Notas iniciais
Sara vai aproveitar a noitada na boate e creio que vocês não vão gostar disso.

— Acho que seu chefe ficou a fim da Nancy.

— Para mim está bem evidente que ele ficou. Olha a cara dele pra ela. — comentei com Owen.

Estávamos somente nós dois à mesa reparando os pertences dos demais que foram dançar. De longe nós notávamos que logo algo mais rolaria entre Brooke e Nancy além da dança.

— Não dou mais duas músicas pra eles se beijarem. Ou até mesmo uma apenas pra isso acontecer.

— É?

Assenti a Owen antes de bebericar mais um pouco do meu bloody Mary, que por sinal estava uma delícia.

Foi dito e feito, bastou mais uma música para Brooke e Nancy já estarem aos beijos na pista de dança. E quando isso ocorreu, Owen e eu trocamos um olhar cúmplices na hora.

— Não é que você acertou?! — sorrindo Owen me olhou

— Mas também, convenhamos, que isso estava na cara que ia rolar logo entre eles.

O jeito como aqueles dois se olhavam enquanto dançavam, era evidente para mim que era só questão de poucas músicas para eles se beijarem.

— Isso é. E eles até que combinam!

— Combinam mesmo. — afirmei olhando os dois que agora dançavam agarrados uma música de batida mais sensual.

Ficamos observando-os até que Alya e Ethan retornaram da pista de dança pouco tempo depois, e disseram para nós irmos dançar, que eles agora ficariam reparando as coisas na mesa.

Confesso que eu não estava muito a fim de dançar, mas ainda assim fui com Owen para não lhe fazer uma desfeita, já que ele se levantou empolgado e me estendeu a mão em um convite para ir com ele dançar.

— Espero que não pise no meu pé. — não resisti em provocar Owen enquanto seguíamos para pista de dança.

— Pode ficar fria que nunca pisei no pé de uma dama. Inclusive, eu sou excelente dançando.

Essas suas últimas palavras me fizeram imediatamente estancar no meio do caminho e lembrar na mesma hora de Gil, pois era aquele cretino que vivia dizendo que era excelente em tudo! Inclusive, me disse exatamente essas mesmas palavras quando fomos dançar a primeira vez.

Inferno de homem!

Apareceu na minha vida, se meteu na minha mente e se fixou no meu coração. E pelo que vejo e sinto, vai demorar para que eu consiga tirá-lo de mim.

— Ei! O que foi, Sara? — Owen se virou ao sacar que parei de caminhar.

Notei seu olhar me encarar com dúvida e preocupação. Parece que não consegui disfarçar a minha cara de decepção ao lembrar de Gil. Resolvi ser sincera com meu novo amigo.

— É que você me fez lembrar o Grissom com o que disse ainda pouco sobre ser excelente dançando. O Gil me disse isso também quando dançamos juntos a primeira vez, na noite em que nos conhecemos.

Aquela noite tinha sido incrível do começo ao fim. Mas mesmo assim, eu daria tudo agora para ela não ter acontecido, pois desse modo nada que veio depois dela teria também acontecido e eu não me encontraria sofrendo por aquele bastardo infeliz que me enganou.

— Ah, sinto muito! Não era a minha intenção te lembrar desse imbecil, Sara, juro.

— Eu sei, não precisa jurar nada. — segurei em seu ombro e dei um leve aperto. — Além do mais você não tinha como saber que ele também me dito algo parecido.

— Sabe... essas desiluções doem por um tempo, mas depois elas param. A gente supera. Digo por experiência própria.

— Já sofreu muitas decepções, Owen?

— Algumas!

— Ele me procurou, Owen. Acordei ontem com o Grissom no meu quarto. — contei. Ainda não havia tido oportunidade de lhe partilhar aquilo.

— E...?

— Acabou! Não quero mais saber dele.

— Sua boca diz uma coisa, mas seus olhos refletem outra.

— Meus olhos às vezes são mentirosos, não acredite neles! — tentei brincar para amenizar a situação e o clima.

Owen sorriu por uma fração de segundos e depois já sério, me disse:

— Pois eu acho que nunca vi olhos mais sinceros que os seus.

Dayse sempre me diz que meus olhos me denunciam quando tento mentir, pois eles são sinceros demais. E pelo visto, ela não é a única a partilhar desta opinião.

— Nós somos as duas únicas pessoas que não estamos dançando, sabia? — comentei, mudando de assunto. Não queria mais ficar falando de Grissom e correr o risco de estragar mais ainda a minha noite do que a lembrança dele já havia estragado.

— Ih, não é que é verdade! — concordou Owen após olhar ao redor. — Então chega de conversa fiada. Vamos dançar. Foi pra isso que viemos à essa pista, senhorita.

Mesmo sem muito ânimo para dançar depois de lembrar do cretino do Grissom, eu me dispus a buscar lá no fundo do meu ser um pinguinho de ânimo para acompanhar Owen, pois ele parecia tão empolgado por essa dança, que não me senti no direito de boicotá-lo nisso.

Nós seguimos mais alguns poucos passos até nos encontrarmos no meio do povo, bem no centro na pista de dança. E já ali começamos a dançar ao som de Bruno Mars, depois veio Rihanna, Katy Perry, Maroon5 e mais outros cantores com músicas dançantes.

Em alguns momentos da nossa dança, eu ri do Owen quando ele achava de inventar uns passos malucos de dança. O cara era sem noção alguma! Mas dançava bem. Tinha molejo e ritmo. Só era meio palhaço demais para dançar.

Em certa hora o DJ deu uma pausa nas músicas dançantes e colocou algo mais lento para o pessoal dançar mais agarradinho. Eu ia pedir para o Owen para nós voltarmos à nossa mesa, pois não queria dançar música lenta. Só que meu amigo foi mais rápido que eu e me agarrou delicadamente pela cintura dizendo que fazia tempo que não sabia o que era dançar agarradinho. E colando seu corpo no meu e o lado do seu rosto no meu, ele começou a dançar e eu acabei por segui-lo no ritmo lento da canção que tocava.

— Você tem um perfume muito bom! — Owen me sussurrou ao ouvido.

Tal comentário me pegou de surpresa e deixou levemente sem jeito.

Ele também tinha um perfume bom. Era uma fragrância com tons amadeirados e levemente cítricos, bem agradável ao olfato.

— Seu perfume também é bom e agradável. — devolvi o elogio à ele.

Owen desencostou seu rosto do meu e me encarou de uma maneira que até então não havia feito.

— Que foi? Por que está me olhando assim?

Seu olhar era de uma profundidade que até me deixou constrangida.

— Eu queria entender alguns homens e saber o que eles tem na cabeça quando enganam mulheres gente boa, bonitas e super agradáveis como você.

— Obrigada pelos elogios.

— De nada!

— E eu também queria saber porque a espécie de vocês é infiel assim.

— Eu não sou. E juro que não consigo entender os caras que são.

— Nem eu!

— Esse tal de Grissom é um imbecil.

— Pois concordou plenamente com essa sua opinião.

Owen abriu um leve sorriso e observei seu olhar desviar-se dos meus para se fixar em minha boca. Engoli em seco com isso.

Não faça o que eu acho que vai fazer, Owen!, Pensei comigo mesma enquanto o encarava fitar minha boca.

Foi então que o vi aproximando seu rosto do meu e tive certeza de que Owen ia fazer aquilo. Ele vinha para me beijar, mas eu não podia deixar. E não deixei!

— Owen melhor não! — pus meus dedos delicadamente sobre seus lábios quando ele estava quase perto o suficiente dos meus.

Aquele beijo podia lhe dar abertura para achar que algo entre nós seria possível de rolar, quando não seria.

Eu não estava em condições de me envolver com alguém agora. Mal tinha acabado de sair de uma relação que terminou tão ruim quanto sua antecessora. E cair nos braços de outro cara não estava em meus planos tão prematuramente.

— Sara não faz isso! — ele anunciou após retirar com gentileza meus dedos de cima de seus lábios.

Franzi a testa diante de sua fala, que saiu acompanhada de um sorriso.

— Fazer o quê?

— Me rejeitar. Eu tenho sérios problemas com rejeição. Sempre acabo me apaixonando pela garota quando ela me rejeita. A maioria dos meus relacionamentos começaram com a mulher me dando um fora e eu caindo de amores por ela.

— Você não está falando sério, está?

O fato dele rir enquanto contava aquilo me deixou na dúvida a respeito dele estar brincando quando disse tais coisas.

— Pior que eu estou. — ele confirmou e juntou sua testa a minha. — Por isso que eu te digo: não me rejeita. Ou eu vou acabar apaixonado por você. Eu já tô atraído, pra me apaixonar não custa muito.

O que dizer depois de tudo isso que acabei de ouvir?

Sinceramente, eu não sabia. Até então não havia escutado algo parecido, não daquele jeito. As palavras dele podiam até soar como brincadeira, mas eu sentia que Owen estava falando sério quando me disse aquela enxurrada de coisas. E olha que ele nem estava bêbado para que eu pudesse jogar a culpa daquilo na bebida. Ao contrário, ele me parecia bem lúcido e consciente do que falava.

— Owen...

— É só um beijo, Sara. Não quero que case comigo ou que passemos a noite juntos depois daqui.

Ele me sussurrou antes de sua boca tocar a minha com delicadeza. Eu cogitei afastá-lo de mim e não deixar que aquilo fosse adiante, mas por alguma estranha razão, não fiz isso. Se era só um beijo que ele queria de mim, então que assim fosse.

Me deixei levar pelo momento ciente de que depois ia me arrepender do que fiz. Mas já fiz algumas inúmeras coisas das quais me arrependi depois, que mais uma para a lista não vai fazer diferença alguma.

O gosto de Vodka da boca dele se misturou ao de bloody Mary da minha. Até que ele beijava bem. Seus lábios eram macios. E ele não tinha qualquer pressa ou urgência no beijo.

Sua língua pediu passagem alguns segundos depois e eu consenti. Ela serpenteou pela minha boca numa doce carícia.

Não vou negar que ser beijada por Owen e também beijá-lo, estava sendo até bom e gostoso. Contudo, eu me vi sentindo falta de outro beijo, outra boca, outro gosto; ansiando sentir sensações que outra pessoa me fazia sentir quando me beijava e eu a beijava.

No fundo, sinceramente, eu queria agora estar beijando outros lábios tão macios quanto aqueles do Owen; sentindo outro braço mais forte e firme que aquele que se encontrava em torno da minha cintura; outra mão maior e mais quente que aquela que segurava minha nuca; outro perfume masculino mais marcante que aquele; e segurando em outro ombro mais largo que aquele estreito em que uma das minhas mãos repousavam.

Em resumo, eu queria, na verdade, que Owen fosse Grissom naquele momento. Era aquele cretino quem eu queria estar beijando. Mas isso estava fora de cogitação, porque o Grissom eu não teria mais, ou melhor, ELE não me teria mais, pois não me merecia.

O cretino tinha me enganado e feito de palhaça como Elliot também havia feito num passado não tão distante assim. E, deste modo, Grissom era "figurinha fora do baralho" para mim.

Gostaria de poder apagar da minha vida aquele cretino de uma figa como num passe de mágica, mas isso é impossível. Eu teria que arrumar um jeito de esquecê-lo, arrancá-lo da minha vida de alguma forma. Só ainda não sei como farei isso, mas eu encontrarei um modo. Preciso encontrar essa é a verdade!

Quando o beijo com Owen terminou ficou em mim uma sensação tão estranha de culpa misturada com algo mais que eu não sabia definir com exatidão o que era. Mas disfarcei ao máximo isso para que ele não percebesse, dando um sorriso forçado.

E, apesar dessa sensação incômoda do pós-beijo, eu ainda fui capaz de consentir que outros beijos depois deste primeiro, viessem a se repetir no decorrer do período em que passamos naquela boate bebendo, conversando com os outros, rindo dos papos engraçadas e dançando muito as várias músicas que tocaram.

Foi uma noite boa a partir do momento em que eu já estava com umas a mais na cabeça. Misturei vários drinques e a consequência disso: não lembro que horas a festa acabou, nem como cheguei ao hotel e muito menos ao meu quarto.

Notas finais
A Sara não queria, mas acabou cedendo e trocando mais beijos com o 'amigo''. E será que ficaram só nos beijos ou acabaram indo além e passando a noite juntos? Eu sei a resposta e vocês saberão no próximo capítulo. Até lá.