Orion
6 Almas seladas
- Não vou mais deixar você sozinho. – Derek quebrou o silêncio que os envolvia há quase meia hora.
Ainda estavam praticamente na mesma posição de quando Cora havia saído da sala, sentados de frente um para o outro e as mãos entrelaçadas. Apenas haviam se aproximado mais, de um jeito em que o alfa poderia sentir o cheiro de Stiles e ouvir as batidas do coração dele.
- Isso também não faz parte dos meus planos. – o rapaz respondeu num sussurro – Não consigo me concentrar sabendo que você pode estar em perigo. Se eu tiver meus olhos em você, acho que vou poder fazer muito mais do que empurrar a Morrell numa árvore ou me enrolar com plantas estranhas.
- Você fez o quê? – Derek não conseguiu evitar um sorriso.
Era óbvio que viviam uma situação crítica, a guerra declarada em troca da cabeça de Stiles, mas estar ali com seu orion lhe dava a sensação de que todos os fardos do mundo que ele poderia carregar eram mais leves. O tom irônico que nunca abandonava a voz do filho do xerife era uma música que acalmava seu coração.
- Eu bati na Morrell. Quer dizer, acho que nem encostei nela, porque ela me manteve de olhos vendados. Mas quando ela gritou e eu tirei a venda, ela estava a uns 3 metros de mim, caída no chão. Foi legal!
- Você deve lutar melhor que eu.
- Não duvido disso, sourwolf.
Stiles soltou as mãos de Derek e ergueu os braços para cima, espreguiçando e deixando a mostra as marcas escuras feitas pelos galhos da mátria.
- O que é isso? – Derek puxou seus pulsos, a testa franzida, preocupado – Quem fez isso? Morrell lhe machucou?
Ele parecia pronto para levantar dali e rasgar o pescoço da emissária, quando notou Stiles sorrindo e tornou a se sentar.
- Você fica adorável quando está desse jeito, dividido entre preocupado e ciumento.
- Não é nada disso.
- Oh não... Ok, certo. Faça de conta que é verdade que eu faço de conta que acredito. Sinto muito, sourwolf, sou seu orion agora. Sei quando está mentindo. Nessa sua mente perturbada, o único que pode me deixar marcas é você.
Derek abriu a boca para retrucar, mas parou chocado com a verdade daquela afirmação. Stiles era SEU orion. Seu. E ele não conseguia evitar a sensação dolorida de pensar em outra pessoa colocando as mãos no que era seu.
- Você não me respondeu quem fez isso em você! – ele rosnou, mudando de assunto.
- Não foi quem, Derek. Foi o quê. Vem comigo, vamos dar um passeio.
- Stiles, é lua cheia. – Derek o advertiu.
- Eu sei. – ele respondeu com a voz assumindo um tom de seriedade que ele raramente usava.
Derek sentiu como se uma corrente elétrica percorresse sua alma. A voz, o olhar dourado, a calma. Tudo conspirando para que sua besta se acalmasse. Ele fez um gesto afirmativo e saiu para o jardim, seguindo o rapaz.
Era tão diferente, tão... sublime sentir a luz da lua perpassando as grossas nuvens de chuva que ainda avermelhavam o céu, e não sucumbir à vontade de liberar seu lado mais feroz. Andar sob a lua cheia sentindo-se capaz de raciocinar, de deixar que toda a raiva que carregava em si permanecesse adormecida.
Suspirou, sentindo os olhos marejarem tamanha era a emoção que sentia. E quando Stiles sentou aos pés do grande carvalho nos fundos da casa, fazendo o polen dos mais variados tipos de wolfsbane subirem no ar, Derek sentiu-se embriagado.
Seus joelhos amoleceram e a cabeça rodou ligeiramente. Uma sensação que ele não conhecia e que de fato não era tão ruim.
Alguns feixes do luar transpunham os galhos do carvalho e faziam a pele de Stiles brilhar sutilmente, com uma energia etérea. As marcas em seus braços pareciam ainda mais escuras e Derek ergueu uma das mãos, traçando as linhas com os dedos.
- Você consegue ler? – Stiles perguntou, a voz com a mesma mágica calmante que envolvera o alfa ainda dentro da residência.
- Sim... – ele murmurou em resposta, sem tirar os olhos dos desenhos.
- Pode ler para mim? – ele pediu, humilde – Não consigo, por mais que eu vire a cabeça, parece que não...
- Não há Orion sem alfa. – Derek cortou, decifrando os traços desenhados numa linguagem lupina quase esquecida, e puxando o outro braço do rapaz, continuou – Não há um eu sem você.
Stiles o beijou. Calmo, forte, ciente do que sentia, do que queria e do que podia ter. Era um beijo diferente dos outros que já haviam trocado antes, em que uma urgência dolorida dentro de cada um os impelia um para o outro como forma de provarem a si mesmos que haviam sobrevivido, mais uma vez.
- Eu odeio você. – a voz de Derek quebrou o beijo e Stiles sentiu seu próprio coração parecer falar.
Tentou se desvencilhar dos braços que Derek havia colocado em volta de seu corpo, mas o alfa apenas deixou as mãos deslizarem sobre as tatuagens recém feitas em seus braços e o segurou pelos pulsos.
- Me deixa falar. Por favor. – ele não se atrevia a erguer os olhos para Stiles, mas sua voz emanava uma súplica quase humilhante – Odeio você, Stiles. Com todo o meu coração, desde a primeira vez que lhe vi. Seu cheiro é... familiar. Não o cheiro de ser um orion, não essa coisa doce que apareceu depois. Mas você, esse moleque atrevido, que não consegue parar quieto no mesmo lugar. O som do coração é perturbador. Você não tem um ritmo normal, sabia? E esse som... Teve uma pessoa, na minha vida, que tinha um som parecido com o seu.
- Kate... – Stiles sussurrou, mas Derek acenou que não.
- Nunca se compare a ela, Stiles. – e só então ele ergueu seus olhos, agora com um lampejo azulado, triste, pontuando rapidamente o tom vermelho de alfa que a lua cheia exigia dele – Paige. Seu nome era Paige e ela tinha essa coisa, esse coração batendo num ritmo diferente do resto do mundo. E pela primeira vez na vida eu desejei ser normal. Não ser um lobisomem. Apenas para estar com ela.
A respiração de Stiles estava contida em seu peito, temendo que qualquer som, mesmo que o mais leve suspiro, assustasse Derek. O alfa, sempre tão envolto em silêncio, precisava falar. Era o último muro entre os dois, essa ausência de palavras.
- Peter me disse que se ela fosse um de nós... Mas eu não podia transformá-la e meus pais jamais iam aceitar isso. Então recorremos a outro alfa, Enis, para a mordida. Mas ela rejeitou, o corpo dela rejeitou e... Ela morreu nos meus braços, Stiles. Eu ouvi as últimas batidas irregulares do seu coração, e senti o meu próprio perder o ritmo quando ela me disse que sabia o que eu era e que não tinha medo de mim. Assim como você.
- Eu tinha medo. – Stiles não conseguiu conter o comentário, mas assistiu aliviado um sorriso surgir no rosto do alfa.
- Mas seu medo nunca fez você fugir. Você engolia seu próprio pavor e continuava ali, mesmo na lua cheia, mesmo humano. Quando você me levou para a clínica do Deaton, sem nem me conhecer, e aceitou cortar meu braço fora. Ou quando você me segurou por horas naquela piscina para não sermos pegos pelo Kanima. E eu ouvia seu coração, feito o dela. E eu só queria que você fosse embora, porque não queria que você se machucasse.
- E você me odeia porque eu não fui embora. Porque eu jamais aceitaria a ideia de ir embora. É isso?
- Não, eu te odeio porque você tem essa coisa que é a mistura de tudo o que eu amo. – ele soltou de uma vez – Seu coração descompassado, seu cheiro que me lembra minha própria casa antes do fogo... seu jeito petulante e inteligente, como Laura foi um dia. Eu odeio você, Stiles, porque você é impossível de não amar e, se não reparou, eu tenho a tendência a destruir tudo o que eu amo.
- Você não vai me destruir, Derek.
- Eu espero... Você entende suas marcas, não entende?
- Não há Orion sem Alfa? Entendo bem.
- Não, a parte do “não há um eu sem você”.
Seus olhos se encontraram nesse momento e Stiles entendeu. Muito mais do que a marca.
- Você ainda vai ter muito tempo para me odiar, Derek. – ele respondeu, vencendo a curta distância entre os dois e se aninhando entre as pernas do alfa, aconchegando suas costas ao peito dele e puxando seus braços para envolvê-lo mais uma vez – Porque eu não tenho nenhuma intenção de ir embora, nenhuma pretensão de me afastar e muito menos de fazer você deixar de me amar.
As plantas aos pés de Stiles pareceram se agitar mais uma vez, algumas flores se soltando intencionalmente de seus caules e se deixando serem carregadas pelo vento, rodeando-os por um momento e os embalando num sono tranquilo.
Deaton observava da janela da cozinha a cena se desenrolar. Não ouviu a conversa entre eles, mas não precisava disso para saber o que havia acontecido. A transformação de Orion não estava completa apenas com a mordida e o treinamento, havia o momento de selar as almas do lobo e seu qhímmer.
Era o momento sublime da transformação e ele pensava, satisfeito, que ele e sua irmã fizeram bem ao proteger o campo ao redor da casa. Deixaria que Stiles e Derek descansassem sob a lua. Era o mínimo que eles precisavam para se tornarem de fato o que estavam destinados a ser.
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