Notas iniciais
Depois de tantos anos sem postar nada, eu voltei, e com um conto novo e muito bom!(Na minha opinião, e é claro, quero a de vocês também!)
Espero que gostem, de verdade , e que esse conto possa ajudar alguém que tenha algum problema, seja ele depressão, ansiedade, ou outros.
Fiz esse conto para o Setembro Amarelo mas demorei mais do que devia, porém, decidi postar assim mesmo, pois falar sobre a depressão, nunca é demais.
Sem mais, boa leitura!
Deitada no meu quarto, olhando para o teto por horas... Essa é a coisa que eu mais faço ultimamente, não quero sair da minha casa, ou do meu quarto, a única coisa que eu quero é... Nem eu mesma sei. Oh! Me lembrei de uma vontade, a empedernida vontade de sumir.
O teto parece ser uma tela em branco feita perfeitamente para eu a pintar com os meus pensamentos, e é apenas ali, entre eles, em que eu conseguia alguma cor diferente do preto, branco e cinza típico da minha rotina; imagens de uma vida onde eu me sentia acolhida e confortável em estar preenchiam a branquidão que se estendia sob mim, me afogo nesta fábula até ouvir algumas batidas na porta do quarto, digo que está aberta, como sempre fica, e sem precisar desviar o meu olhar da minha bela pintura ludibria, sei que é a minha mãe, reconheço o tom das batidas na porta, sempre mais suave do que a das outras pessoas.
“Está com fome?” Ela pergunta. “Não” Eu respondo e ela me olha desconfiada. “Você não come nada desde ontem a noite! Não sai desse quarto a dias! O que está havendo? Brigou com a sua amiga?” Dava para sentir em sua entonação que ela não se importava realmente, apenas queria uma desculpa para discutir.
Não respondo de inicio e ainda olhando para o meu quadro de mentiras começo a pensar comigo mesma. Não briguei com a Ellen, apenas não tenho vontade de falar com ela, não tenho o que dizer ou conversar, por isso prefiro ficar na minha, se ela sente falta da minha companhia ou não, já é outro assunto, arrisco-me a pensar que talvez, porém sei que é mentira, por que ela sentiria a minha falta? Tinha várias outras amigas, eu no entanto, só tinha ela... Se por um acaso sentisse minha falta, ela sabia o meu número e tinha ciência de onde eu morava, era só me procurar, mas era melhor assim, estava realmente sem saco nenhum para conversar.
“Não está havendo nada, não briguei com a Ellen, eu estou bem, apenas cansada.” Ouço ela dar uma risada de deboche. “Cansada de que? Só fica o dia inteiro nesse quarto, só sai para ir para o colégio! Não faz praticamente nada!”
Ela não entendia, mas como eu poderia julga-la? Apenas eu sabia o quão exaustivo era acordar de manhã, levantar da cama, me arrumar e sair de casa, o quanto eu odiava ter que pisar naquela sala de aula e ver aqueles rostos costumeiros, ouvir aquelas vozes que irritavam os meus tímpanos e aumentavam a minha vontade de querer sumir, de ter que ouvir sermão da professora sobre “Não prestar atenção na aula” quando na verdade eu estava me esforçando para não sair dali e ir embora, de volta para o meu quarto e o meu refúgio fantasioso que eu criei para mim, o quão cansativo eram todos os momentos em que eu me encontrava fora do meu quarto, o local que eu ansiava retornar com todas as minhas forças ... Apenas balancei a cabeça em afirmação sem tirar os olhos do teto.
Não sabia quantas horas haviam passado depois que a minha mãe saiu do meu quarto, eu apenas continuei nos meus devaneios até ouvir o som da chuva, há tempos que não chovia por aqui, eu acho. Me lembro que gostava do som da chuva, mas hoje... Está tão indiferente... Não me incomodo em me levantar para observar as gotas de chuva na janela.
Abro os olhos e ainda assim continuo na escuridão, devem ser umas duas da manhã, tento me lembrar de quando eu dormi e não me recordo, apenas tenho a sensação de que estava bem em meus sonhos, queria poder voltar para lá e ali ficar... Quando meus olhos finalmente se acostumam com o escuro, enxergo um prato de comida e um copo de algum suco em cima da cômoda que fica ao meu lado, não tenho fome mas arrisco a tomar um pouco do suco, seu gosto doce me envolve em uma leve nostalgia, me lembro da minha infância, onde brincava sem preocupações, corria, pulava, gritava e me divertia, agora isso parece uma memória distante, encoberta por nuvens, deixando tudo mais cinza, como fotos que com o tempo, vão ficando amareladas, até que um dia, não se enxerga mais nada nelas e então você as descarta.
Percebo que minha inimiga (ou amiga, já não sei mais, depois de tanta convivência), insônia veio, mais uma vez, me visitar, ouço o som da chuva, desta vez mais serena, forço o meu corpo a levantar da cama e vou para perto da janela, arrasto a cadeira da escrivaninha e me sento, abraçando as pernas junto ao peito, abro uma brecha da cortina e vejo as gotículas de chuva caindo e escorrendo lentamente até a base de madeira, encosto minha cabeça na parede e me perco em pensamentos aleatórios, e de tão aleatórios, não consigo controla-los e quando dou por mim, estou com o rosto molhado, com lágrimas descendo e umedecendo minha blusa. Não sei o por que do choro e nem quando começou. Talvez eu não consiga mais achar graça na chuva lá fora porque dentro de mim há uma tempestade querendo sair...
Fico mais um tempo encostada na parede, esperando a chuva diminuir, tanto a do lado de fora quanto a do lado de dentro. Quando a externa aumentou e interna passou e só depois disso que consigo voltar a respirar normalmente, me levanto da cadeira e me arrasto para a cama, deito e fico ali, inerte, encarando o escuro até o sono finalmente me achar.
Acordo com a minha mãe dizendo do corredor que está na hora de eu me arrumar para ir ao colégio, resisto até o meu último segundo, quando ela entra no meu quarto e tira minha coberta de cima de mim, e com toda a minha má vontade, me arrasto para me vestir; ponho qualquer roupa que encontro pela frente, não me importo se é um pijama ou algo que não combina, vou para um lugar que eu odeio, minha roupa é a última coisa que importa.
Vou até o ponto de ônibus e me encosto no poste para esperar, não respondo a maioria dos ‘’bom dia’’, quando respondo, é baixo, não quero interagir, não me sinto a vontade estando fora de casa, fico ali por um bom tempo até que o ônibus chega, entro e sento num banco e coloco meus fones de ouvido, música clássica tocando em volume máximo numa tentativa em vão de tentar apagar o mundo que existe a minha volta. Não quero saber da vida alheia, não quero saber nem da minha, onde me sinto perdida, quem dirá o dos outros... Sinto que o ônibus está me levando para longe do meu refugio e sinto como se alguém me pressionasse para baixo, cada vez mais.
Atravesso a rua pensando em como as pessoas são velozes quando querem e lentas quando precisão de tal presteza... Um carro em alta velocidade pode acabar com a vida de uma pessoa em segundos, enquanto o mesmo carro em velocidade lenta pode gerar engarrafamentos e até mesmo acidentes... Ambos os lados podem acabar em tragédia, ou não... O ponto é, como a vida dessas pessoas mudariam, ou melhor, será que mudariam? Se um deles atropelassem alguém, será que isso impactaria tanto na vida da pessoa ao ponto de muda-la? E aquele que foi a vitima? Como ficaria a família e os amigos? Irião se desesperar? Ou quem sabe seria alguém sem amigos e com familiares insípidos? Acho que nunca saberei a resposta para isso.
Quando chego no portão do colégio me sinto como se estivesse passando pelos portões do inferno, onde só terá angústia, tormento e aflição. Na sala é como o purgatório, tortura mental e dor física; sendo que estou a quilômetros do meu silencioso abrigo, o único jeito que encontro de escapar é abaixar a cabeça e fechar os olhos, deixando que a minha inventividade me salve mais uma vez, me transportando para outros lugares em minha mente.
Notas finais
E para aqueles que leram e se identificaram, lembre-se, você não está sozinho(a)!
Beijos e até o próximo capítulo!
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