One to Rule Them All.

16 O Conde e Condessa da Caparica e sua nobre filha.


Notas iniciais
Maria, tão triste que estás...

Algures na mente de Maria

Ano de 1500

Ele era dos nobres mais gentis que alguma vez conheci. Chamavam-lhe Mihnea, Príncipe da Valáquia e ao seu lado uma senhora linda, de cabelos tão loiros como o raiar do Sol.

Quando chegaram a Lisboa, Sua Majestade o Rei D. Manuel I marcou uma audiência com ele, ao que parece sua Graça, o Príncipe, queria asilo político, pois em Valáquia e Transilvânia as coisas não estavam a correr muito bem. D.Manuel concedeu-lhe o Título de Conde da Caparica, onde lá se instalou num palacete gótico que existia.

Eu era na altura nada mais que uma cozinheira nesse palacete, mas depressa descobri alguns segredos do Conde.

Sua Senhoria, o Conde, pensava eu e todos na altura que era casado com a tal senhora de cabelos loiros, Mihnea chamava-lhe Angelicca, e assim que a Condessa se instalou depressa vieram as carruagens cheias de pessados tomos de velino e couro, claro que era normal que a nobreza tivessem tantos livros sendo eles tão cultos e perpicazes, mas não chegaram só livros, depressa vireram os pergaminhos, papiros, folhas de velino isoladas e enrolados sobre si.

No fundo da minha alma senti que todo aquela parafernália era exessiva até mesmo para um simples príncipe de uma terra tão longuíqua como a Valáquia. As minhas suspeições tornaram-se verdadeiras.

Eles decoraram toda a mansão com novas coisas, quadros riquissimos, estátuas do mais puro mármore italiano, tapeçarias de Antuérpia e com sedas e cetins da longíssima China.

Por fora o palácio era simples, sóbrio e até algo assustador. Parecia os sítios das histórias que a minha avó contava para me assustar. Com heras fortes a agarrarem-se ás pedras amareladas pelo tempo, uma rosásea enfeitava a entrada principal, e era digna de uma catedral. Porém os Condes eram generosos e partilham muita coisa com o pessoal, não tinham filhos, penso (ainda hoje) que têm um instinto paternal. Os filhos dos empregados comiam á mesa dos Condes, carnes tenras e suculentas eram lhes posto á frente, peixe mais fresco que alguma vez eles tinham comido, eram-lhes servido.

Com a ajuda das crianças, a Senhora Angelicca plantou o jardim com as mais diversas flores, desde de papoulas, hortênses, crisântemos, solandras, e outras que não eram comuns na altura. Plantas aromáticas como o alecrim, a hortelã, a hortelã-pimenta, a salsa, etc.

Porém o que mais me perturbava era a plantação de cedros e cipestres no antigo pinhal da propriedade, é que em Portugal, o cedro simboliza a longevidade e a morte, tal como cipestre que representa a morte. Algo dizia dentro de mim "feitiçaria, bruxedos e maldições". E não me enganei.

Na noite de 13 de Novembro, uma sexta-feira, acordei na cozinha em cima da tábua de cortar carne e tinha a cara cheia de fluídos, encaminhava-me para os aposentos dos criados, quando uma luz branca iluminou o pátio. Corri em direcção á luz e lá estava o Conde com a mão esticada em direcção á Lua e de sua mão saía um feixe de luz prateada muito luminosa. A Condessa tinha a sua mão no ombro de Abraham, como estivesse orgulhosa dele e dizia-lhe: " Muito bem conseguiste capturar a tua primeira essência lunar, quebra a ligação e transfere-a para aqui";

O que vi na mão dela era um pequeno tubo transparente e quando ele tocou nele, um pequeno ponto lumininoso caiu dentro do tubo permanecendo no meio deste, como se tivesse suspenso por algo. Continuava a ver o que eles faziam, mas todo o medo tinha passado, fiquei foi surpreendida pela aquela demonstração, era maravilhoso, lindo, misterioso e sedutor, aquele feixe atraia-me para junto deles. Pisei um ramo e parei, mas Angelicca tinha ouvido e de repente estava ao meu lado. " Mas onde é que esconderam, minha senhorita, a luz atraíu-te não foi? Achaste tudo lindo e misterioso? Junta-te a mim e em breve serás tu a fazer tudo isto!".

Não respondi mas uma parte de mim queria tanto aprender tudo aquilo, mas dentro de mim sabia que se o fizesse mudaria para sempre, venderia a minha alma a algo maior que eu, era o que pensava na altura, seguia a religião católica, ainda servia Javé e temia Lúcifer e os seus demónios. Foi Angelicca que me ensinou tudo o que sei, e acreditem que ali está uma mulher para ser temida, adorada, quase que como uma deusa.

Ela me encantava, o seu aspecto, o seu jeito de fazer as coisas e de manipular todos naquela casa.

Conversava com ela, sobre como é que eu seria como o Conde, e aí ela respondeu-me, lembro-me tão bem das palavras que ela proferiu:

" Agora sentes uma grande ligação a mim, mas se seguires isto, será Mihnea a controlar-te, serás uma Sheyde, uma criatura imortal que segue o seu criador até onde ele disser, porém teras capacidades mágicas e algumas que nem os feitiçeiros têm, neste momento estás-te a perguntar, o porquê de não ser eu a tua criadora, e a resposta é que eu não posso ter Sheydes, o meu sangue não o permite.

Mas mesmo sendo a Sheyde de Mihnea, é uma coisa boa, ele é um óptimo feitiçeiro, novo, inexperiente e que está a aprender, se conseguires afeiçoar-te a ele, ele será como um pai para ti, passarão por muito voçês os dois e um dia terás a tua recompensa, pois ele está destinado a grandes coisas.

Agora falando da maneira como te tornarias uma Sheyde. Mihnea teria de te dar um pouco do sangue dele, de forma a que o seu sangue se apodere do teu corpo, e depois ele teria de matar a tua parte humana e quando acordasses serias uma Sheyde."

Mihnea tinha ouvido a conversa pois ele estava atrás de mim, eu conseguia sentir a sua essência. Ele apenas disse que seria uma Sheyde muito linda, que já tinha conhecido muitos e que com o meu jeito eu seria muito amada por todos. Quando ele disse aquilo eu apenas consegui dizer: SIM.

E foi assim que Abraham se tornou meu pai, o único que conhecera, tanto em Sheyde, como Humana, nunca me tinha arrependido da minha decisão até há pouco tempo, mas mesmo assim sinto que fiz o que era melhor para mim. Angelicca sempre teve ao meu lado, nos meus melhores e piores momentos. A partir daí me tornei Senhora Maria, herdeira do Condado da Caparica