Notas iniciais
Heeyy gente, primeiro capítulo de 2018! AEEEWWW o/ Porém, é o penúltimo da história... Mas podem comentar a vontade, viu? Quero saber se vcs estão gostando até aqui!

Acordo com o som de algo se quebrando, abro os olhos e vejo minha mãe, nitidamente enfurecida segurando em suas mãos a minha pintura, uma parte da tela em cada mão. Ela fez de novo, quebrou meu trabalho, minha arte, minha pouca felicidade.

"É a última vez que eu quero ver um objeto desse dentro do seu quarto, você me entendeu?", ela parece se esforçar para falar em um tom baixo porém meus olhos não saem dos pedaços da tela em suas mãos, ela se aproxima e com força, segura meu rosto entre seus dedos. "Você me entendeu?"

Me esforço a olhar na cara dela, mas não consigo colocar nenhuma palavra para fora da minha boca.

"Qual é o seu problema? Você era tão dócil, por que está assim agora? Por que me desafia desse jeito?" Seus dedos soltam o meu rosto mas eu ainda olho fixamente nos olhos dela, procurando em algum lugar a mulher que me criou com carinho. Ela sempre foi mais distante que o meu pai, sempre me dando broncas, 'sente-se direito', 'fale mais baixo', 'fique de queixo erguido' mas depois de certa idade, quando eu fiz quinze anos mais ou menos, ela começou a ser mais fria, distante, nunca entendi o porque, logo que meu pai percebeu a distancia entre nós, tratou de falar algo para ela que a trouxe de volta, todavia, quando ela perdeu o emprego em que estava, ela não só voltou a ser fria comigo como também surtou totalmente, nunca mais foi a mesma, sei que ela dava tudo pela empresa onde trabalhava, passava dias e noites sem dormir para resolver casos, muitas vezes trazia trabalho para casa, o trabalho para ela era como o do meu pai é para ele, hoje em dia, uma ancora, onde ela se agarrava com todas as forças para sobreviver, ela sempre deixava claro que não era satisfeita com o casamento deles, contudo era venturosa no trabalho e depois que ela perdeu isso, ela se perdeu, se antes o casamento deles não era feliz, depois ela fez questão de acabar com qualquer vestígio de esperanças que alguém poderia ter. Quando arrumou o trabalho atual, de meio período, trazia casos gigantescos e se trancava no quarto a tarde inteira, na hora que meu pai chegava e ia descansar, ela se movia para a cozinha, fazia o jantar, o qual comíamos em silencio quando todos estavam juntos a mesa, e depois ficava na sala com o trabalho enquanto ele deitava e dormia. Não trocavam nenhuma palavra. Não sei o que houve para o casamento ter se arruinado tanto, nunca perguntei e não tenho curiosidade em saber, apenas queria que os dois voltassem a ser comigo como eles eram antes de tudo desmoronar de vez.

"O que aconteceu com você...?" Me ouço dizer baixo e ela ouve, ficamos nos encarando por alguns segundos até ela quebrar o contato visual e responder .

"Que direito você acha que tem para me perguntar algo assim, garota?"

Eu a ignoro e continuo tentando enxergar a minha mãe, que no passado me colocava na cama e cantarolava canções de ninar para eu dormir. "Você não é mais ela...Não é mais a minha mãe...Eu a perdi também."

Digo ainda imersa em meus pensamentos, perdi Ellen e agora noto que também perdi a minha mãe. Tenho apenas o meu pai agora, se é que eu já não o perdi também, mal o vejo em casa...

Noto que ela ficou em choque por uns segundos mas logo retoma a pose.

"No fim, você é igual a ele, só mais uma decepção.", dizendo isso ela sai do meu quarto, não me mexo, é como se tivessem jogado um balde de água fria em mim, de tudo o que ela já fez, ou falou, essa foi a frase que mais me feriu. Me desligo de tudo, volto para cama, me deito e olho para a parede, sinto que quero chorar mais nenhuma lágrima cai, fecho os olhos na esperança de quando abrir novamente, tudo ter sido apenas um sonho ruim, mas não foi, eu sei que não foi. Deixo a escuridão me envolver.

"Olá minha querida, estava com saudades de mim?", me viro em direção da voz e vejo minha tia, esfrego meus olhos achando que estou delirando, porém quando eu olho de novo, lá está ela, exatamente como da última vez em que eu a vi.

"Tia, como...? Desculpe-me mas você estar..?" gaguejo não querendo falar, "Morta?" completa ela, "Não minha querida, estou mais viva que nunca, estou livre, pois me soltei das correntes em que me aprisionaram e as troquei por asas, agora posso viver liberta, como eu sempre quis! Você deveria experimentar, soube que seus talentos para arte evoluíram, não foi?", fico sem saber o que dizer e só aceno um 'sim' com a cabeça, "Por que não tenta arrebentar as correntes e ir atrás do que deseja de verdade? Só tem 17 anos, ainda tem tempo para isso!", dessa vez acho a minha voz e a respondo, "Não posso, simplesmente não posso, as correntes são fortes e eu, fraca e não tenho ninguém que possa me ajudar a arrebenta-las, ninguém acredita...", abaixo a cabeça envergonhada pela derrota. "Eu acredito! E eu posso te ajudar, se confiar em mim...", levanto a cabeça e a encaro curiosa, "Como? A senhora está...", gaguejo novamente, "Morta. Exatamente isso, estou livre, não tenho mais nada que me prenda, que me magoe ou que me destrua, na morte, minha querida, nos tornamos imortais, servos apenas das nossas próprias vontades! Venha comigo, confie em mim...".

E eu acordo, arfando e com o rosto e travesseiro molhado por lágrimas, meu coração está acelerado, tento lembrar o que ouve antes de eu dormir, olho para o chão e vejo os restos do meu quadro. Minha mãe. Eu. Decepção. Tristeza. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas enquanto pego um pedaço da tela rasgada, por que tudo tinha que ser assim? Tão disforme? Por que ela tinha que se tornar alguém tão cruel? O que eu fiz para ela?

"Filha? O que aconteceu?" olhei pro meu pai, ele estava com a testa franzida e olhava para mim com preocupação, ainda agarrada no pedaço da tela, "O que eu fiz pra ela ser assim comigo?", pensei que ele simplesmente iria dar algum sermão e ir embora, como de costume, contudo ele suspirou profundamente, se abaixou e me ajudou a levantar, e por pela primeira vez em muito tempo, ele me surpreendeu com um abraço, que eu não pensei duas vezes antes de me jogar e retribuir com todas as forças que eu tinha, e eu chorei com tudo que tinha, não sei quantas horas se passaram, solucei e me engasguei várias vezes mas ele não me soltou, ao contrário, me apertou mais. Me senti uma menininha de sete anos novamente, quando eu não tinha mais lágrimas e minha cabeça já doía por conta do choro, ele me afastou e olhou para mim, "Filha, me perdoe, eu tentei colocar razão na cabeça da sua mãe e piorei as coisas para você, desculpe.", minha voz estava rouca mas forcei para ela sair , "A culpa não é sua...", ele apenas volta me abraçar e fica em silêncio, e assim ficamos.

"Já está mais calma?", ele perguntou e eu assenti, "Ótimo, venha, preciso lhe contar uma coisa, na verdade, várias..", fomos para a sala, me sentei no sofá enquanto ele foi a cozinha pegar um copo com água, quando retornou me entregou o copo e se sentou ao meu lado, percebi que enquanto fazia isso, seus olho nunca saiam do chão, como se a culpa consumisse ele. "Bom, antes de começar, quero apenas te pedir para não interromper, poderá fazer as perguntas que quiser depois que eu terminar de falar, okay?", eu estava quase sem voz, não iria interrompe-lo de qualquer modo, balancei minha cabeça concordando com ele e em reposta ele sorriu de lado.

"Bom, irei começar explicando o porque da sua mãe estar assim hoje em dia, começando pelo nosso casamento, você já é adulta o suficiente para saber que eu e sua mãe nunca tivemos um relacionamento feliz, certo? Bom, isso vem de antes de você nascer, nós só brigávamos o tempo todo, mais do que hoje em dia, não vou negar que eu amei muito a sua mãe, mas ela não me deu escolha, então, eu terminei o nosso relacionamento, ficamos dois meses afastados, até que ela me liga um dia dizendo que estava grávida, e que o filho era meu, fizemos o teste de gravidez e era realmente meu filho, ou melhor, filha." Ele parou, olhou para mim com um sorriso de canto e continuou.

"Decidimos dar uma nova chance para o nosso relacionamento, pelo bem do bebê e quando você nasceu, arrumamos nossas coisas e nos mudamos para um apartamento pequeno, eu via você como uma nova vida, para nós, e ela via você como uma oportunidade de me prender, não se engane, sua mãe te amava, nunca direi o contrário, lembro-me do sorriso que ela dava quando te amamentava ou te ninava...mas com o tempo, o nosso relacionamento foi ficando cada vez pior do que era antes, brigávamos por qualquer coisa, e até que houve um dia em que eu não aguentei mais, sai de casa e fui para a casa de um amigo, você devia ter uns dez ou onze anos, fiquei lá por uma semana, e quando chegou sábado, ele me chamou para eu ir em uma boate com ele, e eu fui. Lá acabei conhecendo uma mulher da qual eu fiquei muito amigo e... bem, eu tive um caso com ela, não vou dizer que me arrependo, nunca me arrependi, eu não tinha mais nada com a sua mãe, a única coisa que me prendia a ela, era você. Depois disso, voltei para casa decidido a ir embora de uma vez e recomeçar a minha vida, porém, quando cheguei em casa, você estava ardendo em febre e ela não sabia o que fazer, peguei o carro e te levei direto para o hospital, e mais uma vez, fiquei ao lado da sua mãe, sabia que ela podia ser o motivo da sua febre, comecei um pedido formal de divorcio mas ela conseguiu cancelar, então conversei com ela sobre o que estava acontecendo em nossas vida, que não conseguiríamos viver em paz sob o mesmo teto, e ela negou disse que iria melhorar, dessa vez vi nos olhos dela um pouco da mulher que eu conheci e decidi dar uma última chance, e ela realmente melhorou por uns anos, no entanto, ela voltou a loucura perto dos seus quinze anos, quando em uma briga que tivemos, joguei tudo na cara dela, inclusive, o caso que eu tive com a tal mulher, depois disso só foi ladeira a baixo, e o pior é que eu percebi que ela estava descontando tudo em você, conversei com ela e pedi que deixasse tudo entre nós, de prejudicados já restavam nós dois, ela concordou e pediu para que eu não interferisse na relação de vocês e eu concordei, desde então, tento me desligar aqui de casa, dela e de você. Disso, eu posso afirmar que eu me arrependo, sua mãe enlouqueceu completamente depois que me encontrou junto com a mulher com quem eu tive o caso, ela fez tamanho escândalo que foi demitida, pois estávamos em área de trabalho, coisa que ela esqueceu completamente. Enfim, estou te contando isso para você saber que não é só ela que tem culpa no cartório, eu também tenho, e peço desculpas por todo dano que eu te causei, mesmo sem querer."

E assim que ele termina de falar, eu entro em choque.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentem, please!