One Night - Livro 1
77 Capítulo LXXVII
A minha noite foi horrível!! Rolei de um lado para o outro da cama e mal consegui pregar os olhos de preocupação com o pai de Gil e também, consumida pelo arrependimento de não ter ido ficar ao lado do meu amor, quando ele mais parecia precisar.
— Sara Sidle, seu dever como namorada era ter ido ficar lá com ele. — disse a mim mesma encarando o teto.
O despertador soou sobre o criado-mudo. Fecho os olhos apertados com aquele som irritante vindo do celular.
— Já estou acordada, sua chatice! — reclamo por entre os dentes, enquanto me viro na cama para apanhar o celular e desligar o alarme.
Depois de devolver o aparelho ao lugar, eu me espreguiço na cama e cinco segundos depois já estou de pé, seguindo para o banheiro.
Sob os jatos quentes do chuveiro me peguei pensando no estado de saúde do... Meu sogro!
Sogro?! Entortei o nariz e fiz um bico ante a menção da palavra: sogro.
É, só que gostando ou não o tal Joseph era meu sogro. Grosseiro e desagradável, mas meu sogro, pai do meu futuro marido.
E ainda que eu estivesse longe de ser a nora que ele queria e/ou aprovava para o filho, estava rezando por sua melhora e pronto restabelecimento. Se bem que um "pronto restabelecimento" não me parecia algo que fosse acontecer tão pronto quanto eu rezava.
O estado do pai de Gil me parecia grave demais, ainda que o médico não tenha dito isso com essas palavras exatamente e sim, deixado subentendido com aquele "situação delicada". E tudo que eu podia fazer, era rezar e esperar para que o melhor acontecesse.
Com a bucha em mãos, eu despejei uma quantidade de sabonete nela, me perguntando como tinha sido a noite de Gil. Certamente, deve ter sido pior que a minha.
Coitado!
O meu Sr.Gostoso pode ter lá suas desavenças com o pai e eles podem não estar passando pelo melhor momento por causa do envolvimento de Gil comigo, mas no carro ontem a caminho da minha casa, vi o quanto mexeu com Grissom a notícia de que seu pai tinha sido levado para um hospital.
Novamente o pensamento de que eu devia ter acompanhado meu noivo e ficado ao lado dele lá, me tomou enquanto deslizava a bucha por um dos braços.
Quer saber? Hoje eu vou ficar com ele!, Disse a mim mesma decidida.
Uma boa namorada que se preze, tem que estar ao lado do namorado quando ele mais precisa, o que a meu ver era o caso agora. Sem contar, que eu não queria dar brechas a Maryane de se aproveitar da situação para tentar uma aproximação de Gil. Sei que ele não lhe daria qualquer chance, mas... Como o meu já falecido vô Bill me dizia: "o seguro morreu de velho, sweet". Não vou facilitar para minha priminha! Não mesmo!
Desliguei o chuveiro e me enxuguei. Segundos depois com a toalha enrolada ao corpo, retornei ao quarto. Abrindo o closet, puxo da cruzeta a primeira roupa que vejo para ir trabalhar: um vestido de comprimento até os joelhos, na cor azul marinho, mangas longas, gola trespassada e duas linhas verticais de quatro botões que iam de um pouco abaixo da linha dos ombro até pouco abaixo dos seios, e as colunas se distanciavam um palmo da outra.
Vinte minutos depois, eu já estava vestida, calçada, penteada, maquiada e saindo do meu quarto empunhando minha bolsa, pronta para ir trabalhar.
— Dayse! — chamei alto já vindo pelo corretor, checando se meus pertences estavam todos na bolsa. Da cozinha escuto a resposta alta da minha amiga. Segui para lá. — Já podemos ir. — informei parando na porta.
— Não vai tomar café? Hoje fiz pra gente. — ela apontou a cafeteira com a mão direita enquanto a esquerda segurava sua caneca que trazia os dizeres: I love party.
— Não, não. Tô sem fome. — deixei uma careta escapar ao falar. — Quase nem dormi a madrugada toda.
— Preocupada com seu sogro?
— Também.
— E o que mais cooperou pra te tirar o sono?
Ela se virou para pia e depositou a caneca lá dentro.
— Arrependimento por não ter ido ficar com o Gil.
— Então sugiro que vá ficar com ele hoje depois do trabalho. — Dayse disse dando um sorriso.
— É isso mesmo que pretendo fazer!
****
Concentrada no trabalho, eu redigia algo no computador, porém ao desviar a atenção um instante da tela do aparelho para pegar um papel na mesa, eu noto a presença de Brooke na soleira da porta da sala dele, me encarando de braços cruzados. Algo me diz que ele já estava ali há um tempo razoável.
— Precisa de alguma coisa, Brooke? — questionei depois de cinco segundos, que meu chefe continuou calado me olhando.
— Não! — o suspiro dele ao fim da resposta me fez erguer uma das sobrancelhas.
Brooke estava com um comportamento no mínimo esquisito para o meu lado desde que cheguei. Aquela não estava sendo a primeira vez que eu o flagrava me encarando. Se não me engano era a terceira vez já! E ele não era disso, daí o fato de eu achar aquilo esquisito.
Será que ele estava querendo me dizer algo e não sabia como? Resolvi arriscar em perguntar.
— Brooke quer me falar alguma coisa?
Seus olhos se estreitaram em mim. Antes de me responder meu chefe descruzou os braços e caminhou até perto da minha mesa, parando bem diante dela e de mim.
— Já nos conhecemos há um bom tempo, né Sara? Mais de cinco anos se não me engano, certo? — apenas assenti em concordância. — E posso te afirmar que do seu primeiro dia aqui até este momento de hoje, você progrediu demais. Tanto que... A meu ver você já está pronta para "voar sozinha".
Me alegra que ele ache isso, mas... Por que raios meu chefe estava dizendo aquelas coisas? Será que estava me preparando para dar a fatídica notícia de que por alguma razão desconhecida teria que me demitir?
Ai, meu Deus, não!
Tudo o que não preciso agora é perder esse emprego que tanto amo.
— Brooke não está enchendo a minha bola assim pra me demitir depois, né?
Ele sorriu de maneira leve e descontraída.
— Jamais demitiria você, Sara. É a melhor assistente que já tive. Por mim você trabalharia pra sempre comigo nessa função, mas sei que isso é impossível. Você tem capacidade pra muito mais do que apenas ser uma assistente até o fim da vida.
— Obrigada... Eu acho.
— Quero que me prometa que se uma oportunidade melhor lhe surgir fora desta editora, você vai agarrá-la sem medo e sem pensar duas vezes, tá bom?
Franzi a testa.
Ai, ai, ai! Que papo mais estranho era aquele dele, hein?
— Brooke por que isso?
— Apenas prometa o que pedi. — ele exigiu-me apoiando as duas mãos espalmadas na mesa e se inclinando para frente a fim de ficar mais próximo a mim.
Recuei em minha cadeira.
— Tá, prometo. — fiz o que ele pediu, sem entender ainda a razão daquela conversa toda dele. — Mas agora pode me explicar por que desse assunto?
— Não! — ele respondeu, ajeitando sua postura e piscando para mim enquanto exibia um sorriso logo depois.
Rapaz isso tá estranho! Ou melhor, meu chefe é que está estranho mesmo!
— Vou voltar pra minha sala. — apenas assenti para Brooke.
Meu chefe simplesmente me deu as costas e seguiu de volta para sua sala como se aquele papo que trocamos tivesse sido normal, o que para mim não foi!
Antes, porém, de adentrar em sua, ele se virou para mim:
— Ah, Sara!... Owen já te ligou?
— Como sabia que ele me ligaria?
Me recostei melhor ao encosto da cadeira e cruzei os braços na altura dos seios com o olhar focado em Brooke.
— Porque ontem Owen me ligou. Ficamos de papo por um tempo e depois ele me disse que ia te ligar.
— Hum... Ele ligou sim.
Meu chefe me fitou bem por segundos. Já ia lhe indagar a razão daquele olhar tão acintoso em mim, mas Brooke foi rápido em anunciar que iria para sua sala, pois tinha serviço demais pela frente.
Já sozinha depois que meu chefe entrou em sua sala, eu ainda tentava entender qual tinha sido o propósito e a intenção do Brooke em ter me enaltecido como profissional e mais ainda, ter me feito prometer o que prometi.
— Eu, hein?! Que coisa mais estranha! — sacudi a cabeça e voltei ao meu trabalho.
No meu intervalo de almoço compartilhei com Dayse o lance com Brooke, enquanto seguíamos para encontrar o pessoal do nosso grupo de sempre das refeições. Minha amiga não achou nada demais no ocorrido e me mandou desencanar. Resolvi seguir seu conselho.
— Já ligou para o Grissom pra saber do estado de saúde do pai dele?
— Antes de você aparecer pra me chamar para virmos almoçar, eu liguei, mas o celular dele só chamou até cair na caixa postal.
— Será que aconteceu algo de ruim com o pai dele?
— Ai, Dayse, vira esse boca pra lá!
Chegamos ao refeitório e encontramos o pessoal já todo lá na nossa mesa de sempre.
Durante o almoço e os papos que rolavam soltos pela mesa, eu tentei mais duas vezes entrar em contato com Gil, mas sem sucesso. Mandei então uma única mensagem de texto a ele e resolvi que ia esperar sua resposta ou uma ligação de retorno. Também não ia ficar enchendo sua caixa postal de recados e nem mandando uma enxurrada de SMS's.
Acho que se algo de ruim tivesse acontecido com o pai dele como supôs Dayse, Gil certamente já teria me ligado contando. Vai ver que ele só devia estar ocupado e por isso não me atendia.
Coisa de meia hora depois do SMS enviado, quando eu já estava voltando do meu horário de almoço para a minha mesa, o celular tocou na minha mão. Era ele.
— Oi, Gil!
— Oi, querida! Desculpa só está retornando agora sua ligação... é que antes eu estava...
Sua fala "morreu" bem aí e a linha ficou muda, não por completo pois eu conseguia ouvir a respiração de Gil ressoar.
— Estava ocupado? — arrisquei já que ele não falava.
— É!
— Tudo bem. Imaginei que fosse por isso. — só me pergunto o porquê dele hesitar em dizer isso ainda pouco. Mas para evitar discussão boba me abstive de fazer qualquer comentário ou pergunta a esse respeito. Tratei de saber sobre o velho dele, já que esta tinha sido a razão das minhas ligações ao Sr.Gostoso. — Como está o estado de saúde do seu pai?
Um longo suspiro seu e então Grissom me contou que estava na mesma. E revelou-me que agora a tarde seu pai ia passar por uma nova avaliação tomográfica do crânio para controle do sangramento cerebral. E segundo o médico dele lhe informou, depois do procedimento de análise feito, será realizada a passagem de um cateter para monitoração da pressão intracraniana.
Eu vou confessar que particularmente detesto informações médicas, porque elas soam tão preocupantes. Até mesmo quando querem dizer coisas simples, elas soam preocupantes!
Gil e eu conversamos sobre seu pai por mais alguns minutos até Brooke aparecer em frente a minha mesa empunhando papéis para mim.
— Gil, eu preciso desligar agora pra trabalhar. Qualquer notícia do seu pai, você me liga?
— Ligo, sim. A noite vou te ligar lá de casa. Hoje não vou pra casa do meu pai, irei dormir em minha casa de Nova Jersey.
Eu pensei em lhe dizer que ia lá ficar com ele, mas resolvi fazer-lhe uma surpresa e aparecer em sua casa mais tarde sem avisar. Acho que ele vai gostar.
— Tudo bem. A gente se fala a noite. Beijos.
— Beijos, querida.
Finalizei a ligação e tratei de me desculpar com Brooke por fazê-lo ficar esperando.
— Tudo bem. Mas aconteceu alguma coisa com o pai do seu namorado?
— Ontem ele sofreu um AVC hemorrágico e está internado.
— Nossa! Mas é grave o estado dele?
— O médico disse que a situação é delicada.
— Bem... Estimo melhoras a ele.
— Obrigada.
— Cópias! — Brooke abriu um sorriso e me esticou os papéis em sua mãos. — Dez cópias desses resumos pra já.
— Pode deixar, chefe.
O restante da minha tarde foi só trabalho até o fim do expediente.
****
— Bora, Sara?! Já podemos ir.
Me despedi da Dayse e do restante do pessoal na frente da editora e acompanhei Bolton para pegar seu carro. Meu colega de trabalho tinha comentado ainda pouco que iria encontrar uma gata lá para as bandas de Nova Jersey. No mesmo instante pedi uma carona a ele, já que meu colega iria para onde eu ia, portanto não custava nada ele me dar carona. Bolton concordou de boa nisso.
— Em plena segunda-feira e você já vai cair na gandaia, né garanhão?
Bolton gargalhou enquanto dava partida no carro.
— Pra mim não há dia certo para cair na gandaia, Sara. Todo dia é dia pra isso!
E a pobre da Lisa ainda acha mesmo que vai "salvar" Bolton dessa vida perdida. Coitada! Meu colega de trabalho não parece ter jeito. Para ele o ditado "pau que nasce torto e morre torto", cabia como uma luva.
O trajeto até Nova Jersey era longo, mas a conversa divertida sobre diversos assuntos com Bolton fez o percurso passar tão depressa, que nem sente as quase uma hora e meia de viagem.
— Pronto, Sara. Está entregue!
— Puxa, Bolton, valeu mesmo pela carona. — agradeci já tirando o cinto de segurança.
— Que nada.
— Até amanhã! — toquei seu ombro e Bolton piscou, sorrindo. — Juízo!
— Não sei o que é isso, Sar.
Ele zombou, fazendo uma careta engraçada e caímos na risada.
— Você é uma causa perdida, Bol.
Saí do carro ouvindo novas risadas de Bolton. Acenei a ele já do lado de fora do carro e depois de me acenar, meu colega partiu.
Girei em meus calcanhares para seguir rumo a direção da portaria do prédio e no que acabo de fazer isso, enxergo Maryane cruzando o portão de saída do prédio de Gil.
'Não acredito nisso!', Pensei comigo mesma cerrando o punho direito e apertando os lábios.
Não foi nada difícil dela me ver ali. E assim que seus olhos me avistaram ainda perto do meio-fio, Maryane esboçou um discreto sorriso e veio caminhando devagar até mim. Enquanto ela vinha se aproximando, notei com mais atenção e pela primeira vez, que já era possível perceber um leve arredondamento em sua barriga, típico de gravidez.
— Se eu tivesse armado esse nosso encontro... Não teria saído tão perfeito assim. Como vai irmãzinha?
Não sei o que era mais irritante ali: a presença de Maryane, seu sorriso debochado ou aquele odioso "irmãzinha". Talvez a junção dos três seja a resposta mais acertada.
— O que faz aqui?
— Eu acho que não te devo essa satisfação, mas... — ela pausou e ergueu o dedo indicador para apontá-lo a mim com arrogância. — Vou abrir uma exceção.
— Desembucha de uma vez! — sibilei com raiva.
Maryane sorriu e tal gesto me irritou.
— Estava passando aqui perto, aí resolvi parar pra uma visita a fim de saber do Gil como tinha sido o procedimento que o pai dele foi submetido mais cedo.
— Uma simples ligação e você teria essa informação. Não precisava ter vindo aqui.
— E perder a chance de estar com o Gil? Não. Eu preferi saber pessoalmente dele notícias do Joseph. E ainda saí ganhando nisso, porque tive o prazer de jantar com Grissom. Só nós dois, sozinhos no apê dele!
Aí estava a prova clara de que eu não precisava ter dúvidas e sim, certezas de que Maryane estava se aproveitando da situação para tentar uma aproximação de Gil.
Que baixeza!
E o fato dela dizer aquelas coisas sobre jantar com ele somente os dois, só me indicava que Maryane também queria me provocar e tirar dos eixos. Porém não me deixaria abater por suas insinuações com fins provocativos.
Se ela arrancou dele um jantar, parabéns à ela. Mas isso será a única coisa que conseguirá com Grissom. Mais é impossível!
— Não imaginava que fosse tão baixa a ponto de se aproveitar de uma situação delicada como a que Gil está passando com o pai dele, para ficar perto do seu ex. — fiz questão de dar ênfase na palavra "ex", porque era isso que ele era e continuaria sendo para ela. — Mas isso não me admira, sabia? Já esperava por algo assim de você. E que bom que se contente com tão pouco como apenas jantar com o Grissom. Isso será o máximo que conseguirá com o MEU NOIVO!
O gosto com que eu disse as últimas duas palavras só não foi tão grande, porque maior que ele foi ver murchar a cara de altivez de Maryane ao me ouvir chamar Grissom daquela forma.
O tal sorrisinho de deboche que minha priminha estampava desde que se aproximou de mim, se desfez na hora e surgiu uma cara de desgosto nela.
Gostou dessa... priminha?!
— E já que ele jantou com você, cabe a mim a melhor parte... A sobremesa! — lancei um sorriso sórdido seguido de uma piscadela para Maryane, que endureceu mais ainda suas feições depois do que acabei de dizer. — Passar bem... Priminha!
Me despedi, pois não ficaria mais nenhum um segundo que fosse ali me estressando com Maryane e ouvindo suas provocações de merda. Passei por ela trombando nossos ombros propositalmente.
— Aproveita bem, viu Sara?!
Essa fala de Maryane me fez parar três passos depois de ter me distanciado da minha prima. Virei-me para lhe mandar ir a merda, só que Maryane se antecipou a mim na fala.
— Pode parecer que sou "carta fora do baralho", mas não é assim. — ela caminhou até mim feito um felino pronto a dar o bote certeiro. — Você não vai casar com o Grissom. Pode escrever isso!
— Infelizmente nesse momento não estou com caneta e papel pra escrever. — debochei, cruzando os braços.
— Debocha bem, Sara. Quero ver você fazer isso quando o Grissom te largar pra casar comigo.
Não era minha intenção, mas foi impossível conter a gargalhada.
— Isso não tem a menor chance de acontecer, Maryane.
Talvez nos sonhos dela fosse possível algo assim. É como dizem por aí: "sonhar não custa nada", então deixa a Maryane sonhar um pouco.
— Eu não teria tanta certeza assim, Sara.
Seu modo seguro e quase convicto me fez tirar o sorriso da cara e vacilar por dentro, mas me esforcei para não deixá-la notar que suas palavras me atingiram um pouco.
Você não vai me abalar, querida!
— Cadê o sorriso agora, Sara? Ele sumiu da sua cara por quê?
— Escuta aqui... — apontei meu indicador a Maryane. — ... O quê quer que você tenha em mente armar pra me separar do Gil, não vai dar em nada, Maryane. Ou até pode dar, mas duvido muito que dê totalmente certo. Grissom pode se separar de mim, mas casar com você? Acho bem difícil!
— Eu não acho! E se for pra apostar nisso... Eu aposto todas as minhas fichas, que no fim das contas será comigo que ele casará e não com você.
Ela sorriu de um jeito que me deixou com a pulga atrás da orelha.
Maryane tinha algum plano em mente e eu precisava ficar esperta.
— Ah... Já ia me esquecendo... — ela girou em seus saltos altos, quando já havia se distanciado poucos metros de mim e me encarou de novo. — Você vai ser tia de um menino. Hoje mais cedo, eu e Gil descobrimos juntos durante a minha ultrassom, que espero um menino!... Até mais, irmãzinha. — sorrindo, acenou para mim feito uma miss e seguiu para atravessar a rua e pegar seu carro do outro lado da rua.
E eu?
Bom... Eu fiquei com cara de idiota enfurecida.
De tudo o que aquela peste disse com o intuito claro de me atingir, esta última fala foi a que obteve o êxito que ela queria.
Saber que Grissom e ela foram juntos à uma consulta; e que ele estava ao lado de Maryane durante a ultrassonografia dela, foi um banho de água fria na minha pose de "nada do que você diz me atinge".
Mas isso atingiu!
E como atingiu, colega!
Foi bem no fundo.
Encarei o prédio de Gil e de repente subir para ficar com ele, já não fosse mais algo que me agradava fazer. A vontade era de dar meia-volta e ir para casa.
"Não seja idiota! Não está vendo que ela só mencionou sobre a consulta para te provocar e mais ainda te fazer brigar com ele?", Uma voz tentou abrir meus olhos para o que a raiva e o ciúmes estavam tentando fechar.
Respirando fundo e pondo a cabeça para raciocinar, me dê conta do óbvio: Maryane só contou aquilo mesmo de propósito para me irritar.
Posso quase apostar que das duas uma: ou ela queria me fazer ir embora dali sem subir — algo que eu tinha cogitado fazer segundo atrás — ou esperava que eu subisse e brigasse feio com Gil sobre tal fato.
Vou confessar que para essa segunda opção não faltava vontade, caso fosse verdade isso que Maryane disse, óbvio. E talvez até fosse, pois acabo de lembrar das ligações não atendidas de Gil e o fato dele ter hesitado em me dizer que estava ocupado.
Ele devia estar na consulta naquele momento e não me disse!
Sente raiva por Grissom me omitir isso.
Por que não contou a verdade?
Ou será que ele pretendia fazer isso pessoalmente?
Só havia uma maneira de descobrir!
****
— Sara! — ele me deu um beijo ao abrir a porta e me encontrar parada ali. Não o rechacei, ainda que fundo tivesse um pouco de vontade disso, mas não o fiz e retribui o beijo. — Fiquei surpreso quando o porteiro interfonou avisando que você estava na portaria. — Gil já me puxava delicadamente pela mão para dentro do apartamento dele.
— E eu fiquei surpresa de encontrar minha prima na saída do seu prédio.
Ele virou o pescoço e me encarou.
— Posso explicar.
— Não se dê o trabalho quanto a isso, pois Maryane já o fez. Ela disse a razão dela ter vindo aqui e também uma coisa que isso sim, quero que me explique.
Ele franziu a testa e virou seu corpo por completo, ficando bem de frente para mim.
— O que ela te disse?
— Que vocês dois descobriram hoje durante a ultrassonografia de Maryane, que o bebê dela é um menino. Você realmente foi com ela a essa ultra?
Eu tinha esperanças que aquela peste tivesse inventado isso. Mas quando Grissom confirmou tal informação, as esperanças caíram num poço sem fim.
Gil explicou ainda que só a acompanhou, porque Maryane insistiu e também porque essa ultrassom seria feita no mesmo hospital onde o pai dele estava internado, só que em outra ala, óbvio.
— Quando liguei e você não atendeu é por que estava nessa ultrassom com ela?
— Sim!
— Por que não me contou sobre isso quando nos falamos? — mantive uma voz branda apesar da pergunta carregar um teor de cobrança, por ainda estar me consumindo de raiva pela omissão de Grissom.
— Queria evitar justamente essa situação de desentendimento entre nós. Eu imaginei que você se aborreceria se soubesse que fui com Maryane e por isso resolvi não contar nada.
— Será que não passou pela sua cabeça que minha prima ia dar um jeito de me esfregar isso na cara como fez?
Por uma fração de segundos, ele fechou os olhos apertados e deixou que um suspiro lhe escapasse pelos lábios entreabertos.
— Sinceramente não! — seus olhos se abriram para me fitar. — Olha Sara... Me desculpa... Talvez eu devesse ter dito a verdade mesmo. Mas achei que omitir fosse o melhor, okay? Errei, tentando acertar. Falhei. Acontece!... E de verdade... não estou com cabeça alguma pra brigas ainda mais, por causa de Maryane.
Só agora percebi o abatimento em seu olhar, algo que se estendia por toda sua expressão. E entendi que estava sendo tão inoportuna com aquela cobrança e meus ciúmes.
Que bela bosta de namorada você está se saindo nesse momento, né Sara Sidle?! Parabéns!, A voz diabólica em minha mente falou com seriedade e eu podia jurar que ouvia também sons de palmas em deboche.
Mas eu tinha que dar o braço a torcer àquela demoníaca de voz. Ela estava certa! Que bela bosta eu estava me saindo.
Ao invés de dar consolo a Grissom pelo pai dele, eu estava fazendo exatamente o que julguei lá atrás ser a atitude a qual Maryane queria que eu fizesse: brigar com Gil.
Burra!
— Acho que quem deve pedir desculpas aqui sou eu. — me pronunciei, tocando seu rosto. — Péssima hora e momento pra cenas de ciúmes. Desculpa.
Gil apenas se limitou a mexer a cabeça e me levou para se acomodar no sofá junto com ele. Em silêncio e encarando nossas mãos unidas, Grissom ficou desenhando círculos com o polegar nas costas da minha mão.
— Seu pai como está? — quebrei o silêncio ali. — Deu tudo certo no procedimento que ele ia fazer hoje a tarde?
— Certo deu. Mas o estado do coroa não é nada animador, Sara. Acho até que devo me preparar e preparar o Lewis para o pior.
— Ei! Não diga isso. Ele vai sair dessa. Tenha fé.
— Fé?! — um sorriso de escárnio escutei vindo de Gil. — Nunca fui um sujeito religioso e que tivesse fé. E isso só se acentuou com a perda da minha mãe pra uma maldita doença crônica.
Detectei raiva e amargura em sua fala.
— Gil! — com delicadeza virei seu rosto para que me olhasse. — Vai dar tudo certo. E se você não tem fé nisso, eu tenho suficiente por nós dois.
Ele me abraçou. Ficamos naquele abraço por um tempo que não sei precisar, só posso afirmar que foi longo. E quando nos separamos, Grissom me agradeceu por estar ali com ele.
É, mas antes o meu ciúmes quase cagou isso!
Acho que se eu seguisse com as cobranças, era capaz de Grissom me convidar a se retirar dali. Eu mesma talvez fizesse isso com ele caso a situação fosse contrária.
Ainda bem que resolvi não levar adiante aquele papo sobre Maryane. E nem pretendo tocar mais nisso, muito menos, ficar repassando para Grissom as ameaças da minha prima. Da Maryane e as possíveis armações que ela já devia ter arquitetado na mente, eu mesma cuido.
— Você não deve ter jantado ainda, né?
— Não! Vim direto do trabalho pra cá, porque queria muito ficar do seu lado. — dei um beijo rápido em seus lábios e vi Gil sorrir. Era um sorriso melancólico, mas era um sorriso.
— Então vem comigo que te preparo algo.
— Vai cozinhar pra mim?
— Vou me aventurar em preparar algo. Não espere grande coisa, porque não sou muito bom em cozinhar.
— Desse jeito a Helen vai ter que vir trabalhar conosco quando casarmos.
— Com certeza.
Sorri de sua imediata resposta e Gil me acompanhou.
O meu jantar se resumiu a torradas com pasta de amendoim e suco de caixa sabor maçã. Depois dessa refeição e de ajudar Gil a limpar a pouca bagunça que ele fez na preparação daquela refeição, nós subimos ao quarto do Sr.Gostoso.
Enquanto fui tomar um banho rápido, Gil ficou me esperando na cama com a TV ligada num canal de esportes.
Tomei minha ducha rápida e coloquei a camisa de mangas que Grissom me emprestou para dormir. Saí do banheiro e encontrei o Sr.Gostoso olhando para a TV, mas a impressão era de que ele sequer estava prestando atenção no que passava ali. Talvez nem estivesse vendo apenas olhava para TV por olhar.
Me juntei a ele na cama e na mesma hora Gil me puxou para deitar a cabeça em seu peito.
— Como você veio pra cá? No carro da Dayse?
— Não. Peguei uma carona com um colega de trabalho que vinha pra cá.
— Hum... E amanhã aposto que você tem trabalho?
— Sim!
Encarei Gil e no mesmo instante ele já estava apanhando o celular do móvel ao lado da cama. Calada e apoiando o queixo em seu peito, eu o vi mexer no aparelho e levá-lo a orelha. Coisa de cinco segundos depois Grissom já dava ordens a alguém para estar às sete em ponto com o helicóptero no heliponto do prédio dele para levar sua namorada, no caso euzinha, para o trabalho lá no Brooklyn. Sem despedidas ou agradecemos a outra pessoa na linha, Grissom finalizou a ligação e devolveu o celular ao lugar.
— Pronto. O helicóptero vai te deixar num heliponto que fica a duas quadras do local onde você trabalha. Assim não precisa acordar tão cedo para Luke te levar de carro daqui até o Brooklyn.
— Obrigada!
Ele apenas assentiu e ficou me encarando em silêncio. Queria muito ter o poder de saber o que ele estaria pensando naquele momento enquanto me olhava tanto e deslizava as costas de uma das mãos pelo meu rosto.
— Tô com medo, sabia?
A voz dele não passava de um doído sussurro.
— Eu sei. Mas no final vai ficar tudo bem com o seu pai.
— Não é do meu pai que estou falando.
— É do quê?
— Não sei te dizer ao certo. — com o dedo indicador direito Gil desenhou o contorno do meu rosto e depois deslizou o polegar por sobre meus lábios. — Só sei que estou com medo de algo do qual não faço ideia que seja.
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