Notas iniciais
Nesse capítulo vocês descobrirão qual a razão pela qual o Sr. Gostoso não toca piano pra outras pessoas e sim apenas pra ele.

— Seja bem-vinda a minha outra casa!

Este seu apartamento tinha uma sala tão grande e bonita quanto o outro imóvel dele em Nova York. A decoração impecável, com móveis sofisticados e me chamou a atenção a ausência do piano, que no outro apartamento estava exposto na sala.

— É um belo cartão de visitas esta sala. — comentei, lançando um olhar divertido a Gil que me roubou um beijo.

Depois do beijo uma mulher de cabelos escuros e presos num rabo de cavalo, apareceu ali na sala usando um avental. Ela era simpática e devia ter pouca idade a mais que eu.

— Senhor Grissom. — ela o cumprimentou com um sorriso educado.

— Oi, Hellen. E seu filho melhorou?

— Sim, graças a Deus!

— Que bom! Hellen esta é Sara. Ela vai ficar aqui hoje e amanhã. Sara esta é Hellen, minha secretária que cuida aqui de casa.

— Olá, Hellen. — estendi a mão à ela que com timidez a apertou em cumprimento.

— Olá, senhorita. — ela sorriu-me com amabilidade e simpatia.

De repente escutamos alguém chamar por Hellen. A dona da voz logo aparecia na sala vinda de outro cômodo. Era uma mulher de cabelos grisalhos muito bem presos num coque elegante. Ela trajava um conjunto de blazer com saia ambas as peças de cor cinza, usava uma maquiagem bem feita, mas nada exagerada e carregava num dos braços uma bolsa envernizada de cor preta como seus sapatos fechados e não tão altos.

Quando nos viu a mulher estancou na fala por breves segundos enquanto seus olhos estudavam a mim e Grissom, principalmente a mim.

Por um segundo me perguntei quem ela podia ser para ele. Seria sua mãe?

— Oi, Tilde. — ao meu lado Gil se pronunciou, quebrando o silêncio.

— Oi, Grissom.

Ela respondeu à ele, mas seu olhar se pousava em mim postada ao lado de Gil, que me abraçava pela cintura.

Por esta forma de cumprimento entre eles, descartei a hipótese daquela mulher ser mãe de Gil.

— Esta é Sara. Ela veio passar o fim de semana aqui comigo. — Gil explicou a mulher.

A tal Tilde arqueou uma das sobrancelhas diante da fala de Grissom. Ela ainda ficou me olhando por alguns segundos antes de enfim me cumprimentar com certa frieza.

— Olá... senhorita!

Assim que ela me cumprimentou, seus olhos me analisarem acintosamente de cima abaixo.

— Oi!

Eu falei com simpatia e dando um sorriso educado, mas não recebi outro em troca da mulher a minha frente. Séria ela estava, séria ela permaneceu.

Acho que ela não foi nada com a minha cara!

— Sara... Esta é Matilde. Ela trabalha na casa dos meus pais desde que eu era só um garotinho e Lewis sequer ainda existia. Desde que voltei da Alemanha, ela vem constantemente aqui para me ver ou puxar a minha orelha como se eu ainda fosse um garoto. — Gil relatou com ar divertido.

— E vou puxar sempre que for preciso, porque apesar de adulto você às vezes continua tendo umas atitudes de garotinho.

Sorri levemente das palavras dela e o modo usado para dizê-las. Parecia uma mãe ralhando com o filho.

— Isso não é verdade! — Gil se defendeu. Mas a tal Matilde foi enfática e categórica em dizer o contrário. — Ok. Não vou discutir com você, Tilde.

— E nem deveria.

A mulher retrucou, desviando o olhar dele para mim. Ela parecia visivelmente incomodada com minha presença. Seu olhar lançado a mim por vezes até ali deixava isso explícito. Me pergunto se Gil percebia o mesmo.

— Hellen leve a mala com os pertences de Sara para o meu quarto, por favor.

— Sim, senhor.

A tal Hellen pegou minha valise da mão de Gil e seguiu em direção às escadas.

— Essa moça vai ficar no seu quarto, Grissom?

Essa moça? Não gostei nada desta forma usada por ela para se dirigir a mim. A vontade que deu foi de dizer na hora: Ei, "essa moça não". Eu me chamo Sara! Mas eu segurei a onda, porque a casa não era minha.

— Sim, Tilde. Sara vai ficar lá no meu quarto comigo. — Gil confirmou.

A tal Matilde olhou para Gil com uma das sobrancelhas arqueadas em sinal de surpresa. Depois a mulher tornou a me olhar de cima abaixo com uma expressão desaprovadora.

Definitivamente essa mulher não gostou de mim e a recíproca é verdadeira.

— Sabe se alguém ligou pra mim, Matilde?

— Sim. Seu pai ainda pouco.

— O que ele queria?

— Avisar que a viagem dele vai ser extendida pra mais cinco dias, porque ele vai "dá um pulo" na Ásia. Parece que surgiu um imprevisto na produção da fábrica de Xangai.

Aquela informação não me agradou em nada e muito menos ao Gil.

Eu já estava toda contente que em dois dias o Sr.Gostoso iria falar com o pai sobre a gente e posteriormente, desfazer o compromisso com Maryane, mas agora os dois dias viraram sete e eu não gostei nenhum pouco disto. Ia ser mais uma semana naquele papel de amante.

— Alguém mais ligou?

— Sim. Warrick pra te chamar para um happy hour com ele, Catherine e outros amigos seus. E sua noiva também ligou.

Quando Matilde mencionou as palavras "sua noiva", eu senti que ela deu ênfase bastante nessas duas palavras e não fez a menor cerimônia de me encarar acintosamente.

Muito provavelmente, ela acha que eu não sei da existência da noiva de Gil e resolveu mencioná-la ou para me desconsertar ou para deixar claro que ele era um cara COMPROMETIDO.

— O que Maryane queria?

Matilde ficou me olhando e depois olhou para Grissom sem conseguir esconder sua surpresa por ele perguntar tão naturalmente em minha frente aquilo.

— Sara sabe que tenho uma noiva. — Gil explicou diante do olhar exigente e surpreso da mulher.

— Claro que sabe, né?

Havia um deboche explícito em sua fala, que me fez detestar aquilo e mais ainda, aquela mulher.

— O que Maryane queria, Matilde?

Gil estava sério e me pareceu levemente irritado. Acredito que também não gostou nada da forma como ela havia falado há pouco.

— Ela não disse. Só falou que queria conversar com você. Ah, e aquela Heather ligou de novo! Acho bom você retornar os chamados dela, porque meu estoque de desculpas furadas e principalmente os de Hellen estão esgotando.

— Tudo bem. Quando ela ligar da próxima vez, eu atendendo.

— Bom, eu já vou indo. Só estava esperando você chegar pra ver como estava. E pelo que vejo, está ótimo. Até.

— Até!

Matilde veio até Gil e lhe deu um beijo no rosto. Depois se dirigiu a porta de saída sem se preocupar a mínima em me dirigir uma palavra de despedida. Também não fez a mínima falta para mim.

— A Matilde não foi nada com a minha cara. — comentei assim que a mulher já tinha ido embora do apartamento.

— Me desculpe por ela.

— Tudo bem. Ela certamente não gostou de mim, porque me vê como uma vadia que tem um caso com um cara comprometido. O que não deixa de ser verdade, né?

— Ei! Não repita isso. Você não é nenhuma vadia.

— Mas mesmo eu não querendo, sou a outra, porque você é um cara comprometido.

Enquanto essa questão não fosse resolvida, eu não me sentiria confortável. Aquela sombra de ser "a outra" me perseguiria e não me deixaria relaxada.

— Prometo que essa situação vai ser resolvida assim que o coroa voltar. É uma pena que ele teve que extender essa viagem dele, mas assim que o velho colocar os pés em Nova Jersey, eu vou falar com ele sobre a gente, Sara. E, depois terminar com Maryane.

Eu não sei porquê, mas tenho o pressentimento de que essa situação toda, não se resolverá tão facilmente assim como Gil diz.

— O que será que Maryane quer com você?

Resolvi mudar o foco da nossa conversa.

— Não sei! — ele deu de ombro e se pondo diante de mim, me abraçou pela cintura.

— E quem é essa tal de Heather?

Não gostei de saber dessa outra mulher ligar com insistência para ele. Aí, tinha!

— Uma executiva que conheci em Munique.

— Você e ela...

— Nos envolvemos? — assenti em resposta. — Sim. Ficamos algumas vezes. E desde que vim embora pra América, Heather fica ligando, querendo que eu volte pra Alemanha.

No lugar dela também faria o mesmo.

— E isso tem alguma chance de acontecer?

— Agora nenhuma! Porque estou muito bem aqui onde estou.

Sorri gostando da resposta dele.

****

— Esse nhoque de batata tá uma delícia.

Nossa, eu não lembro de ter comido um tão maravilhoso quanto aquele. Estava muito, muito bom mesmo!

— Hellen é uma cozinheira de mão cheia. Ela costuma satisfazer todas as minhas vontades gastronômicas. Inclusive, foi ela quem preparou o jantar que comemos lá na minha outra casa.

— Poxa, Gil! Você podia ter me dito antes para agredecê-la.

— Eu acabei esquecendo.

— Pena que ela foi embora enquanto estávamos no banho. Daria os parabéns a ela por essa comida deliciosa e a outra que ela preparou.

— Mas amanhã ela virá aqui, aí você a parabeniza pelos dois jantares.

— Ela trabalha também dia de domingo?

— Não! Mas como estou com visita em casa, acertei com Hellen dela vir aqui amanhã.

O celular dele tocou sobre a mesa e pedindo licença, Gil atendeu a chamada na minha frente.

— Grissom!... Ah, oi Maryane!! — eu imediatamente levantei os olhos do meu prato e fitei Gil na mesma hora que o nome da minha prima foi mencionado por ele. — Está tudo bem?... Hum... Eu ia te ligar depois do jantar. Matilde me disse que queria conversar comigo. Do que se trata?... — ele ficou calado por alguns segundos escutando sei lá o quê que a minha prima dizia. — Sei... E quando é?... Quarta de manhã?? Eu acho que tenho uma reunião nesse horário, mas vou tentar transferi-la pra tarde para te acompanhar!... — acompanhar? Onde ele vai com ela?— Não tem que me agradecer!... Tá, outro. Boa noite.

Ele depositou o celular a mesa e voltou a comer normalmente. Esperei por ele me dizer o que minha prima queria com ele, mas como isso não aconteceu então eu tive que questioná-lo, pois a curiosidade era grande em mim.

— O que a minha prima queria com você?

Ele me olhou enquanto mastigava e só após terminar sua mastigação, e dar uma provada em seu vinho, que Gil me contou que Maryane teria na quarta-feira uma consulta médica com sua obstetra e pediu para ele lhe acompanhar.

— Por que ela não vai só? — não gostei e nem queria que ele fosse.

— Me disse que não quer ir sozinha.

— Aí, você tem que ir com ela a tira-colo, é?

— Pra todos os efeitos eu sou o pai do bebê, então tenho que acompanhá-la, Sara.

Eu ia ter que buscar muita paciência e arranjar muito jogo de cintura para saber lidar com essa situação desconfortável.

— Você pretende ser o pai de fato dessa criança? Tipo dar carinho, amor, atenção e não somente seu sobrenome a ela.

Na verdade eu esperava que depois de desfazer o compromisso com Maryane, ele não assumisse mais esta criança que nem é dele. Porém, fui pega de surpresa quando ele mencionou lá no outro apartamento sobre essa sua decisão de ainda assumir o filho da minha prima como dele.

— Eu vou ser o pai dele e ponto.

— Você não respondeu a minha pergunta.

— Sara... — ele largou os talheres e cruzou as mãos sobre o prato. — ...Eu assumi esse compromisso e vou tentar fazê-lo bem. Tentarei ser um bom pai para essa criança.

— E se por acaso o pai biológico aparecer requerindo a paternidade?

Era egoísmo meu desejar que isso acontecesse? Assim Grissom não teria que assumir uma responsabilidade que não era dele.

— Eu dou a ele e pronto.

— Simples assim?

— Sim!

Com ele tudo parecia rápido e fácil de ser resolvido.

— E assim o seu pai saberia que essa criança não é neta dele.

— Eu não vou poder fazer nada a esse respeito, a não ser lhe confirmar a verdade.

— Então por que não conta pra ele? Abre o jogo?... Vai fazer isso só se o pai biológico da criança aparecer?

— Só vou mesmo fazer se esse sujeito aparecer. Do contrário o coroa não vai saber que o neto não tem seu sangue.

— Isso não é justo.

— Nem sempre na vida as coisas são justas, Sara.

— Não sente curiosidade em saber quem é o pai do filho que vai assumir?

Ele tomou um gole de seu vinho e só então me respondeu.

— Sim, sinto. Mas Maryane não quer me contar por nada. Desconfio que o cara seja casado e por isso, ela se negue tanto a dizer quem é ele.

— Pode ser. Ou também pode ser algum conhecido seu. Já parou pra pensar nisso?

Não sei por quê me ocorreu isso. Mas era uma possibilidade, assim como era a que Gil disse sobre o cara ser casado. Tinha tudo a ver.

— Não vejo com quem ela possa ter se envolvido do meu círculo de amizades. Mas se caso isso tenha acontecido, eu não vou poder fazer nada. Ela já se envolveu com o sujeito mesmo!

Ele deu de ombro fazendo pouco caso da situação.

— Quando contou ao seu pai sobre o bebê? — voltei ao assunto do pai dele.

— No mesmo dia em que recebi a notícia de Maryane!... O coroa ficou exultante com a novidade. Já faz até planos parao neto.

— Grissom... Realmente acha certo mentir sobre isso ao seu pai?

Eu não me conformava com isso.

— Se eu contar a verdade vai ser frustrante pra ele. Meu velho tá muito feliz em ser avô.

— É uma pena que não seja de verdade, não é? Já que o filho da minha prima não é seu.

Coitado! Me pergunto o quão frustrado ele ficaria se o pai verdadeiro dessa criança surgisse e ele descobrisse que o neto, não é dele de verdade.

— Mas tem chance de ser de verdade com você. Quando vai fazer o teste?

Me mexi desconfortável na baqueta da bela cozinha dinamarquesa do apartamento. Gil parecia empolgado com a idéia de eu estar grávida dele. Mas a verdade é que eu não estava nenhum pouco empolgada com isso. De verdade, eu não queria está grávida. Isso ia ser um choque para os meus pais e Maryane mais ainda, quando eu contasse que estava grávida do Grissom. Não! Definitivamente não seria uma boa ideia uma gravidez agora. Futuramente, sim. Mas no momento atual não.

— Se minha menstruação não vier até quarta, eu faço o teste.

Nossa, eu estava torcendo tanto para minha querida menstruação vir. Juro por Deus, que nunca desejei tanto que essa coisa chata viesse num mês, como eu venho desejando neste mês.

— Sabe que eu tô torcendo pra não vir e você tá grávida? — ele tocou minha mão que descansava ao lado do prato sobre o balcão de madeira onde fazíamos nossa refeição.

— Pois eu estou torcendo e muito pelo contrário. — admiti com franqueza.

Eu não quero ser mãe agora!

****

— Essa é sua mãe? — apontei a fotografia de uma mulher de cabelos claros e olhos azuis como os de Gil. Eles tinham traços bem parecidos.

— Era! — olhei para Gil imediatamente, pois entendi na hora o que significava aquele verbo no passado. E antes que eu dissesse algo, Grissom me revelou: — Eu tinha 20 anos e Lewis apenas quatro, quando nossa mãe faleceu em decorrência de uma doença crônica nos rins.

— Sinto muito, Gil!

Dei um abraço nele, pois foi a primeira coisa que me ocorreu fazer.

— Minha mãe era incrível. Uma mulher doce, amável e gentil com todos. — ele contou quando nosso abraço fora desfeito. Eu podia ver seus olhos brilharem com extremo carinho e saudosismo ao falar da mãe. — Dona Beth vivia organizando basais e leilões beneficentes pra ajudar os mais necessitados. Mesmo quando a doença dela já estava mais grave, ainda assim, ela não deixava de pensar nos outros, em ajudá-los de algum modo. Ela era fora de sério, Sara. O meu porto seguro! Perdê-la, foi um baque e tanto pra mim.

Perder alguém é sempre um baque, ainda mais, quando é alguém muito querido e próximo. Eu já senti isso na pele quando morreu o meu avô paterno, que era meu vô preferido e com quem eu tinha mais contato. Foi, realmente, um baque e tanto para mim e toda a família perder o vô Bill.

— Eu ia adorar ter conhecido a sua mãe! — comentei ao fitar novamente a fotografia de uma sorridente Beth.

— Tenho certeza que ela também ia adorar te conhecer!

Logo em seguida à essas palavras, Gil acabou por me confessar que era por causa da morte de sua mãe, que ele não tocava mais piano para alguém e só para si.

Segundo ele explicou, sua mãe adorava que ele tocasse para ela e que Beth costumava ser sua "platéia". E na falta dela, ele não quis mais nenhuma platéia para ele! Desse modo, passou a tocar só para si mesmo imaginando que ela estava ao seu lado lhe vendo tocar, como costumava ser antes dela morrer.

Gil ainda me mostrou outros porta-retratos com fotos da mãe, os quais se encontravam ali sobre o hack de madeira, na sala. Depois ele me mostrou também uns com o pai e outros com o Lewis. No apartamento dele em Nova York não havia porta-retratos da família dele, ao contrário, deste apartamento que havia vários espalhados na sala.

— Olha, você fica bem sem a barba. — comentei ao ver a foto de Grissom com o rosto liso, abraçado ao irmão na frente de um veleiro bonito. — Onde foi isso?

— Num estaleiro no norte da Alemanha. Lewis e eu adoramos velejar, e ano passado quando meu irmão foi passar férias comigo, nós fizemos dois dias de viagem pelo mar báltico.

— Nossa deve ter sido bem legal!

— Muito! Velejar é o máximo.

— O barco é seu?

— Sim! Inclusive, eu o trouxe da Alemanha pra cá. Se quiser um dia te levo pra velejar nele.

— De verdade? — ele assentiu, sorrindo diante da minha empolgação. Nunca andei de veleiro, só de jet ski durante umas férias. — Eu vou adorar isso!

— A gente marca então um dia, tudo bem?

— Tá. — o abracei e lhe dei um selinho. Depois me virei outra vez para o porta-retrato dele com o irmão. — Sabe que eu gostei de verdade de você sem barba? — tornei a comentar sobre aquilo, porque estava encantada com aquela visão dele com o rosto liso.

— Gostou, é?

— Sim.

Ele havia ficado jovial e tão lindo sem a barba, quanto ficava com ela. Mas havia uma pequena diferença entre ambas as formas. Com barba ele ficava com cara de homem, um homem safado e cafajeste. Já sem a barba ele parecia apenas um garoto pervertido.

— O que acha de me livrar dessa barba e me deixar com o rosto liso de novo?

Me virei nos braços dele e encarei Gil com espanto.

— Você tá louco? Eu não comentei pra você tirá-la.

Não foi essa a intenção do comentário. Jamais!

— Eu sei que não. Pra falar a verdade, eu já tinha intenção mesmo de tirá-la, mas sempre protelava. Quer fazer isso pra mim agora?

— Tem certeza?

— Tenho, vem.

Gil tomou minha mão e saiu me levando da sala em direção ao seu quarto no andar de cima e posteriormente, entramos no banheiro. Já ali ele apanhou de dentro de uma gaveta do móvel sob a pia, uma navalha e tudo o que eu ia precisar para tirar sua barba.

— Você não tem aquelas máquinas próprias pra barbear.

Seria bem mais fácil tirar sua barba com ela do que usando navalha.

— Não. Me dá agonia o som dessas máquinas.

Eu ri da careta que Gil fez ao contar isso. Ele preparou a espuma de barbear num recipiente de plástico, depois disto pronto, Gil me estendeu o recipiente junto com a navalha.

— E se eu te machucar com essa navalha?

Eu nunca usei aquilo na vida.

— Você não vai!

— Confia tanto assim em mim?

— Sim! Confio intimamente.

Engoli a seco diante de tal confissão.

— Vamos, querida, pegue! — ele me empurrou os itens.

— Ai, Grissom, eu tô com medo! Nunca fiz isso antes.

— Pra tudo na vida tem uma primeira vez! É só passar a espuma pela barba e depois deslizar devagar a lâmina pelo meu rosto. Não tem mistério. Vamos! Confiança! Vai dar tudo certo.

Ele me deu um beijo de incentivo e me empurrou a vasilha com espuma.

Eu estava realmente com medo de fazer merda e acabar machucando Gil feio. Jamais fiz a barba de um cara antes. Mas se o meu Sr.Gostoso confia em mim, então seja o que Deus quiser.

Espalhei a espuma pela barba toda dele. Gil ficou parecendo o papai Noel com a barba branca.

— Você ainda pode mudar de ideia. Não quer fazer isso, Gil? — questionei com a navalha em mãos pronta para ser usada. Adoraria que ele desistisse disto.

Mas ele riu não quis desistir. Sorrindo balançou a cabeça em negação pela pergunta que lhe fiz.

— Tá bom então!

Com todo o cuidado do mundo, eu comecei aquela tarefa que o Sr.Gostoso me imputou. Devagar e com extrema delicadeza fui deslizando a navalha pelo rosto dele levando sua barba junto e fazendo seu rosto ir ficando liso.

Quase vinte minutos depois, eu terminava meu serviço sem machucá-lo uma vez sequer.

— Pronto! Acabei, Gil!

Ele foi até o espelho sobre a pia ver como ficou o resultado do meu serviço.

— Nossa! Ficou bom. Pra uma primeira vez, você se saiu bem demais. Nem me cortou.

— Eu estava com pavor disso acontecer. Felizmente fiz com tanto cuidado que consegui não te cortar.

Ele lavou o rosto para tirar o restante da espuma de barbear que ficou, logo em seguida enxugou-se e passou a locação pós barba. Depois ajeitamos e limpamos tudo no banheiro. Tão logo finalizamos esse serviço, seguimos para o quarto de Gil.

— Bom... como fiz um ótimo serviço, mereço um pagamento por ele, não mereço? E não é em dinheiro que eu quero.

Mordi os lábios enquanto agarrava Gil pelo pescoço ficando na ponta dos pés para tal feito. Aquela tentação de homem sorriu para mim cheio de malícia, entendendo a quê tipo de pagamento eu me referia.

— Merece mesmo. E eu vou me encarregar nesse momento de te conceder seu devido pagamento.

Gil me murmurou, abraçando-me pela cintura e me dando um beijão daqueles cinematográficos.

Notas finais
Ana, você acertou a razão pela qual o Sr. Gostoso não toca piano pra outras pessoas e sim apenas pra ele. E pelo que puderam perceber a tal de Matilde não gostou da Sara e nem nossa heroína gostou dela também. Em compensação a Hellen gostou de Sara e essa empatia entre as duas vai ficar mais evidente nos dois próximos capítulos. Um super beijo e até breve.