Notas iniciais
Pronto... Não sei como consegui, mas concluí mais uma fic. E uma que, por sinal, não teria mais que o primeiro capítulo. Demorei a postar e confesso que foi muito difícil escrever este final, embora eu já soubesse como tudo ia acabar. Espero que gostem...

Stiles abriu os olhos, sentindo a cabeça rodar e um gosto amargo na língua. O quarto estava com uma fraca luminosidade vinda apenas de um abajur sobre a mesa de cabeceira. As janelas, mesmo sem cortinas, não ajudavam em nada já que a tempestade que havia coberto Beacon Hills ainda não havia se dissipado.

Quando o som de um trovão pareceu sacudir as grades da janela, Stiles sentou-se na cama, apavorado, as lembranças do que tinha acontecido antes vindo com força total a sua mente.

Pulou da cama e correu para a porta, que estava trancada. Ele bateu com força na madeira grossa, gritando por Derek, Deaton e Scott. Mas ninguém respondeu. Era óbvio que eles teriam ido ao encontro de Deucalion e o prenderam ali para evitar que ele fizesse alguma besteira.

Sentou-se no chão frio, sem qualquer tapete para cobrir o assoalho de madeira e bateu a cabeça na parede, completamente frustrado. Seu pai estava refém de um lobisomem psicótico que se intitulava Lobo Demônio e todos a sua volta esperavam que ele ficasse quieto dentro de casa.

Ao menos se pudesse manter uma conexão com Derek para sentir o que estava acontecendo... Com esta ideia, Stiles saiu do torpor que começava a tomar conta de seu corpo e foi para o meio da sala, concentrando-se, pensando em toda a sua energia, mas nada acontecia. Ele simplesmente não conseguia sequer imaginar o rosto de seu alfa. Algo como se a memória do rosto de Derek tivesse sido apagada de sua mente.

– Deaton! – ele gritou para o nada, concluindo que o emissário não apenas trancou a porta, como encantou o cômodo para manter sua magia presa dentro da casa.

Sentiu-se como Magneto preso na cela de vidro em X-Men e chutou a mesa de cabeceira, revelando sua mochila debaixo dela.

Correu para vasculhar atrás de seu celular e, quem sabe, conseguir alguma ajuda, mas tudo o que achou na mochila foram algumas trocas de roupa, o bestiário que ganhou de Morrell e sua foice.

Ele já havia lido quase todo o livro, detendo-se nas passagens sobre a sua natureza como orion, mas nada ali revelava qualquer coisa que pudesse lhe ajudar a sair daquela prisão. Pegou a foice e desferiu alguns golpes inúteis no ar, golpes que ele aprendeu com a emissária, que lhe dizia que poderia canalizar sua magia para a arma que tivesse em mãos.

E foi nesse momento que ele se lembrou de outras palavras que a irmã de Deaton lhe disse naquele dia, após horas de treinamento, quando se preparavam para entrar em casa:

– Você sabe o que faz um Orion, Stiles? Alguma vez já se perguntou por que, dentre tantas pessoas, você é o orion? Porque você sabe enxergar. O Orion é capaz de enxergar além daquilo que todos a sua volta consideram como única verdade. O Orion enxerga além da superfície. Você sempre enxergou além da superfície. Isso faz de você especial.

– Além da superfície. – ele repetiu em voz alta – Além da superfície!

Ele pegou o livro novamente, abrindo no capítulo que detalhava a existência de Qhímmer, Orions e suas relações com os alfas. A princípio não viu nada demais, mas deixou os olhos perderem o foco e conseguiu vislumbrar algo por baixo das palavras escritas em tinta marrom. Era fraco demais para ser distinguido com a pouca luz, mas ele estava determinado a sair daquele claustro e sem se preocupar com mais nada além do pai, Cora, Isaac e os outros reféns de Deucalion, rasgou a página do livro e ergueu em direção ao abajur.

A luz amarelada atravessou a primeira página e Stiles enxergou uma espécie de diagrama. Logo, todas as páginas do capítulo haviam sido separadas do volume total e o rapaz as organizava no chão, mesmo sem conseguir enxergar mais o que elas tinham de oculto. Quando as colocou na ordem certa, correu a mão esquerda pelos pedaços de papel, notando que não precisava mais fazer força para que a sua aura mágica, transformada na luz amarelada que envolvia seu corpo, corresse de seus dedos e revelasse a mensagem que as páginas traziam.

Era uma espécie de ritual, com um desenho um pouco complexo e que parecia só dar certo sob certas circunstâncias.

– “E quando um Orion derrama seu sangue sobre solo sagrado, para proteger seu alfa e todos que dele dependem, tem-se o Dún Aillinie, o elo eterno com a terra. É um elo perigoso que torna o Orion liberto de qualquer limitação física ou energética, e apenas um Qhímmer bem treinado ou amigo de Gaya pode ser capaz de suportar tal liberdade.” – ele lia em voz alta, andando em círculos pelo quarto.

Depois de uma descrição que ele considerou inútil, as páginas traziam as palavras que deveriam ser proferidas, todas elas escritas na linguagem Garou, e o desenho que devia ser feito com sangue sobre o tal solo sagrado.

Stiles reuniu as páginas espalhadas e as organizou novamente dentro do livro, quase sentindo remorso por ter destruído o exemplar único apenas para descobrir como fazer um ritual inútil. Ok, se ele pudesse destruir a barreira mágica que Deaton colocou no quarto, conseguiria correr para ajudar seu pai. Mas onde ele arrumaria um solo sagrado? O Caern ficava muito longe da fazenda.

Ele encostou a testa no vidro da janela no momento em que um relâmpago clareou o lado de fora da casa, deixando o rapaz avistar o velho carvalho que servia de nemeton no lugar, cercado por várias espécies de wolfsbane. E foi como se ele pudesse sentir o cheiro da mátria no ar, lembrando-lhe que ali também era um lugar sagrado.

Não pensou duas vezes quando arrancou a camisa xadrez e puxou a foice, fazendo um rasgo fundo no antebraço esquerdo. Usou o sangue para desenhar as fases da lua sobre o piso de madeira escura, proferindo as palavras que ele não conhecia o significado. Sentia sua energia zumbir em seus ouvidos e seus batimentos cardíacos se acelerarem, e quando traçou no centro do desenho as espirais que formavam a mesma triskele que Derek tinha tatuada nas costas, ele sentiu-se explodir.

Não apenas suas mãos brilhavam em dourado, mas todo seu corpo se mostrava quente e pulsante. As marcas feitas em seus braços pela wolfsbane cintilavam cada vez mais avermelhadas e quando Stiles bateu a mão suja de sangue sobre a triskele pintada no chão, ouviu uma espécie de estalo seco e observou, curioso, que um brilho azulado que ele não tinha notado antes escorria pelas paredes.

Era a magia de Deaton cedendo à energia de Stiles.

O rapaz respirou fundo e se dirigiu para a porta, agora sim concentrando sua força para destrancá-la. Não demorou muito e logo ele estava fora da casa, encontrando seu jipe e tomando o rumo da cidade. Só no meio do caminho é que ele se lembrou que não sabia para onde ir.

***

Os habitantes de Beacon Hills estavam todos cautelosamente escondidos em suas casas, fugindo da tempestade que caía sem trégua em muitos lugares. O vento forte provocava assobios ao passar por prédios e construções, dando a todo lugar um som que lembrava um cântico, um lamento da natureza.

As pessoas que habitavam as áreas de maior risco foram removidas para o ginásio da escola, recebendo colchões e mantimentos do corpo de bombeiros e contando com a escola da polícia que, mesmo sem seu xerife, tinha que manter o foco em ajudar a população.

E no meio de todo o caos que dominava a pequena cidade da Califórnia, um lugar parecia perdido no tempo, desfrutando de uma aura de calmaria. O parque municipal não havia sido afetado pelo fenômeno climático e os únicos sons ecoando pelo local eram gemidos de dor e aflição.

Deucalion sorria, respirando fundo, os olhos completamente vermelhos brilhando na escuridão, enquanto andava através do local onde seus reféns e seu bando estavam dispostos.

Kali, Ennis, Aiden e Ethan, Lydia, Cora, professor Harris, Isaac e o xerife. Todos aguardando que o líder dos alfas se pronunciasse, o que não demorou a acontecer.

– Assim que nossos convidados chegarem, poderemos começar a festa. – Ele tinha as garras a mostra e, mesmo estando cego, podia se movimentar ali, já que se deixava guiar pelo instinto de seu lobo interior. Parou ao lado de Cora e tirou uma mecha do cabelo escuro dela para trás da orelha enquanto deslizava a ponta da garra em seu pescoço, fazendo-a estremecer. Depois andou até Harris que se encolhia no chão, assustado feito uma criança, e se agachou ao lado dele, ia falar alguma coisa quando pegou um aroma no ar – Oras, não é que sinto o cheiro de nossos amigos se aproximando? Ele virou a cabeça na direção da entrada do parque, onde os outros avistaram Peter Hale aparecer acompanhado de Derek e logo atrás Scott, Allison, Chris e Deaton. – Isso é ótimo, pois não vamos ter que enrolar muito para isso começar.

Antes que Harris ou qualquer outro entendesse o que estava acontecendo, as garras de Deucalion afundaram no crânio do professor que não teve tempo nem mesmo para gritar. A vida esvaiu de Harris, os olhos, por trás dos óculos, perdendo o brilho enquanto o sangue escorria por seu rosto. Lydia gritou com a cena, mas sua voz apenas fez Deucalion sorrir os outros membros do bando dele uivarem, satisfeitos.

Os olhos de Scott piscaram vermelhos e ele uivou em resposta, mas de um jeito ameaçador. Deucalion não ficou com medo como o resto de seu bando, pelo contrário. Se ele conseguisse reunir toda a mandala e fazer com que Allison matasse Scott, sua força seria ainda maior, já que o jovem havia se tornado um Alfa Real.

– Bem vindos! – ele falou, a voz reverberando pelo parque – Fico feliz em ver que aceitaram meu convite de forma tão solícita.

– Convite? Deviam ter me dito que isto era uma festa. Eu teria me vestido melhor. – Peter provocou – Minha roupa é adequada apenas para sacrificar cachorros loucos.

Kali rosnou com a provocação, ameaçando atacar, mas um gesto de seu líder a conteve.

– Não há necessidade de haver sacrifícios hoje, nem de seus preciosos amigos e nem mesmo do meu bando. – Deucalion ponderou – Me entreguem o Qhímmer e todos poderemos ir para casa sem maiores perdas. – ele olhou para o corpo de Harris e deu de ombros – Exceto para o bom professor aqui. Mas não creio que ele tenha sido uma grande perda para a humanidade.

– Ninguém toca no Stiles. – Scott rosnou, dando um passo a frente.

– Não preciso tocá-lo, garoto. Apenas uma pequena mordida.

O peito de Derek doeu com aquela provocação e ele não conseguiu controlar um rosnado.

– Ora vejam só! Nunca soube de um qhímmer disputado por tantos alfas assim. Eu, seu melhor amigo e seu... O que você é mesmo? Seu namoradinho? Não importa. Vocês dois são patéticos, despreparados para ter a dádiva de um Orion. Comigo, esse menino vai ser poderoso, mais do que qualquer um de vocês.

– E se Stiles não lhe aceitar? – Deaton quem falou, tomando a frente do grupo.

– Tenho meios de convencê-lo. – ele fez um gesto e Ennis saltou na direção do Xerife, erguendo o homem pela camisa do uniforme.

Nesse momento Allison puxou a besta que carregava consigo e atirou na direção de Ennis, acertando-lhe o braço. O xerife caiu no chão e o lobisomem atingido pela flecha urrou de dor. Ele correu na direção do grupo, ignorando a ordem de seu líder que o mandava ficar onde estava.

Chris Argent também disparou contra o lobisomem que partia em direção a sua filha e ele foi alvejado duas vezes. Mas nem isso o parou. Sua força parecia ser maior do que todos ali e ele avançava, ainda com a flecha presa a seu braço.

Scott foi para a frente de Allison e colidiu com o alfa que não poderia mata-lo. Ainda assim eles lutaram ferozmente, Deucalion gritando para que Ennis não machucasse muito Scott enquanto o resto do bando também entrava em conflito direto.

Derek se atracou com os gêmeos enquanto Kali tentava se aproximar de Chris, ao mesmo tempo em que Deucalion corria até o corpo de Harris para concluir a primeira etapa do ritual.

O líder dos alfas parecia não se importar que seus seguidores se machucassem. O uivo de dor que Ethan deu quando Peter entrou no meio da luta e rasgou suas costas com um galho arrancado de uma árvore qualquer apenas o instigou a correr com a realização da mandala.

Em nenhum momento ele pensou em desistir de sua completa realização. Teria o Qhimmer e teria a mandala e depois disso nada no mundo poderia detê-lo. Rasgou o peito de Harris, arrancando seu coração com a mão esquerda e mordeu o órgão, mastigando com vontade e depois jogou o resto para o lado. Agora, trazia no rosto, manchas de sangue e um sorriso ainda mais psicótico.

Estava andando em direção à sua próxima vítima, O Lobo na Caixa quando algo atingiu seus ouvidos bagunçando seus sentidos. Olhou para os lados, antes de perder o equilíbrioe cair de joelhos.

Doía intensamente. E ele parecia ser o único afetado. Sua visão etérea se desfez por alguns segundos, de modo que ele não conseguiu ver o grito silencioso de Lydia. A garota nua, ajoelhada logo a frente, queria pedir socorro, queria a todo custo impedir que o alfa chegasse até o local onde ela sabia que Isaac havia sido trancado. Ela gritou o mais alto que pode, mas nenhum ruído pareceu sair de seus lábios.

Inteligente, ela observou o que podia fazer. E gritou mais uma, duas, três vezes antes de sentir o corpo ficando fraco e o fôlego sumir de seus pulmões. E quando desmaiou, apenas teve a certeza de que teria retardado a morte do rapaz por algum tempo.

Deucalion ficou quase inconsciente com a dor que o ruído provocou em seu cérebro. Parecia mais como uma enxaqueca multiplicada por dez e ele mal conseguia manter-se respirando para tentar dominar seu próprio corpo.

Ele sequer notou que havia vomitado uma incrível quantidade de fluído negro e viscoso em suas próprias mãos. Também não notou como estava a luta acontecendo atrás de si, e não viu o golpe certeiro que Derek recebeu no rosto, a garra de Aiden rasgando a pele da testa até o queixo e o sangue quente arder em seu olho esquerdo.

***

Stiles quase rodou na estrada, sentindo a visão escurecer e os olhos queimarem de um jeito diferente que o tradicional calor dourado de Orion lhe dava. Passou a mão pelo rosto, assustado e então sentiu o cheiro de sangue. Mas não era o seu sangue. Era algo diferente, levemente doce, misturado com o tom almiscarado que ele conhecia bem.

– Derek! – ele fechou os olhos, finalmente conseguindo visualizar o alfa e seu peito se agitou em preocupação e saudade. Sabia que ele estava vivo, porque caso algo acontecesse com ele, bem, Stiles não estaria mais dirigindo. Ainda assim a dor em sua pele era real demais para ser apenas uma impressão.

Estacionou o carro no acostamento e focou os pensamentos no alfa e lobo uma sequencia de imagens bagunçaram sua mente. Derek rosnando, Scott com olhos vermelhos, seu pai caído ao chão enquanto tentava esfregar alguma coisa nas cordas que amarravam seus pulsos, barulhos de grito e socos numa caixa de metal, Lydia com os olhos assustados e a boca aberta, árvores ao redor de onde todos estavam, Deaton apoiando a mão na terra e murmurando alguma coisa numa linguagem que Stiles entendeu ser garou, Chris arremessando um punhado de pó esbranquiçado no rosto de Kali que berrava de dor, um balanço parado e um roda-roda coloridos atrás do corpo de Harris.

– O parque! – ele finalmente visualizou e acelerou o carro, não estava tão longe assim do local. Sem o trânsito normal, chegaria até lá em meia hora.

Não andou nem mesmo cinco minutos quando uma moto preta fechou seu carro. Quando ele parou, Morrell tirou o capacete e gritou com ele:

– Onde pensa que vai?

– Salvar meu pai!

– Você está louco? Tudo o que Deucalion quer é atrair você para lá. É uma armadilha, Stiles!

– Eu sei! E sei também que todos nós vamos morrer.

– Então qual o plano?

– Matá-lo primeiro. – ele gritou de volta, os olhos ainda mais brilhantes.

A emissária o encarou surpresa. Havia uma verdade tão arraigada por trás das palavras do adolescente que ela não duvidou de que ele seria capaz de fazer isso. Balançando a cabeça, ela jogou o capacete na direção dele.

– Vamos então! De moto podemos pegar um atalho.

Stiles assentiu e subiu na harley, agarrando a cintura da emissária, pedindo a Gaya que protegesse seu bando enquanto eles não chegassem.

***

Deucalion finalmente se recuperou e farejou no ar o saldo da batalha que continuava rolando. Sentiu o cheiro de sangue humano, não o suficiente para matar. Ouviu os sons que seus alfas faziam e faltava os ruídos de um dos gêmeos. Apurou mais ainda seus sentidos e percebeu que quem havia morrido era Aiden. O líder ergueu-se, limpando as mãos nas própria roupa e correu na direção da batalha.

– Ethan! – ele chamou pelo rapaz que respondeu.

– Aqui! – ele tinha a voz mista de tristeza e ódio – Estou aqui.

Mas Deucalion não foi para seu lado a fim de protegê-lo ou dar-lhe qualquer gesto de compaixão. Ele ergueu a mão, as garras de fora e desferiu um corte certeiro no pescoço do rapaz.

O sangue de Ethan se misturou ao de Harris nas garras do alfa e ele uivou, satisfeito. Dois sacrifícios já haviam sido feitos. Sua atenção agora se voltou para os outros cativos. Lydia parecia uma presa fácil, já que estava desacordada. Cora, por sua vez, ainda tinha os olhos brilhando em amarelo, pronta para lutar por sua vida, assim como Isaac estaria, apavorado, dentro da caixa metálica em que estava preso. E havia o xerife. O pai do Qhimmer.

Por um momento, Deucalion pensou que se matasse o xerife, jamais convenceria Stiles a aceitá-lo como alfa. Mas talvez fosse mais fácil acabar com a mandala de uma vez e depois, com a força do lobo demônio, obrigar o rapaz a se tornar seu orion.

Ele andou para o xerife, que só tinha cortado metade das cordas, arrancou o distintivo preso na roupa e uivou, mostrando as presas, avançando com a boca aberta em direção ao pescoço de John.

– Pare! – a voz de Stiles vibrou por todo o ar acima de todos os outros barulhos no parque – Estou aqui.

Deaton arregalou os olhos, assustado ao ver que o rapaz havia escapado da casa. Derek também parecia surpreso e sentiu a tensão tomar conta de si quando Deucalion deixou o xerife no chão e se virou para o menino, parecendo de fato enxerga-lo.

– Você me queria. – a voz de Stiles era estranhamente calma e nem Derek e nem os outros lobisomens conseguiam ouvir as batidas de seu coração. – Ainda me quer?

– Você é o prêmio maior da noite, menino. – ele respondeu, com um sorriso de escárnio – Só tenho um assunto para terminar.

Deucalion tornou a mostrar as presas, agora pensando em atacar Lydia, quando Stiles falou novamente:

– Não! – o tom saiu como uma ordem, algo que tocava o interior do lobisomem e o fez parar, olhando confuso para o filho do xerife – Não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Ou eu, ou eles.

– Ia gostar de ver você me impedir.

– Se faz tanta questão. – Stiles deu de ombros e fechou os olhos, agitando os braços para o alto com movimentos lentos e graciosos e quando abriu os olhos novamente, Deucalion estava caído ao chão, longe de Lydia e de todos os outros reféns.

– Incrível! – ele murmurou, erguendo-se com agilidade – Você é incrível, rapaz. E juntos seremos mais que isso. Seremos invencíveis.

– Seremos. – Stiles concordou, sentindo a agonia que Derek passava a sentir.

Olhou para o seu bando, todos em choque. Seu olhar cruzou rapidamente com o de Derek e sua alma praticamente gritou um pedido de desculpas para o alfa antes de andar até o centro do que seria a mandala e oferecer o braço para Deucalion morder.

Kali notou, alarmada as marcas da wolfsbane mátria no corpo do rapaz que a Deucalion era impossível de ver, mas não teve tempo de avisar seu alfa, pois quando entendeu o que aquilo poderia significar, ele já cravava os dentes na pele pálida de Stiles, sentindo o gosto férreo do sangue quente jorrar em seus lábios.

Stiles sentiu uma dor lancinante através dos membros. A mordida de Derek quando estavam no Caern não havia doído tanto assim. Parecia que um fogo escorria de seu corpo junto com o sangue que continuava a verter dos rasgos provocados pelas presas do líder dos alfas e ele começou a perder o ar aos poucos.

Derek sentiu que finalmente poderia andar, mas Morrell o segurou no lugar, só então revelando ao bando que estava presente. Stiles ajoelhou, colocando as mãos na terra úmida e apertou os dedos, cravando as unhas entre a grama.

Com esse gesto, um brilho escuro escorreu de seus membros, assim como sua já tradicional luz amarelada voltava da terra para seu corpo e ele pode se colocar de pé. Seus olhos brilharam, dourados, enquanto Deucalion esperava, paciente, que a mordida fizesse efeito.

Mas quando isso aconteceu, quando ele finalmente notou algo ocorrendo em seu corpo, não foi o que esperava. Nada de força, de mágica, de sua visão retornando. Pelo contrário. Sentia o corpo estremecer, o ar sumir de seus pulmões. Levou ambas as mãos ao pescoço, sentindo-se sufocar e os olhos inúteis saltarem das órbitas. Sua língua parecia inchada, assim como o local onde o sangue de Stiles havia passado, começava a queimar sua pele.

Stiles se permitiu sorrir vendo o alfa que tanto ameaçou seu bando sucumbir a seus pés. Era isso então, um dos detalhes que o bestiário de Morrell havia lhe ensinado. O sangue do Orion é tóxico para outros lobos. Quem tentasse tomar o Orion a força seria queimado pelo sangue, de dentro para fora.

Scott tinha os olhos presos na cena, tendo subjugado Ennis mais uma vez. Allison e Chris estavam sentados, o mais velho ferido no braço, sendo apoiado pela filha. Peter já havia corrido para livrar Cora das cordas e a sobrinha agora o ajudava a soltar os outros. Deaton se posicionou ao lado da caixa onde Isaac estava para controlar seu ataque de pânico. Apenas Derek e Kali ainda olhavam Deucalion morrer.

E quando o líder dos alfas deu seu último suspiro, a mulher urrou, ensandecida. Vencendo todas as limitações que a energia do Orion impunha a todos os lobisomens, ela partiu para cima de Stiles que não conseguiu prever o golpe e sentiu as garras dela rasgarem suas costas de fora a fora.

Ele caiu em seus joelhos, sentindo a blusa encharcar com seu próprio sangue e os olhos encararem os de seu pai que agora se arrastava até ele. Caiu no colo de John que chorava e falava alguma coisa que ele não conseguia ouvir.

Stiles não viu Kali pegar fogo e morrer consumida pelas Chamas de Gaya, a punição mágica para o lobisomem que atacasse um Orion. Não ouviu os gritos de seus amigos, as palavras de seu pai, o suspiro de Isaac ao sair da caixa e encontra-lo caído, sangrando.

Tudo o que Stiles conseguia ouvir era o coração de Derek batendo no mesmo ritmo do seu. Virou a cabeça, procurando seu alfa e o encontrou ajoelhado a seu lado, sabendo mais que sentindo que ele segurava uma de suas mãos.

– Derek... – sua voz saiu fraca demais, mas ele sabia que o alfa poderia ouvi-lo, ainda que ele não abrisse a boca.

– Shiiiii! – ele pediu, balançando a cabeça – Vai ficar tudo bem...

– Me leva... Caern. Quero ir para o Caern. – seus olhos perdiam o foco e ele respirava com dificuldade.

A ferida provocada por Kali era profunda e Stiles não conseguia sentir mais suas pernas. Seus olhos piscavam com força, na tentativa que ele fazia de permanecer lúcido.

– Onde é isso? – a voz de John era angustiada.

– É nosso lugar sagrado. Da minha espécie. – Derek explicou sem tirar os olhos de Stiles que ficava cada vez mais pálido.

– Por favor... – a voz do rapaz era agora apenas um sopro.

– Vamos levá-lo, filho. Aguente firme!

Deaton se aproximou, ajudando os dois homens a erguer o rapaz e leva-lo até o carro de Derek, enquanto o xerife ia com os outros até a viatura que havia sido deixada ali perto, quando ele foi abordado pelo bando de Deucalion.

Derek já ia dar a partida, quando sentiu a mão de Deaton em seu braço, através da janela.

– Se Stiles não aguentar... Se a mátria do Caern não puder curá-lo, Derek... Você só terá cinco minutos antes de sair de lá. Se o orion morrer no Caern, a passagem se fechará para sempre.

O alfa não respondeu. Olhou para Stiles, acomodado no banco do carro, gemendo quase inconsciente.

– Nós só vamos chegar lá ao amanhecer. – seus olhos perguntaram a Deaton o que sua boca se recusava a dizer: será que Stiles aguentaria a viagem? – O que eu faço?

– Morrell! – Deaton gritou para a irmã que ajudava Allison a colocar Chris em sua SUV. A emissária correu até eles e ouviu o pedido do irmão – Pode leva-los? Até o Caern?

Ela assentiu e foi até sua moto, dando a partida e já manobrando para ficar na frente do carro.

– Nós temos nosso próprio caminho para chegar ao Caern, um mais curto, passando pela fazenda. Ela precisa ir com vocês para não se perderem. Afinal, a missão dela é guiar o orion. Guiar o orion até o fim.

As últimas palavras de Deaton foram ditas com o olhar baixo e Derek agradeceu por isso, assim o emissário não poderia enxergar a lágrima que escorreu em seu rosto.

Eles partiram com a máxima velocidade que seus veículos poderiam alcançar. A viatura ainda vinha com a sirene ligada para espantar qualquer pessoa que estivesse na frente deles. Stiles agora respirava tão baixo que apenas os ouvidos sensíveis do lobisomem eram capazes de distinguir.

Durante a viagem, algumas vezes Derek tocava o rosto ou o braço de Stiles e notava, menos preocupado, que quanto mais se aproximavam do Caern, mais ele emitia seu brilho dourado, principalmente quando suas peles se tocavam.

O atalho pelo qual Morrell os guiou economizou quatro horas de viagem e Derek desceu do carro, pegando Stiles no colo e notando que o menino pesava bem menos do que quando o carregou pela primeira vez naquele mesmo local.

Uma brisa empurrou o aroma de Stiles em direção ao portal de ossos que se abriu imediatamente. O xerife veio logo atrás, com Cora e Isaac. Scott havia ficado para ajudar Allison e seu pai.

Mas o pai de Stiles e a irmã de Derek não conseguiram atravessar o portal. Era como se uma parede de vidro os impedisse de prosseguir.

– Filho! – o xerife gritou, vendo Stiles à distância, sem cor nenhuma na pele além do brilho dourado que emanava de todo seu corpo.

Derek olhou os dois, o xerife e sua irmã, parados do lado de fora. Andou com Stiles até a porta, mas não conseguiu atravessar de volta. Seu coração se apertou, sabendo o que aquilo significava.

A mátria não curaria Stiles e Gaya não deixaria que um de seus Orions morresse em qualquer lugar que não fosse sagrado.

Respirou fundo, sentindo o rosto molhado e percebendo que já não se importava em chorar na frente dos outros e colocou o rapaz sobre a pedra quente que formava o altar do Caern. A mátria plantada no centro logo se agitou, suas flores voando na direção de Stiles, as pétalas suaves acariciando sua pele.

Stiles sorriu, vendo Derek se afastar em direção ao portal. Sem o menino no colo, ele atravessou facilmente e sentiu o chão estremecer a seus pés. O xerife já chorava, compreendendo também o que estava acontecendo.

Mas a mão de Derek sobre o seu pulso tirou sua atenção do rosto do filho agonizante. Derek também puxava a mão de Cora e colocava uma na outra. Encarando o pai de Stiles, ele pediu:

– Cuide dela. Por mim.

– Derek? – a menina parecia confusa e desesperada.

– Por favor, xerife. Ela não tem mais ninguém. Prometa que vai cuidar dela, enquanto eu cuido do Stiles.

– Eu... prometo. Claro! – a voz do xerife era um sussurro ressentido e os soluços de Cora agora chacoalhavam o ombro do pai de Stiles que mal notou que havia puxado a garota para seus braços, enquanto observava Derek correr para dentro do Caern e os portões se fecharem para sempre.

Ajoelhado ao lado de Stiles, ele segurou as mãos do rapaz e depositou um beijo suave em seus lábios frios. O menino conseguiu abrir os olhos e sorrir, apesar de sentir-se triste.

– O que... Derek, você deve ir... O bando... Cora, eu não...

– Não posso, Stiles. – ele se deixou falar, mesmo que as lágrimas tornassem sua voz um tom mais grave. Ergueu os braços do menino para que ele pudesse ver suas próprias marcas – Lembra disso?

– Não há Orion sem alfa. – Stiles suspirou ao falar.

– E não há um eu sem você. – Derek completou.

Eles fecharam os olhos, sentindo o chão tremer mais ainda. A pedra do altar ficou mais quente e Derek se deixou deitar ao lado de Stiles, abraçando o corpo de seu Orion junto de si.

Do lado de fora, Cora ainda soluçava abraçada ao xerife, enquanto todos eles observavam as pedras que circulavam o Caern tombarem, o portão de ossos se desfazer e, de repente, um grande clarão dourado empurrar todos para o chão. E quando eles se levantaram nada mais havia ali.

A volta para casa foi silenciosa. Ninguém se atrevia a discutir o que teria acontecido com os corpos de Derek e Stiles, que simplesmente desapareceram junto com o resto dos elementos que compunham o Caern.

Também não se importavam com o futuro do bando, quem seria o novo alfa ou o que fariam com Ennis, o único sobrevivente do bando de Deucalion.

As nuvens pesadas da tempestade haviam sumido do céu e as pessoas aos poucos voltavam para as ruas, para contar os estragos que os ventos fortes provocaram na cidade, mas isso também não importava para Cora, John, Isaac, Scott e os outros.

Na noite seguinte, já em casa, da janela do quarto de Stiles, tudo o que importava para eles era que sem as nuvens, o céu mostrava novamente suas estrelas. E enquanto os meteorologistas perdiam seu tempo para explicar uma tempestade misteriosa sobre aquela parte da Califórnia, John e os meninos começavam uma espécie de tradição: sentarem-se no telhado para apreciar, com saudade e tristeza a Constelação de Orion que brilhava mais do que nas outras noites e parecia ter ganhado mais duas estrelas.

Notas finais
Eu precisava concluir esse trabalho antes do fim do ano. Espero que o considerem como um presente de Natal.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!