Orion

10 Cartas na Mesa


Notas iniciais
Algumas coisas precisam ser esclarecidas e este capítulo é isso, uma forma de amarrar mais algumas pontas soltas. É um capítulo curto, como os próximos devem ser até o capítulo final que deve ser o maior até agora.

O cheiro de álcool e ambiente estéril era familiar quando ele piscou os olhos, mas o teto completamente branco e o zunido das luzes fluorescentes eram diferentes da clínica de Deaton. Além disso, o bipe contínuo de algum aparelho e a picada incômoda sobre sua mão direita, onde o IV tinha sido inserido indicavam que ele devia estar em um hospital de verdade.

E logo, flashes da luta contra o bando de Deucalion vieram com força e ele praticamente saltou na cama, sentindo sobre si o peso da realidade. Queria falar, mas sua garganta parecia ressecada e algo em seu abdômen doeu tanto que sua vista escureceu novamente.

– Calma! — ele ouviu uma voz familiar se aproximar enquanto braços firmes seguraram seus ombros.

Ele respirou fundo algumas vezes e sua visão começou a clarear, permitindo que ele visse os cachos loiros do rapaz que segurava um copo de água em sua direção.

– Isaac? Onde estão os outros? Derek e Scott eles... Eles se curaram?

– Se você prometer se acalmar eu lhe explico o que puder. – respondeu com firmeza.

Stiles aceitou o copo de água e tornou a se recostar nos travesseiros, respirando profundamente antes de encarar o lobisomem à espera de respostas.

– Todos se curaram, Stiles. Em pouco tempo. Scott é o único que ainda tem uma sequela, não sei se é essa a palavra adequada... Mas ele ficou marcado e pelo que Deaton disse, é definitivo. E o Derek que está ainda mais insuportável, ligando a cada meia hora para saber sobre o seu estado, embora ele tenha ficado com você nos últimos dois dias.

– Dois dias? – era tanta informação para processar, mas o detalhe do tempo em que ele passou desacordado foi o que mais lhe alarmou naquele momento – Eu fiquei dois dias desacordado?

– Não, Stiles. Você ficou duas semanas inteiras. Morrell disse que talvez você tenha esgotado suas energias, já que ainda não sabe como controla-las direito.

O filho do xerife fechou os olhos e estremeceu, cedendo sob o peso das dúvidas que brotavam rapidamente dentro de si. Isaac achou melhor continuar a falar, dar a mente hiperativa de Stiles mais informação para que ela não se corroesse em indagações.

– Ficamos todos muito preocupados com você e os médicos não conseguiram nenhum diagnóstico. Eles acharam melhor manter você aqui para monitorar suas funções vitais e administrar o soro para que você não ficasse desnutrido ou desidratado e agravasse o quadro clínico.

– Meu pai? – ele perguntou ainda de olhos fechados.

– Está em casa, com o resto do bando.

– O resto do bando? – ele abriu os olhos endireitando o corpo – Como... O que isso significa? Meu pai tinha que ficar de fora disso, Isaac!

– E o que você queria que a gente fizesse? Stiles, você simplesmente não acordava. Deaton tentou tudo ao alcance dele e você permanecia inconsciente.

– O que disseram para ele?

– Apenas o suficiente para que ele possa entender a nossa situação. Foi engraçado, no entanto, quando Scott se transformou na frente dele. – ele deu um sorrio torto, lembrando da cena – Você ia gostar de ver.

– Imagino. Eu ia adorar ver meu melhor amigo tentar matar meu pai provocando um ataque cardíaco nele.

– Não seja tão duro! Scott fez isso com a melhor das intenções. E sim, foi divertido. Ainda mais quando ele ficou dando pequenos petelecos nas pontas das orelhas dele para ter certeza que eram de verdade.

Stiles esboçou um sorriso com a ideia, mas ainda se sentia apreensivo com o fato de seu pai se inteirar sobre a guerra sobrenatural acontecendo em Beacon Hills.

– Ai porra! – Isaac resmungou, tirando o celular que vibrava do bolso da jaqueta – É Derek, querendo mais informações sobre você!

Stiles fez um sinal, pedindo para atender e o rapaz passou o aparelho para ele. Do outro lado da linha, a voz de Derek era seca:

– Os dados de sempre, Isaac. Frequencia cardiorrespiratória, pressão sanguínea, tom da pele...

– A sua voz fica sexy quando você usa termos médicos, sabia? – Stiles cortou o alfa, sentindo-se finalmente bem após ouvir a voz dele mesmo que pelo celular.

– Stiles? – Derek soou aliviado e ao mesmo tempo preocupado.

– Oi, sourwolf!

– Como você está? Acordou quando? Já viu os médicos?

– Calma aí, lobo mau! Acordei não tem meia hora e ainda não vi os médicos. Quero ver você primeiro.

– Chego em 20 minutos. – Derek respondeu e desligou.

Ele chegou em 15. E entrou no quarto que Stiles ocupava como se tivesse passado os últimos dias com o peso do mundo sobre as costas e ao ver o rapaz sorrindo deixou escapar até mesmo um soluço, uma espécie de choro seco preso na garganta por tanto tempo. Ergueu sua mão para tocar a ponta dos dedos do rapaz e sentiu uma corrente elétrica percorrer toda sua pele e Isaac exclamar, surpreso:

– Caras, vocês estão brilhando!

Stiles sorriu ainda mais, notando que era possível distinguir veios de luz amarela correndo entre ele e Derek e se dissipando aos poucos.

– Quantas leis de trânsito você quebrou para chegar até aqui? – Stiles brincou, agora entrelaçando seus dedos com os de Derek e o puxando para sentar com ele na cama.

– Nenhuma! Graças a seu pai que veio na frente com a sirene ligada.

– Meu pai está aqui? – a respiração de Stiles falhou.

– Sim, está esperando com a mãe do Scott no corredor. Ele vai entrar assim que Isaac e eu sairmos. Vocês dois tem muito que conversar.

Ainda foram cinco minutos até Derek saiu do quarto, seguido por Isaac e instantes depois o xerife entrou. A Stiles, pareceu que o mundo parou naquele momento. O rosto de seu pai exibia rugas que não estavam ali antes. Ou será que já estavam e ele não foi capaz de perceber, tendo voltado seus olhos para outras coisas que julgou mais urgente?

John parou a alguns centímetros da cama e encarou o filho, os olhos revelando o medo que ele sentia e tentava esconder.

– Pai, eu...

– Shiiii! – ele interrompeu e deu dois passos, puxando Stiles para seus braços.

Mas em vez daqueles abraços apertados que eles costumavam se dar quando queriam ter a certeza de que ambos estavam bem, John apenas se sentou na cama e fez Stiles deitar em seu colo. Do mesmo modo que fazia logo que as crises de pânico do menino começaram após a morte de sua mãe, deixando os dedos correrem pelo cabelo curto, enquanto balançava o corpo para frente e para trás.

– Shiiii! – ele repetiu, as mãos agora alcançando a marca de wolfsbane feita em seus pulsos – Vai ficar tudo bem. Eu sei, agora eu sei. E estou aqui, ok? Para você. Para Scott. Para o resto do que vocês chamam de bando. Só... me deixe fazer parte disso, porque isso é parte de você. Me desculpe, por não ter notado nada antes. Sua mãe teria... Ela tinha um dom especial para enxergar coisas que mais ninguém enxergava. Ela até me enxergou no meio da multidão. Mas eu enxergo agora, não se esqueça disso, ok?

Stiles não se lembraria, horas mais tarde, do que respondeu a seu pai. A única lembrança que ele tinha era do xerife o apertando mais ainda entre os braços.

Eles voltaram para casa no dia seguinte, depois que o rapaz passou por outra bateria de exames para afirmar mais uma vez que ele estava bem. Quando desceram do carro é que Stiles se lembrou do que Isaac havia falado sobre Scott ter um dano permanente.

– Pai, o Scott, Isaac me disse que ele teve sequelas.

– Não sei se é uma sequela, filho. Não o vi se transformar antes, mas acho que você, melhor do que ninguém, vai notar quando ele lhe mostrar.

– Nada para me preocupar?

– Nada, até o momento.

– Ok!

Na varanda, Stiles notou alguns entalhes feitos na madeira da porta e das janelas. Xerife captou o olhar intrigado dele e respondeu antes que a pergunta fosse formulada:

– Símbolos druidas de proteção. Deaton achou necessário depois do que aconteceu.

Na sala, o bando, incluindo Peter, esperava por ele. Todos o tocaram da maneira que podia, tentando checar ferimentos inexistentes, e só pararam quando Derek rosnou. Eles se afastaram e deixaram o alfa se aproximar e tocar a testa do rapaz, que respondeu no mesmo gesto.

Aos poucos, os corações se acalmaram e eles aceitaram, de bom grado, a ideia do xerife de pedir pizza e tentarem agir como pessoas normais por uma noite antes de voltarem para a guerra.

Stiles queria perguntar a Scott sobre o que havia mudado, queria discutir com Deaton sobre a mágica que fez, mas acabou obedecendo seu pai pelo menos uma vez na vida.

E eles já haviam terminado as caixas de pizza e discutiam se pediam comida chinesa ou frango frito quando Stiles ouviu um grito. Ele ergueu a cabeça, na direção do som, que parecia vir do lado de fora da casa.

– Está tudo bem? – Cora perguntou, notando que a atenção do rapaz havia se perdido da discussão sobre comida.

– Sim. Só pensei ter ouvido um...

Ele não terminou de falar. O grito agora parecia ecoar dentro da sua cabeça e era insuportável. Instintivamente, levou as mãos à cabeça, na tentativa de tapar as orelhas, mesmo sabendo que o som não vinha de fora. O barulho se tornava maior e a dor em seus tímpanos crescia consideravelmente. Ele acabou caindo do banco, sentindo lágrimas escorrerem por seu rosto e quando Derek levantou para acudir o rapaz, também se agachou, com a mesma expressão de dor e desespero. E no instante seguinte, todos os lobisomens pareciam ter ouvido o grito horrível dentro de suas cabeças.

Do mesmo jeito que o grito veio, ele se foi e Stiles arfava, olhando aturdido para os amigos. Até que seus olhos clarearam com a constatação de algo: ele conhecia aquela voz. Ele sabia quem era a única pessoa capaz de gritar daquela forma.

– Lydia!

Notas finais
Vou dar dedicação total a esta fic que deve ser concluída até o fim da semana que vem.