Meio-dia. A hora aparecia no relógio de rua, em Copacabana, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, toda engarrafada. O dia estava ensolarado, mas não tão quente. Uma brisa fresca e suave pairava no ar; nas calçadas, pessoas nos pontos de ônibus esperavam condução, outras iam em direção à praia, em busca de lazer. Entre os carros parados no trânsito caótico de Copacabana, uma bicicleta verde procurava espaço. No comando da bicicleta, um jovem, de cabelos curtos e pretos, vestindo calça jeans e blusa pólo branca, aparentava estar muito atrasado para um compromisso. Era Mick Fronsac. O tempo passou e Mick Fronsac já estava com dezessete anos. Tornou-se um bonito jovem, alto, mas manteve o seu olhar de criança, olhar de descoberta.

O fone no seu ouvido tocava Broken, do Bruce Dickinson, seu cantor favorito. Mick olhou para o relógio em seu pulso esquerdo e viu que estava mais atrasado do que pensava, então apertou o ritmo de suas pedaladas, até que ele entrou na rua do colégio e viu uma senhora baixa,de cabelos ruivos e curtos, fechando o portão verde, com a pintura descascando de velho.

‒ Tia Bia! Eu tô chegando! – gritou Mick para a inspetora do colégio, assim que a viu fechar o portão de entrada.

‒ Ai, meu Deus, é o Mick! – ela fechou os olhos e abriu de novo o portão. Mick passou como uma bala e tirou um fino da Dona Bia, que estava encostada no portão, ela abriu novamente os olhos e disse:

‒ Já passou?

Mick estava atrás dela e disse:

‒ Já, Tia Bia! Eu tô aqui!

‒ O que aconteceu? Você não é de se atrasar.

Mick deu um sorriso, mordendo a língua e respondeu:

‒ Tia Bia, minha cama não me deixou levantar. Tentei, mas ela não deixou. E o ventilador! Aquele barulhinho... uma maravilha! Climinha de montanha!

‒ Entra Mick, chega de explicação! – Mick deu um beijo no rosto de Tia Bia e,antes de entrar no colégio, ele se despediu.

‒ Tchau, tia!

O colégio era muito bonito, com colunas lisas, alguns rabiscos feitos pelos alunos, e as paredes todas em tijolos vermelhos. O ambiente, dentro daqueles muros, era muito familiar, quase todos eram amigos. E foi lá que Mick fez muitos deles. Um de seus grandes amigos era Daniel Silva, rapaz de estatura mediana, cabelo castanho e cacheado, como o dos anjos, com olhos da mesma cor, olhos espertos, a mostrarem uma grande vontade de viver aventuras. Dani, como os amigos o chamam, se encontrou com Mick no corredor. Mick achou estranho o fato de Daniel só carregar um caderno com uma caneta na espiral, apertado, embaixo do braço.

‒Fala, Mick! Tudo bom? – os dois se cumprimentam.

‒ Tudo. Dani, cadê o resto do seu material?

Dani olhou para o seu caderno e respondeu ironicamente:

‒ Pois é, cara, fui abduzido a caminho do colégio, e uma extraterrestre de nome Pâmela Anderson levou todo o meu material. Ahhhhhh... Dá um desconto, Mick! Hoje é sexta, dia de curtir!

‒ Ah, é... Falando nisso, a escuna já está pronta para a festa de hoje!

Os dois ficaram empolgados e, esfregando as mãos, Daniel disse:

‒ Mick! Quando for meia-noite, será o meu aniversário! Aí, meu amigo, vai ser só alegria! Já está quase tudo pronto!

‒ Tu tá convidando a galera?

Dani colocou o braço sobre os ombros de Mick e eles caminharam pelo corredor, indo na direção de um portão. Mick até tentou avisar o amigo que eles teriam aula, mas Dani insistiu:

‒ Cara! Cara! Sala de aula é lá em cima. – disse Mick.

‒Mick, fica calmo! Eu chamei um tanto daqui, o Cadu chamou um tanto dali. E o Luiz tá chamando a mulherada.

Mick abre um sorriso.

‒ Isso é o que interessa!

‒ O Vevê tá cuidando das bebidas. – disse Daniel.

‒ E o Morales? – perguntou Mick.

‒ Ah! Esse aí tá enrolando! Não sabe se vai, se come batata frita ou se toma uma canja! Tu não sabe como é o argentino? Adorar fazer charme!

Os dois caminharam na direção de um portão de ferro, um pouco velho, com a tinta vermelha escura já descascando. Esse portão dava acesso ao pátio do colégio, uma área bem grande, com o chão de cimento, paredes azul e bege, com algumas marcas de bola. O pátio tinha também vários bancos de cimento. Mick e Daniel atravessaram o pátio, em direção ao banco de cimento, que estava encostado na parede. Lá, estava Luiz, um cara magrelo, de olhos verdes e cabelos claros e lisos, e com uma pinta de conquistador. Luiz Barroso estava conversando com algumas garotas, muito bonitas por sinal. Quando Mick e Daniel chegaram perto, eles até tentaram, mas não conseguiram ouvir bem o que Luiz e as meninas conversavam. Pelo pouco que ouviram, era sobre a festa, à noite, naquele dia.

‒ Então, meninas! A gente se vê lá essa noite? ‒perguntou Luiz muito empolgado.

‒ Claro! Às vinte e uma horas, na Marina da Glória. Tá combinado. – As meninas se despediram e foram em direção ao portão velho e descascado.

Dani chegou perto de Luiz e perguntou:

‒ E essas vão? – perguntou Luiz.

‒ Com certeza! E ainda vão levar umas amiginhas!

‒ Ô, Luiz,tu marcou de ficar só com uma, não é? Eu não vou ficar com você, preso em nenhum banheiro, tentando te proteger, por causa dessas loucas que tu arruma, não. Da última vez, você marcou com duas e acabou ficando com uma terceira. Tive que te esconder no banheiro, e todo mundo na festa achou que eu tava passando mal. E aquelas meninas lá... atrás de você! – comentou Mick, em tom de brincadeira.

‒ Cara, elas tinham uma faca! Você salvou a minha vida e o futuro do planeta! – Os três caíram na gargalhada, e Daniel, como não podia deixar esse comentário passar em branco, disse:

‒ O que será do futuro do planeta?

E voltaram a gargalhar. Demétrio, ou melhor, Din, passou pelo portão e chegou ao pátio. Ele também cresceu, está tão alto quanto Mick e com um grande senso de responsabilidade. Entrou no pátio, procurando algo e, quando viu Mick, Luiz e Daniel sentados no banco, batendo papo, foi logo reclamando:

‒ Vocês não vão assistir à aula?!

Os três olharam para Din de um jeito cínico.

‒ Boa-tarde para você também, Din ‒ cumprimentou Mick.

‒ Boa-tarde, Mick! Vocês perderam a primeira aula!

Daniel bufou e virou os olhos.

‒ Din! A aula era de Artes Plásticas! Dá um tempo!

‒ Mas Artes Plásticas reprova, se você não tiver frequência!

Luiz tentou amenizar a preocupação de Din:

‒ Cara, é a segunda semana de aula, semana que vem é Carnaval e o Brasil só funciona depois do Carnaval.

‒ Por isso mesmo! Se o ano já está começando assim, imagina como vai terminar. O Morales me ligou de manhã e me perguntou se eu queria pegar uma praia. E o Vevê, que sumiu?!

Mick demonstrou preocupação com o amigo e perguntou:

‒ O Vevê sumiu?

Daniel percebeu que as coisas estavam ficando sérias, se levantou e pôs as mãos sobre os ombros de Din. Fixou os olhos dele e resolveu colocar um fim na sua agonia:

‒ Din, fica calmo! O Vevê foi comprar as bebidas para hoje à noite e o Morales sabe o que faz, deixa o cara pegar um bronze. Você tem que pegar uma mulher, acabar com essa ansiedade, parece que está sempre com pressa.

Mick concordou com Din, realmente eles não podiam ficar ali o dia todo, eles tinham que assistir à aula:

‒ É, galera, o Din tem razão, vamos para a sala de aula. Mas que tu precisa de uma mulher, ah, tu precisa.

E os quatro passaram calmamente pelo velho portão, quando uma linda menina, de cabelos loiros e olhos amendoados, usando um vestido azul com uma faixa preta na cintura, passou por eles, no corredor. Ela sequer notou a presença deles, talvez por estar distraída, lendo um folheto de propaganda de esmalte para unhas, mas a beleza da menina chamou a atenção de Luiz:

‒ Mano! Acho que estou apaixonado! Vocês viram? Ela me comeu com os olhos!

Din deu um leve sorriso de canto de boca e colocou seu braço esquerdo sobre os ombros de Luiz e disse:

‒ Mano! Não mete essa!

E eles subiram uma escada para o segundo andar do colégio.

Eram cinco horas da tarde do horário de verão. O dia estava bastante claro, quando se ouviu a estridente campainha do colégio, sinalizando o fim das aulas. O portão se abriu e uma multidão de alunos saiu, alguns entraram nos carros de seus pais, outros em seus próprios carros e algumas alunas entraram nos carros dos namorados. Os quatro também passaram pelo portão e caminharam na calçada de pedras portuguesas. A uns dez metros do colégio, eles encontraram um grande amigo, que também havia faltado à aula naquele dia. Ele estava encostado em um carro branco, dizendo “E aí, tudo bom?” para os alunos que saíam do colégio. Everaldo Nobrega, o Vevê, tinha pele cor de chocolate, como ele mesmo gostava de dizer, era muito vaidoso. Diferente dos amigos que acabavam de sair do colégio, vestindo calça jeans e tênis e uma blusa normal, Vevê estava de bermuda e camisa branca de botão, com detalhes floridos em azul, bem clarinho, quase imperceptível, chinelos obviamente combinando com o resto da roupa, sem contar com o detalhe dos óculos escuros. Daniel, quando viu aquela figura, apontou para os outros e se aproximou, perguntando:

‒ Olha o Vevê ali! Ô, Vevê! Você comprou as bebidas?

‒ Daaani, amigão! Relaxa! O Cadu já colocou tudo na escuna, lá na Marina da Glória!

Mick e Vevê se cumprimentaram e Mick perguntou pelo amigo:

‒ E Cadu, está onde? Não veio com você?

Cadu era o mais velho do grupo, tinha vinte e dois anos. Din, Mick, Dani, Vevê e Luis, todos tinham dezessete anos, somente com alguns meses de diferença de um para o outro. Morales era o caçula, com dezesseis anos.

Cadu era o único que estava na faculdade, fazia engenharia na PUC, tinha carro, e, sempre quando saíam, o Cadu ficava de motorista, levando os amigos para cima e para baixo, de carro.

‒ O Cadu foi para a casa do Morales. Vai sair de lá para a festa na escuna ‒ Daniel resolveu deixar tudo combinado para a noite.

‒ Galera, então fica assim: o Cadu e o Morales vão lá me buscar em casa, depois vamos buscar o Din e o Mick lá na vila onde eles moram. Depois é só felicidade! E você, Vevê, vai como?

‒ Ali, do Catete para a Glória, é pertinho, vou de táxi.

‒ Então, tá! Vamos para casa nos preparar para essa noite. Afinal, não é todo dia que é meu aniversário!

Os jovens se despediram com cumprimentos de adolescentes, batendo as mãos e fazendo sinais, e foram em direções opostas, cada um para a sua casa, menos Din e Mick, que moravam na mesma vila.

A noite caiu e o céu estava limpo e estrelado, muito estrelado. Na vila,onde moram Mick e Din, uma construção em estilo holandês, o único som que ainda predominava era o som dos grilos nos jardins. Parecia que o tempo parara, e nada mudara, desde que Mick e Din eram crianças e corriam pela vila, brincando.

Na casa de Mick Fronsac, sua mãe assistia à novela das oito, de pijama amarelo, sentada em seu sofá vermelho, com encosto de madeira envernizada. A irmã caçula de Mick, Milena, também já estava de pijama, só que rosa, mas o modelo era idêntico ao da mãe. Ela estava na mesa de jantar ao lado da escada, com um caderno e um livro de geografia, estudando para a prova de segunda.

Melinda via a novela muito compenetrada. Um pouco acima, atrás da televisão, ficava a janela de madeira envernizada que dava vista para o jardim de frente da casa. De repente, Melinda se assustou com um rapaz loiro, de olhos claros e rosto bastante vermelho — certamente porque havia ficado muito tempo ao sol — que apareceu na janela.

‒ Oi, tia!

‒ Aaaai, que susto, Morales! Chega devagar, estou aqui distraída, assistindo à novela... Morales, o que aconteceu com você?

‒ Como assim,tia?

‒ Seu rosto tá muito vermelho!

Milena se levantou da cadeira e chegou mais perto para conferir:

‒ Me deixa ver, Morales... Nossa, você parece um camarão!

Morales ficou sem graça e repetiu a frase de Milena com uma voz fanhosa:

‒ Parece um camarão... É que dormi sem querer na praia. Quando acordei, era quase meio dia.

Melinda achou graça e perguntou:

‒ E por que você não dormiu em casa, passou a noite toda na praia?

‒ Nãããão, tia. Eu fui para a praia de manhã, e acabei dormindo.

‒ Ah, tá!

‒ E o Mick? Já está pronto?

‒ Não sei. Quer ir lá em cima ver?

Morales fez uma cara de nojo e disse:

‒ Eu não! Vai que ele tá pelado! Ô Tia?

‒ Fala, Morales.

‒ Avisa a ele que a gente já está atrasado, e que o estamos esperando no carro, lá no portão da vila.

Melinda sorriu e chamou a atenção de Morales:

‒ E como se diz?

‒ Por favor, tia!

‒ Tá bom, tá bom. – ela inclinou para traz – Miiiick!

‒ Sim,mãe!‒ veio aquela voz fraca, lá de cima.

‒ Seus amigos já chegaram!

‒ Já estou indo! ‒ respondeu a mesma voz, longe e fraca.

Mick, como sempre, desceu a escada, em que Milena estava estudando ao lado, como um cavalo desembestado. Milena nem se assustou, talvez por já estar acostumada com o irmão. Mick parou no pé da escada e perguntou:

‒ Tô bonito?

Ele vestia uma calça jeans escura e uma blusa social preta, o cabelo estava meio de lado e com gel. Milena abriu aquele sorriso de aparelho nos dentes e disse:

‒ Ô!... Pode até arrumar uma namorada hoje!

‒Valeu, Iron Smile!

Milena fez uma cara de quem não entendeu.

‒ Iron Smile... Eu sei o que você quis dizer,hein!

Mick andou na direção da mãe, que lhe deu um abraço apertado.

‒ Você está lindo. Juízo, não bebe muito, não. Qualquer coisa me liga, que pego o carro e vou te buscar. E não esqueça!

‒ O que mãe?

‒ Eu te amo.

Milena fechou os livros e os guardou em sua mochila jeans. Em seguida, sentou-se ao lado esquerdo da mãe, no sofá. Mick deu um beijo na testa da mãe e da irmã,e dirigiu-se à porta da sala. Ao pegar na maçaneta, sua mãe disse:

‒ Mick! Não esqueça...

‒ Que você me ama?

‒ Não, a chave. Mas eu te amo também.

Mick pegou seu chaveiro, que estava sobre uma bancada de madeira com um espelho, e saiu fechando a porta. Ele voltou e apareceu novamente na janela da frente e deu um largo sorriso, enquanto seu olhar brilhava como o de um menino que acabara de ganhar um presente que queria muito. Desta vez, Melinda não se assustou, pelo contrário, ela e Milena retribuíram o sorriso. Elas nunca iriam saber se Mick voltara para tentar dar um susto ou para se despedir, pois aquela seria a última imagem que teriam dele na vida, nunca mais Mick voltaria para casa.

Mick saiu da janela e passou pela grama do jardim em direção à calçada. Quando lá chegou, olhou para sua casa de uma forma nostálgica. Ficou reparando nos detalhes das telhas vermelho-barro, nas janelas de madeira envernizadas, na porta branca com uma luminária, no jardim de grama verde e nas flores amarelas, das quais ele não sabia o nome. Mick lembrou também do pai, e o quanto ele era feliz ali. Então virou-se para o portão de grades verdes da vila e viu Din dentro do carro, com os outros chamando-o. Ele olhou novamente para sua casa e observou o número sete na caixa do correio. Suspirou e, em seguida, correu em direção ao portão sem olhar para trás.

A festa em alto-mar estava muito animada. A noite encontrava-se estrelada e o mar, bastante calmo. A festa acontecia em uma escuna de nome Cucuca, com casco de fundo cinza e uma faixa vermelha e dourada. Ela possuía dois mastros, um deles com a bandeira do Brasil. A parte de trás da escuma era coberta, com acesso para um segundo andar e, na parte de baixo, ficava o bar com as bebidas. A parte de cima abrigava o piloto e o DJ, que tocava tecno-dance. No parapeito do segundo andar da escuna, um rapaz moreno de olhos verdes, porte atlético e corte de cabelo estilo militar, vestindo apenas calça jeans e tênis branco, conhecido como Cadu, certamente já estava sobre os efeitos etílicos, pois em seu estado normal ele nunca estaria com o braço direito para o alto, rodando a camisa e no outro, um megafone gritando:

‒ Eu quero todo mundo se divertindo! Vocês estão se divertindo?!

‒ Siiiiiiiiim! – Todos respondiam.

Cadu então ficou mais animado e resolveu dar uma de coreógrafo:

‒ Então eu quero todo mundo com o bracinho para cima! Agora para esquerda! Agora para a direita! Até o chão! Até o chão! Até o chão! Chão! Chão! Chão! – Somente ele fazia as coreografias.

Na festa, havia mais ou menos uns oitenta convidados, muita gente se divertindo, outras se beijando, coisas normais para uma festa adolescente. No meio da escuna, Din tentou avisar Cadu, por meio de gestos, que estava na hora dos parabéns. Cadu no começo não entendeu, pois o som estava muito alto, mas logo compreendeu o que o amigo queria dizer e pediu para o DJ abaixar o volume do som. Obviamente, todos lamentaram o fato. Mick olhou para Din e abriu os braços, perguntando o que estava havendo. Daniel ficou apreensivo, esperando o que iria acontecer, porque ele sabia que era a hora do parabéns... Vevê, que estava encostado no mastro, conversando com três garotas,lembrou de algo e pediu para uma delas segurar seu copo de gim com Coca-cola e foi rapidamente na direção de Morales, que estava quase dando um beijo numa linda mulata de vestido branco e cabelos longos bem cacheados. Vevê chamou Morales, dando um tapinha nas suas costas.

‒ Morales, vem comigo!

‒ Aiaiai...Não bate, que eu tô todo ardendo!‒ o beijoqueiro reclama do tapinha.

‒ Na próxima encarnação, você tenta vir crioulo. Daí você não vai precisar ficar torrando no sol para ter uma cor de chocolate, igual à minha.

Morales seguiu Vevê, em direção ao bar, retrucando:

‒ Mas meus olhos azuis são bonitos!

‒ Mas mesmo assim você é branquelo, ou vermelho.

A essa altura, Mick e Din pegaram Daniel e o levara para o meio da pista de dança. Cadu avisava os convidados do momento especial.

‒ Calma, gente! Calma! A festa não acabou! É que chegou o momento de cantarmos parabéns para o nosso amigo Daniel. Cadê ele?! Cadê ele?! Entra com o bolo!

Daniel deu um tímido sorriso e coçou a cabeça. Todos cantaram “parabéns pra você” e ele ficou gesticulando, como se regesse os parabéns, mas na verdade não sabia o que fazer com as mãos de tão tímido que estava naquele momento. Vevê e Morales chegaram, carregando um bolo com cobertura de chantili e com o escudo do Botafogo, time pelo qual Daniel era um torcedor fanático. Todos continuaram cantando “parabéns pra você”, enquanto Daniel apagava a vela na forma do número dezoito, com um forte sopro. Como sempre, após os parabéns, todos pediram algumas palavras do aniversariante.

‒ Discurso! Discurso! Discurso!

Dani pediu, com as mãos, para os convidados se acalmarem e, em seguida, ele olhou para seus amigos e fez um sinal positivo com a cabeça. Então, respirou fundo e começou o discurso:

‒ Bem, eu não sou bom para falar em público, mas gostaria muito de agradecer a vocês por se arriscarem a comemorar, em alto-mar, o meu aniversário. Só lembrando que essa ideia foi do Mick.

Todos riram e Dani deu uma piscadinha com o olho esquerdo para Mick, que lhe retribuiu com um simpático sorriso.

‒ Mas gostaria mesmo de agradecer a seis caras que eu conheço há muito tempo, agradecer a eles e a suas famílias, por fazerem minha vida ter um sentido, o sentido da amizade, que nos transforma em irmãos...

Nesse momento, todos começam a bater palmas, mas Daniel pede novamente com as mãos para que seus convidados se acalmassem:

‒ Amigos, muito obrigado por tudo! Luiz, Vevê, Cadu, Morales, Mick e Din – um breve silêncio reinou até Daniel voltar a falar. ‒ E, como diria o meu amigo Mick, “Nós somos um”.

Os sete se abraçaram e a música voltou a tocar. Dani agradeceu novamente a seus amigos e todos voltaram a dançar. Vevê foi ao bar, arriscando alguns passinhos de dança. Ao chegar lá, pediu um copo de gim com Coca-cola e ficou batucando com os dedos no balcão do bar. Em seguida, virou-se de costas para o balcão e apoiou seus braços sobre o mesmo. Ele observou Mick e Din conversando na proa da escuna. O barman tocou no ombro de Vevê, para avisar que a bebida já estava pronta. Ele agradeceu e deu um belo gole, em seguida foi em direção aos amigos. Arriscou novamente uns passinhos, ao passar pela pista de dança, mas só conseguiu mexer um pouco os pés e levantar o dedo indicador. Vevê, então, chegou à proa e se sentou ao lado de Mick e perguntou:

‒ Vocês ficaram no zero a zero a noite toda, não é?

Mick sorriu com o comentário do amigo e Din devolveu a pergunta:

‒ E você, Vevê, pegou quantas?

‒ Já foram cinco! Cinco copos de gim com Coca-cola que eu peguei!

Os três riram.

‒ Falando sério, qual era a conversa? – Vevê perguntou.

‒ Nos estávamos falando sobre missão, todos nós temos uma missão nesta vida, e o Din estava me confessando que esta atrás da dele – Mick respondeu.

Vevê, então, resolve filosofar sobre o que é missão:

‒Acho que viver é uma grande missão, com pequenas missões ao longo dela, por exemplo, minha missão neste momento é acabar com essa bebida, já a do José Morales, ali, é levar aquela mulata pra casa – e Vevê apontou para Morales, beijando a linda mulata com a qual ele estava conversando no momento do parabéns.

Luiz se aproximou de Morales, com duas bebidas na mão, e o chamou para pegar uma delas. Morales agradeceu e Luiz mostrou que os amigos conversavam na proa da escuna. Os dois se aproximaram deles para conversar também. Luiz, muito contente, chegou fazendo uma brincadeira:

‒ Vocês não pegam ninguém, e ficam aí de papo furado. Vão à caça!

Vevê, ironicamente, reclamou da brincadeira:

‒ Outro exemplo! A missão do Luiz é ficar perturbando a gente! – então ele imitou Luiz com uma voz estranha. – Não pega ninguém! Não pega ninguém! Que papo chato!

Todos caíram na gargalhada e acabaram chamando a atenção de Daniel e Cadu, que chegaram, perguntando qual era a piada. Mick então respondeu:

‒ Estamos falando sobre nossas missões.

‒ Vejo que a missão de vocês é uma missão feliz – disse Daniel, sorrindo.

E Mick concordou.

‒ Esta é a nossa missão: ser feliz.

Cadu reparou em uma pequena luz no horizonte, achou estranho, pois a luz não parecia um barco ou qualquer outro tipo de embarcação.

‒ Olha lá uma luz, que estranha, e não é barco!

Morales olhou superficialmente, sem dar muita atenção e brincou:

‒ Cadu, quando bebe, fica vendo luz no mar.

Todos riram da piada de Morales, menos Mick que, olhando intensamente para a luz, disse:

‒ Galera, a luz está aumentando de tamanho.

‒ Ela não está aumentando de tamanho, ela está vindo para cá! ‒ Din corrigiu o amigo.

‒ Será um míssil?! – perguntou Vevê, preocupado.

A luz realmente estava indo na direção da escuna, ela possuía um brilho intenso e, quanto mais perto do barco, mais a luz ganhava forma. Tomava a forma de uma bola.

De repente, saíram detrás dessa esfera iluminada outras seis esferas com o mesmo brilho, e elas se emparelharam, uma do lado da outra. Por um momento, os sete acharam que as esferas iriam se chocar com a escuna, e até chegaram a se proteger, mas elas desviaram antes e voaram em torno da escuna, aleatoriamente, numa velocidade muito rápida, como se procurassem alguém. Todos na escuna, primeiramente, se assustaram; alguns correram para a parte coberta, já outros, mais curiosos, ficaram olhando espantados. Mas havia também aqueles que achavam que tudo fazia parte da festa. Luiz ficou fascinado com aquelas esferas brilhantes, ao redor da escuna. Algumas entravam no mar e passavam por baixo da escuna, iluminavam grande parte do mar, revelando alguns curiosos peixes que haviam sido atraídos pela luz.

Uma das esferas parou diante de Din, que se aproximou bem devagar. Ele parecia hipnotizado. Mick gritou, mas Din continuou a se aproximar da esfera, que tinha quase o seu tamanho, e esticou o braço lentamente na direção dela. Vevê correu na direção de Din, para impedir que o amigo tocasse a estranha esfera, mas chegou tarde demais. A esfera rapidamente puxou Din para o seu interior e voltou a voar em torno da escuna. Antes que Vevê chegasse para salvar o amigo, outra esfera parou diante dele. Vevê, que estava correndo, não conseguiu parar e também entrou na esfera. Mick observou aquela cena com muito espanto; começou a procurar seus amigos desesperadamente, só que os convidados começaram a querer se esconder rapidamente causando tumulto. Algumas pessoas até mesmo se jogam no mar.

Mick tomou um esbarrão e caiu, um pouco tonto. Ele levantou a cabeça e viu Dani sendo puxado para dentro de uma esfera e, quando se virou para a direta, viu Cadu, num ato de desespero, pulando no mar para fugir, mas, antes de ele tocar a água, uma esfera o pegou. Luiz pegou Mick pelo braço esquerdo e o levantou:

‒ Mick, você está bem?

Mick, ainda atordoado, se apoiou no amigo e disse:

‒ Pegaram eles... Eu vi!

Mick reparou que uma esfera estava vindo na direção dele e de Luiz, mas Mick não conseguiu pronunciar nenhuma palavra para avisar o amigo que o apoiava, a esfera passou por ele e Luiz. Dentro da esfera, Mick conseguia ver tudo do lado de fora, bem iluminado: as pessoas, a escuna. O tempo, fora da esfera, parecia mais lento e ele ouvia tudo, como se tivesse embaixo da água. Foi apenas um breve momento que Mick passou dentro da esfera luminosa. Quando saiu, ele caiu novamente no chão e percebeu que Luiz havia ficado dentro daquela esfera.

Morales correu desesperado na direção de Mick, mas uma esfera também o pegou. A respiração de Mick ficou rápida e, por um momento, ele achou que aquilo tudo era apenas um pesadelo, mas logo percebeu que não. Então Mick respirou fundo e, com um raivoso berro, correu com a finalidade de se jogar no mar. Ele pulou... mas, quando deu por si, estava dentro de uma esfera, vendo tudo em câmera lenta e ouvindo um zumbido, como se estivesse no fundo do mar.

Mick observou que as esferas ficaram novamente enfileiradas, agora uma em cima apontadas céu. Então, elas pararam no ar. Todos na escuna se acalmaram e as sete esferas subiram em direção ao espaço, numa velocidade nunca vista por um olho humano.

Dentro da esfera, Mick viu a escuna desaparecer de seu campo de visão e, num piscar de olhos, viu o planeta Terra ficar pequeno, cada vez mais e mais. Então, ele percebeu que estava no espaço. Mick olhou para as estrelas, sua respiração ficou lenta e ele perdeu a consciência.