Orion
9 Quimerismo
Notas iniciais
Era estranho voltar para casa. Fazia apenas uma semana que Derek havia aparecido ali mesmo, na varanda e mudado a sua vida. Malditos lobisomens e sua mania de virar seu mundo de pernas pro ar.
O cheiro familiar dos móveis de madeira, das almofadas na sala, da loção pós barba de seu pai... Uma semana apenas para a sensação esmagadora de saudade que só naquele momento percebia que sentia. Não era uma saudade do lugar em si, mas da simplicidade de sua vida antes de Scott ser mordido.
No momento em que guardava a foice debaixo das camisas no guarda-roupa, ouviu um carro se aproximar e logo depois a porta da frente se abrindo. O cheiro de seu pai o atingiu antes mesmo que ele chegasse até as escadas. Era aquela mistura do amaciante de roupa, loção e café sem açúcar. Familiar e dolorosamente aconchegante.
Desceu as escadas aos pulos e puxou o xerife para um abraço antes mesmo que ele se desse conta de que o filho estava em casa.
– Stiles! — a voz dele era abafada, ainda preso no abraço do filho — Não sabia que já estava de volta. Pensei que só viria no domingo.
– Sim, Deaton me liberou mais cedo — o rapaz usou a desculpa que havia combinado com a emissária, antes de entrar em casa.
– E como foi? Pensei que Scott ficaria lá com você, mas avistei ele na cidade algumas vezes.
– Oh... — ele precisava pensar rápido, não queria que seu pai descobrisse sobre lobisomens e criaturas saídas de filmes de terror vivendo em Beacon Hills. Mais ainda, não queria que seu pai se envolvesse com esse mundo. — Scott é melhor com animais domésticos. Aquela rotina de dar banho e colocar lacinho e perfume. Não se adaptou na ONG.
– É, faz sentido. — o xerife balançou a cabeça, alongando o pescoço com uma expressão cansada — Vou tomar um banho e comer alguma coisa. Ainda tenho q voltar para a delegacia. Estamos com baixo efetivo, o Lawrence e o Stue pegaram uma virose.
– Vai dobrar o turno?
– Não tem outro jeito, filho! Ossos do ofício...
O xerife subiu as escadas e Stiles ficou sozinho na sala. Pensava no que Morrell havia dito sobre a necessidade de conseguir as plantas do banco e aquela era a oportunidade que precisava. Correu para a cozinha, fez alguns sanduíches e quando seu pai desceu novamente, ele não precisou muito esforço para seguir com ele até o trabalho. Uma vez lá, em menos de uma hora já estava com as plantas em mão e enviando mensagem ao bando para informar o que tinha conseguido.
Algum tempo depois, deu a desculpa de que ia se encontrar com Scott para comerem alguma coisa e ver um filme e saiu da delegacia, rumo à casa de Derek. Mas antes de deixar a sala do xerife, olhou para trás e falou:
– Amo você, pai!
Não esperou resposta e correu pela rua até a esquina, onde viu o camaro já estacionado. jogou-se de qualquer jeito no banco do carona e suspirou aliviado, sentindo o cheiro de Derek próximo a ele.
Não trocaram uma palavra por todo o caminho e nem mesmo quando subiam as escadas para o loft. Stiles colocou as plantas do banco sobre a mesa de madeira próxima à janela e se encostou nela, finalmente olhando para o alfa.
Derek se aproximou com calma e envolveu o corpo esguio do rapaz num abraço apertado, ficando assim com ele até que sentiu Peter se aproximar. Logo depois Scott e Isaac se juntavam a eles.
A discussão era basicamente sobre como entrar no prédio. Depois que concordaram que era possível quebrar uma das paredes laterais usando seus poderes lupinos, Scott mandou uma mensagem a Allison informando que ele iria com Derek resgatar os corpos dos amigos.
Stiles ficaria no loft, com Isaac, Peter e Cora. O risco de algum dos membros do bando de alfas estar no prédio era grande e não queriam ter que expor o orion a menos que fosse totalmente necessário.
Ao retornarem, Derek e Scott não permitiram que ninguém os visse. Eles foram estraçalhados, literalmente. E se o alfa não conhecesse o cheiro do sangue de seus dois betas teria dificuldade em reconhecer seus corpos.
Foi a pior noite na vida de cada um dos adolescentes. Já de volta ao loft, carregando consigo os corpos de Erica e Boyd enrolados em lençóis escuros, eles permaneceram em silêncio. Scott pensava que nem mesmo a noite em que seu pai saiu de casa podia lhe causar um vazio tão grande assim. A expressão ferida no rosto de Isaac mostrava que ele seguia a mesma linha de raciocínio. As agressões que sofreu de seu pai não doeram tanto quanto aquilo. Cora tinha os lábios crispados, segurando as lágrimas. Ela conviveu com Erica e Boyd por quase um mês inteiro, quando foi pega pelo bando de alfas. Parecia pouco tempo, mas o fato de terem um inimigo em comum os havia aproximado o suficiente para que ela sentisse as suas mortes.
Ela se posicionou ao lado de Stiles, que não tirava os olhos dos dois lençóis escuros dispostos no chão. Entrelaçou suas mãos com as dele e compartilhou por um momento do sentimento que ambos carregavam: culpa. Ela, por pensar que se não tivesse sido libertada um dos dois teria a chance de viver. E Stiles por acreditar que se ele não fosse um Orion, o bando de alfas não teria sido atraído para Beacon Hills.
***
A quietude que tomou conta da cidade nos dias que se seguiram ao resgate dos corpos era sufocante. Stiles e os colegas iam para a escola como sempre, mas era possível notar o quanto se tornaram taciturnos, a tensão em seus ombros pesando quase como uma montanha.
Sentavam-se juntos para o almoço, seguiam-se para a biblioteca e mesmo a prática de lacrosse era acompanhada de perto mesmo pelas meninas. E foi numa das tarde de treinos que as coisas começaram a complicar.
Lydia se aproximou de Allison, sentada na arquibancada ao lado da irmã de Derek, empolgada em lhe apresentar seu novo affair. O rapaz moreno tinha um sorriso torto e uma expressão arrogante.
– Este é Aiden! Meu... amigo especial. Ele e o irmão, Ethan, acabaram de se mudar para cá. — ela sorriu e se sentou ao lado das meninas — Estas são Allison e... Acho que seu rostinho é novo por aqui.
Antes que Cora e Allison pudessem responder, Aiden sorriu de um jeito quase predador e falou:
– Tenho a impressão de que já te vi em algum lugar.- ele falou, se dirigindo a Cora, enquanto sentava ao lado de Lydia, pegando a mão da ruiva e continuou — Na fila do banco, talvez?
A irmã de Derek estreitou os olhos, controlando um rosnado que ameaçou surgir no fundo da sua garganta. Nada que Lydia ou Allison pudessem ouvir, mas forte o bastante, junto com sua pulsação, para chamar atenção de Scott e Isaac que estavam em campo.
– Não duvido. — a menina respondeu — Esta cidade é tão pequena que é fácil esbarrar em qualquer idiota por aí.
– Wow! Senti uma tensão estranha no ar? — Lydia chamou a atenção, ganhando um sorriso do rapaz ao seu lado. — Quem é sua amiga, Allison?
– Cora. — Allison respondeu — Cora Hale.
As sobrancelhas de Lydia tremeram um segundo, antes que ela se impedisse de esboçar qualquer reação. Por fim, deu um sorriso para a garota e esticou a mão em cumprimento:
– Prazer! Sou Lydia Martin. Olhando bem para você dá para pensar que mau humor talvez seja uma coisa genética.
Antes que Cora pudesse retrucar outro rapaz surgiu, parando atrás deles. Uma cópia fiel de Aiden. Allison não precisou de qualquer indicação para entender que aqueles eram os gêmeos que formavam o Lobo de Duas Cabeças.
Não houve tempo para apresentações porque naquele momento Stiles saiu do vestiário em direção ao campo e um vento mais forte soprou na direção da arquibancada. Os gêmeos e Cora sentiram o cheiro adocicado que Stiles emanava constantemente e Allison notou, alarmada, o modo como os dois alfas tremeram com a constatação de que o rapaz estava ali tão perto.
– Temos que ir. – ambos falaram para Lydia e começaram a descer as escadas.
Cora saltou também, correndo o máximo que podia sem se importar que sua agilidade parecesse suspeita. Scott e Isaac olharam para a garota e deixaram os tacos no chão, movendo-se para frente do filho do xerife, como se pudessem criar uma barreira contra qualquer tipo de investida.
Mas os alfas pararam antes de pisar no campo, os olhos piscando brevemente em tons vermelhos e as garras começando a despontar nas pontas dos dedos.
– Saiam do caminho! – Ethan ordenou, a voz parecida com um rosnado preso no fundo da garganta.
– Não! – Scott respondeu, fechando os pulsos.
– Escute aqui, rapaz, nada do que fizer vai nos impedir de colocar as mãos no Qhímmer. – Aiden tomou a palavra, de um jeito mais ameaçador.
– Eu – falei – não! – Scott pontuou cada palavra com uma firmeza que ele mesmo não sabia possuir, e deu um passo a frente, sentindo seus olhos queimarem mais do que o normal.
Os dois alfas franziram as sobrancelhas numa expressão levemente confusa e recuaram.
– Vocês podem ficar com ele por enquanto. – o “amigo de Lydia” respondeu – Mas quando Kali chegar, estou certo que ela o toma de vocês. Ela sabe ser muito persuasiva quando quer agradar Deucalion.
Eles deram as costas ao grupo e correram dali no exato instante em que o treinador aparecia. Os lobisomens trocaram um olhar, tendo uma espécie de conversa silenciosa que terminou com Scott e Isaac escoltando Stiles até o campo e Cora voltando para perto de Allison que já ligava para seu pai.
– O que vocês pretendem fazer? – a caçadora perguntou.
– Seguir o conselho de Peter: vamos jogar xadrez, com as peças brancas.
***
Chris Argent estava parado, encostado a seu carro, no estacionamento da escola quando as aulas acabaram. Assim que o grupo apareceu na porta, ele andou até a filha, cumprimentou-a rapidamente e se virou para Stiles, dizendo:
– Você vem comigo, Stilinski. Derek acha mais seguro que você esteja em nosso território esta noite. Allison e eu poderemos cuidar da sua segurança.
– E ele? E os outros? – o rapaz indagou.
– Os outros têm assuntos para lidar.
Stiles não questionou mais. Apenas apertou a alça da mochila junto ao ombro e entrou no banco de trás do carro, enquanto Allison se sentava na frente, ao lado do pai. Ele evitou olhar para os lobisomens, mas sentia que suas marcas provocadas pela wolfsbane queimavam e sabia que com isso, os olhos deles ali também estariam brilhando. Estavam conectados de tal forma que Stiles tinha medo que se os olhasse, eles perceberiam suas reais intenções.
Seguiram num silêncio estranho por todo caminho, interrompido apenas quando o rapaz usou o celular para avisar que iria estudar na casa da amiga.
Entraram no apartamento e os dois jovens foram para o quarto de hóspedes, deixar as coisas do filho do xerife, enquanto Chris se trancava no escritório para ligar para Derek e informar que Stiles estava bem.
Allison fechou a porta também e virou-se de frente para Stiles, uma das sobrancelhas erguidas:
– Você não costuma ser tão apático.
O rapaz finalmente se deixou sorrir e encarou a moça, com um ar bem típico do bom e velho Stiles:
– Ainda bem que você também não é desse tipo.
A morena apenas balançou a cabeça em concordância e eles se entenderam.
Sentaram-se à mesa da cozinha com livros abertos e falsa atenção aos deveres de casa enquanto Chris rondava por ali, preparando o jantar. Comeram a carne assada com batatas e conversaram amenidade como se o mundo lá fora não estivesse a beira de uma pequena guerra sobrenatural.
Quando o celular de Chris tocou e ele atendeu, não falou uma palavra e também não saiu do cômodo. Ouviu tudo em silêncio por quase cinco minutos e quando desligou, levantou da mesa e falou para Allison:
– Está na hora. As janelas e portas estão trancadas e seladas. Você sabe onde está o arsenal, embora eu duvide que eles provoquem caçadores. Vocês estão em segurança.
– Você vai...?
Não! – ele interrompeu a pergunta antes que ela concluísse o pensamento – Não vou lutar. Sou apenas suporte, no caso de algum imprevisto. Não se preocupe, voltaremos todos bem.
Ele saiu do cômodo e minutos depois deixava a casa, usando uma pesada jaqueta de brim que Stiles tinha certeza ser cheia de bolsos para caber as inúmeras armas que o caçador usava.
– Quer sobremesa? – Allison perguntou, pegando sorvete da geladeira e servindo dois potes para ela e para Stiles.
Comeram por um tempo, ainda em silêncio, até que a moça falou:
– Ótimo! O que faremos?
– Você tem vídeo game? – ele respondeu com a sobrancelha erguida, puxando o caderno que estava sobre uma cadeira e rabiscando as palavras celular.
A garota leu a palavra e notou que o celular do pai foi supostamente esquecido sobre o armário da cozinha. Ela sorriu e respondeu:
– Eu não sou o Scott, não gosto de vídeo game. Mas a gente pode ver um filme.
– Qualquer coisa que não seja uma comédia romântica, pelo amor de Deus.
Eles caminharam pela cozinha, tentando soar o mais natural possível e a garota olhou pela janela, observando o carro do pai ainda parado na frente do prédio.
– Acho que tenho X-Men por aqui. Ou Avengers.
– É óbvio que você tem Avengers. Tem um arqueiro no filme. Não me espantaria se você dissesse que o Legolas é seu personagem preferido em Senhor dos Anéis.
– Como adivinhou? – ela sorriu, piscando, quando o pai ligou o carro e saiu.
No mesmo instante, Stiles viu a luz do celular apagar e a mensagem “chamada finalizada” aparecer na tela.
– E agora? – ela perguntou.
– Agora você me conta o que seu pai foi fazer. E depois penso em alguma coisa.
Rapidamente, Allison falou que havia ligado para o pai logo após a aparição dos gêmeos na escola e que Chris tinha entrado em contato com Derek e Peter. Eles pediram ao caçador que conseguisse afastar o rapaz de qualquer perigo, abrigando ele seua casa enquanto eles marcavam um encontro com o bando de alfas.
– Eles estão indo para esse encontro a troco de quê?
– De convencer o líder deles que você não está disponível.
– Incrível! Agora me sinto uma donzela do século passado tendo a honra disputada. – ele esfregou os olhos com força e deu um suspiro cansado – Isso não vai funcionar.
– Eu sei que não. Por isso meu pai foi para lá. Para ficar na retaguarda caso algo saia errado. Lobisomens são muito territorialistas e essas disputas nunca ficam apenas na conversa. – vendo que o rapaz ficava em silêncio, ela questionou – O que está pensando?
– Se no seu arsenal tem alguma foice de cabo curto.
***
O antigo shopping desapropriado de Beacon Hills era o local do encontro marcado. Derek tinha Scott ao seu lado, assim como Isaac logo atrás. Peter sentou-se num balcão coberto de poeira e Cora mantinha-se de braços cruzados, os ouvidos atentos a qualquer ruído diferente do coração deles.
– É muita amabilidade do seu bando se apresentar em peso para nosso encontro, Hale! – a voz firme marcada por um tom de ironia soou logo acima, no alto da escada rolante desativada. – Acho que você já conhece meus pupilos, Kali e Ennis. E ali atrás estão meus pequenos Aiden e Ethan.
Ao lado do homem que usava um casaco cáqui sobre calça e camisa pretas, estavam uma mulher de cabelos negros, olhos vermelhos e garras escuras e compridas, prontas para o ataque e um homem careca, muito alto e musculoso. Os mesmos que invadiram o loft quando levaram Cora de volta para casa. E logo atrás dos dois estavam os gêmeos que Scott e Isaac já conheciam.
– E como devem ter previsto eu sou Deucalion. Agora seria educado se nos apresentasse para o seu bando, embora que ache que ele esteja consideravelmente menor.
Um rosnado surgiu baixo, no peito de Isaac, mas ele logo trincou os dentes para não fazer nenhuma besteira.
– Scott, Isaac, Cora e Peter. – Derek indicou cada um com um gesto e se calou.
– Está faltando um. – Deucalion ressaltou – Um membro particularmente interessante que aliás deveria ser a pauta desta reunião. Onde está o Qhímmer?
– Em segurança. – Derek respondeu, rápido.
– Você acha que eu poderia ameaça-lo? Logo ele que é algo tão precioso?
– Acho que você pode ameaça-lo, no momento em que perceber que ele não vai escolher outro bando.
– Não espero que ele escolha outro bando, Derek. Espero que nossos bandos possam se unir.
– Isso não acontece! – Peter finalmente esboçou alguma reação – Bandos não se unem, a menos que haja uma doação de sangue.
– Sim! Não creio que isso seja problema. – Deucalion deu de ombros e esticou uma das mãos na direção de Kali que logo lhe deu o braço para guia-lo escada abaixo, só então revelando aos outros que era cego – Você pode escolher outro desses adolescentes desajustados que você chama de beta para sacrificar e assim selar nossa união. Imagine como seremos fortes? Um bando de alfas com um orion.
– Ninguém vai ser sacrificado. – Derek sentenciou.
– Hum. Isso complica um pouco os nosso assuntos. Acho que vou ter que persuadi-los então.
Ele fez um pequeno gesto e logo os gêmeos saltaram de onde estavam correndo cada um na direção de um dos lobisomens. Aiden foi lutar contra Isaac, enquanto Ethan foi para o lado de Cora.
Derek rosnou alto e saltou na direção de Deucalion, mas foi bloqueado pro Kali que também rosnou e partiu para cima dele a fim de proteger seu líder.
Ennis foi com toda agressividade para cima de Scott, conseguindo empurrar o beta com um soco certeiro em seu estômago. E logo o som dos golpes assim como o cheiro de sangue derramado de cortes feitos por garras e dentes começou a encher o local. Apenas Peter permaneceu quieto em seu canto, observando não a batalha, mas as reações de Deucalion.
Do lado de fora do galpão, Chris esperava atentamente, ouvindo a batalha lupina que parecia seguir como todas as outras. E estava tão atento a sua missão que não prestou atenção em duas figuras vestidas de negro que se aproximaram furtivas do local, entrando por uma porta lateral que antes servia para a entrada exclusiva dos funcionários que faziam a manutenção do prédio.
Allison ia à frente, protegendo Stiles, que ainda não tinha experiência em batalha. Ela se deixou guiar pelos sons dos rosnados e corpos se chocando na luta e parou um patamar acima de onde todos os lobisomens se enfrentavam.
Observou, levemente surpresa quando um dos gêmeos rasgou sua própria camiseta e agachou no chão, dando espaço para que o irmão se apoiasse em suas costas e eles se transformassem num único ser.
O uivo que a criatura soltou distraiu Derek que recebeu um golpe das garras de Kali e urrou de dor, fazendo os olhos de Stiles brilharem de ódio. Ele ia dar um passo a frente, mas Allison o segurou, observando que Derek se recompunha e continuava a lutar.
Quem estava em apuros era Cora que agora tinha a atenção do monstro voltada só para si. Até que Allison a viu encurralada e armou seu arco para disparar uma das flechas incandescentes. Stiles percebeu o que ela ia fazer e fechou os olhos, pedindo em pensamento que Derek, assim como os outros pudessem fechar os olhos também.
– Por favor, feche os olhos!
As palavras dele ecoaram primeiro na cabeça do alfa e logo depois o resto dos betas também pareceu ouvir. Derek sabia que não podia procurar Stiles ali, não poderia dar dicas de que seu Orion estava presente. O cheiro de sangue e poeira devia estar abafando o aroma dele e por isso ninguém havia notado sua presença. Mas ele sabia que não poderia negar um pedido de Stiles e fechou os olhos, sabendo que os demais também obedeceriam, no exato instante em que a flecha bateu na pilastra atrás de Cora e explodiu, cegando momentaneamente os adversários.
Foi o bastante para que Derek conseguisse derrubar Kali em cima de uma viga que atravessou um de seus braços e Cora, escapar dos gêmeos que voltaram a seus corpos normais. Mas Ennis estava de costas para a explosão e continuava a ir para cima de Scott, arremessando o rapaz contra uma parede. Allison sabia que outra flecha não só não ia funcionar, como poderia denunciar a posição em que estavam, quando Stiles notou que suas mãos brilhavam, pequenos pontos vermelhos pulsavam ao longo das marcas de seus braços e a ira que ele sentiu ao ver seu melhor amigo golpeado tão duramente o fez estremecer enquanto sentia palavras brotarem em sua boca, coisas que ele jamais seria capaz de repetir e que só eram audíveis para si.
Quando olhou de novo para Scott, o amigo havia levantado e estava envolto por uma nuvem que poeira de construção misturada a pontos que cintilavam vermelho e entravam em sua pupila. Quando o rapaz encarou o alfa novamente e rosnou, seus olhos não tinham mais o brilho amarelo de beta. Eles piscavam num tom ainda mais vermelho que de todos os alfas presentes e ele atacou.
Sua força superou a de Ennis e ele ia rasgar a garganta do adversário com as garras, quando ouviu dentro de si algo que lhe dizia para não se sujar. Aproximou o rosto do homem careca e rosnou uma última vez, cuspindo em sua cara e saindo de cima dele.
Derek fez o mesmo com Kali. Uma coisa que poucos no mundo sabiam. Para um lobisomem, é impossível tirar a vida de quem poupou a sua em algum momento. Se eles poupassem a vida dos adversários, eles não poderiam ataca-los.
Mas a dívida de vida só fica restrita ao lobisomem que não foi morto, e não se estende a seu bando, assim, no momento em que Derek e Scott deram as costas à batalha, cada um dos gêmeos partiu para atingi-los.
Stiles observava a cena como em câmera lenta. E a tensão pela batalha acumulava-se ao redor dele como uma nuvem de energia dourada que agora até Allison conseguia ver. Quando o rapaz percebeu que as duas pessoas mais importantes de sua vida, depois de seu pai seriam cruelmente atacadas pelas costas, ele gritou.
Um grito alto, forte, que fez as paredes tremerem. Assim que Aiden atingiu as costas de Derek e Ethan desceu as garras pelas costas de Scott, a energia dourada de Stiles disparou sobre os gêmeos que começaram a gritar.
Ethan se jogou no chão, esfregando as garras sobre ele mesmo, completamente apavorado:
– Aranhas! Aranhas... Tirem elas daqui. Elas estão subindo em mim. Entrando em mim. – ele berrava, enquanto se arrastava no chão, parecendo querer tirar a própria pele para se livrar das aranhas imaginárias.
Enquanto isso, Aiden começava a tremer, bater queixo, abraçar o próprio corpo e olhar para os lados, piscando sem parar.
– Não consigo! Kali, me ajuda! Não consigo ver nada com essa chuva! – ele abaixava no chão, tampando os ouvidos e gritando – Parem esses trovões. Por favor! Parem os trovões!
A expressão de Deucalion era de êxtase. Ele não se preocupava se seus companheiros estavam machucados. Ele estava encantado com a situação. Calmamente tirou os óculos escuros e estreitou os olhos totalmente cobertos de vermelho.
Sua visão comprometida quando abraçou a necromancia não o impedia de chegar a mágica. Esse foi seu trato com as forças ocultas. Daria a visão das coisas mundanas em troca de poder enxergar as forças da alma de cada indivíduo. Isso o permitiu encontrar seus pupilos e saber quem faria parte da mandala.
E agora ele consegui ver o feitiço que envolvia os gêmeos e as trilhas do poder que saíam de onde os jovens estavam entregues à seus piores medos até o patamar superior, onde Stiles estava ajoelhado, o rosto num misto de ira e concentração.
– Quimerismo! – Deucalion murmurou.
Mas a voz dele foi quase um grito para os ouvidos de Stiles que virou o rosto imediatamente na direção dele, encarando-o quase sem expressão. Ele piscou e seus olhos voltaram à cor normal, enquanto ele puxava uma das adagas que Allison havia lhe emprestado, no lugar da foice que ela não tinha em casa, e a atirou na direção do líder dos alfas.
Deucalion não conseguiu se esquivar e a lâmina de prata atingiu seu ombro, abrindo um rasgo profundo quase até o osso. Seu uivo de dor foi o suficiente para que Ennis viesse lhe ajudar, assim como Kali que havia conseguido se erguer sozinha da viga presa no braço. Aiden e Ethan pareciam ser os mais afetados ainda se recuperando o feitiço que cessou quando Stiles desviou os olhos deles.
– Ainda vamos nos ver. – Deucalion conseguiu gritar, entre os dentes, antes de ser arrastado para fora do shopping.
Derek ainda estava sangrando dos cortes feitos pelas garras de Kali e Aiden quando correu para a escada que dava acesso ao piso superior, onde Stiles e Allison estavam. Os outros seguiram os passos do alfa e foram ao encontro dos dois, mas assim que chegaram perto, Stiles respirou aliviado ao ver Scott e Derek vivos e desmaiou.
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