Orion
12 Reféns
Notas iniciais
Com a ajuda de Melissa, eles forjaram alguns atestados falsos para que Scott, Allison e Stiles pudessem faltar à escola pelo menos até passar o eclipse lunar. No entanto, Isaac ainda tinha que comparecer às aulas e Cora tomou para si a missão de acompanhar o rapaz, como uma sombra.
A rotina nos dias que se seguiram à mudança dos três jovens para o casarão de Deaton se baseava em sentar e esperar. Derek, que ficou com o grupo, mantinha contato com Peter que também se dispôs à ficar de olho em Isaac e Cora. O pai de Allison e o xerife também se falavam várias vezes por dia, apenas para trocar informações sobre a calmaria que parecia ter tomado conta da cidade após o sumiço do professor de química da Beacon Hills High School.
Stiles usava seu tempo para ler o bestiário que Morrell havia lhe dado de presente e para treinar com sua foice. Allison e Scott ficaram impressionados ao constatar as novas habilidades do rapaz e o modo como ele parecia mais forte e livre quando treinava descalço a céu aberto.
– Sou quase o Legolas. – ele brincou, no fim do quinto dia, após saltar de uma árvore tão silenciosamente que conseguiu assustar seu melhor amigo – Nem seus ouvidos de lobisomem conseguem me ouvir.
– Isso é incrível! – Scott exclamou – O que mais você sabe fazer?
– Ah, não muito. Ainda estou estudando e agora que a Morrell não pode mais ficar aqui, porque ela é emissária do outro lado, meu desenvolvimento está mais devagar.
Derek, que observava a conversa, sentado na varanda, sentiu seu celular vibrar e atendeu após ver o número da irmã piscando no visor. Falou com ela por um tempo e assim que desligou, se aproximou do grupo para dar notícias.
– Cora e Isaac vão se atrasar.
– Eles passaram no mercado? – Allison perguntou, lembrando que estavam sem muitos mantimentos em casa.
– Sim, ela me ligou de lá. A fila está imensa porque, ao que tudo indica, uma tempestade se aproxima e os bombeiros soltaram o alerta de possíveis tufões na região.
Stiles olhou para o céu, observando as nuvens que realmente pareciam mais pesadas que de costume.
– Tufões? – Scott balançou a cabeça – Não é perigoso para eles andarem de carro com essa tempestade chegando?
– Não se eles saírem do mercado em no máximo quarenta minutos. A tempestade ainda está longe daqui e se andarem logo, vão dirigir no sentido oposto de onde as águas vão cair. – Stiles respondeu, sem tirar os olhos do céu.
– Você virou o quê? A fada do tempo? – Derek não conseguiu conter o comentário, fazendo tanto Scott quanto Stiles rirem e Allison revirar os olhos, com um sorriso no rosto.
– Não, sourwolf! Eu li isso mais cedo na internet, pelo celular. – ele ganhou um empurrão no ombro e riu mais abertamente.
Se ele pudesse esquecer por um momento que Deucalion existia, que o mundo que ele conhecia estava prestes a assistir o renascimento da besta das bestas, o lobo-demônio, aquele dia seria de pura paz.
– Mesmo que a chuva não tenha começado, é bom nos prepararmos, – Allison lembrou – recolher a lenha antes que fique úmida, tirar os cobertores e toalhas dos varais, checar as trancas das janelas e nos certificar de que temos água potável, já que os alimentos os outros estão trazendo.
– Quanto tempo a tempestade deve durar? – Scott indagou para o amigo.
– Dois ou três dias. Mas os tufões começam hoje a noite e até de madrugada já fizeram o estrago que deveriam fazer.
***
O lugar era úmido e cheirava a ferrugem e mofo. Uma goteira parecia ecoar no fundo do barracão, incomodando mais do que os gemidos que a moça ouvia no canto do que foi um escritório há muitos anos.
Ela estava despida, apenas os cachos avermelhados caindo sobre seus ombros e seios. Sentia a pele arrepiada de frio e medo e os olhos ardendo com a maquiagem que escorreu levada pelas lágrimas de desespero. Seus pés encontravam-se acorrentados e os pulsos irritados com a corda grossa que envolvia a pele delicada.
A constatação de que o homem a sua esquerda era seu professor de química tornava tudo ainda mais bizarro, e o ângulo estranho em que a perna dele estava dobrada indicava uma fratura em pelo menos duas partes.
Lydia tentava se acalmar, pensar racionalmente na situação para encontrar uma saída, mas quando a enorme porta de ferro correu para o lado, iluminando o barracão, ela se encolheu instintivamente.
– Senhorita Martin! – a voz de um homem mais velho encheu o lugar e parecia tremer dentro de seu peito. – É um prazer inenarrável ter uma jovem com tanta habilidade disposta a ajudar a nossa causa.
Ele se aproximou e a luz que vinha de um poste na rua incidiu sobre seu rosto, revelando seus olhos sem íris e um sorriso com presas afiadas. Notando que ela tremia e crispava os lábios, Deucalion se aproximou, pegando uma mecha dos cabelos dela entre os dedos, enquanto falava:
– Sinto que está assustada, senhorita. Não há necessidade disso.
– Fui sequestrada, estou nua e amarrada nesse lugar imundo. É óbvio que estou assustada! — ela grunhiu em resposta, tentando se afastar do alfa apesar d corpo amarrado e praticamente pendurado no teto.
– Oh, sinto que nossa hospedagem não esteja de seu agrado. — ele sorriu, irônico — Mas acredito que podemos chegar a um acordo, se a senhorita cooperar conosco.
– Não vou fazer nada do que me pedirem! — ela respondeu, ainda entre os dentes.
– Que pena! — Deucalion lamentou com um tom fingido de decepção — Mas tenho certeza que se você conhecer Kali mais intimamente, pode mudar de ideia.
A alfa de cabelos longos e garras escuras sorriu de um jeito que lembrava nã uma loba, mas uma pantera e Lydia engoliu em seco.
– O que... o que vocês querem de mim? — ela balbuciou assim que sentiu a mulher correr uma das unhas ao longo de sua barriga, parando na altura do umbigo e fazendo um pequeno corte, de onde algumas poucas gotas de sangue escorreram quentes em contraste com a pele fria.
– Nada de muito complicado, senhorita. Queremos apenas que você grite.
Lydia crispou os lábios com tanta força que eles se tornaram nada mais do que uma fina linha esbranquiçada.
– Se eu fosse a senhorita, me prontificaria a ajudar, senhorita Martin. Kali sabe ser bem persuasiva.
Deucalion se virou e saiu do barracão, tateando o caminho com a ajuda de uma bengala metálica, enquanto Kali rosnava perto do ouvido de Lydia. O líder dos alfas sorriu, assim que fechou a porte e ouviu o primeiro grito da garota.
***
Na casa de Deaton, os jovens atenderam a sugestão de Allison e já estavam quase terminado de empilhar a lenha ao lado da lareira quando ouviram o carro do veterinário se aproximar pela estrada coberta de cascalho. O emissário estacionou e correu para dentro da casa, agradecendo a caneca de chá quente que Stiles acabava de lhe preparar. Sentaram todos ao redor do balcão da cozinha, dando tempo para Deaton se aquecer antes de falar.
– A cidade está um caos. – ele informou – Há pelo menos duas décadas que uma coisa desse tipo aconteceu aqui pela última vez. Ninguém sabe se as linhas de transmissão ficarão disponíveis e a densidade das nuvens tem atrapalhado os sistemas de comunicação via satélite. Além disso, o departamento de segurança do estado alertou as companhias de energia elétrica para que desliguem os geradores das áreas da cidade que não compreendam o hospital, a própria delegacia e os serviços de emergência em geral. De resto, todas as casas ficarão sem eletricidade. Beacon Hills vai ficar completamente no escuro.
Os olhos de Stiles se agitaram ao ouvir a última frase e ele saiu correndo da cozinha, indo em direção à sala, onde um grande mapa astrológico havia sido disposto na noite anterior, quando estudaram o eclipse lunar que aconteceria dali a alguns dias.
Alarmados pelo comportamento do rapaz os outros o seguiram, chamando-o:
– Stiles, o que está acontecendo? – Derek pediu, sentindo a apreensão no corpo do orion passar para o seu próprio corpo, sem, contudo, entender a causa disso.
– Cara, você está nos assustando. – Scott torceu as mãos, sentindo os pelos em sua nuca arrepiarem vendo o modo como Stiles parecia trabalhar sobre a mesa de madeira.
O filho do xerife fez um gesto, impaciente, como se pedisse um minuto para os demais e traçava algumas linhas com uma régua e um lápis, analisando as anotações que haviam feito. Deaton se posicionou atrás de onde Stiles estava e pareceu compreender a linha de raciocínio que ele seguia.
– Faz sentido. – ele murmurou e o orion virou o pescoço para encará-lo, no rosto uma expressão dividida entre o orgulho de um trabalho bem feito e o pânico do que havia descoberto.
– Vocês vão falar o que tudo isso significa ou não? – Scott estava começando a ficar irritado.
– O eclipse não é daqui duas semanas. – Stiles informou.
– Claro que é. A lua só vai estar cheia daqui 10 dias, mas o eclipse que Deucalion precisa para o ritual da mandala não é exatamente descrito como um eclipse lunar. Os sacrifícios devem ser feitos durante um eclipse e nós focamos no eclipse lunar porque ele é o mais próximo, mas apenas na definição astrológica e não alquímica da palavra. – Deaton tentou explicar.
– Em magia, eclipse significa período de grande escuridão. Mas essa escuridão, muitas vezes, foi usada no sentido figurado. Em épocas de guerra, quando alguém morria, quando a peste dominava as aldeias. Tudo isso era tratado como grande escuridão. – Stiles completou.
– Agora, com a energia cortada e o pânico tomando conta da cidade... – Allison abriu a boca, chocada, com o entendimento da situação.
– Sim! – Deaton concluiu – O cenário que Deucalion precisa está pronto. Temos que nos manter distantes desse cenário pelos próximos três dias, quando o período definido para a tempestade passar.
– Vou ligar para Cora e pedir que ela pegue seu pai, Stiles, antes de vir para cá. – Derek falou e levantou da cadeira, mas antes que pudesse tirar o celular do bolso, um grito agudo ecoou dentro de sua cabeça e ele desequilibrou, batendo com o ombro na parede, ao mesmo tempo em que Stiles caía do banco e Scott gemia, apertando as mãos contra a cabeça.
Todos na sala se entreolharam quando a sensação provocada pelo barulho estridente passou. As mãos de Derek ainda tremiam ao discar o número de Cora e ele andava de um lado para o outro, ficando irritado a medida que o celular chamava e ninguém atendia.
– Caixa postal! Mas que porra, Cora! Atende esta merda de uma vez. – ele rosnava para o aparelho.
Scott pegou o seu celular e ligou para o número de Isaac que também não atendeu.
– O que está acontecendo? Por que eles não atendem? – Scott lançou seu aparelho sobre a mesa, completamente frustrado.
– Temos que ir atrás deles. – Derek falou, já buscando a jaqueta de couro e as chaves do carro.
– Mas e a tempestade? – Allison ponderou – Não vai adiantar nada se vocês forem pegos pela tempestade.
Eles começaram a discutir sobre um meio seguro de sair ou de rastrear Isaac e Cora quando o celular de Stiles vibrou sobre a mesa e ele pegou o aparelho notando que era uma mensagem multimídia a partir do número de seu pai.
Abriu a imagem e sentiu as pernas fraquejarem. As vozes ao redor foram morrendo enquanto observavam o rapaz se apoiar na mesa, sem deixar de olhar o celular enquanto respirava rapidamente numa tentativa de controlar o pânico.
– Stiles, o que aconteceu? – Derek se apressou, passando um braço ao redor dos ombros dele, enquanto Scott lhe tomava o aparelho da mão.
Na tela, a imagem do jipe de Stiles capotado, na beira da estrada a caminho da casa de Deaton. Era o carro que Cora e Isaac pegaram para ir à cidade. Logo depois, outra imagem chegou, com ambos desacordados, dispostos ao lado do veículo: Isaac tinha o rosto manchado de sangue, o corte que provocou o sangramento já cicatrizado. Cora também tinha o cabelo um pouco sujo, como se o ferimento estivesse localizado no alto de seu crânio.
– Por que seu pai está enviando essas imagens? – Scott perguntou, mas Stiles não teve tempo sequer de pensar numa resposta, pois o aparelhou vibrou novamente, agora com uma mensagem de texto:
Traga o Qhímmer.
Um silêncio perturbador caiu sobre todos, enquanto se olhavam com tensão, pensando em tudo aquilo. Stiles evitava, a todo custo, não pensar em como os alfas tinham pego o celular de seu pai, quando uma nova mensagem chegou:
Temos bons argumentos.
Anexada à mensagem a foto do xerife amordaçado e com o olho roxo, as mãos amarradas e jogado de qualquer jeito próximo à Isaac e Cora.
Stiles começou a hiperventilar. Agitou os braços para se afastar de Derek e tentou tomar as chaves do carro da mão do alfa, enquanto balbuciava:
– Eu vou... Meu pai... Preciso ir... Ele não pode...
– Stiles! – a voz de Deaton se elevou, com autoridade – Acalme-se primeiro.
– Me acalmar? É o meu pai, porra! – ele gritou, sentindo o corpo inteiro doer com a impotência – Meu pai está nas mãos daqueles monstros por minha causa. Derek, — ele se virou, suplicante, para seu alfa – por favor! Eu preciso ir...
– Aqui, — Deaton passou a frente, entregando um copo com água para o rapaz – beba um pouco de água enquanto decidimos como vamos agir. É óbvio que iremos salvar seu pai, Stiles. Mas não vai ser correndo feito loucos ao encontro da morte.
Stiles ainda tremia ao virar todo o conteúdo do copo de uma vez e quando olhou novamente para Derek, sua visão começou a embaçar.
– O que você me deu? – ele murmurou, forçando-se a permanecer consciente – O que... tinha, Deaton? Na água?
– Desculpe. – ele ouviu a voz de Deaton soando como se estivesse metros longe dele.
Suas pernas amoleceram e ele ainda conseguiu piscar para o rosto de Derek que o segurou antes que ele desabasse no chão.
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