Ordem do Fogo livro 1 - Baldom o titã corrompido
7 Capítulo 7 - Os hóspedes
Notas iniciais
No crepúsculo daquele dia, os dois começavam a se aproximar do portão de Valfrij. Valfrij era conhecida por ser a cidade mais bem desenvolvida de toda Valladhom, com grande poderio bélico e um comércio considerado entre um dos três melhores do continente. Uma cidade com vários habitantes, e um povo requintado e extremamente educado. As crianças daquela cidade eram extremamente disciplinadas, mesmo seu alistamento militar sendo a partir dos dez anos. Entrando na cidade, Edmund reparava na arquitetura diferente que Valfrij tinha. A madeira das casas era muito mais trabalhada e algumas construções eram feitas de rochas mesmo.
— E então senhor? Onde vamos dormir? – Perguntou Ed, ainda um pouco sonolento, pois acabara de acordar.
— Eu estou procurando alguma pousada para nós podermos dormir. — Adebirion respondia para o garoto enquanto olhava para sua pequena bolsa de dinheiro. – Não se preocupe, acho que poderemos dormir em alguma.
Após cavalgar pela cidade por, mais ou menos, uma hora, Adebirion e Ed finalmente encontraram uma pousada muito bonita e barata.
— Só pode ter alguma coisa errada lá dentro. – Disse Adebirion desconfiado com o valor que ele deveria pagar para passar uma noite. – Deve ser cheia de ratos lá dentro, ou o mordomo deve ser um vampiro. Porque por esse preço tão baixo e essa pousada ser tão elegante, deve ter algum problema.
— Pare de ser pessimista senhor Adebirion. Vamos entrar e tirar nossas conclusões.
Os dois se dirigiram até a porta daquela pousada. Nada parecia diferente naquele lugar. Entrando na pousada, os dois olhavam ao redor e só notavam a ótima arquitetura interna, bons moveis de madeira e um doce aroma de orquídeas. Toda a mobília e as paredes tinham cores, vermelhas, marrons e cinzas. Edmund ficou surpreso com aquele lugar, ele era muito elegante e bem organizado. Enquanto Edmund analisava toda a decoração do ambiente, Adebirion encaminhava-se para a recepção. A recepcionista era uma mulher extremamente bonita, com cabelos negros, e olhos de cor lilás. Adebirion chegou ao balcão e começou a falar com a linda moça:
— Olá, tudo bem? – Muito educado e um pouco sem jeito com a beleza da moça, o paladino tentava se comunicar. – Eu gostaria de saber: quanto que está o preço de uma noite aqui no local?
— São dez moedas Valladhonianas. – Respondeu a moça, enquanto jogava seu charme em cima do paladino encabulado. – Poderia ajudar em mais alguma coisa, querido?
— Ahm... Sim, sim é claro, eu gostaria de uma chave de um quarto com duas camas, por favor.
— Se tivesse só uma cama, a sua noite poderia ser mais divertida. – Disse a mulher, enquanto ia se aproximando do paladino por cima do balcão.
Completamente encabulado, Adebirion tentava finalizar a conversa o mais rápido possível. – É que eu já estou acompanhado. – Dando uma leve risada com vergonha.
— Ah, que pena. Mas não estou vendo nenhuma mulher com você.
— Eu estou com meu filho.
— Tudo bem. Pode pegar a chave do quarto seis, seis, seis. — Disse a moça com o tom de decepcionada.
Dando um suspiro de alívio, o paladino finaliza. – Muito obrigado. – E vai em direção de Edmund. Mas antes que ele pudesse sair, a moça solta mais alguns elogios:
— Adorei esse seu cabelo cinza e esse seu rabo de cavalo.
O paladino só deu um leve sorriso, pois não sabia se a moça estava elogiando o penteado ou o seu traseiro, não disse mais nada e foi até o garoto. O menino esperava sentado em uma poltrona que parecia ser muito confortável.
— Vamos para o quarto garoto. – Disse Adebirion.
— Você conseguiu então um quarto?
— Sim. Agora vamos logo. – Dizia o paladino com pressa.
Os dois subiram para o quarto e começaram a guardar as suas malas. Após alguns minutos, Edmund estava sentindo uma fome absurda e logo começou a tirar a comida de sua bolsa. Adebirion também se sentou para comer com o garoto.
— Vamos comer, e depois vamos dormir. Pois amanha teremos que acordar bem cedo, entendeu garoto? – Disse Adebirion já planejando a viagem do outro dia. – Quero acordar por volta das cinco horas e meia da madrugada para partirmos.
— Entendi. – Edmund concordou sem hesitar com o paladino, mesmo o horário sendo fora do comum.
Após alguns minutos de refeição, os dois já se preparavam para dormir. Edmund se deitou na cama da pousada. As camas eram extremamente confortáveis e aconchegantes. Edmund se cobriu com os cobertores e deitou a cabeça no travesseiro. Adebirion fechou as janelas e se preparou para deitar-se. Mas antes de dormir, Edmund resolveu perguntar um pouco mais sobre o santuário dos paladinos.
— Senhor Adebirion, como é o santuário dos paladinos?
— Bem... Ele é enorme que nem um castelo, e tem bastante gente lá.
— Como funcionam os treinamentos lá?
— Cada professor treina três alunos. Você é o meu terceiro.
— Sério? – Contente disse o menino. – Então eu não vou treinar sozinho. Como eles são?
— O primeiro se chama Klaus, e o segundo se chama Godfrey. Cada um tem uma personalidade diferente. Klaus é mais impulsivo, e Godfrey é mais centrado, mais estratégico. – Adebirion já começava a se cobrir com as cobertas. – Acho que você vai gostar dos dois, neste momento eles devem estar treinando.
— Eu estou muito ansioso para conhecê-los. – Edmund já sentia um pouco de sono, mas resolveu fazer mais uma pergunta antes de dormir. – Mas senhor, você me disse que você era o braço direito da líder dos paladinos, como você chegou neste posto?
— É que nós fomos colegas do mesmo professor que era o antigo líder dos paladinos, e ele passou a liderança para ela. E ela está fazendo um excelente trabalho, e por eu ser um amigo de infância e por ser confiável, ela me colocou neste posto.
— Mas você me disse que os professores treinam sempre três alunos, onde está seu outro colega?
— Ele... – Adebirion ficou em silêncio por alguns instantes. – Ele nos salvou, a minha vida e a vida de Glenda. Ele se sacrificou com todas as suas forças.
— Eu sinto muito. – Disse o garoto cabisbaixo.
— Não sinta. Ele morreu se sacrificando para fazer algo bom, esse é o maior feito de um paladino, o sacrifício. – Mais uma vez Adebirion ficou em silêncio, mas logo em seguida voltou a falar. – Bom... Agora vamos dormir garoto.
— Está bem.
Durante a noite, o garoto sonhava com seu avô e seu amigo. Eles estavam na praça central de Ivygard e brincavam com espadas de madeira. Quando de repente, uma nuvem enorme vermelha e preta, começou a cobrir o céu em cima deles, e uma sombra monstruosa aparecia atrás dessas nuvens quando relampejava. O garoto tentou chamar seu avô e seu amigo, mas, quando olhou para o lado, não havia mais ninguém na cidade além dele mesmo. Edmund tentou correr para a sua casa e quando ele chegou à rua que se bifurcava para a sua casa, seus pés começaram a derrapar no chão e ele não conseguia mais sair do lugar. Naquele instante de agonia, o menino olhou para as nuvens novamente e estremeceu com o que viu. Um Braço gigantesco feito daquelas nuvens começou a descer e ir em direção do menino. Ed tentava correr com todas as suas forças, mas de nada adiantava seu esforço. Quanto mais aquela mão se aproximava, mais fraco o garoto se sentia. Quando a mão chegou por cima do menino, ele já estava sem força alguma e ajoelhado no chão. A mão gigante agarrou o menino e o ergueu do chão, e uma voz destorcida e monstruosa começou a falar no ouvido do garoto enquanto ele era envolto por aquela mão que o prendia o tronco e as pernas:
— Você nunca saíra daqui. E agora vou sugar todo o seu medo e a sua vida.
O Edmund continuava com a cabeça baixa. Até que o menino começou a rir desenfreado.
— Eu demorei para perceber. – Disse Edmund com a cabeça voltada para baixo, mas com um sorriso malicioso no rosto. – Isso é apenas um sonho.
— O que? Você não pode soltar-se e, você nunca mais irá acordar, pois irei te matar em seu próprio sonho. – Após dizer isso, a voz começou a rir.
— Só que tem um pequeno problema.
— Qual?
— Você está na minha imaginação, e será você que vai morrer aqui.
O garoto começou a abrir aquela mão gigante com seus braços com uma força inacreditável. Quando abriu espaço o suficiente, Edmund pulou para fora daquela mão, e começou a correr na velocidade de um lince para dentro da casa de seu avô. Ed subiu até o sótão e pegou de dentro de um baú a espada de prata de Erick, seu avô. Quando Edmund olhou para trás, havia um corpo feito daquelas nuvens parado na entrada do sótão.
— Se você for um demônio, ou uma criatura das trevas, você vai estar encrencado, pois esta é uma espada feita de prata. – O garoto se posicionou para atacar. – Prepare-se para morrer monstro maldito.
— Pode vir garoto.
O garoto sumiu da vista do monstro em um piscar de olhos. Aquela nuvem viva olhou por todos os lados, mas não conseguiu encontrar o menino. O menino apareceu como um relâmpago atrás do monstro e, antes que a criatura pudesse fazer qualquer coisa, o cortou ao meio com a espada. No mesmo momento em que o garoto cortou o monstro, o menino acordou na cama da pousada, ele estava completamente suado com o coração extremamente agitado. O garoto, ainda se recuperando do susto de seu pesadelo, olhou para a cama de Adebirion, mas o paladino não estava lá. Mesmo estando acordado agora, o menino ainda sentia uma sensação muito estranha que incomodava seu peito.
O garoto levantou-se devagar para não fazer barulho e foi até a janela. Ele abriu a janela, mas, para seu espanto, parecia que uma coberta negra estivesse tapando a janela. Edmund tentou empurrar a coberta negra, mas ela não saía do lugar não importando o quanto o menino empurrasse. Edmund ficou mais assustado. O menino tentou socar aquilo, mas parecia ser mais resistente do que uma pedra. Ed começou a ouvir uns paços rápidos no corredor da pousada e se preparou para uma luta, mas quem entrou pela porta era seu mestre Adebirion.
— Garoto, pegue suas coisas e vamos sair daqui agora. – O rosto de Adebirion parecia preocupado e nervoso demais. – Rápido.
— Está bem. Vou arrumar as coisas. – O menino correu para pegar tudo o que podia. – Mas o que está acontecido senhor?
— Caímos em uma armadilha. – Disse o paladino enquanto se virava para a porta do quarto. – Temos que sair daqui o quanto antes.
Após preparar as coisas e se vestir adequadamente, os dois saíram do quarto. O corredor parecia muito maior do que realmente era.
— Preste atenção garoto. – Adebirion se acocou de frente para o menino e botou suas mãos nos ombros de Edmund. – Olhe para o corredor. Perceba que há uma anormalidade na energia deste lugar. Conseguiu?
— Sim. É como se ele não fizesse parte do mundo. – Disse o garoto sem entender o que acabara de dizer.
— Exato. E de fato não faz. – O paladino tentava explicar as pressas para o menino. – Isto é uma ilusão criada para nos manter aqui.
— Mas quem está fazendo isso?
— Existem inúmeras criaturas que podem fazer isso, mas agora não posso te dizer. Vamos logo sair daqui.
Os dois correram até as escadas que haviam subido para ir para seu quarto, e quando desceram ainda estavam no mesmo andar. Eles tentaram mais uma vez, mas dessa vez desceram uma escada que dava para dentro do quarto que eles tinham comprado.
— O que? Isso não faz sentido. – Disse Edmund completamente confuso. – Não tinha essa escada para dentro do nosso quarto.
— Droga, é pior do que eu pensei. – Adebirion tirou seu manto, e Edmund conseguiu ver que por de baixo do manto tinha uma bainha amarrada nas costas do paladino. – Está na hora de acabar com isso.
Adebirion puxou a espada que estava nas suas costas, e na mesma hora os olhos do paladino deixaram de ser castanhos e ficaram com um azul tão brilhante que a luz parecia sair de seus olhos. A espada era toda de prata também, com uma corda azul no cabo e um anel de metal circulando o meio do cabo todo, o seu pomo tinha formato de um anel com detalhes de penas, o seu guarda mão subia um pouco como uma ponta até a lâmina da espada e também no cabo, e os braços do guarda mão pareciam asas de um anjo. No meio da lâmina da espada havia um sulco que ia desde o guarda mão até próximo da ponta, e nesse sulco estavam algumas letras muito estranhas desenhadas, e no metal da espada tinham também uns leves riscos que pareciam finas veias.
— Nossa, que espada legal. – Disse Edmund impressionado. – Eu vou ter uma dessas?
— Quando completar dezesseis anos eu te dou uma. Se afaste um pouco, eu vou explodir este lugar.
— Explodir? — Disse Edmund espantado com o que ouvira.
De repente, uma luz azul, que parecia uma fumaça, começou a subir e a envolver todo o corpo de Adebirion. As letras que estavam escritas na espada também começaram a brilhar azuis assim como os finos riscos na espada tinham começado a brilhar. Um vento forte começou a circular o paladino, e quanto mais forte a luz se agitava em volta dele, mais forte o vento ficava. O paladino levou a sua mão esquerda para próxima da sua cintura, e a energia começou a girar e se acumular na palma da mão dele como uma esfera de energia, e então o paladino disparou uma rajada de energia de sua mão, a rajada de energia explodiu quando se chocou com a parede fazendo um grande estrondo.
Depois da explosão, a ilusão tinha sumido, e agora os dois se encontravam de frente para a porta de saída da pousada.
— Vamos sair daqui garoto.
Os dois conseguiram sair daquele lugar horrendo. E quando se deram conta, perceberam que o horário ainda era o mesmo de quando tinham entrado naquela pousada.
— Mas como pode ser possível? – Disse o menino Edmund abismado com o ocorrido. – Nós passamos muito tempo lá dentro, como pode ser ainda sete horas.
— Como eu havia dito antes, é pior do que eu imaginei. – Disse Adebirion um pouco pensativo. – Mas agora já sei o que estamos enfrentando.
— E o que é mestre?
— Sabe? Existem várias criaturas ou seres que podem causar ilusões como: Bruxas, magos, gnomos, fadas, gênios, espectros entre outros. Mas poucos podem congelar o tempo criando uma espécie de mundo a parte.
— E quais são? – Perguntou Edmund ansioso enquanto anotava tudo no seu pequeno caderno.
— Da onde você tirou esse caderno? – Indagou surpreso Adebirion. – Bem, não importa. Mas, respondendo a sua pergunta, são demônios. E pelo jeito é um demônio de classe baixa, porém ele está muito forte.
— E como o senhor afirma isso?
— Primeiro: a forma que ele nos atacou era uma forma para nos causar medo, e demônios de classe baixa se alimentam de medo. Segundo: ele está extremamente forte porque está conseguindo mexer com a linearidade do tempo. – Adebirion colocou a mão direita no queixo enquanto olhava para aquela pousada. – Ele deve estar a anos aqui. E se você analisar melhor, a porta da pousada não explodiu com o meu ataque. Rapaz fique aqui fora, eu vou lá dentro mandar esse demônio de volta para o inferno.
— Mas senhor, você vai conseguir acabar com um monstro assim? – Disse Edmund preocupado.
— Você ainda desconhece a verdadeira força de um paladino. – Adebirion sacou novamente sua espada, e um brilho branco envolveu seu corpo, e, após o clarão, uma armadura feita do mesmo material da espada apareceu no corpo do paladino. Com um peitoral que deixava de fora o abdômen para dar mobilidade, luvas com placas, um capacete que protegia a cabeça, as bochechas e o nariz, com pequenas asas de anjo dos lados do capacete. Ombreiras rentes aos ombros, Botas com placas na canela e um cinturão pequeno de metal. No meio do peitoral ficava uma cruz desenhada da mesma forma das letras da espada, e com os mesmos riscos na armadura. – Eu acho que eu preferiria que fosse o mordomo vampiro mesmo. Garoto, eu volto antes das dez horas.
E Adebirion entrou naquela temida pousada para enfrentar o demônio que havia brincado com eles. Então, Adebirion disse nos seus pensamentos:
— “ Logo, logo você estará no inferno, maldito.”
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