One to Rule Them All.
17 Once Upon a Time In New York.
Notas iniciais
Uma paixoneta e o aparecimento de uma nova personagem.
Algures na mente de Angelicca/Hémera
Sempre que podia me ver livre da obrigação que tive com minha mãe, eu saia para longe de Abraham e Maria, para puder passar umas merecidas férias, que eles entendiam como se fosse um mistério meu.
1987, foi um ano muito pessado em termos de tudo o que os três tivemos de fazer, Abraham teve de destituír certos Grã-Duques que se estavam a rebelar contra a Lei de Avalon. Maria estava em São Francisco com Morgan Politié e eu estava a fazer várias viagens ao longo do mundo há procura de certas estátuas, que representam as Criadoras. Uma estava em Avalon, era a estátua de minha mãe Nyx; outra estava no meio de recombros da Antiga Babilónia, era a de Isthar; em Cairo tive de roubar uma estatueta de ouro branco, era a de Ísis; fui depois a Roma onde encontrei a estátua que representava Afrodite ou Vénus. Mas a mais dificil foi a de Freyja. Percorri Noruega, Suécia, Gronelândia, Filândia, Dinamarca, mas nada. Quando estava a perder a minha esperança lembrei-me de Avalon, onde de facto la estava mas encontrava-se partida e erodida pela chuva e vento.
Restaurei as estátuas e deixei-as em Avalon para que quando minha mãe quissesse voltar ter um ponto de chegada.
Depois disso vieram as minhas férias, Março em Nova Iorque, na cidade que nunca dorme, tenho dinheiro, depois de tantos anos nesta Terra devo ser a pessoa mais rica neste planeta. Tenho ínumeras propriedades na Europa, nas Américas e umas quantas no Iraque, Síria, Israel, Egipto, etc.
Desde que venho a Nova Iorque que existe muita diversidade nos bairros, e instalei em Upper East Side, em redor da alta sociedade americana. Jantares em galas de artistas, encontros com os Duques da área para discutir-mos assuntos relacionados com a descoberta da raça vampira, a revelação foi claramente planeada por mim, Circe e Radagast. Claro que o meu contributo ficava no anónimato. Ida á semana da moda nova-iorquina.
Compras na Dior, Versace, Valentino, Yves Saint-Laurant. Sim digamos que fiquei um pouco vaidosa, e ainda por cima naquela altura era muito conhecida por certos filmes que fiz.
A minha carreira é muito variada; atriz, cantora, modelo, directora de revistas de moda; porém já fiz parte da nobreza europeia, já fui considerada Princessa, Condessa, Duquesa, Viscondessa, entre muitos outros títulos, nunca alcançando o meu verdadeiro estatuto perante a humanidade, o papel de Deusa.
Muitos nomes tive nesta terra. Hémera, Angelicca, Helena, Lyseena. Mas tal como muitos deuses fui esquecida e Javé, Alá e Buda passaram a representar os papeis de comandantes deste planeta que originalmente apenas teria um único deus, o Rei Supremo, ao qual ser-lhe-ia dado um estatuto maior, passando a ser um Imperador, pois toda a Terra e todas as Dimensões Mágicas estariam a seu comando.
Mas nem tudo é um mar de rosas, tudo seria mais fácil se Javé não tivesse criado Lúcifer e Mikael, os dois irmãos arcanjos que lutaram entre si pelo o comando da Terra, o Apocalipse.
Tornou-se de meu interese impedir que isso acontesse, e foi por isso que procurei as estátuas, o portal delas liga-se em Pantheos, em Asgaard, Olimpo e a Vénus, onde Isthar reside.
E assim criei a Royale Corporation. Organização esta, que tratava de comprar palácios e outros imóveis que pertencencem á realeza humana, entre eles estavam o Palácio de Estoí, o Palácio de Versalhes que era arrendado ao Presidente Françês.
Depois de tudo isto é que efectivamente me instalei em Nova Iorque e foi assim que a "rombóia" começou.
As saidas á noite, as galas de caridade, os vários namoricos, entre eles o meu namoro com um filho de um grande empresário, John Walker.
Sempre que via John lembrava-me do meu irmão Éter e da relação incestuosa que tivemos, claro que isso no Pántheos é normal, uma vez que não existem tantos "homens" lá.
Mas lembrava-me dele porque tal como Éter, John era loiro, de olhos azuis, alto e de um sorriso fácil.
Eu também sou loira, e verdade seja dita, tenho uma grande pancada por homens loiros.
" — Onde queres ir esta noite? Já que não há galas nenhumas, eu pensei que poderiamos ficar em casa." — disse-me ele.
" — Não precisamos de galas para nada, até porque a maior parte dessas festas aborreçem-me. Hoje vamos onde tu nunca foste! Prepara-te John, pois vamos onde nenhum Upper East ou West Sider alguma vez iria. Vamos dar um passeio pela Tribecca, depois Meatpacking District, The Village, e assim perceberás como eu sou realmente." — respondi-lhe eu.
" — És doida?! Todos esses sítios têm um ar sinistro, além disso, se vêm alguém do Upper Sides quase que nos esfolam." — respondeu-me ele.
Peguei no braço dele e arrestei-o comigo e fomos até um Bloomingdales e comprei-lhe roupa mais casual mas ao mesmo tempo na moda e extravagante, afinal estávamos nos anos 80.
A nossa primeira paragem foi no Meatpacking District, num clube de LGBT, John parecia um estranho lá. Todos os gays olhavam para ele, mas assim que cruzavam o olhar comigo começaram a gritar.
" — Ó MEU DEUS, É ELA MESMO, EU SABIA QUE ELA VIRIA, ATÉ QUE ENFIM UMA FAMOSA NO NOSSO CLUB." — disse um deles.
Eu conhecia a dona do club, Catharina Lyseene, de descendência Russo-Americana, uma mulher linda de morrer, até John custava tirar os olhos de cima dela, e claro que Cat reparava que ele a estava a mirar-la.
" — Angi, estás tal e qual na mesma! Faz o quê? Seis meses que não te vejo, tens estado onde?"
" — Ó Cat sabes que a minha vida está na Europa, ao lado do meu irmão, e nunca me arrependi dessa opção. Foi algo que me foi apresentado e eu optei por apoiar o meu irmão. Mas sempre que dá para vir cá eu venho. Bem Catherina este é John Walker..."
" — Eu sei quem ele é, devias de saber que os paparazzi vão estar aqui não tarda, mas vá. Dimitri é um Cutty Stark On the Rocks e dois Cosmos, sigam-me."
Disco Heaven era o dos club LGBT mais popular da época, por dentro a decoração era berrante, paredes florescentes, candelabros na parede, bola de espelhos gigante.
O melhor para mim era o tipo de música, techno psicadélico, todo o pessoal sobre o efeito de LSD. John olhava para mim como se eu fosse doida, o que até era um pouco verdade, todos estes anos na Terra fizeram de mim uma party girl, amo festas, amo a luz da ribalta e amo o facto de ter homens a rastajarem no chão para terem sequer uma única noite comigo.
Sigimos Cat e ela levou-nos ao seu escritório onde vi um armário cheio de fatos especiais, desde o famoso Dominatrix de latéx preto, o Dancing Queen, cheio de lantejoulas e o meu favorito, Rock The Eighty's, composto apenas por umas calças de cabedal um top verde florescente. Assim que Cat me viu a olhar para o vestuário, tirou -o do armário e disse-me:
" — Ás duas e meia fazes a tua actuação, já sabes que estes «fags» estão a delirar de te ver aqui e eles esperam que actues."
John estava a olhar para mim.
" — John querido, eu antes de ser conhecida em Nova Iorque, eu cantava aqui e noutros bares de Lower Manhattan, e sinceramente eu sinto saudades de tudo isto." — disse-lhe.
Ele continuava a olhar para mim, mas não da maneira que eu pensei que olharia, eu pensava que ele me olharia como se eu fosse escumalha que teve sorte e subiu na vida. Mas me enganei. Ele estava a olhar para mim com orgulho.
Cat fora á porta do escritório e gritou:" — ESTELLE E ANTHONY, VENHAM JÁ PARA AQUI E TRAGAM OS VOSSOS ACESSÓRIOS, STAT."
John ficou na mesma no escritório.
Anthony era o cabeleireiro, ele me fez um pentado, com o cabelo armado, e a Estelle fez a maquilhagem florescente, e foi o momento de me vestir.
Foi aí que toda a minha vida mudou...
Estava atrás do pano do palco, momentos antes de actuar, e John decidira ficar a ver o espectáculo ao lado do técnico de luz e som. A música era recente e todos adoravam, e no mundo gay era um furor, I Wanna Dance With Somebody de Whitney Houston. A música começara o foco de luz bateu-me na cara, senti-me atordoada, mas continuei a actuar. O pessoal em furor, a coreografia, a maneira como John me olhava, a própria música era de uma frenética que não estava a sentir.
Acabara. Todos estavam a rodar á minha volta, senti apenas me estatelar no chão, e dar-me uma vontade enorme de vomitar.
Cat, John e Dimitri vieram me ajudar, nessa altura eu começara a vomitar sangue, e sabia que certos ossos do meu corpo se tinham partido, sentia uma dor na anca.
Sabia o que se estava a passar, não estava a acreditar, as minhas idas ao Pantheos eram agora muito esporádicas e isso influenciava muito a maneira como reagia-mos á Terra, se passamos muito tempo na Terra, corriamos o risco de tornar-nos algo que não era nem humano, nem divino, mas sim mitológico.
" — O que se passou, estás bem? Ainda foi uma grande queda, partiste alguma coisa?" — perguntava John ao me pegar no colo.
" — Au! Preciso...Abraham...Maria." — disse e desmaiei.
Acordei no hospital, ao sentado a dormir no sofá ao meu lado estava John com um ar muito diferente do que me lembrava.
Não sabia o que se tinha passado, estava entubada, cabos na minha cabeça. Nesse momento a máquina começou a apitar. John acordou sobresaltado. Enfermeiros apareciam e desapareciam, até que o médico chegou ao quarto.
" — Miss Angelicca sabe a sua condição?" — disse apontando para a minha barriga.
Foi aí que senti pela primeira vez, uma criança no meu ventre, um ser vivo, o meu bébé.
" — Quanto tempo passou?" — perguntei.
" — Nove meses." — respondeu ele.
No fundo do meu ser apenas me lembrava de uma pessoa, a minha mãe, ela passou por tudo isto, mas eu nunca me lembraria disso quando estava a ter os sintomas.
Abraham e Maria apareçeram no meu quarto, e foi nesse momento que as minhas águas rebentaram.
A agonia, as dores, as luzes brancas florescentes a baterem-me na cara, e aquela dor dilacerante quando a cabeça do meu bebé a sair do meu corpo.
E por fim aquele momento em que se ouve o choro do bebé, aquela voz que inundou o meu pensamento, e nesse momento soube que o meu bebé era a minha bebé.
Chamei-lhe Angelinna, toda ela parecida comigo, de cabelos loiros claros, certas feições da minha mãe, misturado com os olhos verdes, tão verdes como os prados que antigamente cobriam o Nilo ou Eufrates, para mim eram os olhos do pai.
Ela nunca poderia estar comigo, nem com o pai.
Avalon era o lugar para ela. Angelinna, neta de Nyx, Valar, e provavelmente Senhora do Lago ao lado de Morgana La Fey e Níniane.
Soube que um dia ela voltaria para mim, para o lado do que seria o Rei Supremo.
Deixei logo o hospital e graças á magia é que consegui estar logo em Avalon.
Esquivei-me de Abraham, Maria e John. Pobre John nunca chegaria a conhecer a sua filha.
Abraham nunca a usaria para os seus planos sádicos e Maria nunca seria a madrinha que sempre quis ser.
" — Senhora, Bem-vinda de volta! O que deseja?" — perguntou-me Níniane.
" — Esta criança é para ser criada ao lado de Morgana, ordens de Nyx." — disse-lhe eu mentindo, minha mãe nunca soube de Angelinna.
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