— Bom dia!

Sua fala séria me fez sentar na cama imediatamente, enquanto ainda me questionava se aquilo era real ou apenas um sonho. Talvez eu tenha cochilado após o telefonema do Brooke! Aquele sujeito não podia estar ali. E como se tivesse lido a minha mente, ele disse asperamente:

— Te garanto que você não está alucinado ou sonhando que eu esteja aqui. Realmente estou no seu quarto. — engoli a seco. — Há quase uma hora que já me encontro velando seu sono.

Hãm??

— Como você chegou aqui e entrou no meu quarto?

Fui dormir e ele estava na Alemanha. Acordei e o cara está no meu quarto em Chicago?? Como isso é possível tão rapidamente assim?

— Vim no meu jatinho particular. Ao chegar, inventei pra recepcionista que era seu namorado e que vim de longe para te fazer uma surpresa pelo nosso aniversário de namoro. — ele falava com uma cara neutra, num tom seco, mas deixando explícita sua expressão dura e séria. — Encantada com o meu gesto apaixonado, ela me deu uma cópia da chave do seu quarto e me deixou subir sem te informar disso.

Aposto que ela ficou encantada foi com ele e sua lábia de cafajeste mentiroso, e por isso lhe deixou subir.

— Como soube que eu estava hospedada nesse hotel?

— Tenho meus meios!

Certamente deve ter sido o mesmo "meio" que ele usou para encontrar em quê boate eu estava em Santa Mônica, ou seja, recorreu a algum "empregado de confiança" para rastrear a ligação de ontem e assim, descobrir meu paradeiro. Às vezes, ele tem umas atitudes de psicopata, que me deixaram assustada.

— O quê quer aqui Grissom?

— Cruzei o oceano num voo de madrugada pra ouvir da sua boca o que um desconhecido me disse ontem ao atender seu telefone, porque eu juro que me recuso a acreditar no que ele me falou.

Eu podia ver a raiva irradiando de seus olhos e no modo como Grissom falou. Ele estava puto!

Você não é o único aqui, meu bem!

— Se recusa por quê? Porque acha que só você tem o direito de se divertir com uma amiga pelas minhas costas e me fazer de idiota. — tirei o lençol de cima das pernas e saí da cama. Senti a cabeça latejar por conta da forma abrupta com a qual me pus de pé.

Céus! Não devia ter exagerado nos drinques ontem.

— Do quê diabos você está falando, Sara? Que amiga que eu estava me divertindo e te fazendo de idiota? Ficou louca?

Com uma das mãos massageando a têmpora, eu vi Gil se pôr de pé que nem eu me encontrava.

— Não fiquei louca, não. E nem pense em se fazer de sonso, porque esse é um "papel" que não te caí bem.

Ele deslizou uma das mãos pela barba e suspirou.

— Olha Sara vamos com calma e por partes, ok?... A história que aquele cara contou ao telefone...

— É verdade! — confirmei sem esperar pela conclusão da pergunta de Gil. Ainda que ontem tenha batido o arrependimento, eu não pretendia desfazer aquela mentira para ele. Ia sustentar aquela história que mandei Owen contar a Grissom e esse cretino que amargue isso. — Eu estava transando com ele sim, quando você ligou nos interrompendo. E quer saber? Foi uma ótima transa. Melhor até que as que tive com você!

Em seus olhos vi que as minhas palavras principalmente, as últimas, tinham lhe ferido e magoado profundamente. Mas ele também me fez isso ontem, quando ouvi da amiga dele o que ela tinha me dito. Olho por olho, dente por dente!

— Não, não. — ele balançou a cabeça em negação. — Quer saber? Eu não acredito em você!

Aquelas suas palavras me causaram certa surpresa. Apesar do que seus olhos deixaram transparecer ao ouvir minha confirmação, ainda assim, Grissom se recusava em acreditar que eu o enganei.

— Problema seu! — rebati.

Se ela acredita ou não, pouco me importa agora. Mas que me deixou surpresa, deixou.

— Se você tivesse mesmo... — ele parecia se remoer para dizer a palavra "transado". E eu senti ímpetos de rir disso. Sofra, cachorro! — Feito algo com este cara. — não conseguindo dizer a palavra, Grissom remendou com outras. — Onde é que está o cara? Cheguei aqui, você estava dormindo sozinha.

Eu lhe enviei o meu maior sorriso de escárnio e cruzei os braços.

— Grissom... Você sabe que eu costumo sair sorrateiramente do quarto. Saí do dele lá pelas duas e vim para o meu. — inventei rápido e com uma falsa naturalidade.

Em silêncio seu olhar me fitou incisivamente por uma fração de segundos. Eu vi uma nuvem de decepção encobrir seus olhos. Ao que parece, ele enfim acreditou no que eu disse. Até porque ele mesmo, em um passado recente já tinha sido abandonado por mim na cama por duas vezes.

— Por que isso, Sara?

Um misto de tristeza e decepção podiam ser vistos com exatidão naquele mar azul de seus olhos. Ele estava sofrendo com o fato de que eu ter transado com outro cara.

— Pra que você saiba bem que não é o único que pode se divertir com outra pessoa pelas minhas costas. Eu também posso muito bem fazer isso pelas suas costas.

— Me divertir com outra pelas suas costas? Que absurdo é esse que está falando? Eu estou na Alemanha cheio de problemas para resolver, Sara. Como vou estar me divertindo, ainda mais com outra pelas suas costas? Tenha santa paciência! Isso só pode ser piada! — ele deslizou as mãos pelos cabelos.

— Tenha santa paciência digo eu. Então, se não estava se divertindo com outra me explica porque que quando te liguei a sua "amiguinha" Heather me disse que... "você estava no banho se refrescando da intensa atividade que tiveram na sua cama"?

— Como é? — ele fez uma cara de horror. — Isso é um absurdo.

— Olha aqui esse seu espanto todo não vai me convencer. Vai embora do meu quarto. Não quero olhar mais pra sua cara.

— Eu não vou embora enquanto não me explicar direito essa história que acabou de contar.

— Aqui o único que teria explicações a dar, seria você. Mas eu não estou nenhum pouco interessada em te ouvir.

— Eu não faço ideia do que quer que eu me explique, Sara. Quer me dizer?

— Me solta, Grissom. — suas mãos me seguravam pelos braços de maneira um pouco forte.

— Não! E quer fazer o favor de explicar que história fantasiosa é essa sua?

— História fantasiosa??

— É! Porque o que disse é fantasia da sua cabeça! Uma maluquice, na verdade.

— Maluquice nenhuma!... Ontem antes de ir para o aeroporto liguei para falar com você e fui surpreendida negativamente por sua amiga atendendo a ligação. Perguntei por você e ela me disse exatamente o que te contei há segundos.

— Pois então a fantasiosa é ela. Sara, ela inventou isso, mentiu pra você!

— Até parece que vou acreditar nisso que disse, cretino.

Soltando uma de suas mãos do meu braço, Gil apanhou o celular do bolso traseiro da calça jeans escura. E após alguns poucos segundos mexendo no aparelho, ele disse:

— Aqui não tem nenhuma ligação sua de ontem. Veja! — virou o celular para eu comprovar com meus próprios o que ele dizia.

Observei com atenção e realmente não tinha ligação alguma minha como ele disse. Mas...

— Como se você não pudesse muito bem ter apagado as ligações antes de estar aqui, né?

— Eu não apaguei nada, Sara. Que horas você ligou?

— Não interessa. — consegui com um puxão livrar meu outro braço do contato com a mão de Gil.

— Interessa sim!... Heather inventou uma mentira a meu respeito e você está acreditando nisso, Sara. Céus! Eu não faria isso com você. — por um segundo ele pareceu soar bem sincero, mas podia ser apenas farsa sua para me enganar. — Me diz que horas ligou?

Contei o horário e ele me falou que nessa mesma hora estava fazendo vistoria pela fábrica dele. No fundo eu até queria acreditar nele, juro, mas não conseguia.

Por que aquela mulher inventaria aquilo pra mim, sendo que eu creio que ela nem saiba quem sou para o Gil?

— Vai embora e não me procura mais, Grissom. Acabou!... Vai se divertir com sua amiga, a Maryane ou com quem mais você tiver na sua lista de conquistas. Mas comigo a diversão acabou. Agora sai daqui. — mandei em meio a tentativa dele de achar explicação para segundo ele "a mentira" inventada pela sua amiga.

— Eu vou sair, Sara. Mas escute bem... Isso ainda não acabou. Muito em breve te procuro, trazendo comigo a verdade. Vou provar pra você que nessa história eu não sou o canalha que Heather está fazendo você acreditar. Passar bem!

Ele passou por mim deixando um rastro de seu perfume delicioso. Ouvi quando a porta bateu forte e só então desabei sentada a cama.

Por um segundo me perguntei se realmente ele não podia estar falando a verdade e eu sendo ingênua por acreditar no que amiga dele disse.

Durante estar ali e quando se explicou, Gil pareceu tão seguro em afirmar que era mentira de Heather o que ela disse, que me plantou uma semente pequena da dúvida.

***

— Sara, eu tive a impressão de ter visto o seu namorado passar apressadamente pelo saguão do hotel, quando eu vinha para o restaurante.

Ergui a cabeça e encarei meu chefe que me fitava com curiosidade enquanto levava sua xícara de café a boca.

— Na verdade ele é ex-namorado. E não foi impressão sua era ele mesmo! Mas Grissom já foi embora e espero que não apareça mais nem aqui e nem em lugar algum em que eu esteja.

— Nossa!

— E sem ser grossa, mas já sendo, eu não quero ficar falando do Grissom, me desculpe, Brooke.

— Tudo bem. Desculpa, eu não queria bancar o enxerido.

Mas ele estava bancando e eu não me encontrava nenhum pouco a fim de ficar compartilhando com ele sobre aquele assunto tão particular. A única pessoa com quem desabafaria sobre isso seria a Dayse mais tarde, quando aquela criatura resolvesse atender o celular ou o telefone do apê.

Liguei para minha amiga inúmeras vezes antes de descer para vir tomar café com o Brooke, no intuito de lhe contar sobre o aparecimento repentino de Gil e minha discussão com ele. Só que a Dayse não me atende e hoje ela nem ia para a editora.

— Qual será nossa programação hoje na feira? — quis saber do para quebrar o silêncio que se instaurou entre nós após eu ter lhe dado aquele "corte" que eu dei.

***

— Como estão as vendagens desta belezinha aqui?

— Melhor impossível! Só nesse dia estamos já no terceiro lote de 40 unidades, que apanhamos no estoque.

Brooke me encarou com um sorriso de orelha a orelha. O livro em questão era um romance dramático o qual ele apostou e bateu o pé frente a diretoria para que fosse publicado. E não é que mais uma vez meu chefe estava certo sobre a grande aceitação que o livro teria. Brooke tinha o feeling exato para fazer suas apostas e acertá-las. Poucas vezes ele errava numa aposta.

— O senhor vai querer um? — o vendedor do estande questionou sem saber que meu chefe não precisava adquirir um exemplar daquele, pelo simples fato de que ja tinha.

— Me veja um sim.

Sorri, balançando a cabeça para o meu chefe. Quero saber pra quê ele estava comprando um se já tinha o exemplar e autografado pelo escritor?

Assim que pagou e veio até mim, eu o indaguei a este respeito. E com a cara mais simples do mundo, Brooke respondeu:

— Quero ajudar mais nas vendagens ora. — justificou-se com um sorriso.

Nós seguimos pelo centro de convenções e quando deu o horário do debate de leitura o qual queríamos ver e que era a respeito dos grandes romancistas e suas obras literárias mais bem sucedidas, Brooke e eu seguimos para o salão onde ocorreria isso.

Mais de duas horas depois saíamos extasiados da "overdose" de informações que absorvemos do debate entre doutores em literatura. Ainda demos mais algumas voltas pelo centro e até assistimos do lado fora num palco montado, o show de uma banda que fazia um som maneiro que o Brooke gostou. Era uma mistura jazz com soul.

Quando o show acabou nós resolvemos voltar para o hotel.

— Alguém disse que ia jantar hoje comigo?

Olhei para o meu chefe e sorri discretamente.

— E esse 'alguém' vai cumprir o que disse. Vamos jantar, então?

— Agora!

Nos dirigimos para o restaurante e nos acomodamos em uma mesa próxima a janela de vidro, que dava visão para o movimento lá fora na rua.

Um garçom se aproximou nos cumprimentando enquanto nos estendia o menu. Fizemos nossos pedidos e logo o rapaz saía e retornava poucos minutos depois trazendo o vinho que Brooke pediu para gente.

— Amanhã eu estava pensando que podíamos bancar os turistas e passear pela cidade de manhã, já que só iremos à feira a tarde de novo. — Brooke comentou após provar seu vinho.

— Me parece uma boa ideia. — concordei antes de apreciar pela segunda vez o vinho tinto suave de excelente qualidade.

Tão logo acabo de falar e escuto atrás de mim alguém falar meu nome. Me viro e encontro Owen sorrindo para mim de maneira larga. Na hora fiquei de pé e lhe cumprimentei com um abraço.

Sabe aquelas pessoas que você conhece e de cara se simpatiza? Que você se sente bem na companhia? Pois bem, essa pessoa é o Owen! Eu sentia uma confiança e empatia enorme, instantânea e gratuita por ele.

Após cumprimentá-lo como se fizesse tempos que não nos víamos, tratei de apresentar meu amigo recente à Brooke.

Meu chefe ficou surpreso ao saber que estava diante do editor da nossa maior concorrente e até brincou comigo dizendo em tom divertido que não sabia que eu andava "confraternizando com a concorrência".

— Na verdade eu que fui o enxerido que ontem a noite no bar comecei a 'confraternizar com a concorrência' sem saber. — explicou Owen em divertimento.

— Achei que tivesse dito que queria ficar sozinha ontem.

— E eu queria. Mas aí o Owen apareceu, puxou papo e me fez esquecer que estava mal e queria ficar só. — contei resumidamente.

— Bom não quero atrapalhar vocês. Só vim te cumprimentar, Sara. Vou pra minha mesa jantar.

— Não quer jantar conosco? A não ser que tenha alguma companhia. — propus sem sequer lembrar de consultar Brooke.

— Companhia zero.

— Ah, então janta aqui conosco. Não tem problema pra você isso, né Brooke? — me lembrei agora de consultar meu chefe.

— De forma alguma. Vai ser um prazer tê-lo como nosso acompanhante neste jantar.

Owen então aceitou o convite e se junto a mim e Brooke. O garçom veio para tomar nota do pedido dele. Assim que o sujeito se foi nós três ali engatamos num papo animado sobre a feira e a cidade.

Pouco tempo de conversa e Brooke já tinha se entrosado com Owen rapidamente. Parecia fácil se simpatizar e gostar de Owen. Tanto meu chefe quanto eu já tínhamos criado uma empatia imediata com o jeito bem humorado de Owen.

— Vocês já deram um tour pela cidade? — Owen nos indagou em determinado momento do papo que rolava sobre a cidade de Chicago.

— Vamos fazer isso amanhã, né Brooke?

Meu chefe confirmou com um balançar de cabeça enquanto dava um gole em seu vinho. De supetão, Brooke convidou Owen a nos acompanhar amanhã por tour pela cidade. Na mesma hora Owen aceitou e dali em diante nós três começamos a fazer planos dos lugares que iríamos visitar amanhã.

Notas finais
Até o próximo.