One Night - Livro 1
66 Capítulo LXVI
Notas iniciais
Era por volta das nove da manhã quando apertei a campainha daquela mansão. Enquanto aguardava ser atendido, observei com nostalgia a fachada do bonito casarão. Aquele imóvel tinha sido um presente de casamento dos meus avôs aos meus pais. Mamãe adorava aquela casa e com o auxílio de Matilde, ela fazia questão de cuidar de cada detalhe de tudo ali, principalmente de seu orquidário que Joseph mandou faz para ela, já que mamãe adorava aquelas plantas.
Diante da demora em vir atenderem a porta, eu toquei a campainha pela segunda. Podia simplesmente entrar no imóvel sem esperar, já que ainda possuía as minhas chaves da época que residia ali. Entretanto, não me achava mais no direito de tal ação. Há mais de vinte anos deixei de viver ali. E, já não mais sentia aquela casa como minha para ir entrando nela com minhas próprias chaves, como se aquilo ainda fosse corriqueiro de acontecer, quando já não era faz tempo.
Para mim aquela casa grande e bonita passou a ser apenas do meu pai e do Lewis, e não mais nossa após a morte da minha mãe.
Cresci e vivi minha infância toda naquele imóvel situado em uma área nobre e residencial de New Jersey. Alegrias e algumas tristezas me remetem àquele lugar. E apesar das alegrias serem muitas em relação as tristezas, ainda assim, posso afirmar que as tristezas pesam bem mais e ainda doem. Por isso mesmo, desde que voltei a residir nesse país e nesta cidade, que evito ficar vindo à casa onde cresci. Não quero lembrar das tristezas que aquele lugar me trás a mente.
Às vezes em que pisei ali após meu retorno, podiam ser contadas nos dedos de uma mão apenas. Foram exatas duas vezes. A primeira logo que cheguei para avisar pessoalmente do meu retorno ao coroa. E a segunda vez foi para ver Matilde que não estava aqui no dia em que voltei da Alemanha. Depois dessas nenhuma vezes mais pus os pés aqui.
Quando precisei falar com meu velho já nesse tempo em que estou residindo nos EUA, eu liguei para ele e nós resolvemos por telefone o assunto. Ou se a questão era mais séria e importante, pedia ao coroa para ir ao meu apartamento para tratarmos o assunto lá. Ou mais ainda, tratávamos no escritório da fábrica mesmo. Entretanto, desta vez, o teor do assunto da conversa que pretendo ter com ele é bem sério e delicado para ser tratado num ambiente de trabalho e menos ainda por telefone. E como na minha casa também não dava por conta ainda da presença de Maryane, que só iria embora de lá depois do almoço a pedido dela. Então, só me restou vir aqui falar com o coroa. Quero resolver essa situação o mais rápido possível. Até porque a mesma já se estendeu além da conta.
A porta enfim se abriu e vi Matilde impecável em seu uniforme de governanta, me encarar com uma das sobrancelhas arqueadas. Já até imagino porquê.
— Por que tocou a campainha ao invés de entrar com sua chave? — o olhar de Matilde era de pura reprovação enquanto me dava passagem para entrar na casa.
— Você sabe que não me acho mais no direito de ir entrando aqui como se ainda morasse nesta casa. — aleguei ao passar pela mulher que considerava como minha segunda mãe.
— Bobagem! Esta casa continua sendo sua independente de fazer anos que viveu fora daqui.
— Não vejo desse modo, mas enfim... Joseph já chegou de Las Vegas?
Espero que ele não tenha inventado de emendar viagem para outro lugar, porque me verei obrigado a contragosto comunicá-lo por telefone mesmo sobre minha decisão, posto que não estou com a menor intenção de adiar mais um dia essa nossa conversa. O que eu tinha a lhe dizer, eu diria hoje mesmo quer seja pessoalmente ou via telefone.
— Seu pai... — revirei os olhos diante da ênfase exacerbada com a qual Matilde proferiu a palavra "Pai". A mulher que já me conhecia desde pequeno detestava o fato de que eu passei a me referir ao meu pai pelo nome ou mesmo pelos termos: "velho" e "coroa". Raras eram as vezes em que eu o chamava de pai. Até porque, ele mesmo me chamava muito raramente de "filho". Sua maneira de se reportar a mim era pelo meu primeiro nome ou pelo último. Esse fato entre nós se tornou hábito alguns meses depois da morte da minha mãe. — ... Ele chegou há pouco. Subiu para tomar uma ducha, pois estava com dor de cabeça.
Respirei satisfeito por ele se encontrar em casa. Ainda que eu estivesse disposto a lhe contar sobre meu rompimento com Maryane e o relacionamento com Sara, por telefone caso o coroa tivesse emendado viagem, eu preferia que este assunto fosse tratado pessoalmente.
— Avise à ele que estou na sala de leitura esperando-o pra uma conversa.
Pouco me importa se o velho está com dor de cabeça, de dente ou o que diabos seja, mas a conversa entre nós sairá hoje. E sem dar margem a Matilde de fazer-me questionamentos ou contestações, segui em direção ao cômodo o qual disse que esperaria pelo velho.
Poucos instantes depois já abria a porta da sala de leitura. Ao adentrar naquele cômodo e bater os olhos de cara no piano que ainda permanecia no mesmo lugar de sempre, inevitavelmente, boas lembranças vieram habitar a minha mente e fizeram-me esboçar um sorriso saudosista.
Ainda parado na porta fechada atrás de mim, eu me vi sentado no banco diante do piano, com meus catorze anos e tendo acomodado ao meu lado esquerdo a minha mãe. Juntos, nós ríamos enquanto nos arriscávamos em tocar à quatro mãos uma música de Chopin que minha mãe adorava.
Dona Beth se aventurava um pouco no piano. E antes de a doença debilitá-la demais a ponto de minha mãe passar a maior parte do tempo na cama em seus meses finais de vida, ela costumava me acompanhar e tocávamos música a quatro mãos. Eu adorava isso. E podia ver em seu semblante que ela também adorava! Mas o que minha mãe mais preferia mesmo era apenas ficar me observando tocar sozinho. Ela dizia que eu tinha a suavidade e delicadeza de um artista ao tocar.
"Essa música a quatro mãos não vai sair não."
"Pelo jeito não!"
Nós sorrimos juntamente e paramos de tocar.
"Ontem eu estava te olhando dali da porta tocando e... Você está tocando piano cada vez melhor, meu querido. Desse jeito pode até virar um pianista profissional."
Eu a vi sorrir enquanto uma de suas mãos agora deslizavam por meus cabelos recém cortados para desgosto de dona Beth, já que meus cachos que ela tanto adorava tinham sumido com o corte bem batido que meu pai mandou o barbeiro fazer.
Se meu pai ouvisse o que mamãe acabava de me dizer, ele surtaria. A ideia de eu virar um artista não agradável meu pai em nada. Ele podia até apreciar uma ou outra música que eu tocasse, mas para ele aquilo de música era apenas um passatempo já que segundo ele: "Música não dá futuro."
"Papai é capaz de surtar se eu disser que quero ser músico."
"Querido, seu pai pode surtar o quanto for, mas se você quiser seguir este caminho... Siga. A vida é sua e o rumo que dará a ela, só compete a você, meu querido, entendeu?"
"Entendi, mãe. Só que a música não é uma carreira que quero seguir. Tocar piano pra mim é só um hobby."
"Um hobby que você executa com maestria!"
Ainda parado na porta, eu sorri com a breve lembrança daquele diálogo. De fato se eu quisesse ter seguido por esse caminho da música, poderia sim, quem sabe, ter tido um futuro de sucesso. Mas a vida de músico não era algo que eu almejava. Gostava e ainda gosto de tocar piano apenas para me distrair, como um passatempo mesmo. Não queria e nunca quis isso como profissão de fato.
E aquele diálogo com minha mãe o qual inclusive, eu até tinha esquecido, povoou minha mente me fazendo lembrar que Dona Beth sempre me dava conselhos sábios. Tenho certeza que se ela estivesse aqui me apoiaria na decisão que tomei e adoraria a mulher por quem me apaixonei.
Consegui tomar coragem e caminhei com certa hesitação até o piano branco. Quando já me encontrava perto o suficiente dele, não resisti em deslizar a mão por sua superfície.
Saudades do passado!
Aquele instrumento musical que eu fitava com melancolia me remetia demais as lembranças da minha mãe e de bons momentos meus com ela. Assim como acontecia com aquela casa também. Se fecho os olhos por um segundo, sou capaz de ouvir a voz suave de dona Beth ecoar por ali; sua risada leve quando elas eram ainda constantes antes de a doença lhe debilitar demais; seu perfume de alfazema, que eu tanto amava também era capaz de ainda sentir estando naquele cômodo o qual ela passava a maioria de seu tempo, quando não estava no orquidário.
Sorri ao me recordar da alegria e emoção de mamãe quando ela teve a oportunidade de me ver tocando pela primeira vez. Eu lembro quando foi isso. Tinha sido em uma apresentação do dias das mães, que aconteceu no conservatório onde eu estudei alguns anos. Estava com meus nove anos e toquei para ela Over the Rainbow. Esta tinha sido a música que fiz questão de aprender para aquele momento e também a primeira que aprendi a tocar inteira, pois foi esta canção que minha mãe cantou para mim até meus seis anos, todas as noites antes de eu dormir.
Ao final da minha apresentação eu a vi batendo palmas com muita empolgação e emoção enquanto me ostentava um rosto molhado pelas lágrimas.
— Ainda sinto tanto a sua falta, mãe.
O duro golpe que foi a sua perda, me devastou demais. Ainda que a perda dela já fosse anunciada pelos médicos e meio que já esperada por nós, familiares, pois o estado de mamãe já era muito ruim, eu ainda não estava preparado para lhe dizer Adeus.
Doeu. Ainda dói. E creio que doerá sempre a perda da minha mãe. Nós éramos muito unidos. Tínhamos tanta coisa em comum. Ela era meu apoio. Com ela, eu era aberto e carinhoso. Coisa tão diferente do que costumava e até hoje costumo ser com o meu velho. Joseph e eu nunca fomos próximos e nossa relação sempre foi conturbada em vista do modo rígido e autoritário do coroa em me tratar. E como nunca fui de baixar a cabeça para ele e sim, de enfrentá-lo, a relação era tensa.
— Queria tanto que você ainda estivesse aqui conosco. Certamente, as coisas por aqui seriam melhores.
— Disso não tenho dúvidas mesmo, Gilbert.
Me virei devagar para encontrar o coroa de braços cruzados e escorado a soleira da porta de entrada da sala. Sequer tinha lhe ouvir abrir a porta.
— Estava aí há muito tempo? — me senti um tanto desconfortável com o fato de ele estar ali me observando há sabe-se lá quanto tempo.
— Estou tempo suficiente pra vê-lo divagando em recordações acerca da sua mãe. — o coroa descruzou os braços, "guardou" as mãos no bolso da calça de linho e veio caminhando em minha direção. — Esse piano aí te faz lembrar muito dela, não é?
Meu olhar se desviou por frações de segundos do velho e foi para o piano.
— Não é só o piano, mas como esta sala, a casa. Aqui tudo me faz lembrar dela. — admiti com sinceridade e voltando o meu olhar para encarar o homem parado diante de mim.
— Comigo é igual. — ele admitiu e deixou um melancólico e triste sorriso escapar.
Quando o assunto entre nós se referia à minha mãe, eu via a couraça do velho cair e o seu ar durão e autoritário também. Ele deixava transparecer seu lado vulnerável que raras vezes era possível ser visto.
Devo reconhecer que se para mim foi um duro golpe a perda da matriarca da nossa família, para o meu velho foi igual. A morte da esposa o deixou perdido, amargo e mais duro e enérgico com os filhos, principalmente comigo.
— Ela nos faz muita falta, não é verdade?
Joseph resmungou de maneira triste enquanto notei seus olhos fitarem o porta-retrato sobre o piano. A fotografia nele era do último Natal que minha mãe passou conosco. Estávamos a família toda reunida na foto. Minha mãe se mostrava já bastante debilitada na época, mas nem por isso deixou de comemorar a data festiva. Talvez ela já estivesse prevendo que aquele seria seu último evento em família, posto que um mês depois disso, ela nos deixou numa fria tarde de chuva.
— Sim, faz! — concordei, observando meu pai que ainda mantinha seus olhos na fotografia.
— Mas Deus quis assim e a levou de nós.
Franzi a testa por suas palavras.
— Você falando em Deus? — não contive o sarcasmo. Ele nunca foi religioso, assim como eu. E, agora vinha falar de Deus para mim.
Seu olhar que até então seguia fitando o porta-retrato se voltou à mim e nele vi de volta o coroa que me habituei a ver ao longo desses mais de vinte anos. O homem vulnerável de minutos atrás se foi, dando lugar ao sério e sisudo de sempre.
— Matilde me disse que quer conversar comigo. É sobre o quê essa conversa, Gilbert?
E chegamos ao momento que me trouxe até aqui; o momento que por inúmeras circunstâncias foi sendo adiado e deixado para depois, mas agora enfim aconteceria.
— É sobre uma importante decisão que tomei e que quero comunicá-la a você.
O coroa apenas assentiu e propôs de irmos sentar nas poltronas a fim de termos a conversa que eu queria.
— Pode falar. Sou todo ouvidos. — ele se pronunciou tão logo havíamos nos acomodado nas devidas poltronas.
Respirei fundo e então soltei as palavras:
— Não pretendo mais me casar com Maryane. — anunciei sem fazer entremeios, exatamente como foi na conversa com Maryane. Esperei para ver a reação do velho ao que fora dito. Ele não esboçou qualquer sinal de aprovação ou reprovação, ou fez menção de se pronunciar. Se mostrava impassível. Diante disto, eu resolvi prosseguir então: — Ontem tivemos uma conversa na qual terminei meu compromisso com ela. A razão disso foi que me apaixonei por outra mulher que conheci. Deste modo não vejo razão pra manter meu compromisso com Maryane. E antes que me questione sobre quem é a mulher em questão, eu já lhe digo que se trata da Sara, a moça com quem você foi desnecessariamente grosseiro na festa do Lewis. Inclusive é com ela agora, que pretendo me casar em breve. — comuniquei de maneira bem objetiva e fiquei com a nítida impressão de que o coroa não parecia nada surpreso com o meu comunicado.
Na minha cabeça já até tinha me preparado para o surto dele tão logo lhe contasse aquilo tudo. Imaginei que como o velho gosta tanto da Maryane e vivi enaltecendo-a como uma boa nora, que ele ia tomar sua defesa tão imediatamente, mas não foi o caso. Ele não surtou! Tampouco tomou sua defesa. Ele simplesmente se manteve calado e me olhando como se o que eu havia acabado de lhe comunicar não fosse para ele novidade alguma. Achei estranho e até mesmo suspeito isso. Logo o pensamento de que Maryane tivesse alguma coisa haver com esse fato me povoou a mente. Será que ela se antecipou a mim e contou ontem mesmo ao velho sobre nossa conversa? Se foi isso não gostei. Ela não tinha nada que ter feito tal coisa. E só espero que ela também não tenha mencionado sobre Sara, porque do contrário ia se ver comigo.
Não querendo trazer essa suspeita a tona para conversa a fim de não me aborrecer e acabar por exaltar os ânimos que se mantêm calmos até então, eu resolvi me abster de questionar o coroa sobre sua reação e minha suspeita quanto a esta. Desse modo, continuei:
— Quanto ao bebê, Maryane vai ter toda a minha assistência no que quer que precise. Pretendo dar uma boa pensão a ela e tentarei ser o pai mais presente possível na vida dessa criança. Mas me casar com a Mary, não casarei mais. — finalizei meu "comunicado" ali e esperei agora pelo "pronunciamento" do coroa. Só levou alguns segundos para isso acontecer.
— Você vai trocar uma MULHER agradável como Maryane, por uma "menina" deselegante como aquela Sara, é isso?
Quando o ouvi se referir a Sara naqueles termos já intuí que a conversa a partir dali iria para um rumo que eu previa que fosse.
— Sara não é nenhuma "menina" e muito menos deselegante. — rebati em defesa da mulher que amo. Não ia deixá-lo falar daquela maneira de Sara. — Você teve uma impressão errada dela por causa do que houve no casamento da Camille.
— Mas dizem que a primeira impressão é a que fica.
— Só que ela pode mudar.
— No caso dessa moça pra mim não. E não quero uma moça como essa Sara fazendo parte da minha família e carregando o nosso sobrenome, Gilbert.
— O que você quer dizer com "uma moça como essa Sara"? Que tipo de mulher você acha que ela é?
— Ah, Gilbert! — ele exclamou com um sorriso que não me agradou. Era irônico e debochado demais. Depois pondo-se de pé, o coroa caminhou três passos até alcançar a estante de livros e só então tornou a se pronunciar. — Não te parece óbvio que tipo de mulher ela seja?... Vejamos, ela é mais jovem que você.
— E daí? — isso pouco me importava. Sara deixou claro na noite que nos conhecemos que a nossa diferença de idade não lhe importa e a mim tampouco.
— E daí que você é rico. Milionário! Futuro herdeiro de um império. E ela só deve estar...
— Nem se atreva a terminar essa sua frase, Joseph. — o interrompi, levantando-me do sofá bruscamente. Não precisava ouvir o resto para saber o errôneo pensamento dele em relação ao que ele acha serem as intenções de Sara no que diz respeito a mim.
— Por que?
— Sara não é nenhuma oportunista ou interesseira como ia dizer.
— Não foi o que me disseram por aí.
Diante dessas suas palavras, eu não tive mais dúvidas de que Maryane tinha falado com ele.
— Quem te falou a respeito dela? Foi Maryane? Pois saiba que ela é a mentirosa e tem inveja de Sara. Nada do que Maryane disser sobre a prima deve ser levado em consideração.
— Eu não ouvi apenas de uma pessoa coisas desagradáveis a respeito dessa Sara. Mais gente me deu a mesma opinião sobre ela.
Essas tais pessoas que disseram mentiras sobre Sara têm que torcer muito para eu não descobrir quem elas são, porque se eu descobrir, elas estão bem encrencadas na minha mão.
— E que opinião foi essa? — caminhei até ele. Por dentro a raiva me corroía por essas pessoas que falaram merda de Sara para o meu pai.
— Que esta moça é uma mulher dissimulada, interesseira e que muito provavelmente está com você pelo seu dinheiro.
Esses filho da puta que falaram essas calúnias todas vão me pagar, se eu descobrir quem são eles.
— Nada disso é verdade. Sara não é esse tipo de mulher. Ela está comigo porque me ama!
O coroa deixou que uma alta gargalhada irônica coasse pela sala.
— Ama o seu dinheiro. — ele me disse ainda rindo. — Não seja idiota, Gilbert! Assim você me decepciona. Não criei filho pra ser feito de tolo por uma garota interesseira.
— Não fala assim dela! — apontei meu dedo em riste na direção de seu rosto.
— Tira esse dedo da minha cara! — Joseph empurrou minha mão de perto do seu rosto com raiva. — E eu falo como quiser dessa moça. Não dou muito pra num futuro próximo, ela te trocar por outro mais jovem e até mais rico.
Aquelas palavras dele foram o estopim para minha paciência. Não era esse rumo que eu esperava que a nossa conversa tomasse. Esperava sim que descambasse para algo desagradável, mas não tanto assim. Ele achar que Sara é uma interesseira e que estava comigo pelo que eu tinha, não fazia qualquer sentido.
— Você acha que todo mundo é igual a você que só pensa e vive em função de dinheiro?... Pois está enganado. Nem todos são assim, Joseph.
— Mulherzinhas com o perfil dessa Sara são.
Não consegui mais me conter e o agarrei pela gola da camisa branca que ele usava. Bastava de ouvi-lo abrir a boca para falar só merdas e mais merdas sobre Sara. Paciência tem limite e a minha estrapolou nesse instante.
— Escuta aqui... Se você disser ou insinuar mais uma vez que Sara é interesseira, eu esqueço que é meu pai e...
— E o quê, seu petulante? Vai bater em mim? Por causa de uma mulherzinha vai ter coragem de agredir o seu pai, Gilbert?
Não se tratava de uma "mulherzinha". Era a mulher que eu amava. Não ia mais permitir ou aceitar ouvir alguém, muito menos o meu pai, ficar deturpando a imagem de uma mulher que eu sei que é uma boa pessoa.
— Jesus Cristo! Mas o que está havendo aqui? — Matilde invadiu a sala sem pedir licença e bem quando Joseph e eu estávamos discutindo. — Do corredor se escutam as vozes alteradas de vocês.
Sorte do Joseph que Matilde apareceu, pois do contrário, eu teria feito uma besteira com ele.
— Este petulante do Gilbert que parece ter perdido o respeito pelo próprio pai e está pronto pra me agredir, Matilde.
— Gilbert! Por Deus, menino. Largue seu pai.
Matilde veio às pressas até mim e me afastou de Joseph.
— Se você quer respeito tem que saber respeitar os outros também e não ficar dizendo inverdades ou fazendo acusações e suposições errôneas sobre pessoas que você sequer conhece direito, Joseph.
— Mulheres como essa moça conheço sem sequer precisar ver bem. E, ela está te fazendo de trouxa.
— Cala a sua boca. — esbravejei apontando para ele e tendo Matilde a minha frente e agarrada a mim como se fosse meu escudo, impedindo que eu chegasse perto do velho.
Se meu pai queria me tirar dos eixos, pois ele conseguiu isso com extremo louvor.
— Por Deus! Vocês são pai e filho. Não devem ficar se enfrentando assim feito dois inimigos.
— É esse petulante que não sabe ouvir a verdade sobre a mulher que ele pretende se casar agora.
— Maryane? — Matilde me olhou com curiosidade, mas meu pai se antecipou a mim na resposta.
— Não. Agora se trata de outra, Matilde. Mais precisamente a prima de Maryane.
A surpresa estampou a cara de Matilde enquanto me encarava após as palavras de meu pai.
— Você vai casar com essa moça, Gil?
— Sim, Matilde.
— Mas e a Maryane?
— Nós terminamos. Amo a Sara. E você... — apontei para o velho Joseph. — ...Gostando ou não, meu casamento com Sara vai acontecer mês que vem. — decreto com firmeza.
— Então vai insistir nessa burrice?
— Não é burrice.
Me casar com Sara nunca seria burric, pelo contrário, seria o melhor acerto em minha vida.
— Grissom, você não pode fazer isso, menino! — Matilde opinou.
— Por que não? — estreitei meu olhar nela que segurava meu braço e seguia se mantendo entre mim e meu pai, talvez para evitar que fôssemos as vias de fato.
Antes que a governanta da casa do meu pai me respondesse, o coroa se intrometeu e respondeu no lugar dela.
— Porque você tem que casar com Maryane que é uma mulher de verdade e que vai te dar um filho.
Minha língua coçou para lhe revelar que o bebê que ele achava ser meu não era. Mas me contive, porque não quis expor Maryane dessa maneira mesmo que ela merecesse por tudo que fez e por ter se mostrado uma pessoa baixa como eu nunca pensei que ela fosse.
— Infelizmente pra você essa decisão só diz respeito a mim. A vida é minha e eu decido com quem caso. E escolhi a Sara.
— Pois se casar com esta moça te deserdo. Você só vai ficar com a fábrica e o escritório da Alemanha, pois estes estavam no nome da sua mãe e ela te deixou como herança. Mas me encarrego de tirar todos os fornecedores, investidores e tudo mais que "alimentam" aquela fábrica. Você vai ter que dar seu jeito de manter aquilo tudo funcionando, pagar funcionários, custear pesquisas, estudos e bancar também o seu projetinho na África com o mísero patrimônio particular que você possui. Aí, eu quero ver se essa Sara ainda vai ficar com você quando estiver afundado em dívidas e não for mais o futuro herdeiro de um império como o nosso.
Ele realmente não conhece a Sara e muito menos a mim. Acha mesmo que essa sua chantagem vai me fazer desistir da mulher por quem me apaixonei? Não mesmo!
— Eu tenho pena de você, pai. É tão mesquinho. — nunca imaginei que meu próprio pai agiria daquela maneira baixa comigo. Mas se ele quer ir por esse rumo, pois que assim fosse. — Se quer me deserda, vai em frente. Sara não vai me deixar por isso e nem eu vou desistir dela.
— Será mesmo? — ele teve a coragem de questionar enquanto eu o via com uma expressão de dor massageando uma das têmporas. Aposto que a dor de cabeça dele só aumentou e piorou com essa nossa conversa. Problema dele!
— Não tenho dúvidas. E se quer saber? Também não tenho medo de arregaçar as mangas e começar a construir um patrimônio do zero. Sua chantagem barata não vai me fazer mudar ideia.
— Vamos ver se não mesmo.
— Passar bem, Joseph!
Com delicadeza fiz Matilde me soltar e sem proferir mais qualquer palavra saí da sala ouvindo ao fundo a voz irritada do meu pai chamar por meu nome insistentemente, mas ignorei-o e segui meu rumo.
Fale com o autor