One Night - Livro 1
50 Capítulo L
Notas iniciais
Quando ouvi a campainha soar, fui tomada por uma mistura louca de apreensão e incerteza. Cheguei a me questionar se fiz certo em aceitar dá ouvidos aquela tal fulana que Grissom trouxe para falar comigo.
A campainha soou pela segunda vez.
Torcendo as mãos em nervoso, eu olhei para Dayse e pela cara insatisfeita da minha amiga, a minha decisão em receber aqueles dois não tinha sido boa na opinião dela.
Para Dayse, Grissom podia muito bem ter combinado alguma história qualquer com essa fulana "amiga" dele, no intuito de "limpar sua barra" e assim, me enrolar para reatarmos. Até pode ser verdade isso, mas garanti a Dayse que esses dois não vão me enganar com história fajunta alguma.
— Ó, qualquer coisa estou no meu quarto!
Apenas dei uma meneada com a cabeça para minha amiga e vi, a mesma seguir em direção ao corredor, que levava para os nossos quartos.
Pela terceira vez a campainha soou e me dirigi até a porta. Segurando na maçaneta, respirei bem fundo. Ia ser desagradável aquele encontro. Eu podia sentir isso. No entanto, aceitei recebê-los e agora é ver no que vai dar isso.
Abri a porta e meu coração quase parou de bater quando pus meus olhos naquela tentação que atendia por Grissom, depois de todos esses seis longos dias sem vê-lo.
E mesmo não querendo, tampouco devendo; estando
ressentida e com raiva dele — e não era pouca raiva, era muita. Eu me vi admitindo que sentia sua falta. Na verdade, senti em cada instante desses dias que ficamos sem nos ver.
Aquela peste de homem me fazia falta. E vê-lo estava mexendo demais comigo. Sentimentos distintos duelavam dentro de mim. E era um "duelo" louco e insano.
— Oi, Sara!
Seu tom de voz saiu sério e frio feito uma pedra de gelo.
— Oi, Gilbert! — optei por cumprimentá-lo da mesmo forma séria e fria que ele me tratou.
O "encantamento" do reencontro passou assim que ele tinha se dirigido mim daquela forma e agora, o ressentimento se sobrepôs aos demais sentimentos mais nobres que brigavam dentro de mim.
— Esta é Heather Kessler. — ele me indicou a mulher postada ao seu lado, e que só agora eu fui notar a presença, já que estava ocupada demais olhando àquele cretino.
A tal Heather era uma ruiva de belos olhos verdes, com os cabelos impecavelmente arrumados, maquiagem bem feita; vestia um conjunto social de saia e blazer azul marinho, sapatos altíssimos e carregava pendurado num dos ombros uma bolsa de marca cara.
A mulher era bonita! Devo reconhecer isso. E ainda exalava uma arrogância absurda pelos poros.
Sua forma de me olhar de cima a baixo, incomodou-me. Ela, claramente, me inspecionou e desaprovou terminantemente o que viu. Pois bem, estávamos em pé de igualdade quanto aquilo.
— Olá, Sara!
A forma esnobe com o qual ela pronunciou meu nome, foi explícita. E aquela mulher ainda teve a audácia ou chame de cara de pau mesmo, de me estender a mão para me cumprimentar.
Com as sobrancelhas arqueadas fitei aquela mão de dedos longos e unhas compridas, pintadas de um vermelho sangue, estendida na minha direção.
Sério que ela acha que eu vou segurar sua mão?
Voltando meu olhar para o rosto daquela fulana, eu a encontrei com um imperceptível sorriso no cantos dos lábios. Ela queria me provocar e se seguisse por esse caminho, ia se mal.
— Se espera que eu aperte sua mão. Isso não vai acontecer. — avisei e com desgosto vi a tal Heather alargar os lábios em um sorriso irônico.
— Podemos entrar, Sara?
Me afastei um pouco para o lado e dei passagem para Grissom entrar segurando o braço daquela mulher de maneira nada amistosa, como se estivesse impedindo-a de fugir dele.
— Eu espero que sejam breves no que queiram contar. — pronunciei fechando a porta e virando-me para encarar os dois visitantes. — Não estou com a menor vontade que essa conversa se alongando demais. Só aceitei isso pra que me deixe em paz. — falei direcionado para Grissom, porque aquilo era para ele mesmo. — Porque apesar do que disse, eu sei que ia insistir depois pra essa conversa acontecer, caso eu me negasse a aceitar isso hoje.
— Muito pelo contrário. Eu, realmente, falei sério quando disse que não ia insistir, caso você não aceitasse ter essa conversa. Se não quisesse ouvir, ficaria por isso mesmo. O problema seria seu, e não meu.
Sua fala ríspida me deixou um tanto desconsertada, mas tentei disfarçar.
Justo ele que se dizia insistente quando queria algo, não ia insistir por essa conversa que acredito ser algo que ele queira bastante que aconteça?
Não parecia ser o Grissom que eu conhecia.
E olhando bem para ele, sua feição e seu modo de falar, nem parecia mesmo o homem que conheci. Vai ver esta era a versão real dele, a qual eu desconhecia.
— Estou esperando que vocês comecem a contar a história que combinaram.
— Ninguém aqui combinou nada! — ele retrucou com ríspidez. — E não sou eu quem tem que falar aqui, é Heather. E peço que escute-a sem interrupções e com atenção, Sara, porque o que ela vai dizer é a verdade dos fatos, não é? — ele lançou um olhar a mulher ao seu lado.
— É! — a tal Heather confirmou sem qualquer agrado.
— Então comece agora mesmo a falar a verdade pra Sara.
Meu olhar se desviou de Grissom e se cravou na figura daquela mulher arrogante. Fiquei só na espera dessa tal "verdade" que ela tinha a me contar.
Levou dois uns cincos segundos para aquela mulher abrir a boca e começar a falar, mas não foi para tocar no assunto que interessava e sim, fazer um pedido a Grissom.
— Será que pode me soltar, Gil? Estou parecendo uma submissa e você meu dom, e nós dois sabemos que ser submissa não é a minha praia.
Aquele comentário dela me deixou bem incomodada e ao que parece, irritou Grissom. Sem muita paciência ele acatou o pedido dela.
— Obrigada!
Não sei se foi para me provocar, ou provocar mais ainda Grissom ou a nós dois mesmo, mas a tal Heather ao agradecer, fez questão de deslizar muita carinhosamente a mão pelo braço de Gil.
Odiei aqui e ele se mostrou mais ainda puto.
— Comece a falar de uma vez. — Gil rosnou para ele a frase.
Era bom mesmo que ela começasse a falar ou eu os expulsaria dali sem ouvir o que ela tinha para dizer.
— Tá bem. — ela se voltou a mim e me fitou por um ou dois segundos, para só então começar a falar. — Antes de te contar o que fez Grissom me arrastar da Alemanha para cá, preciso dizer que... — ela fez uma longa pausa e pela segunda vez, me inspecionou de cima a baixo. — Não achava que você fosse tão jovenzinha. Ela mais parece uma garotinha, Grissom. Resolveu "pegar" menininhas agora?
— Hea...
— Vai ver que ele enjoou de "pegar" as mulheres mais velhas como você e recorreu a "menininhas" como eu! — não perdi tempo em rebater aquela mulher. E com isso nem deixei Grissom concluir o que ia dizer aquela arrogante.
Não ia aceitar calada que uma desconhecida qualquer, vinda lá de outro contenente fique me menosprezando e rebaixando dentro da minha própria casa. Ah, não mesmo!
— Ou talvez até não, já que você e ele tiveram uma...
— Chega as duas!
Grissom me interrompeu num tom enérgico e fazendo com que a tal Heather e eu, olhássemos para ele no mesmo instante em que falou.
— Heather, eu não te trouxe aqui pra que fique dizendo o que "acha" de Sara, até porque, seu "achismo" não me interessa! E creio que a tampouco importe também. Então limite-se a desfazer a mentira que inventou à ela sobre mim. Anda, começa, de uma vez a falar, porque não temos a noite toda.
Adorei a chamada que Grissom deu naquela mulher. Por pouco não me rendi a vontade de rir daquilo e da forma rude com a qual ele se portou com a tal Heather. Bem feito para ela!
— Não precisa ficar nervoso!
— Começa a falar de uma vez, Heather. Sara já avisou que não quer alongar essa conversa e nem eu quero isso também.
— Tá bem!... Olha Sara... Vou ser direta no assunto.
— Já devia ter sido desde o princípio. — rebati. Aquela altura já estava me irritando com toda aquela enrolação daquela mulher.
— Sobre o que te contei a respeito de Gil e eu termos transado naquele dia, é mentira. Eu inventei tudo. Não rolou absolutamente nada entre nós dois.
— Se era só isso que...
— Ela ainda não acabou. — Grissom me interrompeu. — Escute sem interrupções.
Ia mandá-lo a merda por falar daquela forma autoritária comigo na frente daquela mulherzinha, mas sequer tive tempo disso já que aquele cretino pediu que a tal Heather prosseguisse e ela assim o fez.
— Eu inventei essa história de que tínhamos transado, para me vingar dele. Já que na noite anterior à mentira, Gil me esnobou e ainda rejeitou passar a noite comigo por... Sua causa!
— Minha... Causa? — eu falei, engasgando com o ar. Desviei o olhar que vinha mantendo naquela mulher e fitei Grissom por um momento. Ele se encontrava me encarando com uma expressão indecifrável.
— Exatamente! — confirmou a tal Heather e voltei a prestar atenção nela. — Na ocasião ele me disse estar apaixonado por uma tal Sara que é você. — ela apontou para mim com certo desdém, o que no momento pouco me incomodou já que o que ela dizia era mais importante. — E segundo ele não precisava de outra, pois você bastava pra ele. Isso me deu muita raiva. E prometi que ele ia pagar por me dispensar assim. Só não imaginei que fosse ser tão rápido assim. Já que no dia seguinte mesmo vi a oportunidade perfeita pra me vingar, quando estava na sala dele e escutei o celular tocar.
— Explique pra ela por que estava na minha sala.
— Isso também?
— Heather não teste a minha paciência.
Nunca vi Grissom tão sério como ele estava. E quanto a mim? Eu começava a sentir que podia ter cometido uma injustiça com ele. Mas para ter certeza disso, eu teria que ouvir o resto da história que aquela mulher estava contando.
— Eu fui tratar de negócios com Gil e a secretária dele me informou que o mesmo estava fazendo vistória pela fábrica. Então fui autorizada a esperá-lo em sua sala. Foi então que poucos instantes depois o celular tocou uma... Duas... Três... Resolvi ver quem ligava com tamanha insistência pra ele. Era você! Ao ver seu nome na tela do celular dele, eu não pensei duas vezes em atender sua ligação e inventar a mentira. Minha intenção não só era de me vingar, mas também fazer você dispensá-lo e assim, ele sentir na pele o que fez comigo. E consegui exatamente o que queria. Mas Grissom descobriu meu envolvimento e me trouxe aqui pra esclarecer as coisas.
Eu dei dois passos para trás depois de ouvir toda a história.
Então tudo não passou de uma mentira? Uma mentira inventada por aquela mulher que não soube aceitar um fora, e inventou que Grissom e ela tinham transado só para se vingar do mesmo?
Por mais fantasiosa e novelesca que fosse aquela história, eu não conseguia senti-la como sendo mentirosa. Muito pelo contrário, ela parecia tão verdadeira e fazia tanto sentido.
Bem que Owen disse que podia ser mentira daquela mulher a história que ela me disse. Mas na ocasião eu não via assim. Estava magoada, irritada e desapontada com Grissom que sequer cogitei por um momento que fosse, que ele poderia ser inocente naquilo.
Eu apenas relevei o passado mulherengo de Gil e acreditei que ele me traiu, quando isso segundo aquela mulher acabou de dizer, não aconteceu.
E o prêmio de idiota do ano vai para... Mim mesma!
Eu queria me socar naquele momento.
— Esta é a verdade, Sara. Eu não te traí. — olhei para Grissom ao ouvi-lo quebrar o silêncio que se instaurou na sala após a tal Heather ter terminado de falar.
Nesse instante o sonho que tive dele me dizendo essas quatro últimas palavras vieram a minha cabeça. Eu fui injusta com ele e na sua fisionomia e principalmente, nos seus olhos, eu vi a mágoa dele por mim.
— Se você quiser acreditar, ótimo. Se não quiser, tudo bem. É um direito seu também. Mas a verdade foi dita e agora, não se preocupe que não vou mais procurá-la para nada. A "pendência" que havia foi esclarecida. Vamos, Heather. O que tínhamos pra fazer já fizemos! Adeus, Sara.
Ele seguiu até a porta acompanhado daquela Heather. E eu impassível e sem conseguir agir ou proferir uma palavra que fosse, vi imóvel aos dois saírem do meu apartamento.
Se mexe, Sara! Faz alguma coisa!, Meu subconsciente me gritou. Mas sabe quando você parece pregada no lugar e não consegue fazer qualquer movimento? Era assim que eu me encontrava.
— Sara!
Meus olhos encontraram os de Dayse. Ela bem escutou a batida da porta e deduziu que a conversa ali tinha terminado. Antes que ela me questionasse qualquer coisa, eu lhe balbuciei:
— Ele não me enganou, Dayse. Foi uma invenção da tal Heather pra se vingar dele.
— Será que é verdade mesmo, amiga?
Eu não respondi a pergunta dela. Corri até a cozinha para pegar o interfone e pedir ao porteiro que avisasse Grissom para me esperar na portaria, porque eu precisava conversar com ele. Não podia deixá-lo ir assim.
O telefone custou a ser atendido o que me deixou bem irritada. Onde esse porteiro está que não atende logo essa chamada? Foi então que ele atendeu.
— Seu Joel é Sara do 612.
— Oi senhorita.
— O homem que subiu acompanhado de uma ruiva para vir ao meu apartamento já chegou aí na portaria?
— Ele está vindo pelo hall. Por que?
— Por favor, diz pra ele me esperar aí, que eu quero falar com ele. Estou descendo até aí agora.
— Ok!
Desliguei e corri para sala.
— Aonde vai?
Ignorei pela segunda vez uma pergunta de Dayse e saí as pressas do apê para pegar o elevador.
"Eu inventei essa história de que tínhamos transado, para me vingar dele. Já que na noite anterior à mentira, Gil me esnobou e ainda rejeitou passar a noite comigo por... Sua causa!"
Tais palavras se repetism em minha mente enquanto eu castigava o botão que chamava o elevador.
"Na ocasião ele me disse estar apaixonado por uma tal Sara que é você. [...] E segundo ele não precisava de outra, pois você bastava pra ele.
Eu bastava para ele.
Ele era apaixonado por mim.
Que merda que eu fiz!
O elevador chegou. Entrei nele e apertei no painel o botão do térreo. Em frações de segundos já havia chego ao meu destino. Saí as pressas pelo hall do prédio e segui para portaria a procura de Grissom. Mas nada dele estar por ali. Fui até o porteiro e o questionei sobre isso. Seu Joel me disse que Grissom tinha ido embora com a mulher que chegou com ele.
— Mas o senhor não deu meu recado?
— Dei, senhorita. Só que o sujeito disse que não podia espera, pois estava com pressa pra ir. E foi.
— Droga! — reclamei comigo mesma. Depois agradeci ao Joel pelo favor e segui para pegar o elevador novamente.
Já em meu apartamento encontrei Dayse que veio me crivando de perguntas.
— Já te conto, amiga. Me dá um minuto.
Pedi enquanto apanhava meu celular do sofá e discava o número de Grissom.
***
Dentro de seu carro tendo Heather acomodada ao seu lado no banco detrás enquanto Luke os levava para o hangar onde pegariam o jatinho de volta à Alemanha, Grissom ouviu seu celular tocar. Sob o olhar curioso de Heather, ele puxou o aparelho de dentro do bolso interno do palitó escuro e viu na tela que era uma ligação de Sara.
Com pesar rejeitou a chamada e guardou o celular de volta ao bolso. Não deu nem dois segundos e novamente o aparelho tocou. Mais uma vez Grissom apanhou o aparelho do bolso. Era outra ligação de Sara que novamente ele rejeitou e fez mais, ainda silenciou o celular para não ser mais importunado pelo toque do mesmo.
— É ela?
— Sim.
— Não pretende atender as ligações dela?
— Não! — respondeu secamente.
— Por quê?
— Isso não lhe diz respeito, Heather.
— Achei que tinha me trazido pra contar a verdade à ela e depois disso vocês se acertarem.
— Pois achou errado! — ele mencionou, olhando a rua pela janela peliculada do carro. — Eu te trouxe aqui SOMENTE para limpar meu nome, porque não gosto de histórias mentirosas envolvendo-o. Você sabe muito bem disso.
— Como sei. Mas você não pretende voltar com ela?
— Não é da sua conta isso.
— E quanto a nós? — ela repousou a mão na coxa dele atraindo seu olhar de imediato.
— Não há mais "nós". — ele retirou a mão dela de se perna. — A partir daqui nossa relação só será única e estritamente profissional. Nada mais além disso, me entendeu bem?
A mulher engoliu a seco.
— Bem até demais!
— Ótimo! — Grissom voltou-se para janela e mais nada no carro foi dito.
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