Notas iniciais
Olá, meninas! Aproveitei o feriado pra fazer post novo da fic. Espero que gostem.

Andar de helicóptero foi uma experiência, que a princípio me deixou apreensiva e com medo. Mas aos poucos fui curtindo e no final já até estava achando aquilo divertido. Pena que foi tudo rápido. O voo durou pouco mais de dez minutos e logo, o piloto já havia pousado no heliponto de um prédio.

Gil lhe avisou que era para o homem estar ali às sete em ponto da manhã para nos buscar. O piloto assentiu e Gil me conduziu para pegarmos o elevador, que nos deixou já dentro de um apartamento, mais precisamente, na sala.

— Você está hospedado aqui? — indaguei, observando a sala enorme e bonita, com suas paredes de vidro, cortinas brancas, bem como, a maior parte do mobiliário e também uma parede e o teto, todos em tom branco. Pelo cômodo avistei um sofá grande e sofisticado, próximo a ele tinha um piano preto, que por sua cor se destacava das demais coisas na sala; na única parede que não era de vidro estava presa num suporte uma TV de sei lá quanta polegadas e pouco abaixo dela uma lareira elétrica; e no canto da sala ainda tinha um pequeno bar. Era um cômodo lindo, requintado e muito bem decorado.

— Na verdade esse apartamento é meu. — olhei para ele. — Comprei tem poucos dias somente. Lembra que quando nos conhecemos, eu te disse que sempre vinha para Nova York por causa do trabalho e toda vez ficava num hotel?

— Eu lembro disso. — afirmei, depositando o buquê de flores sobre uma pequena mesa, e comecei a passear pela sala com as mãos para trás do corpo, como se esteve inspecionando o local. Meus olhos observavam com atenção cada detalhe do espaço.

— Pois então, resolvi comprar mais este apartamento, assim evito de toda vez ficar me hospedando em hotel.

— Mais este? Quantos apartamentos você tem? — quis saber curiosa e ao mesmo tempo, encantada com a beleza do local.

— Três! — seus braços envolveram minha cintura quando ele se postou atrás de mim. Ficamos abraçados no meio da sala, quase perto do piano. — Tenho este recém comprado, o de Nova Jersey, que eu te contei e que atualmente se tornou minha casa principal e ainda tenho, um em Munique, onde morei por todo o tempo que vive na Alemanha.

— Nossa! Quantas casas! — não consegui esconder minha surpresa. Mas também ele é podre de rico. Pode ter quantos apartamentos quiser. — E todos ficam na cobertura como este?

— Sim! E todos são duplex também.

— Hum...

Pensei em comentar que apartamentos assim me pareciam grandes demais para alguém viver sozinho, mas depois desisti e resolvi não compartilhar daquele comentário com ele.

— Adoro a vista da cobertura, Sara. — senti seus lábios tocarem meu ombro.

— Confesso que tenho certo receio de altura.

— Por isso estava um tanto nervosa no helicóptero?

— Sim. Mas depois eu fiquei mais relaxada e curti a viagem! ... Você toca? — apontei o piano.

Era a segunda vez que eu avistava aquele instrumento musical fazendo parte da decoração de um local que Gil estava hospedado. A primeira vez foi no hotel que ele ficou, agora tinha um aqui em seu apartamento.

— Toco. Aprendi durante os anos que estudei num conservatório dos meus oito aos treze anos de idade.

— Acho tão lindo quem toca piano. Você bem que podia tocar pra mim depois. Eu ia...

— Sinto muito, mas isso não vai rolar, Sara.

Ele me interrompeu de maneira seca e me largou, indo rumo ao bar. Estranhei aquela sua reação e abrupta seriedade na voz ao falar.

— Por que não? — segui para onde ele estava já servindo-se de uma bebida, que pela cor âmbar parecia ser uísque.

— Eu não toco pra alguém há muitos anos, só pra mim mesmo. — ele contou antes de virar o copo e tomar num único gole a dose de dois dedos da bebiba que havia colocado para si mesmo.

— Posso saber a razão disso?

Seu olhar me estudou por breve segundos enquanto a ponta de seu dedo indicador deslizava pela borda do copo vazio, círculos atrás de círculos.

— Em outro momento, talvez. — por fim me respondeu, mas de maneira seca.

Resolvi não fazer mais perguntas. Pelo modo como ele falou, eu logo já imagino que alguma coisa de séria e grave tem por trás dessa história. E no momento, ele não fazia qualquer questão de compartilhar aquilo comigo, portanto, só me cabia respeitar isso.

— Eu pedi para minha secretária que cuida da minha outra casa vir aqui só preparar um jantar pra gente. E ela me avisou que deixou pronto e guardado no forno.

Sua mudança abrupta de assunto culminou também com a mudança de sua feição. De séria, ela passou para suave e com um sorriso que agora a enfeitava. Pelo visto, a breve tensão que vi nele segundos atrás, evaporou como num passe de mágica.

Que coisa estranha! Mas não quis entrar na questão disso com ele.

— E qual jantar ela preparou?

— Risoto de cogumelos!

— Esse é meu prato favorito.

Eu adorava isso! Desde pequena.

— Eu sei!

Franzi a testa.

— Sabe como, posso saber?

Alguém andou falando dos meus gostos para ele? Mas quem?

— Soube disso, onde trabalha e também que é vegetariana, além de outras coisas mais particulares, por intermédio de uma fonte que não revelarei o nome.

— Coisas particulares? Só pode ter sido a Dayse que te contou, não foi?

Ele apenas sorriu de modo zombeteiro, que praticamente sentenciou a resposta como um "sim".

— Vou matar a Dayse. Ela não tem nada que ficar te contando as coisas a meu respeito. Aliás, quando foi que ela te contou sobre os meus gostos e particularidades?

— Sara, ela não fez por mal. — sabia que não, mas ainda assim, ela não tinha que ficar abrindo o bico a ele sobre mim. Fico supondo que particularidades essa maluca revelou. — Eu pedi ontem informações sobre você enquanto conversávamos depois que me deixou sozinho na sala. Dayse chegou uns vinte minutos depois e quando me enxergou na casa de vocês, ela primeiro desatou a dizer-me desaforos.

— Até imagino que desaforos mal criados ela possa ter te dito. — comentei e ri. Ele também sorriu.

— Nem queira saber. Ela só não me chamou de santo, porque do resto tudo ela me insultou. — fomos as risadas desse seu comentário. — Mas aí foi a minha vez de falar e ela escutar. Aí abri o jogo com ela sobre meus sentimentos e minhas intenções com você, e aos poucos ela passou a me detestar menos. — Gil sorriu, mas depois já sério, me confidenciou: — Você tem uma amiga e tanto, que te defende de uma maneira muito bonita, Sara.

Eu sabia disso e o sentimento era recíproco.

— A Dayse é a irmã que a vida me deu, Gil.

— Pois agradeça por tê-la.

— Eu agradeço todos os dias.

— Inclusive ela ameaçou cortar meu pênis fora se eu magoar você.

— Mentira, Gil?! — cobri a boca com as duas mãos para conter a gargalhada alta que daria.

Dayse é louca de pedra!

— Antes fosse. E essa foi uma das ameaças. Teve outras, mas deixa pra lá.

— E em que momento ela te falou sobre meus gostos e particularidades?

— Depois que nos entendemos. Sei o bastante a seu respeito, Sara Sidle.

— Ela deve ter contado só o essencial.

Não acreditou que ela tenha contado mais que isso.

— Que seja! Mas já foi o bastante por hora pra mim. Quero saber o resto de você, pouquinho a pouquinho.

— E eu digo o mesmo em relação a você. — com o indicador desenhei por cima de sua barba, o contorno todo de sua mandíbula, de um lado ao outro. — Quero saber quem é Gil Grissom? Descobrir seus gostos, as particularidades e tudo mais.

Apesar dos momentos tórridos e intensos que já compartilhamos na cama desde a primeira vez juntos, nós não nos conhecemos de fato. Eu sabia quase nada dele, a não ser as poucos informações que fui pescando aqui e acolá, durante a estadia na cada dos meus pais. Me sentia agora em desvantagem com ele que provavelmente, sabia bem mais de mim por ter conversado com Dayse sabe-se lá quanto tempo, do que eu sabia dele.

— Falei ontem que quero que me conheça por inteiro e assim será. Agora... Que tal darmos um tempo no papo para tomarmos um banho e jantar?

— Acho uma ótima ideia, porque estou morrendo de fome.

— Então vamos para o banho.

Ele segurou uma das minhas mãos e seguimos rumo as escadas de vidro. Subimos um total de doze degraus. Depois seguimos por um corredor com alguns quadros de arte bonitos, até por fim chegarmos ao quarto de Gil.

O cômodo em tom claro como a sala, era espaçoso como o outro cômodo também. Ali havia uma cama King size, TV, um roupeiro que ia do chão até o teto, uma poltrona, escrivaninha e um hack com alguns porta-retratos.

— Seu quarto é bem mais bonito e espaçoso que o meu.

Ali caberia fácil o meu quarto, o da Dayse e ainda sobraria um espacinho.

— Eu gostei do seu quarto, Sara. Principalmente da cama. E mais ainda, de dormir com você nela.

Ele comentou em um tom totalmente cafajeste.

— Seu safado! — o insultei, golpeando de leve seu braço. Gil riu novamente e do seu habitual jeito cafajeste, que já aprendi a gostar fortemente.

— Só disse a verdade. Vamos tomar banho?

— E o que eu vou vestir depois? Não tenho roupa a não ser esta que estou vestida.

— Você pode ficar nua. Eu te garanto que não me importo com isso, pelo contrário, apreciaria bastante tal fato.

Claro! Safado do jeito que ele é, certamente, adoraria me ver zanzando pelada pelo seu apartamento.

— Você e os vizinho, né? Esqueceu que na sala tem enormes paredes de vidro? As pessoas do prédio vizinho podem me ver zanzando nua pelo seu apartamento. — lembrei-o deste detalhe.

— Ah, nem pensar. Cancelado isso de ficar nua aqui. — eu ri do seu jeito emburrado de falar. — Eu te empresto uma camisa minha e uma cueca, pronto. Vem!

De mãos dadas seguimos para o banheiro que estava separado do quarto apenas por uma parede, nada de porta dividindo um espaço do outro. No cômodo além do vaso sanitário, pia, o box de vidro, também havia uma sauna e um ofurô.

— Uau! Você tem um mini spa aqui.

— Pois é. O que você prefere: ofurô ou chuveiro?

— Se eu entrar nesse ofurô é bem capaz de dormir aí dentro. Então, prefiro o chuveiro. Outra vez que me trouxer, experimentamos o ofurô.

— Feito! Hoje ficaremos só com o chuveiro.

Gil me ajudou a me despir do macacão comprido, abrindo o zíper que ficava nas costas. E depois me auxiliou na retirada da peça, que era colada no corpo.

Enquanto ele agora retirava suas próprias peças de roupas, eu tratei de me livrar das minhas peças íntimas. Já completamente nus, nós entramos sob o jato de água quente, que caía do chuveiro de aço. Trocamos vários beijos e alguns carinhos para lá de ousados ao longo do nosso banho.

Momentos mais tarde, comigo usando uma cueca boxer azul de Gil e uma camisa de mangas sua na cor cinza, que mais parecia um vestido em mim, e com ele trajando apenas calça moletom e uma camiseta preta, nós jantávamos na cozinha estilo americana, o risoto de cogumelos que a secretária dele deixou feito e acompanhando ao prato bebíamos um ótimo vinho que o Sr.Gostoso tinha pego numa adega que possuía ali.

— Maryane já esteve aqui com você? — a pergunta rompeu o silêncio que pairava durante nossa refeição. Sem querer minha mente me traiu, fazendo-me imaginá-lo aqui com minha prima e eu não gostei disso, por isso a pergunta.

— Sara sua prima veio aqui, sim. — era tudo o que eu não queria ter ouvido. E antes mesmo de abrir a boca para dizer algo, Gil tratou de explicar rapidamente que a vinda dela ali não era da maneira que eu estava pensando. — Maryane veio como arquiteta, para fazer uns pequenos ajustes que pedi a ela. Só por isso!

— Hum... Quando vai falar com ela e o seu pai, Gil? — o questionamento veio com um atraso de dez segundos após a palavra anteriormente, resmungava por mim. — Eu não quero passar mais que apenas uns dias nessa situação de ter um relacionamento com você as escondidas. Sei que você me pediu pra ter paciência e te dar tempo, mas eu me sinto desconfortável com essa situação toda. Eu já fui traída e sei o quanto isso é horrível. E não quero fazer a minha prima passar pelo que já me fizeram passar.

— Isso Dayse não me contou. Me diz, quem teve a desfaçatez de trair você?

— Um namorado idiota que eu tive. E o desgraçado ainda me traiu com a minha ex-melhor amiga, a Camille, que você conhece.

— Ah, não! — Gil passou o guardanapo sobre os lábios. — Não me diga que se trata do Elliot?

— Sim! Você o conhece?

— De vista e por intermédio de Camille que me apresentou a ele dois dias antes da festa. Não gostei nada daquele sujeito. Tem cara de hipócrita.

— Hipócrita e mentiroso. Íamos fazer quatro anos de namoro mês que vem se estivéssemos juntos. Só que antes disso, há três meses, eu descobri que ele e Camille vinham tendo um caso que já tinha quase um ano .

— Céus! Como descobriu isso?

— Peguei os dois no meio de uma transa na cama dele.

— Que idiota, filho da puta!

— Nem me diga. Quero distância daquele mentiroso.

— Bom ouvir isso. E quando o vir vou tratar de agradecê-lo muito por ter sido mentiroso.

— Que loucura é essa? Por que vai agradecê-lo por meter chifre em mim?

— Porque isso proporcionou à você de ficar livre dele para gente se conhecer e estarmos juntos agora. Ou do contrário, você, certamente, ainda estaria com esse cara, não é?

— Talvez sim. Eu o via como o meu príncipe encantado. Mas acabou que o príncipe era um sapo pilantra.

Bota pilantra.

— E eu? Como você me vê, Sara?

Sorri, analisando cada detalhe de seu rosto, ao mesmo tempo, que pensava se devia lhe ser sincera e franca na resposta. Ele podia não gostar do que ouviria. Mas resolvi apostar na franqueza e torci para Gil não levar a sério.

— Eu te vejo como um cretino muito do gostoso.

Sua reação ao que ouviu não podia ter sido melhor. Ele simplesmente emitiu uma sonora gargalhada que ecoou pela cozinha. Fiquei encantada e adorei o som de sua gargalhada.

— Gostei da sua visão.

— Verdade? Achava que poderia de chatear com a resposta.

— Imagina.

— Sabia que a Dayse te deu um apelido? É: Sr. Gostoso!

Ele riu outra vez.

— Gostei desse apelido. Combina comigo, né?

Muito!

— Mas você se acha o rei da cocada preta, não é? — brinquei com ele.

— Um pouco, vai!

— Eu diria que é bastante.

Ele sorriu uma nova vez para depois ficar sério.

— Sara quanto ao que perguntou sobre sua prima... Eu primeiro quero falar com meu velho sobre essa situação. Na verdade, eu já ia falar hoje com ele sobre a gente. Mas não foi possível e só será daqui à uma semana, porque o velho viajou hoje pela manhã para a Argentina. Assim que ele retornar de lá para Nova Jersey, falo com ele.

— E o que você vai falar?

— Que a noiva mudou, porque me apaixonei por outra mulher.

— Você vai dizer assim, desse modo, Grissom?

Não me pareceu o mais acertado jeito de contar. E ele pareceu concordar com isso.

— Não, querida. Eu estava brincando. Vou contar de outra forma melhor. Ainda estou formulando na cabeça o que dizer ao coroa.

— E quanto ao filho da Maryane?

— Eu pretendo manter isso de que ele é meu, se você não se importa. Porque eu já contei para o velho e ele está todo contente com isso. Sem contar também, que já assumi a responsabilidade dessa paternidade e não pretendo declinar disso.

No fundo não me agradou nada essa ideia, mas eu não quis me meter.

— Você que sabe.

— Te incomoda que eu assuma a criança?

Incomodava, contudo, não achei por bem dizer.

— Não!

— Não mesmo? — sua mão direita veio de encontro a meu rosto e deslizou por ele com suavidade.

— Não! — mantive a mentira antes de puxar sua mão para meus lábios e beijar-lhe o dorso dela.

****

— Gil... — seu nome não passou de um gemido ao sair da minha boca.

E a resposta de Gil também.

— Hum...

— Quero mudar de posição. Ficar lado.

Pedi enquanto ele estava sobre mim brindando-me com suas estocadas firmes e rápidas na penumbra do quarto.

Quase uma hora depois de jantarmos, nós viemos para o quarto. Gil ligou a TV e por alguns minutos prestamos atenção no filme que passava. Mas aí, começámos a trocar beijos e umas mãos bobas começaram a rolar e o filme passou a ser ignorado. Não tardou nada para a TV ser desligada por Gil e nós estarmos nos despindo para iniciar uma sessão intensa de amor.

Atendendo ao meu pedido, Grissom saiu de cima de mim para se acomodar atrás e erguendo um pouco uma das minhas pernas com uma das suas, ele voltou a me penetrar e retomou os movimentos deliciosos de entre e sai de mim, agora com o acréscimo de ter sua mão bem sobre meu sexo, fazendo com os dedos movimentos circulares em meu clitóris, num estimulo extra que ia me deixando próxima cada vez mais do clímax.

— Assim... Não pára, Gil! — pedi segurando em seu antebraço, quando ele intensificou mais ainda o ritmo dos movimentos de seus quadris atrás de mim e também da sua mão em meu sexo.

— Pode deixar que não vou parar, querida!

A voz dele rouca e cheia de tesão sussurrando bem rente ao meu ouvido aquelas palavras, me fizeram arrepiar. E não demorou mais que só alguns poucos segundos para eu gozar e ele também, logo em seguida à mim.

Momentos depois estávamos deitados abraçadinhos, nos restabelecendo da nossa sessão deliciosa de sexo com amor, quando Gil se pronunciou, quebrando o silêncio que durava no quarto.

— Eu tenho a pretensão de custear um projeto que será implantado em uma parte da África, e depois, quem sabe, em toda ela. É por isso que quero tanto assumir a frente dos negócios da minha família, Sara. Pois só com o meu próprio capital não é possível viabilizar o projeto.

Gil contou calmamente enquanto alisava meus cabelos.

— Sério? Que legal, Gil. E qual é exatamente esse seu projeto? — levantei a cabeça do ombro dele e encarei o meu Sr.Gostoso a espera de sua resposta.

— Antes de contar o projeto, eu acho melhor contar o fato que precedeu a ideia do mesmo.

— Conta então.

— Há um ano, mais ou menos, eu fui a África para resolver questões acerca de problemas administrativos na fábrica de lá. Dirigindo pelas ruas de Joanesburgo pra encontrar o supervisor da fábrica em questão, eu acabei sem querer me perdendo e indo parar num bairro de extrema pobreza, Sara. E o que eu vi lá me deixou sem palavras. — seu olhar adquiriu uma tristeza. — Eles não tinham água naquele bairro. Pra conseguirem o que beber, as pessoas andam quilômetros e quilômetros até uma reserva que distribui a água. E eles só tem direito a pegar dois míseros baldes de água por dia.

— Meus Deus, Gil!

Como se sobrevive com dois baldes de água por dia?

— De imediato me bateu uma vontade de ajudar essas pessoas de alguma forma, sabe Sara? — assenti. — Não consigo acreditar que tenha gente que ainda viva sem água.

— Tem muita gente que além de viver sem água e ainda vive sem comida e muitas outras coisas mais, Gil.

É algo estarrecedor e doído de imaginar. Mas ainda é uma realidade cruel. Me pergunto até quando isso e as desigualdades nesse mundo continuarão existindo? É tão injusto!

— Eu sei disso, Sara. Mas você vê isso de perto é algo que sei lá... Me deixou desnorteado. Em Munique não vi isso, muito menos parecido. Nem mesmo nos bairros mais baixo e periféricos de lá, não se vê o que eu vi na África.

— Porque é a Europa, Gil. Você não vai ver mesmo pobreza extrema por lá. Obviamente, tem pobreza, mas não tão visível como na África.

— Pois é. E no meio disso sem querer, em Joanesburgo mesmo, eu acabei esbarrando com um cara chamado Kaluma. Ele tem um projeto hídrico que consiste em levar água potável as casas de vários bairros mais humildes das periferias da cidade. Só que segundo ele, o governo de lá não quer viabilizar o projeto porque alega ser muito caro.

— Mas isso só pode ser brincadeira! É obrigação do governo levar água pra essas pessoas. — me revoltei.

— Devia ser mesmo, mas alguns políticos de lá não estão nem aí para o povo que os colocou no poder. A maioria mais necessitada da população não é beneficiada pelo governo, Sara.

O que é revoltante!

— E você quer custear esse projeto pra essas famílias terem água?

— Quero muito, querida. — ele sorriu pela primeira vez desde que começou a falar daquele assunto.

Maryane tinha razão, Gil era fora de sério. Esse projeto que ele queria viabilizar era uma prova disso. Ele era um homem bom com um coração de ouro!

— Inclusive, eu já comentei sobre isso com um amigo meu, o Jim. A família dele é dona de uma conhecida rede de lojas de materiais de construção e ele quer entrar de parceiro comigo no projeto, dando grana e material para colocar o projeto em ação. E já tenho outro amigo, o Warrick que também quer entrar nessa causa junto comigo.

— Nossa! Que bom!

— Sim. Eu tenho amigos de ouro.

— E você também é um cara de ouro. — toquei seu rosto com carinho. — Eu tô boba com você. É muito lindo o que você quer fazer, Gil.

— Se todo mundo que tem mais fizesse um pouco que fosse pelos menos favorecidos, acredito que o mundo seria um lugar bem melhor.

— Disso eu não tenho a menor dúvida. — infelizmente no nosso mundo a maioria das pessoas são tão mesquinhas, que só pensam em seu próprio umbigo. — Mas mesmo com essas parcerias que você conseguiu, ainda precisa do capital da empresa da sua família?

— Preciso, porque é um projeto realmente caro, mas altamente benéfico e que vai ajudar milhões de pessoas na África.

— E você só terá acesso ao capital mediante a estar a frente dos negócios?

— Exatamente! Eu até cheguei a falar com o coroa na época que tive a ideia há dez meses. Liguei da Alemanha para ele e lhe contei sobre o projeto, mas o velho vetou na hora e não quis custear.

— Por que?

— Ele não quis dizer. Só disse "não" e deu assunto como encerrado pra ele.

— Nossa! — quanta insensibilidade do pai dele. Por causa de pessoas egoístas como ele que o mundo está do jeito que está.

— O coroa é uma figura prepotente, autoritária, retrógrada, além de alguém muito rígido. — listou Gil com profundo desagrado. — Todos temos que reger a cartilha dele e obedecer suas imposições sem questionar. É por essas e outras razões que meu irmão não se assume. E também foi em parte por isso, além é claro de estudar e trabalhar, como já te falei antes, que passei tantos anos longe daqui. Pra ficar longe também do meu pai e seu jeito autoritário.

Não dever ser nada fácil a convivência dele com um pai assim.

— Você sempre soube dessa "condição" que seu pai impôs pra assumir os negócios da família?

— Soube um mês atrás quando fui comunicar a ele meu desejo de assumir os negócios por completo. Aí, meu querido pai me contou isso. A essa altura, ele já sabia da Maryane.

— Sabia? — franzi a testa em surpresa. — Como ele soube se sua relação com ela não tinha rótulos?

— Ele soube sem querer ao aparecer sem avisar na minha casa em Nova Jersey num dia em que...

— Em que... O quê? — o instiguei a continuar já que ele parou no meio da frase. Observei Gil hesitar um pouco, mas após uns cinco segundos, ele falou o restante.

— Em que sua prima dormiu lá comigo!

Não gostei nenhum pouco de saber que Maryane já dormiu na casa dele. Achei que os encontros deles acontecessem em motéis, hotéis, ou na casa da minha prima e não, na casa de Gil.

— Meu pai achou que ela era minha namorada. E eu deixei que ele assim pensasse, pois do jeito que ele é não adiantava nada explicar minha relação moderna com sua prima. Ele não ia entender.

— Hum... Eu acho que não quero saber de mais nada disso, Gil. — deitei minha cabeça em seu peito.

O rumo daquela conversa não estava mais sendo do meu gosto. Além do mais, o que me interessava sobre o projeto dele, eu já sabia. Essa parte sobre minha prima, ele e o pai dele, não me interessava nada.

— Você ficou chateada? — seus dedos brincaram em meus cabelos e desceram para os ombros.

— Não! Só não quero mais continuar falando disso. A gente pode dormir? Amanhã tenho trabalho e você também.

— Tá bom. Boa noite, querida. — senti seus lábios pressionarem o topo da minha cabeça.

— Boa noite, Gil! — beijei seu peito e fechei os olhos.

Notas finais
E aí, o que acharam do projeto do Gil? E qual será a razão do Sr. Gostoso não tocar piano pra alguém? Algum palpite? Aguardo suas respostas. Um super beijo e ótimo feriadão pra vocês.