Os 7 Cavaleiros De Algord - A Torre
4 Descobrindo um Mundo Novo
Mick, ainda atordoado pela viagem, escutou, murmurando em seu ouvido, uma bela canção, que não conseguia identificar. Tentou ele abrir os olhos, mas a claridade não deixava. Ele tentou abrir os olhos de novo, e, desta vez, viu um rosto feminino, triangular, de traços finos e delicados. Seus olhos eram azuis como o céu e os cabelos lisos e compridos, até os ombros, loiros, como os dos anjos. Mick respirou fundo e sentiu um forte cheiro de flores. Ele pendeu sua cabeça para a direita e se viu em meio a um mar de flores, de pétalas brancas, com o centro amarelo, que ele não conseguia identificar de que tipo de flores eram.
A tontura passou um pouco, mas Mick sentia muita sede. Respirava com um pouco de dificuldade.
‒ Você é um anjo? – perguntou Mick.
Ao ouvi-lo, a moça abriu um largo sorriso, lindo e perfeito.
‒ Não, meu nome é Celina D’Kiet. Quem é anjo?
‒ Os anjos são as criaturas mais lindas do universo, assim que eu a vi, achei que você era um.
Mick se levantou ainda tonto, passando a mão na cabeça, olhando à sua volta e viu um mar de flores, sem cercas, muros ou portões e viu uma árvore, muito grande, um pouco distante deles.
‒ Que lugar é este? Como eu faço para ir para Copacabana?
‒ Copacabana? Eu não conheço nenhuma cidade em Tood-Sils com este nome, você não está confundindo com Potocana?
Mick se demonstrou confuso e começou a andar de um lado para o outro, procurando uma saída.
‒ Tood-Sil’s? Eu estou no subúrbio? E o que é Potocana?! É tupi guarani? – Mick ficou nervoso. Celina, ao perceber que o rapaz estava totalmente perdido, tentou ajudá-lo a entender onde estava. Ela o pegou pelos braços e tentou acalmá-lo.
‒ Calma! Você está no planeta Tood-Sils, o terceiro planeta civilizado da galáxia Irione.
‒ Eu estou em outro planeta?! E pior! Outra galáxia?! Você só pode estar maluca! Isso é brincadeira, não é?
Celina se assustou com a desorientação de Mick. Se ele não era daquela galáxia, de onde era afinal?Viagem entre planetas de uma mesma galáxia era comum em Irione, mas Celina nunca ouvira falar em viagens intergalácticas.
‒ Tente ficar calmo!
Mick olhava para os lados, tentando encontrar algo familiar.
‒ De onde você veio? – perguntou Celina.
Mick se irritou com a pergunta:
‒ De onde eu vim?! De onde eu vim?! Como assim?! Você quer saber de qual planeta eu vim?!
Mick teve alguns flashes de memória, e então ele se lembrou da festa, dos parabéns para o Daniel e principalmente das esferas luminosas. Nesse momento, percebeu que aquilo não era uma brincadeira e que ele realmente poderia estar em outro planeta. Mick colocou as mãos na cintura e olhou para baixo, respirou fundo e levantou a cabeça, novamente, com o olhar perdido. Virou-se na direção de Celina e, finalmente, com a voz tranquila, respondeu:
‒ Terra. Eu sou da Terra.
Celina suspirou, como se estivesse cansada.
‒Agora quem está nervosa sou eu, você disse que é da Terra? Mas este planeta fica na Via Láctea. Somente os módulos de exploração chegam até lá.
‒ O que são estes módulos de exploração? ‒ Mick mostrou curiosidade em relação a esses “módulos de exploração”, talvez eles tivessem algo a ver com a sua viagem pelo espaço.
‒ Acredito que, o que me trouxe pra cá, foi um desses módulos.
‒ Não, os módulos servem para explorar os planetas civilizados de outras galáxias.
‒ Como assim, explorar?!
‒ Calma! Você tem que se acalmar. Já mandei uma mensagem para um amigo que vai te ajudar, mas preciso que você fique calmo.
‒Como você quer que eu fique calmo?! Eu estou em outro planeta! Me diz: Como eu pego um módulo desses para voltar para a Terra? Como isso funciona?
‒ Eu vou te explicar, mas para de andar!
Mick então parou.
‒ Primeiramente, os Siões procuram vidas em planetas de outras galáxias, alguns planetas têm formas de vida civilizada, já outros não...
‒ Vida civilizada? – Mick se aproximou de Celina.
‒ Senta, que eu vou te explicar direito.
Os dois se sentaram em meio às flores.
‒Há planetas com formas de vida civilizada, ou seja, interagem entre si, criando grupos de convivência, como grupos familiares, de trabalho e de moradia, como na galáxia Irione, mas o Lood e a tecnologia de vocês não estão desenvolvidos como aqui. Nesses planetas civilizados, existe uma civilização com costumes, religião, um modo de vida civilizado, com vidas interagindo. Outros planetas também têm vida, mas não civilizada, e sim hostil, podendo prejudicar uma possível civilização. Mas a maioria dos planetas é repleta de gases venenosos, fogo e gelo. Nesses planetas, a vida inteligente é praticamente impossível, a não ser que você seja uma bactéria ou um protozoário...
‒ Mas ... e os módulos? Como eles me trouxeram para cá?
‒ Os módulos não transportam pessoas, somente informações, com certeza foi outra coisa que te trouxe para cá.
‒ Que tipo de transporte é esse? Eu nunca vi isso na Terra! Já ouvi falar em OVNI, mas...
‒ Às vezes, na Terra e em outros planetas, alguém vê um modulo e o chama de OVNI, mas os módulos não são tripulados. Talvez você tenha sido trazido para cá pelos Deuses. Há uma civilização que já habitou a Terra e foi levada pelos Deuses para outro planeta.
‒ Você falou em Deuses. Vocês têm Deuses?
Celina sorriu, com certo encanto pelo forasteiro, ao perceber sua inocência.
‒ Não, os Deuses não são nossos. Na Terra e em outros planetas, as civilizações acreditam e adoram um ou mais Deuses. Acreditamos nos Deuses, mas não é de uma forma divina, acreditamos como uma civilização muito mais avançada que a nossa. Chamamos muito por Deus, um Deus supremo, o que acreditamos que seja a vida, no auge de toda sua evolução.
Os dois se levantaram e caminharam na direção da grande árvore, cheia de folhas e flores cor-de-rosa.
‒ Vocês não têm medo desses Deuses? Vocês conseguem se comunicar com eles?
‒ Medo dos Deuses nós temos, um pouco, sempre nossa civilização tentou contato com eles, mas eles foram hostis, talvez tentando esconder algo de nós, ou ainda não estamos evoluídos o bastante para este contato. Mas medo de Deus não, o Deus soberano é somente amor, ele nos conhece em nosso íntimo, afinal, ele consegue olhar através do nosso Lood, ou espírito, como vocês, na Terra, dizem. Agora, comunicar-se com eles é muito difícil, somente pessoas sensíveis às vontades de Deus conseguem, ou ele fala conosco em sonhos, e assim mesmo os sonhos não são muito claros no que querem dizer – quanto mais Celina falava sobre a sua civilização, mais curioso Mick ficava.
‒ E contato?! Vocês nunca tiveram contato com essa civilização?
‒ Não. Pelo mesmo motivo, por que nós não tivemos contato com os planetas mapeados e explorados pelo módulo de exploração, o contato de uma civilização avançada com outra, não tão avançada assim, criaria um choque de cultura que mudaria totalmente o rumo de conhecimento e desenvolvimento de uma civilização menos avançada. Por isso, precisamos esperar que uma civilização não avançada chegue até nós, e nunca devemos desrespeitar a natureza evolutiva...
Eles chegaram ao pé da árvore e sentaram à sua sombra.
‒ Você conhece muito o meu planeta, não é?
‒ Meu pai foi um dos criadores do CT-Patram, o museu de história universal que fica no centro do planeta Tood-Sil’s. Ele também cuidava dos arquivos e informativos que os módulos de exploração traziam dos outros planetas para a Torre, e informações sobre outros planetas e suas civilizações são divulgadas aos povos de Irione ‒ o olhar de Celina entristeceu.
‒ Cuidava? Ele não cuida mais?– perguntou Mick.
‒ Desde que a Torre foi tomada pelo Império Sarac, meu pai não voltou mais lá. No dia da invasão, ele não foi para a Torre, porque passei mal, e ele ficou comigo. Ainda bem, pois infelizmente todos que estavam trabalhando na Torre, naquele dia, morreram.
Mick estava tão encantado com as histórias de Celina, e principalmente com ela, que havia esquecido que seus amigos também haviam entrado naquelas esferas luminosas. Ao se lembrar, ele se levantou e começou a procurá-los pelo campo florido.
‒ Meus amigos! Eles também foram pegos por uma esfera luminosa, devem estar por aqui também.
‒ Calma, nós vamos procurá-los – Celina segurou Mick pelo braço e os dois se olharam intensamente. O fino cabelo dela balançava com a brisa que passava por eles. Logo a brisa se transformou em um vento mais forte e, em seguida, uma forte ventania com um som muito alto, grosso e oco. Os dois se viraram e se viram diante de um FFX, uma nave de transporte civil de Tood-Sil’s. Suas asas eram triangulares, como toda a nave, ela possuía três turbinas, uma em cada asa, que estavam com o escapamento virado para baixo.
Na parte debaixo da nave, uma plataforma, como uma mesa com as suas pernas viradas para o alto, desceu vagarosamente e, aos poucos, foram aparecendo quatro pares de pernas, três pares com uma espécie de armadura verde camuflada. Porém, o que mais chamou a atenção de Mick foi o par de pernas que se encontrava no meio e que, aos poucos, foi aparecendo conforme a plataforma descia. Aquela armadura toda prateada protegia o peito todo, as botas eram ligadas por uma joelheira até a coxa, suas luvas tomavam todo o antebraço e suas ombreiras ovais escondiam um pouco de capa preta que estava presa na altura do seu peito, por uma espécie de medalha vermelha, no lado esquerdo.
No peito, ele carregava um símbolo estranho, um losango verde escuro com um “Y” dourado, com suas duas pontas superiores, curvadas como chifres.
O homem que vestia essa armadura tinha uma aparência muito jovem, cabelos loiros bem curtos, olhos azuis e um rosto quadrado, com traços bem definidos. Os quatro desceram da plataforma. Os três soldados Silanos de armadura camuflada montaram guarda ao redor na nave, enquanto o cavaleiro de armadura prateada se dirigia até Celina e Mick.
Mick ficou um pouco assustado com a aproximação daquele homem e tentou protegê-la, mas ela colocou a mão no ombro dele e o acalmou, falando bem perto do seu ouvido:
‒ Ele é o capitão Silk Aydu, capitão do exército de Tood-Sils, ele é meu amigo.
Mick continuou com o olhar assustado, até Aydu se aproximar.
‒ Você é o Kadmoh Tolemam?!
Mick e Celina não entenderam a pergunta, por causa do grande barulho que a nave fazia. Aydu então repetiu a pergunta:
‒ Seu nome é Kadmoh?! Você é de Algord?!
Desta vez tanto Mick quanto Celina entenderam a pergunta, mas, quando ouviu o nome Kadmoh, Celina ficou assustada e soltou o braço de Mick.
‒ Não! Meu nome é Mick Fronsac.
Aydu pegou no braço esquerdo de Mick com força.
‒ Você precisa me acompanhar!
Mick não gostou daquela atitude e, com um movimento de ombro, ele se soltou de Aydu.
‒ Larga meu braço! Eu não vou a lugar nenhum, até achar os meus amigos.
‒ Seus irmãos estão comigo! – Disse Aydu.
‒ Eu só vou, se ela for!
‒ Mick! Esse é seu nome, não é?! Vai com o Aydu, ele é meu amigo. Se ele disse que está com os seus amigos é porque ele está. Confie em mim. – Celina tentou acalmar a situação.
Mick olhou para Aydu e em seguida para Celina.
‒ Eu vou te ver novamente?! – perguntou Mick.
Celina sorriu e disse:
‒ Não sei! Mas gostaria muito que sim!
Então ele seguiu com Aydu na direção da plataforma da nave. Chegando lá, os dois ficaram lado a lado e Celina e Mick não deixaram de se olhar, nem um segundo sequer, até que a plataforma subiu novamente e eles perderam contato visual. Aydu continuou na mesma posição, com olhar frio e fixo, direcionado para o nada.
‒ Ela é linda, não é?
Mick percebeu certo tom de ciúmes nas palavras de Aydu e ignorou sua pergunta:
‒ Você vai me levar até meus amigos, não vai?
‒ Quando você chegar ao palácio Tood-Sil’s você verá seus amigos.
Celina ficou lá, perto da árvore, observando a nave se afastar. Ela suspirou e juntou as mãos na altura do peito e sussurrou:
‒ Mick Fronsac, será que é você?
Bem longe dali, no hemisfério norte de Tood-Sil’s, uma nave Aiprus branca e comprida, com duas asas em “v” na sua parte traseira e com apenas uma turbina magnética, aproximou-se da torre de comunicação universal, carregando uma grande bandeira do Império Sarac.
Era uma bandeira vermelha, com dois quadrados negros e um triângulo branco entre eles, símbolo do planeta Algord. O Capitão Adrian Soul observava a nave se aproximar, através da enorme parede de vidro duplo do último andar da Torre, na sala de controle.
‒ Tiano! – chamou Adrian.
Um tenente vestindo uma armadura do exército Sarac se aproximou:
‒ Sim, Capitão?
‒ O Imperador Sarac chegou, prepare a tropa para recepcioná-lo com as honras imperiais.
O tenente saracsista abaixou a cabeça, como reverência, e se retirou da sala de controle.
A nave pousou aos pés da Torre, suas portas desceram e as tropas abriram um corredor, com os soldados ajoelhando-se, apoiados em suas espadas.
O imperador apareceu, vestindo uma espécie de toga azul escura com detalhes dourados, cobrindo seus ombros e parte de seus braços. Por baixo da toga,trajava uma espécie de roupa de borracha, comum entre os cavaleiros e soldados, que é chamado de xanti. Na cintura, um pano dourado amarrava o seu avental, que ia até os joelhos, com o símbolo de Algord: um triângulo branco e um triângulo negro, virado ao contrário, e sobreposto ao primeiro.
Ao seu lado, havia um jovem branco, forte, de rosto triangular, cabelos negros e arrepiados, vestindo uma armadura de cor branca e capa preta, três camadas finas de ombreiras. Assim se vestia o Conde Hymid Num Sarac, o único filho do Imperador Sarac com a falecida Imperatriz Leona Num. Ele desceu da nave, junto com o imperador, que sorriu, ao ver os soldados recebê-lo com as honras imperiais.
‒ Honras imperiais! Isso só pode ser coisa do Adrian! – o imperador se dirigiu a um soldado. ‒ Levante-se, Mogru, teria de ser eu a reverenciá-lo. Seu pai e eu lutamos anos para que este império triunfasse, e quero que todos vocês se levantem agora! Blito, Enfo e você, Intur.
Todos os soldados obedeceram.
‒ Porque eu tenho honra de tê-los no Império Sarac! – Sarac abriu os braços e os soldados ergueram suas espadas e gritam:
‒Sarac!Sarac!Sarac!
Sarac e Himyd se dirigiram à Torre em meio a toda ovação de seus soldados. Chegando aos grandes portões da Torre, o imperador comentou com o filho:
‒ Da última vez que passei por essas colunas, esses portões não tinham sido colocados ainda. Tudo isso aqui estava sendo construído, e eu nem ao menos sabia para que serviria esta Torre.
Himyd sorriu para o pai e apontou para o Capitão Adrian Soul, que veio recepcioná-los. Adrian se ajoelhou em reverência ao imperador e lhe retribuiu com sinal positivo com a cabeça.
‒ A recepção estava à sua altura, imperador? – perguntou Adrian.
‒ Sim, como sempre deve ser.
Então Adrian se levantou, dizendo:
‒ Fiz o que pude, pois não estávamos esperando o senhor neste momento.
‒ Resolvi chegar primeiro que as tropas de reforço, para ver se realmente era necessário enviá-las. – disse o imperador.
‒ Imperador, infelizmente, com o suicídio de Baltar, os segredos da Torre morreram com ele.
‒ Me leve até à sala de controle, será onde vou ficar, enquanto estiver neste planeta.
‒É só me acompanhar, imperador. – Adrian guiou Sarac e Himyd pelo salão principal da Torre, tudo estava muito limpo, nem parecia que havia dois dias que acontecera uma sangrenta batalha naquele lugar. Os três entraram no elevador, no salão principal, a porta se fechou e, em um minuto, ela se abriu no último andar da Torre. Eles caminharam por um corredor de paredes brancas, com o piso preto. Sarac reparou que na parede esquerda do corredor havia uma bandeira de Algord estendida, a mesma bandeira que sua nave carregava,e, na parede da direta, havia uma bandeira de Tood-Sil’s, azul com uma cruz branca e, no centro, a imagem de um carneiro com seus chifres dourados. Eles passaram pelas bandeiras e foram até uma porta prateada, que se abriu, automaticamente, assim que eles se aproximaram.
O trono do imperador estava sobre uma plataforma giratória, no centro da sala de controle. Era apenas uma réplica do trono imperial que as tropas levavam, caso o imperador Sarac fosse visitá-los. O trono era branco, com o seu estofado vermelho sangue. No topo, o trono tinha três gotas bem pontiagudas, uma em cada extremidade do encosto e outra no meio, bem acima da cabeça.
Sarac andou pela sala, em silêncio, observando tudo ao seu redor, como se analisasse o lugar. Ele chegou até à grande janela, que pegava praticamente todo o andar(, ele). Sarac deu um leve sorriso de canto de boca, ao olhar a linda paisagem de Tood-Sil’s, com suas cidades e campos verdes. Todo o andar da sala de controle girava no seu próprio eixo, mudando assim a paisagem da sala de controle. Num momento,a paisagem era das grandes e verdes montanhas Silanas e, no outro, do agitado mar de Tood-Sil’s.
Himyd Num se sentou no trono e colocou a perna direta sobre o encosto de braço. Pelo reflexo do vidro, Sarac observou o filho pegar uma fruta da cesta que ficava ao lado do trono e comê-la. Ele foi até Adrian Soul, andando, calmamente, e disse:
‒ O Capitão pede para (os) o tenente e os soldados se retirarem.
Na sala, havia um tenente e sete soldados imperiais, que faziam a segurança do imperador.
‒ Tenente! Se retire com os soldados. – com olhar tenso, sombrancelhas elevadas, Sarac gritou com Adrian.
‒ Por favor! – pediu Adrian, com um tom irritado.
Assim que o som da porta se fechando acabou, com o dorso da mão, o imperador deu um tapa extremamente forte no rosto de Adrian Soul e gritou:
‒ Isso foi para você aprender a não mentir pra mim!
Adrian levantou-se com a mão no rosto e, ainda tonto da pancada, perguntou:
‒ Quando eu menti para o senhor, imperador?
Sarac se aproximou, rapidamente, gritando com Adrian:
‒ Quer que eu te bata com mais força para você lembrar, seu imbecil?! Lutei ao lado de Baltar, durante décadas, antes de você nascer, seu idiota. Acha mesmo que eu iria acreditar que Baltar se matou?! Hein?! Baltar era um cavaleiro de verdade, nunca ele teria um ato de covardia, igual a este que você teve.
Adrian se ajoelhou, com a cabeça baixa, diante do imperador e implorou:
‒ Perdão, imperador! Eu tentei tirar alguma informação dele, mas ele não falou nada. Tentei torturá-lo, e ele não suportou a tortura.
‒ Levante-se! Seja mais cavaleiro e menos assassino.
Adrian se levantou, mas sem encarar os olhos do Imperador Sarac.
‒ Agora temos que proteger a Torre enquanto os meus Siões tentam restaurar os arquivos que você deixou Baltar apagar. – disse Sarac.
‒ Como está sendo feito a defesa da Torre? – perguntou Himyd.
Sarac fez um gesto com a mão, pedindo para seu filho sair do seu trono, em seguida ele mesmo se sentou no trono e Himyd foi até a vidraça da sala de controle, comendo a fruta que pegara na cesta. Enquanto isso, Adrian ativava uma espécie de projetor de mão para o imperador visualizar sua explicação.
‒ Por terra, temos sensores de aproximação. Nenhuma nave ou tanque Silano vai se aproximar sem que percebamos, além de termos dois mil soldados, fazendo a guarda nesses pontos. Eles estão cerca de cinco quilômetros da Torre. Por mar, temos os três porta-naves que nos trouxeram até Tood-Sil’s, fazendo varreduras a cada trinta minutos com o scanner de aproximação. Mas, pelo perigoso mar de Tood-Sil’s, é praticamente impossível se aproximarem.
‒ Com relação à proteção da Torre, me parece que está tudo como planejado. Logo chegarão mais três tropas com cinco mil soldados para um possível confronto, futuramente. Os mops já retornaram, você faz alguma ideia de onde eles possam ter caído?
‒ Imperador, os Silanos fazem patrulhamento na maior parte do planeta e eu não fiz uma busca, para evitar um confronto com os eles. Cinco mil soldados é muito pouco para rastrear um planeta, se sofrêssemos muitas baixas no exército, a Torre ficaria desprotegida.
Sarac balançou a cabeça positivamente, concordando com Adrian.
‒ Tomara que eles não tenham sobrevivido à viagem – Sarac levantou-se do trono e foi até seu filho, que se encontrava na vidraça, admirando a paisagem.
‒ Esse lugar é lindo, não é, pai?
Sarac sorriu e colocou a mão sobre o ombro de Himyd.
‒ É sim, filho, faz muitos anos que eu não vinha aqui. Tinha esquecido como este planeta é lindo ‒ disse Sarac.
‒ Para que uma Torre tão alta, pai?
‒ Para chegar mais perto de Deus.
Himyd olhou para o pai, como se estranhasse sua resposta.
‒ E conseguiram, pai?
‒ Claro que não! Deus não existe ‒ Sarac respondeu com um tom sarcástico.
Mick havia ficado espantado com as belas paisagens que via através da quadrada janela da nave FFX. Desertos, florestas e uma grande cachoeira que caía no mar, uma planície verde, com grandes animais, (e aves) que lembravam dinossauros. No local da nave onde estava Mick, uma porta automática se abriu para a direita e ele ouviu:
‒ Estamos chegando! – disse o capitão Aydu, ao chegar num quarto branco, que tinha uma cama, uma mesa e um monitor de setenta polegadas na parede. Mick já havia trocado de roupa, usava calça azul e uma camisa que fechava com apenas um botão, na altura do peito direito. Nos pés, calçava uma espécie de coturno, com três tiras de velcro na canela.
‒ Onde estamos? – perguntou Mick.
‒ É o palácio Sil’s, onde você e seus irmãos irão viver agora.
‒ Por que você se refere aos meus amigos como se fossem meus irmãos?
Aydu acha estranhou a pergunta de Mick e indagou:
‒ Eles não são seus irmãos? O seu nome não é Kadmoh?
‒Nós somos amigos desde pequenos, mas somente amigos. E não! Meu nome não é Kadmoh.
Aydu se irritou com a resposta de Mick e gritou:
‒ Então, quem é você?! Será que eu fui atrás da pessoa errada?!
‒ Eu não sei quem você estava procurando. Mas não sou este tal de Kadmoh que você procura.
A porta automática se abriu. Um soldado entrou, trazendo uma informação.
‒ Capitão, estamos nos portões do palácio.
‒ Vem comigo, Mick, já chegamos.
Os dois saíram da sala, em direção à plataforma de embarque da nave. A plataforma desceu e Mick observou um longo campo com um gramado bem verde, com algumas árvores de médio porte em lugares aleatórios. Quando se virou, deparou-se com uma floresta de grandes árvores e duas enormes estátuas, com cerca de trinta metros cada. Elas estavam de mãos dadas e, entre elas, havia uma estrada meio sombria, que parecia não ter fim. Mick reparou que a estátua da esquerda era um homem vestindo trajes reais. A estátua da direita era de uma mulher, que também estava vestindo os mesmos trajes. “É um rei e uma rainha.” ‒ Mick chegou a essa conclusão, por causa da coroa que ambas usavam. A estrada atravessava a floresta adentro, se perdia no horizonte.
‒ Onde está o palácio? – perguntou Mick, com um tom bem desconfiado.
‒ As naves civis de grande porte só podem vir até aqui. Estamos no portão do palácio, ele está a três quilômetros daqui, bem no fim dessa estrada.
‒ Cadê os muros?
‒ A floresta são os muros do palácio. – respondeu Aydu.
‒ Como assim?
‒ Ele quis dizer que ninguém consegue atravessar esta floresta, se não for pela estrada – quem respondeu foi um homem magro, de estatura mediana e traços indianos. Seus cabelos eram bem curtos, vestia uma armadura semelhante à de Aydu, com apenas alguns detalhes diferentes, na cor vermelho sangue, com ombreiras ovais. As botas da armadura iam somente até os joelhos e a capa era branca. No peito, um símbolo idêntico ao que Aydu carregava. Aparentava ter uns trinta anos.
‒ Meu nome é Brian Letin, sou um cavaleiro de Tood-Sil’s.
Mick e Brian se cumprimentaram. E ele se sentiu mais à vontade, afinal, Brian não parecia hostil, como Aydu.
‒ Como foi sua busca, capitão? – perguntou Brian.
‒Sem problemas – e Aydu passou por Brian, sem ao menos cumprimentá-lo e seguiu em direção ao MI-T, um transporte terrestre do tamanho de um carro, só que com três rodas e pneus semelhantes aos de um pick-up. Tinha um formato triangular e teto e paredes de vidro. O vidro da lateral direita abaixou e Aydu se sentou ao lado do piloto, um soldado com armadura verde camuflada.
‒ Vamos, o MI-T nos levará até o palácio. – disse Brian.
Eles se sentaram nos bancos de trás do transporte. As duas rodas traseiras que estavam bem atrás do MI-T foram para baixo do transporte, o que fez sua traseira ficar mais alta, e em seguida foi em direção ao portão. Mick novamente voltou a olhar as estátuas na entrada da floresta e perguntou:
‒ Quem são esses?
‒ É o primeiro rei e a primeira rainha que Tood-Sil’s teve, isso faz mais de dez mil e quinhentos anos – respondeu Brian.
Levantando algumas folhas secas na estrada o MI-T cruzou na direção do palácio Sil’s. Dentro do transporte, Mick ficou fascinado pela floresta. Ele estava curioso por causa das palavras que Brian dissera sobre ela.
‒ Por que ninguém conseguiu voltar da floreta?
‒ Não sei! Ninguém voltou de lá para contar – Brian brincou com Mick, e Aydu deu uma gargalhada debochada e desnecessária. ‒São armadilhas muito perigosas que são colocadas lá por naves que sobrevoam a floresta; quem entra, é atacado por este sistema de segurança. Quem ousou entrar, nunca saiu, nem mesmo quem criou essas armadilhas tem coragem de entrar aí. É morte na certa ‒ explicou.
A floresta tinha uma vegetação muito fechada, apenas alguns raios de sol conseguiam tocar o chão. Mick percebeu que estava chegando, quando viu uma luz no fim da estrada. A luz era muito forte e ele não conseguia identificar o que havia no fim da estrada. Quando a floresta acabou, eles chegaram a um lindo jardim, com um grande chafariz de cristal, que chamou atenção de Mick, por sua beleza e tamanho, com uns trinta metros. Era a escultura de uma ninfa, segurando delicadamente uma espécie de dragão marinho. De sua boca, jorrava água como uma cachoeira de cristais. Mas logo aquele chafariz se tornou um mero detalhe diante do majestoso palácio Sil’s, e Mick ficou sem palavras.
Nenhuma das sete maravilhas do mundo era tão bela quanto aquele palácio, todo em mármore branco, que parecia brilhar, como o gelo, ao ser exposto ao sol. De frente, o palácio tinha quarenta metros de altura, com uns quinhentos metros de uma ponta a outra. Nas pontas do palácio, ficavam duas torres, cerca de quinze metros mais alta que o palácio. Uma quinta torre, um pouco menor, porém maior em sua extremidade, ficava no meio do palácio Sil’s.
O MI-T parou entre o chafariz e o palácio e suas portas de vidro se abriram diante da escadaria do palácio, que não era tão grande. Mick desceu do transporte, cauteloso, olhando para os lados, admirado com o que via.
Ele olhou o chafariz e voltou a olhar novamente para o palácio. No jardim da frente do palácio, viu algumas pessoas andando e crianças correndo, com as roupas semelhantes às que ele usava e outras usavam vestimentas mais sofisticadas.
Aydu desceu do MI-T, passou por Brian e Mick, com o olhar fixo para frente, e disse:
‒ Me segue, garoto – falou com tom ríspido. Brian não entendeu o porquê da mudança de comportamento do Capitão.
‒ Vamos lá, rapaz, siga-o. – disse Brian.
Aydu foi andando na frente, Mick e Brian ficaram um pouco para trás.
‒ Ele é sempre mal-humorado assim? – perguntou Mick ao começar a subir as escadas.
‒ Não. Aydu é um bom homem. Realmente não sei o que aconteceu para ele estar assim, talvez seja a responsabilidade. Aydu é muito jovem e ainda tem muito a aprender. Onde Aydu te encontrou?
Eles entraram no palácio, passando por uma entrada que tinha o formato da chama de uma vela. O hall do palácio era oval, com um corredor à esquerda e outro à direita. De frente, havia uma escada em mármore de um azul só encontrado em Tood-Sil’s e as colunas de sustentação do palácio eram feitas do mesmo material. Mick não parava de olhar para os lados e para cima, admirado com as pinturas iluminadas e as esculturas em tamanho real dos antigos reis de Tood-Sil’s e Algord e, entre eles, o último rei de Algord — Theldor Rang Tolemam.
Os três subiram a escadaria interna do palácio, que dava acesso ao segundo andar do palácio. Mick continuava a observar tudo a sua volta, sem deixar de responder a Brian:
‒ Não foi Aydu que me encontrou.
‒Não? Quem foi que te encontrou?
Mick parou de observar as coisas ao seu redor e voltou sua atenção para Brian.
‒ Foi uma moça de cabelos loiros, linda que parecia até um anjo.
‒ O que é um anjo?
Mick sorriu e eles viraram à esquerda, seguindo um comprido corredor com várias portas automáticas, cor-de-prata, à direita e, à esquerda, uma varanda com vista para o chafariz da frente do palácio.
‒ Deixa pra lá, depois eu te digo o que é um anjo. O nome dela é Celina.
‒ Você disse Celina?‒perguntou Brian com os olhos arregalados.
‒ É o nome que ela me disse, Celina.
‒ Foi ela que encontrou você, e vocês estavam juntos quando o Aydu chegou. Então está explicado o motivo do Aydu estar de mau humor.
‒Foi ela que o chamou. Eles são namorados? – perguntou Mick.
‒ Não, Aydu sempre foi apaixonado por Celina, mas ela nunca correspondeu, eles sempre foram amigos e nada mais.
Aydu parou diante de uma porta automática, que se abriu com sua aproximação.
‒ Entre nesta sala, que o General Ivaniv Koor virá falar com vocês.
Mick olhou para Aydu e em seguida para Brian, que pediu para ele entrar na sala. Mick entrou, cuidadosamente. Era uma sala bastante grande, com plantas semelhantes a samambaias, penduradas nas diversas colunas que havia, além de alguns divãs e poltronas metálicas com o estofado preto.O piso trazia imagens de flores de lótus e uma fonte brotava de uma parede de pedras. Todo um ambiente que o lembrava a Babilônia dos livros que Mick lera, na infância. Como tudo naquele lugar, a sala também deixou Mick boquiaberto com sua beleza, até que ouviu seu nome:
‒ Mick? É o Mick, gente! – disse Vevê. ‒ Ele também vestia uma roupa idêntica a Mick. ‒ Cara, como você demorou!
Também apareceram Luiz, Cadu e Daniel.
‒ Alguém falou com vocês? Disseram o que vão fazer com a gente? – Luiz perguntou afoito.
‒Calma, gente! A única coisa que sei é que estamos em outro planeta. Como vocês vieram parar aqui?
‒ Da mesma forma que você, aquelas bolas de luz trouxeram a gente ‒ disse Cadu, aparentando estar um pouco irritado.
‒ Não, Cadu, disso eu sei! Estou falando daqui, do palácio – disse Mick.
‒ O Luiz, o Cadu, o Daniel e o Vevê acordaram aqui no palácio. Eu já acordei numa espécie de avião, com umas pessoas fazendo alguns exames. O Din acordou.
‒ Num deserto. – disse Din.
Mick estava tão eufórico por ver seus amigos que não havia percebido a presença de Din atrás dele.‒ Ainda bem que você está aqui, cara, estávamos preocupados – os dois se abraçaram.‒ E você, Mick? Como você está?
Din estava muito preocupado.
‒ Din, estou melhor agora, vendo que vocês estão bem! – respondeu Mick.
Aydu caminhava pelo corredor, em direção a uma porta automática, que se abriu ao meio, assim que ele se aproximou. Ele entrou dando passos suaves, como se não quisesse incomodar. A sala estava muito escura, somente um refletor ao centro iluminava alguém que estava de joelhos e cabeça baixa. Seus cabelos eram longos e brancos, amarrados pela metade. O homem estava de costas para Aydu e seu corpo encontrava-se coberto por uma capa branca.
‒ General Koor, eles estão aqui.
O General permaneceu no mesmo lugar sem mencionar uma só palavra sequer.
‒ General?
‒ Eu ouvi, Aydu. Desculpa não ter respondido, eu estava meditando, pensando em coisas boas, buscando boas vibrações.
Aydu sorriu e se aproximou mais um pouco.
‒ Me desculpe o senhor, Mestre. Não deveria atrapalhar seu momento de concentração. Mas... ou eles estão mentindo, ou realmente não são eles.
‒ São eles, sim, Aydu. Eu os senti chegar, os mesmos Loods de vinte anos atrás. Você deveria saber que, quando um Lood ganha um novo corpo, ele perde toda a sua memória. Você sabe disso, Aydu?
‒Sei sim, mestre, desculpa, é que eu nunca estive diante de pessoas assim.
‒ Eu sei como é. Também não sei como eles estão agora.
O General Koor se levantou e jogou para trás a capa, que cobria todo o seu corpo.
Parte das ombreiras de sua armadura ficaram visíveis. Elas tinham três camadas sobrepostas na cor dourada. Então, o General Ivaniv Koor se virou para Aydu, cuja armadura era parecida com a dele, mas diferente em alguns detalhes, como as ombreiras, o cinturão e principalmente a cor, que era dourada. Koor tinha cinquenta e dois anos,e seus olhos e sua longa barba branca aparentavam o cansaço de uma vida de grandes batalhas. Os dois caminharam no escuro até que uma faixa de luz se abriu diante deles como uma porta. Eles passaram pela porta e ela se fechou.
Na outra sala, Mick e os outros ficaram preocupados, um olhando para o outro, e seus pensamentos não paravam: “Como está minha mãe?”, “O eles querem com a gente?”, “Como voltarei para a casa?”. Cadu sempre foi um jovem muito tímido, mas, em situações de estresse, ele se irritava facilmente e agia sem pensar.
‒ Ahhhh... Não aguento mais ficar aqui, esperando! Vou sair desta merda e procurar um jeito de voltar para casa! – gritou Cadu.
Morales, que estava mais perto dele, tentou impedi-lo de fazer qualquer loucura e disse:
‒Calma, Cadu! Nós não sabemos o que eles querem com a gente!
‒ E se eles quiserem matar a gente, fazer algum experimento?! Eu não vou ficar aqui esperando!
Daniel se aproximou para ajudar Morales e disse:
‒ Cadu, se eles quisessem nos matar, eles já teriam feito, não acha?!
A porta se abriu e Aydu e Koor entraram na sala. A presença de Koor acalmou Cadu, que ficou apreensivo ao ver o General. Sua postura com as mãos para trás, seu andar firme, mas sem perder a elegância que sua imponente armadura dourada passava.
‒ Desculpa a demora, vocês devem estar curiosos para saber o que está acontecendo. – disse Koor.
‒ Queremos saber um monte de coisas. Por exemplo, quem é você? – perguntou Morales um pouco nervoso.
‒ Vocês me conheceram há mais de quarenta anos atrás, mas isso eu explico daqui a pouco. Eu sou o General Supremo Ivaniv Koor, do exército de Tood Sil’s – ele esticou o braço direito e, com a mão aberta, apontou para Aydu. ‒ E este aqui ao meu lado é o Capitão Supremo Silk Aydu, também do exército de Tood-Sil’s.
Mick, que estava sentado em um divã, se levantou, intrometendo-se:
‒ OK! Mas o que o General e o Capitão de Tood-Sil’s querem com a gente?
‒ Bom, Mick, antes de dizer o que eu quero de vocês, preciso contar uma parte da história recente da galáxia Irione ou talvez do universo. Em Irione, existem doze planetas com vidas civilizadas e seis luas habitáveis...
‒ Nossa! Doze planetas com vida inteligente, e na Terra tem cientista achando que estamos sozinhos no universo – disse Din, espantado.
Então o General Koor aumentou ainda mais o seu espanto:
‒ É... Existem muitos planetas com vida civilizada no universo. Só na via Láctea, a galáxia de vocês, são dezesseis. Alguns planetas estão em um grau muito alto de evolução e eles não entram em contato conosco para não atrapalhar o nosso processo evolutivo. Há outros planetas que estão em grau inferior e, neste caso, somos nós que não podemos entrar em contato, para não atrapalhar o seu processo evolutivo. Limitamo-nos apenas a acompanhar esse processo, através de módulos de exploração. Há trinta anos, os quatro planetas elementares de Irione, Ochean o planeta da água, que era liderado pelo rei Teba; Fierran, o planeta do fogo e o seu cruel rei Opes; o belíssimo planeta do ar Torrento, do rei Failo; e o planeta da terra Apros, com o rei Soras que era o mais forte entre eles criaram uma união.
O ambicioso rei Opes, do planeta Fierran, se uniu a Soras com o intuito de dominar os demais planetas da galáxia Irione. Depois Failo, que tinha sobre o seu domínio as principais rotas comerciais interplanetárias entre os planetas da UCPI ‒ União Comercial dos Planetas de Irione ‒ uniu-se a eles. Este foi um momento crucial nas ambições dos três, pois com o domínio das rotas comerciais os planetas não conseguiam importar e nem exportar seus produtos e isso levou os reis dos demais planetas a abandonarem seus reinados, pressionados pelos seus comerciantes, com um boicote interno. Se eles não pudessem importar mais os seus produtos, então não pagariam seus impostos e nem liberariam os produtos para o próprio consumo do planeta. Milhões de pessoas morreram de fome, outras doentes e muitos em confrontos com o exército de seu próprio planeta.
Teba, o rei de Ochean, teve um papel fundamental, liderando os comerciantes nesse boicote. Com isso, Teba se aliou aos três reis, devido a sua forte influência entre os grandes comerciantes interplanetários. Assim nasceram “Os Reis Elementos”, Teba, o Rei da Água; Opes,o Rei do Fogo; Failo, o Rei do Ar; e Soras, o Rei da Terra. Juntos eles tinham sobre seu domínio sete dos doze planetas civilizados da galáxia Irione. Somente Tood-Sil’s e Algord, que eram autossuficientes em seus recursos naturais, não se renderam aos propósitos dos Reis Elementos. Nosso comércio era restritamente interno, não dependíamos de outros planetas para existir.
‒ General Koor, você falou que tanto Tood-Sil’s quanto Algord são autossuficientes em seus recursos naturais, por que os demais planetas não eram? – perguntou Din.
‒ O seu nome é Demétrio, não é?
‒ Sim. Mas pode me chamar de Din.
‒ OK, Din. Na verdade, por muitos anos, eles poluíram seus rios e mares, envenenaram seu próprio ar, derrubaram suas florestas e destruíram seus solos, dificultando sua própria existência. Foi então que, liderados por Egroj Algord, antigo rei de Algord, que eles começaram a se ajudar, levando água e comida onde não tinha, e até mesmo ar aos planetas que eram extremamente poluídos. Isso acabou virando um grande comércio. Com o tempo, esses planetas criaram uma dependência um do outro. Mantiveram o equilíbrio entre eles comercialmente, mas isso despertou a cobiça de reis ditadores. Isso tudo aconteceu há mais de setecentos anos. O equilíbrio era perfeito entre esses planetas, até que, há trinta anos atrás, motivados pela ambição, Os Reis Elementares resolveram ter o domínio de tudo e causaram uma guerra interna dentro de cada planeta do UCPI. Eles se aproveitaram das necessidades básicas dos povos para alcançar seus sórdidos objetivos. Reis foram derrubados, pessoas assassinadas, famílias destruídas e eles, os Reis Elementos, ficaram assistindo à destruição causada pela guerra e ganharam o controle da UCPI. Assim, eles aumentaram as taxas comerciais e metade de tudo que era comercializado entre os planetas pertencia a eles. A princípio, a federação do comércio de cada planeta aceitou, com a finalidade de acabar com a crise, mas, com o tempo, os comerciantes e a população se viram aprisionados e escravizados a uma ditadura comercial.
Os Reis Elementos, num período de um ano e meio, tentaram, sem sucesso, desestabilizar, também, Tood-Sil’s e Algord, mas não conseguiram. Depois de duas tentativas de invasão, Given Turr, rei de Tood‒Sil’s, e Ted Tolemam, rei de Algord, se uniram e declararam guerra aos Reis Elementos. Foram os anos mais gloriosos da minha vida, nós éramos idolatrados pelos povos por onde passávamos, levávamos esperança. Quatro anos depois do início da guerra, o rei Given, Ted Tolemam e seus sete filhos. – neste momento Koor deu um suspiro como se tivesse uma boa recordação, para, depois, continuar:
— Os Sete Cavaleiros de Algord. Era assim que os povos chamavam os filhos de Ted Tolemam, os sete heróis, os sete divinos, era honra lutar ao lado daqueles homens, e eu lutei.
Pairou no ar um momento de silêncio... E o general Koor acrescentou:
‒Todos nós, junto com Ted Tolemam, Given Turr e os Sete Cavaleiros de Algord, reconstruímos cada planeta, levamos esperança e futuro àqueles que tinham perdido tudo. Mas, infelizmente, era impossível transformar estes planetas autossuficientes, devido aos anos e anos de destruição de seus recursos naturais. Mas todos eles novamente estavam se ajudando, com uma mesma finalidade: sobreviver. Seis anos se passaram até que Ted Tolemam, que era uma espécie de rei temporário para a união desses planetas, teve a iniciativa de lhes devolver a liberdade por completo. Como toda a linhagem real desses planetas foi exterminada ou expulsa, Ted Tolemam e Given desenvolveram, baseados em planetas de outras galáxias, uma liderança governamental, um líder que seria escolhido pelo povo de cada planeta. Mas isso não foi possível, pois, antes de ele libertar os planetas da Federação do Comércio, Ted Tolemam e seus filhos foram assassinados, misteriosamente. E, num golpe militar, o então general do exército algoriano, Telvarius Sarac, tomou o poder de Algord e da Federação do Comércio, e assim criou o Império Universal Sarac.
Todos ouviram atentamente, até que Mick fez uma pergunta e, sem motivo aparente, mas Koor ficou visivelmente constrangido.
‒ Quem matou Ted Tolemam e seus filhos?
‒ Ninguém soube quem os matou. Talvez um assassino a mando de Sarac, mas isso é um mistério até hoje.
‒ Bom! História triste, estou muito comovido. Mas o que a gente tem a ver com isso?! – perguntou Vevê, num tom irritado.
‒ Koor, eu já entendi o que você quer de nós. Então, por favor, continue sua história ‒ disse Din.
‒ Obrigado, Din. Ted Tolemam foi encontrado ainda com vida, mas muito machucado, passou dias impossibilitado de falar, até que ele despertou, nos contando que Sarac havia tomado o poder, mas ele já esperava por isso. Ele ainda não conseguia falar muito, mas, mesmo assim,antes de morrer, Ted Tolemam disse que o único que poderia derrotar Sarac eram os seus filhos. O rei de Algord não sabia que seus filhos haviam morrido.
‒ Mas como uma pessoa que morreu pode derrotar um império?! – perguntou Daniel, assustado.
‒ Passamos anos procurando o lood dos sete cavaleiros de Algord, até que os encontramos em sete jovens no planeta Terra.
Mick se desesperou e disse:
‒ Oh, meu Deus! Você acha que somos nós? Esse tal de lood que está falando é o que a gente chama de espírito! Em outras palavras, ele acha que somos a encarnação desses cavaleiros!
Cadu acabou compreendendo Koor e disse:
‒É por isso que nós sempre tivemos uma ligação muito forte, desde pequenos.
Luiz estava com um olhar triste, mas também compreendia o que o velho general falara.
‒ Esse é nosso destino, a nossa missão. – disse Luiz.
‒ Essa é a nossa missão? – Mick ficou chateado com aquela situação, e resmungou andando pra lá e pra cá. ‒ Como você sabe que nós somos estes cavaleiros?
‒ Pela lei divina, um lood, ou espírito, é livre assim que abandonar o corpo. Vocês poderiam não reencarnar, mas, através de buscas, através de sensitivos, descobrimos que vocês haviam reencarnado, só não sabíamos onde. Mandávamos módulos de exploração para diversos planetas das mais longínquas galáxias, com a finalidade de encontrar vocês, então, quando nós os encontramos, passamos anos, desenvolvendo os Mops galácticos para que trouxessem vocês até nós. Passamos vinte anos, imaginando como trazer vocês de volta, para salvar o universo.
‒ Você quer que a gente salve o universo? Como vamos fazer isso?!– perguntou Daniel espantado.
‒ A Torre de comunicação universal, local de onde partem os Mops para outras galáxias, está sob o domínio do Império Sarac, e o intuito dele é expandir seu império para fora de Irione. Ele ainda não sabe como enviar os Mops, pode demorar dias ou anos, mas sei que um dia ele vai descobrir como o fazer. – disse Koor.
‒ Ele só pode estar brincando! – disse Mick, ainda alterado.
‒ Eles não iriam nos trazer de outra galáxia para brincar com a gente, Mick! – disse Vevê.
‒ Vevê, você acha que somos os Sete Cavaleiros de Algord?
‒ Eu não acho, Mick, eu sei que somos, e você deve sentir isso também.
‒ Eu também! – afirmou Din.
‒ Até você, Din?! – perguntou Mick.
‒ Bem, eu contei a vocês a história de Irione e o papel de vocês nesta história. Agora vou deixá-los descansar e refletir sobre o que contei, amanhã voltaremos a conversar mais. Espero que vocês tenham entendido a importância de vocês para nós e para o universo. – Koor e Aydu se dirigem para a porta automática e, antes de sair, Mick gritou:
‒ Meu nome era Kamorh, não era?
Koor parou diante da porta, que se abriu, com sua presença, e disse:
‒ Vejo que você começa a compreender, meu amigo.
‒ Não vou entrar numa guerra que não é minha, general!
Koor se virou para Mick e deu um tímido sorriso.
‒Acredite, essa não é a primeira vez que você diz isso. ‒ Koor e Aydu saíram da sala e a porta se fechou. No corredor, eles andaram calmamente. O sol estava se pondo e alguns feixes de luz alaranjados passaram pelas grandes janelas do palácio, iluminando todo o corredor e, enquanto andavam, Aydu perguntou:
‒ Mestre, o senhor realmente acredita que possa transformar essas pessoas em cavaleiros? Eu presenciei muitos homens, que sonhavam vestir uma armadura, desistirem do treinamento ou virarem apenas soldados.
Koor respondeu, com tom de voz bem calmo:
‒ Aydu, me entristece muito a forma com que você se refere a seus soldados, se você não tem respeito por eles, eles não terão respeito por você. E, com relação aos rapazes, os seus loods já são de cavaleiros reencarnados; o que a alma aprendeu, o corpo só precisa relembrar e se adaptar, como um talento que carregamos para toda a eternidade. O corpo, assim como a vida, é uma pedra bruta que precisamos lapidar para tornar o espírito grandioso. E, pelo que eu vejo, você é uma pedra tão bruta quanto eles – era visível o constrangimento no olhar de Aydu com as palavras do Mestre Koor.
‒ Me desculpe, mestre.
Enquanto caminhavam, Koor colocou a mão esquerda sobre o ombro de Aydu e disse:
‒ Não fique constrangido, meu jovem, quando eu tinha sua idade talvez tivesse este mesmo pensamento.
A noite no hemisfério sul de Tood-Sil’s era muita fria, sempre na madrugada pairava sobre o palácio um leve nevoeiro, às vezes forte, outras mais fraco. Din e os outros dormiam bem aquecidos, cada um em sua cama. O quarto era bastante amplo e as camas ficavam uma ao lado da outra, formando um círculo. No meio, uma lareira, protegida por um vidro térmico, aquecia e iluminava suavemente o quarto. A cama de Din estava próxima à porta de vidro que dava acesso à varanda. Din se virou para se cobrir melhor e viu uma cama vazia, somente com o travesseiro, sem cobertas. Ele se sentou e viu que todos estavam deitados, menos um. Observou que a porta de vidro estava aberta, pois a cortina branca balançava com o vento. Din se levantou e foi calmamente em direção à porta, ele afastou a cortina com o braço e colocou somente a cabeça para fora do quarto. Então viu que Mick estava debruçado sobre o parapeito e enrolado com o cobertor, para se proteger do frio da noite.
Mick estava sereno, olhando na direção das luminárias azuis do jardim e da floresta, ao redor do palácio. Realmente era uma paisagem muito bela com aquele leve nevoeiro que só mostrava as pontas das árvores. Din se aproximou, esfregando os braços para se aquecer do frio, dizendo:
‒ Está sem sono, Mick?
Mick manteve seu olhar na mesma direção e respondeu:
‒ Sonhei com o pai, fazia muito tempo que eu não sonhava com ele.
‒ O que foi que você sonhou?
‒ Eu lembrei da última conversa que tivemos, no carro, indo para o colégio, você lembra?
‒ Lembro muito vagamente. Por quê?
‒ Ele me disse para eu enfrentar toda e qualquer dificuldade que eu tiver, que as minhas escolhas fariam de mim um herói ou vilão. Muita gente precisa de nós, não é, Din?
‒ O universo precisa de nós, Mick, inclusive nossas famílias.
‒ Será que vamos vê-los novamente, Din?
‒Acredito que um dia todos nós vamos nos ver novamente, se não for nesta vida, será em outra. O que eu sei, é que temos uma missão muita árdua a cumprir, e que uma nova vida nos espera ao amanhecer.
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