraram coisas boas.
— Ninguém continua sendo o que é em três anos. — Clara esticou sua mão entre as grades, tentando me tocar. Recuei, temendo o que ela pudesse achar, deixando-a tocar o vácuo do breu da cela.
— Não mudei. — Afirmei, mesmo pouco convencido disso, queria em prevenir. Repeti a frase, tentando deixar claro à mim mesmo. — Nunca vou mudar.
— Você não é Silveiro. — Ela tirou a mão do escuro, triste por ter fracassado. — Como continua vivo? A maioria dos Silveiros rebaixados acaba morrendo anos depois.
— Eu era Viveiro. E não perdi todos meus dons. — como se fosse obvio.
— Viveiros curam sua própria pele e a dos outros. Você deve se curar.
— Não insista, não vai ser uma boa imagem.
— Me deixe ver... Por favor!
— Não! — Trovejei assim como via meu pai fazer. De longe vi ela se afastar, e começar a chorar num dos cantinhos do calabouço. — Desculpe... Não queria te assustar. — Fiz o máximo para chegar perto dela, mas só se afastava.
— Acho melhor se afastar. — A voz dela era incomparável ao chorro mesquinho, sujeito à não parar. Era decidida. Ela simplesmente afirmava, que era melhor manter distância. Clara não pedia, não tinha dúvidas. Era o que ela achava que tinha que ser e fim.
— Eu não quero te assustar. Só quero te proteger. Acho que não está preparada para ver.
— Discordo, mas não vou opinar. — Ela parecia durona, mas ainda chorava em silêncio.
Simplesmente odeio silêncio, passamos horas assim. Ela estava dormindo, mas pelo menos, era o que parecia. Tinha adormecido perto das minhas grades; estiquei o braço a balançando:
— Acorda. — Sussurrei. Nada. — Acorda. Acorde, Clara, por favor! Psiu. Hey. — Sussurrei perto de seu ouvido, e em resposta, nem se mexeu. Cocei a cabeça.
Ela dormia como pedra. Mas era um anjinho mesmo assim. Acariciei seus cabelos loiros, aproveitando seus momentos de sono. Uma luz clara e amarelada iluminava minha cela, eram poucas vezes no dia que isso acontecia. Acontecia quando estava anoitecendo, e quando a noite chegava totalmente a luz se apagava. Desejei que ela não abrisse seus olhos nem por um decreto, e graças aos céus meu pedido foi atendido.
Sua mão caiu para dentro da minha cela. A luz começou a piscar até ficar profundamente escuro. Quando ela se apagou, Clara acabou acordando enquanto brincava com seus cabelos.
— O que está fazendo? — Sentou-se como num impulso. Me afastei das proximidades de luz.
— Nada. Apenas mexendo no seu cabelo.
Ela nada disse, somente deu risadas abafadas.
— Seu cabelo é macio..
— E o seu é castanho. — Ela murmurou de volta como se fosse obvio. Opa. Como ela sabia que meu cabelo era castanho? Ela nunca tinha me visto na vida. Será que ela estava meio acordada? — Não se preocupe, não vi seu rosto. Apenas o seu cabelo... Se bem que eu queria ver você.
— Não adianta, você não me convence.
— Veremos. — Respondeu com ar desafiador, eu adorava desafios.
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