Os 7 Cavaleiros De Algord - A Torre
1 Um Jovem de Coragem
“Em memória de:
Jose Severino Alexandre
Jairo Henrique de Souza Junior
Jose Morales Alvarez
Prólogo
Dizem que antes de nascermos, ficamos sabendo de tudo que vamos passar em vida: felicidades, amores e provações. Quando Kadmoh Tolemam morreu, ele viu que sua história ainda não tinha terminado, percebeu também que ela poderia ter um novo começo, e um novo fim. Mas, para isso, teria que passar por duras provações. E, com a coragem de um herói, ele aceitou reencarnar. Seu nome hoje é Mick Fronsac e esta é sua história.
“Sete são os destinos, um deles, amaldiçoado. Sete são os cavaleiros que lutam lado a lado.”
Capítulo um: Um jovem de coragem
Era um dia quente de praia lotada em Copacabana, com muita gente em busca de diversão. Um dia típico de verão no Rio de Janeiro. No céu havia pouquíssimas nuvens, e um pôr do sol que deixava o mar com uma coloração avermelhada. Nesse momento a praia já não estava tão lotada e o Capitão Jacque Fronsac, um homem alto, magro e de cabelos pretos, brincava com o filho Mick, de sete anos, na beira da praia, onde as ondas não são tão fortes. Os dois brincavam como duas crianças, corriam um atrás do outro e jogando água pra cima.
Eles queriam aproveitar ao máximo a presença um do outro. Afinal, era o primeiro final de semana juntos, desde que Jacque voltou do alto-mar. O Capitão Fronsac tinha passado três meses embarcado em um porta-aviões da marinha brasileira.
Jacque Pierre Fronsac nascera na França, e veio para o Brasil quando tinha apenas quatro anos de idade. Aos dezoito, naturalizou-se brasileiro e alistou-se na marinha. Jacque se tornou um homem muito respeitado nas forças armadas e conhecido por seus feitos heróicos. Uma vez, ele liderou um salvamento de mil e duzentas pessoas que estavam em um transatlântico, que quase afundou no oceano Atlântico. Ele era um homem honesto, honrado e com um grande censo de justiça, sempre dedicando muito sua vida ao trabalho e à família.
Era hábito da família Fronsac, quando Jacque chegava de uma viagem de trabalho, principalmente longa como essa, logo no primeiro final de semana, pegar o magrelo Mick e levá-lo para a praia. Mick herdou o amor do pai pelo mar e principalmente pela praia. Desde os primeiros passos de Mick, Jacque já o levava para colocar seus gordinhos pés na areia.
Pai e filho voltavam para a areia com aspecto cansado, o pai parecia mais cansado que o filho, que ficou com um olhar de “quero mais”. Jacque esticou uma toalha branca na areia e colocou outra da mesma cor nos ombros de Mick, pedindo que o garoto se secasse. Em seguida, Jacque se sentou na toalha que havia esticado e comentou com o filho.
‒ É filho... Já passou da hora de irmos pra casa. O sol já esta quase indo embora e eu estou morrendo de fome. Estou louco para saber o que sua mãe fez para o jantar. Só espero que ela não me faça aqueles bolinhos de arroz!
O menino, que ficou de pé olhando para o mar, fez um ahhh... Como se quisesse que esse dia nunca acabasse.
‒ Pai,vamos voltar para a água?! O sol ainda não acabou!
Jacque, cansado, respondeu ao filho negativamente.
‒ Ahhhh... Não! Já estamos fora de casa desde cedo! Sua mãe já deve estar preocupada! E também estou muito cansado. Passamos a tarde toda brincando. Você não cansa, não? – Mick realmente não estava cansado e, empolgado, falou:
‒ Se você está cansado, então eu vou sozinho!
‒ Sozinho?! Moleque, tu só tem sete anos e quer entrar no mar sozinho?
‒ Sete anos e nove meses! E também, pai, o mar está calmo!
O pai de Mick ficou espantado e orgulhoso ao mesmo tempo com a coragem dele, afinal, o garoto sabia se o mar estava ou não calmo. Então Jacque quis entender o motivo que levou seu filho a querer entrar no mar sozinho. Se era apenas mera diversão ou o garoto queria se sentir mais livre, independente. E, com uma voz engasgada de quem acabou de tomar um susto, Jacque perguntou:
‒ Por que você quer entrar no mar sozinho, Mick? Me diz?
Ao notar que tinha despertado um sentimento de curiosidade em seu pai, Mick,como toda criança, percebeu que isso poderia lhe trazer uma resposta positiva — o que deixou o garoto empolgado e convicto que conseguiria um sim de seu pai. Quase sem respirar, falou:
‒ Pai, eu faço natação desde os três anos, já nadei na piscina rasa, já nadei na piscina funda e há muito tempo eu não uso mais a pranchinha para nadar! Eu acho que já estou preparado para nadar no mar! Sozinho!
Jacque começou a entender os motivos do menino. Nadar no mar sozinho para ele era um desafio, uma etapa que ele queria superar, como um pássaro que tenta voar pela primeira vez. Jacque então esticou o pescoço por sobre o ombro de Mick e observou o mar, analisando as condições. Viu se o mar estava calmo o bastante para o menino entrar. Olhou para Mick e viu seus olhos brilhando com vontade de ouvir um sim. Voltou a olhar novamente para o mar e decidiu deixar o garoto entrar:
‒ Tá bom... Vai, mas vou ficar aqui te olhando.
‒Valeu, pai! ‒disse Mick aos pulos antes de sair correndo em direção ao mar. O pai franziu a testa, como se quisesse voltar atrás, mas não voltou, e resolveu dar um último lembrete:
‒ Não vai para o fundo!
O menino, correndo na direção do mar, respondeu, gritando sem ao menos olhar para trás:
‒ Deixa comigo! Eu sei nadar!
Então Jacque sussurrou bem baixinho, quase como um pensamento alto:
‒ E sabe mesmo.
Jacque se levantou e deu alguns passos em direção ao mar. Cruzou os braços, mas ficou ali mesmo, observando seu filho descer aquelas ondas vermelhas do pôr do sol. No rosto do pai, um sorriso de canto de boca e um murmúrio.
‒ Vai garoto, cresce... Seja grande.
A família Fronsac morava em uma vila de casas em estilo holandês, em Copacabana. Na verdade, era uma rua sem saída, e os moradores colocaram um portão na entrada. A rua tinha dez casas, cinco casas à direita e cinco à esquerda; todas quase iguais: telhados, colunas, portas e janelas de madeira. A vila ficava uns dois quarteirões das avenidas principais, o único barulho que se ouvia era o dos grilos, por isso, durante a noite, sempre pairava um silêncio muito acolhedor.
Todos se preparavam para o jantar. Jacque, sentado na ponta da mesa como um verdadeiro pai de família, tinha ao seu lado direito uma gorducha menininha de cabelos castanhos claros e olhos amendoados que vivia sorrindo com apenas um dentinho na boca. Seu nome era Milena, a filha caçula, quase sete anos mais nova que Mick. A menininha estava lá, feliz da vida em sua cadeirinha de bebê, batendo com os talheres em seu prato de plástico, enquanto Jacque observa sua esposa, Melinda. Ela tinha os cabelos claros, quase louros, e estavam amarrados num coque. Ela usava um avental branco e vestido azul. Melinda colocou um prato com salada na mesa e, assim que ela virou as costas, Jacque pegou o garfo e o espetou numa cenoura, levando-a rapidamente à boca. Melinda continuou a colocar a mesa para o jantar e Jacque olhava em direção à escada, ao lado da sala de jantar.
‒ Mick?! Já acabou esse banho?! – gritou Jacque.
‒ Já, pai! Tô descendo! ‒ uma voz longínqua respondeu.
Jacque voltou a brincar com Milena e, nesse momento, Melinda se sentou à mesa.
‒ Mick hoje entrou no mar . – Jacque fez o comentário à esposa.
Melinda deu um sorriso, como se aquilo não fosse novidade e disse:
‒ Querido, quando vocês vão à praia, ele sempre entra no mar.
‒ Ele entrou no mar sozinho.
Melinda arregalou os olhos.
‒ Você deixou?! ‒ perguntou curiosa.
‒ Ele me pediu! E eu fiz uma cara igual a essa sua aí.
‒ Não sei se fico espantada com o fato de você deixá-lo entrar no mar sozinho ou com o fato de ele te pedir.
‒É...para você ver, cada vez que eu volto de viagem, os meus filhos têm uma novidade: o primeiro dente da Milena, que eu não vi nascer; o Mick, que evoluiu muito na natação. O moleque está crescendo e eu não estou aqui para ver.
Jacque era um pai muito protetor, principalmente com Mick, poiso seu nascimento foi um pouco complicado e Melinda sofreu muito no parto. Jacque não conseguiu chegar a tempo para acompanhar Melinda até o hospital, e ela ficou muito preocupada. Quando chegou, Melinda já estava na sala de cirurgia, e ele conseguiu assistir o parto. Quando Mick nasceu, ele não chorou. Melinda praticamente desmaiou de tanto cansaço, Jacque olhou para o médico, que tinha uma expressão de tristeza, e o coração de Jacque se encheu de uma dor e de um sentimento de perda que ele nunca havia sentido antes. Por dois minutos, os médicos tentaram encontrar um sinal de vida no bebê, que não respondia aos estímulos.
Antes que os médicos cobrissem o rostinho pálido de Mick com um pano branco, Jacque, em ato de desespero, correu em direção ao filho e o abraçou fortemente contra o peito, chamando pelo nome que ele havia escolhido em homenagem ao avô.
‒ Mick?! Chora para o papai! Mick?!
Em meio à confusão, após sete minutos, os pulmões do bebê se encheram de ar e Mick deu um estrondoso berro para a vida, deixando todos boquiabertos.
Por isso que Jacque achou que a maior batalha da vida de Mick foi quando ele venceu a própria morte.
Milena se assustou com o barulho das pisadas fortes de Mick descendo as escadas. Parecia o som de uma cavalaria passando. Assim que ele desceu, logo se sentou ao lado esquerdo da mesa e colocou batata frita em seu prato. A mãe viu a voracidade do menino e comentou:
‒ Tá com fome, hein?! Aposto que deve ter brincado muito hoje. Não deve ter parado nem para comer. Como foi a praia hoje? – Melinda perguntou só para ver se o filho iria lhe contar a novidade.
Mick, com a boca cheia de batata frita e olhos brilhando, falou de uma forma que a mãe não conseguiu entender.
‒ Eu trrreeei nooo agaaa sozinhooo!
‒ O que você disse? Eu já não falei pra você não falar de boca cheia?! Engole! Huuum!
Mick deu mais duas mastigadas e engoliu.
‒ Eu entrei no mar sozinho! Peguei vários jacarés!
Melinda se espantou com o que seu filho falou, e preocupada perguntou:
‒ Tinha jacaré na praia?! Jacque, você deixou ele entrar no mar com jacaré?!
‒ Não, mãe! Jacaré é descer a onda de barriga! Eu não estava no mar com um jacaré.
‒ E o que tem a ver jacaré com descer de barriga em uma onda?
‒ Sei lá, mãe, é uma gíria! Jacaré. – responde Mick.
‒ Se fosse “Pegar um golfinho” teria mais sentido! – diz Melinda.
Jacque começou a gargalhar com o choque de cultura entre mãe e filho, e lembrou a Melinda que no tempo deles também existiam outras gírias.
‒ Hahahahaha... Melinda, no nosso tempo as gírias também não tinham nada a ver. Por exemplo, broto, brasa. Faz algum sentido?
‒Ahhh... Brasa significa que a situação está quente, uma festa boa. Agora, realmente você tem razão, broto não fazia nenhum sentido.
Mick ficou curioso e perguntou com aquela cara de interrogação para a mãe:
‒ E o que é um broto, mãe?
Melinda sorriu. Por alguns instantes, ficou imaginando o que falar para o filho.
Ela olhou para o prato, olhou para Jacque, que levantou as sobrancelhas como que dissesse “agora se livra dessa”. Então ela respirou fundo e colocou os talheres sobre o prato,fixando os olhos de Mick.
‒ Broto significava moça bonita.
‒ Então você é um broto, mãe?
Melinda sorriu lisonjeada e disse:
‒ É isso mesmo! Mamãe é um broto! E seu pai é uma girafa! – disse Melinda.
Melinda e Jacque começaram a gargalhar. Já Mick, que não entendeu nada, fez novamente aquela cara de interrogação e perguntou:
‒ Por que se minha mãe é um broto o meu pai é uma girafa? Girafa quer dizer homem bonito, com o pescoço comprido?
Pai e mãe pararam na hora com as gargalhadas e olharam um para o outro, certamente pensando como sairiam dessa situação. Então Melinda tentou disfarçar e mudar de assunto.
‒ Jacque... seu filho agora está na fase do porquê. Por que isso, por que aquilo.
Mick continuava com aquela cara de interrogação.
‒ E por que eu estou nessa fase, mãe? ‒ perguntou Mick.
‒ Olha aí! Outro porquê! Chega de porquê! Por quê, por quê, por quê! Por que de tanto por quê? – disse Melinda, um pouco impaciente.
Jacque ficou em silêncio, olhando para os filhos e para sua esposa. Em seu olhar dava para perceber que, naquele momento, agradecia a Deus por ter uma família tão maravilhosa. Só que os pensamentos de Jacque foram interrompidos pelo toque do telefone, Melinda até ameaçou se levantar para atender, mas Jacque rapidamente limpou a boca com o guardanapo e pediu para sua esposa ficar na mesa e pediu para Mick comer tudo, e o lembrou de suas obrigações.
‒ Come tudo. Você tem dever de casa?
Mick balançou a cabeça negativamente.
‒ E depois não se esqueça de escovar bem os dentes antes de dormir. OK?
‒ OK! – respondeu Mick de boca cheia.
‒ Engole primeiro, antes de responder. – reclama Melinda.
Jacque voltou à mesa um pouco aborrecido. Respirou fundo e deu uma notícia nãomuito boa para sua família.
‒ Era da Marinha. Aconteceu um problema no navio, uma espécie de aquecimento dos motores e.... resumindo:vou ter que levar o navio para a Bahia. Mas vai ser só uma semana. Depois eu volto para casa.
Melinda não conseguiu disfarçar o seu desapontamento.
‒ Que chato, querido! Não tem nem uma semana que você voltou e já vai retornar para o mar de novo? Será só uma semana mesmo? ‒ perguntou Melinda.
‒ Acredito que no máximo uma semana. É só levar o navio para manutenção na Bahia e eu volto de avião.
‒ Você vai embarcar quando, amanhã?
‒ Não. Segunda.
‒ Menos mal. Pelo menos você pode descansar no domingo, e eu não preciso arrumar as suas malas às pressas.
No domingo, o dia amanheceu lindo, ensolarado e com os pássaros cantando.
Jacque aproveitou a linda manhã para levar Milena ao parquinho enquanto Mick dormia, depois foi ao supermercado, visitou os pais, bateu uma bolinha com os amigos. E, no final da tarde, ele e Mick jogaram vídeo game, os dois ficaram compenetrados, fazendo caras e bocas entre um golpe e outro de karatê. Mesmo se divertindo muito, Mick ainda estava inconformado com a volta repentina do pai ao trabalho.
‒ Pai, por que você tem que voltar amanhã? Não tem outra pessoa para fazer isso?!
‒ Ter, tem, mas cuidar do navio é a minha missão. E, quando acontece um imprevisto, tenho que voltar às pressas para resolver. E também é só uma semana. Eu volto logo.
‒ Pai,qual é a minha missão?
‒ Mick, na vida você vai ter muitas missões. Passar de ano, entrar na faculdade, aprender a dirigir e outras mais. Por exemplo, nesse momento a sua missão é me vencer.
E Mick mordendo a língua diz:
‒ Eeeee, venci!
‒ Poxa já é a terceira seguida que você me vence! Vou falar pra sua mãe não deixar você ficar no vídeo game enquanto eu estiver fora. Assim não dá! Eu perco todas!
A noite caiu em Copacabana, a lua estava cheia, com uma cor amarela e suave, como a nata do leite. Na vila onde morava os Fronsac, o único som que se ouvia era o dos grilos nos jardins. Uma noite bonita.
Milena dormia como um anjo em seu berço rosa, como todo seu quarto e seus brinquedos. No quarto em frente, Mick dormia também. Melinda e Jacque dormiam aconchegados e aquecidos por um edredom azul. Mas o silêncio da noite foi interrompido por um grito de susto.
‒ Saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiii!!!‒ Jacque e Melinda acordaram na mesma hora.
‒ Melinda, você ouviu isso?! Será que alguém entrou na casa?!
‒ Foi do quarto do Mick! Vai lá, que eu vou pegar a Milena!
Milena começou a chorar, certamente assustada com o grito. Jacque acendeu o abajur e colocou o roupão. Em seguida, ele e Melinda colocaram seus chinelos e foram em direção aos quartos dos filhos. Melinda entrou primeiro no quarto de Milena, enquanto Jacque abriu a porta do quarto de Mick, cuidadosamente, o quarto estava escuro, somente uma parte da cama de Mick estava iluminada pela lua. Jacque olhou para a TV desligada, em seguida para a cama de Mick e percebeu que o filho estava na cama bem no cantinho onde a luz da lua não chegava. Mick estava encolhido, parecia com medo. Então Jacque chegou perto do filho e perguntou:
‒ Mick? Está tudo bem?
Jacque acendeu a luz do quarto e se sentou ao lado do filho, que, com o olhar distante, disse:
‒ Ele ia me pegar.
Jacque olhou para o armário e para a janela e perguntou:
‒ Quem, Mick? Tem alguém aqui no seu quarto?
‒ O vulto de olhos vermelhos.
‒ Quem é esse vulto, filho?
Melinda entrou no quarto com Milena no colo e perguntou se estava tudo bem, então Mick olhou para o pai e tentou tranquilizá‒lo.
‒ Foi só um pesadelo!
‒ E que vulto é esse com o qual você sonhou? – perguntou Jacque.
‒ Ele tinha os olhos vermelhos que ardiam como fogo.
Melinda ficou brava com o susto que Mick deu e disse:
‒ Você está vendo filmes de terror escondidos de mim?! Está Mick?
Mick balançou a cabeça negativamente, dizendo:
‒ Não, mãe! Foi só um pesadelo! – em seguida ele tentou disfarçar o medo e reclamou:
‒ Eu estou com sono! Deixa eu dormir!
Jacque cobriu o filho e lhe deu um beijo na cabeça. Mick, em seguida,virou-se para o canto e, tentando não deixar seus pais preocupados, fingiu que dormia. Jacque e Melinda saíram bem devagar. Melinda entrou novamente no quarto de Milena para colocá-la no berço. Jacque deu uma última olhadinha no filho para se certificar se estava tudo realmente bem, levantou as sobrancelhas e suspirou, dizendo:
‒ Eu te amo, filho.
Mick então sussurrou:
‒ Eu também te amo, pai.
Pela manhã, Jacque colocou duas malas pretas com o brasão da marinha no seu carro, um Corcel 2, de cor vermelho, ano oitenta e seis. Assim que ele colocou as malas no carro e fechou o porta-malas, passou o vulto de uma criança com um uniforme escolar, dizendo:
‒ Bom dia, tio Jacque!
‒ Bom dia, Din! – respondeu Jacque.
Demétrio Pac era um garoto branco de cabelos pretos, com seis anos e meio, muito esperto e com olhos cor de mel, bem vivos. Ele morava com os pais na mesma vila, na casa quatro. Din, como é chamado pelos íntimos, era amigo de Mick desde bem pequenos. Foram para a creche juntos e, até hoje é assim. Sempre, em dias de aula, Din passava antes na casa de Mick para os dois irem para a escola juntos.
Din passou como um foguete por Jacque e, quando estava quase chegando à porta dos Fronsac, Mick saiu meio que arrumando os livros na mochila, com um olhar cabisbaixo.
‒ Por que tu tá com essa cara? ‒perguntou Din.
‒ Sonhei de novo com aquela sombra de olhos vermelhos.
Din achou estranho.
‒ Fazia tempo que você não tinha mais pesadelos. O que aconteceu? Tu viu algum filme de terror?
‒ Não!
Jacque ficou observando atentamente a conversa dos garotos. Então Ricardo Pac, pai de Din, abriu o portão da garagem e chamou os meninos para entrarem no carro.
‒ Vamos embora, molecada!
Ricardo percebeu que Jacque estava no quintal e o cumprimentou.
‒ Bom-dia, Jacque. Mal chegou, já vai partir novamente?
‒ Bom-dia, Ricardo! Missão de última hora. Vou para a Bahia, mas volto em uma semana.
Ricardo chamou Din e Mick com as mãos, dizendo:
‒Rápido, galera! Eu tô atrasado para o trabalho!
‒ Ricardo, deixa que eu levo os garotos. Assim eu fico mais tempo com eles.
‒Valeu, Jacque! Eu tô mega-atrasado, muito obrigado. Até a volta, Jacque, vamos marcar um poker – diz Ricardo, entrando no carro.
‒ Deixa comigo! E a tequila já tá guardada!
Ricardo deixou a vila em direção ao trabalho, e Jacque pediu para os garotos entrarem no carro e colocarem o cinto de segurança. No caminho, Jacque ficou observando os meninos pelo retrovisor e então resolveu quebrar o silêncio, perguntando novamente sobre o sonho que Mick teve. O garoto estava quieto e Jacque achou estranho, já que Mick era garoto muito falante.
‒ Mick? Como foi o sonho que você teve?
‒Ahhh... Eu tava andando na praia, estava de dia. De repente umas nuvens negras apareceram no céu e eu comecei a sentir uma presença estranha. Quando eu olhei para o chão, vi duas sombras, uma era minha, mas a outra não. Então eu olhei para trás e vi o vulto preto com olhos vermelhos. Eu gritei para ele sair de perto de mim, então, acordei.
Jacque ouviu atentamente o filho contar sobre o sonho, e tentou deixar o garoto mais confiante.
‒ Da próxima vez que você sonhar com esse vulto ou com qualquer coisa que venha a te ameaçar, enfrente-o, enfrente-o sempre! Qualquer dificuldade que aparecer em seu caminho, siga em frente. Você demonstrou muita coragem enfrentando o mar no sábado. Eu sei que você tem coragem!
‒ Eu vou fazer isso! Da próxima vez, vou enfrentar.
Jacque gostou da reação do filho.
‒ Na vida existem três grupos de pessoas: os vilões, que querem dificultar a vida de todos; os fracos, que não fazem nada mudar sua própria situação e têm medo dos vilões; e tem o grupo da maioria das pessoas, os heróis, que lutam contra o mal e protegem os fracos. Essas pessoas, filho, ou melhor, esses heróis, acordam cedo para trabalhar, estudar, aturam chefes mal-humorados. Esses heróis lutam muito todo dia para (dar uma vida melhor a seus filhos) ter uma vida melhor. Mas agora eu te pergunto:e você, Mick? É o fraco, o vilão ou o herói?
Mick, que ouvia o pai atentamente, respondeu com firmeza.
‒ Pai! Eu sou o herói!
Jacque sorriu orgulhoso e disse para filho:
‒ Isso, filho! Você é o herói!
O carro parou na frente da escola. Din, como de costume, desceu correndo.
‒Valeu, tio Jacque!
Jacque olhou aquele menino correndo e respondeu:
‒Valeu, Din!
Em seguida, ele perguntou para o Mick:
‒ Por que ele só vive correndo?
‒ Sei lá, pai! Deve ser porque ele está sempre atrasado.
‒ É... faz sentido. Bom , vai lá, que você deve estar atrasado também ‒ Jacque deu um beijo na testa de Mick e disse:
‒ Te amo, filho. Você e o herói.
‒ Também te amo, pai. Até a volta.
‒ Até a volta, filho.
Mick andou em direção ao portão de cor verde da escola, mas antes de entrar ele se virou e olhou para Jacque, que lhe retribuiu com uma piscada de olho e um largo sorriso.
Pai e filho não sabiam, mas aquela seria a última vez que eles trocariam um olhar. Dois dias depois, Jacque sofreu um acidente em alto-mar e faleceu. Faleceu como um herói, tentando salvar seus imediatos.
Se eles soubessem que aquele seria o último momento deles juntos, talvez pai e filho continuariam se olhando por mais tempo.
Sete são os destinos, um deles, amaldiçoado. Sete são os cavaleiros que lutam lado a lado.”
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