One Night - Livro 1
74 Capítulo LXXIV
Notas iniciais
Com tristeza eu observava quieta a paisagem que ia passando rápido pela janela escura do carro guiado por Luke enquanto Gil falava com não sei quem ao celular.
Imaginava que as coisas na casa dos meus pais teriam um desfecho ruim, porém não um tão ruim como foi! Juro que ainda me custava a acreditar que meu próprio pai tenha me dito para esquecê-los. Isso tinha me machucado bastante, assim como, o fato dele não ter acreditado no que eu disse a respeito de Maryane. Poxa, ele é meu pai! Devia ter me dado um pingo de credibilidade, mas não! E como se ainda não fosse o bastante, me virou as costas.
— Okay! Segunda nos acertamos no meu escritório. Passar bem.
— Problemas?
Questionei sem olhar para Gil, mas ciente de que ele havia finalizado a chamada pelo tom de despedida com o qual falou. Não me atentei para o que ele falava exatamente durante a ligação, pois estava com a cabeça na lembrança do ocorrido há pouco na casa dos meus pais, porém pelo modo áspero com o qual Gil pronunciou as últimas palavras antes de finalizar a chamada, algo sério havia acontecido.
— Sim, mas não se preocupe com isso, querida.
O toque de sua mão na minha, que repousava sobre meu colo, me fez tirar a atenção da paisagem lá fora para encarar o homem acomodado ao meu lado no banco de trás do SUV alugado.
— Ei, não gosto de te ver triste assim!
Ele me puxou para perto de si e deitando minha cabeça em seu ombro, busquei um pouco de consolo e refúgio em seus braços fortes, que instintivamente me cercaram carinhosamente.
— Parece que nossos pais são inimigos declarados da nossa relação, Gil.
Tanto o pai dele não me aceitava, quanto o meu não nos aceitava.
— Às vezes tudo o que se precisa é de um pouco tempo para a poeira baixar e as coisas se ajustarem, querida. Vamos dar tempo ao tempo, pra vê o que acontece, tá bom?
Assenti e pude sentir seus lábios tocando minha cabeça num beijo, enquanto suas mãos deslizavam com carinho por um dos meus braço. Se formou um breve silêncio que nos envolveu até que eu mesma o rompesse, ao me lembrar de um detalhe importante.
— Gil... Como você sabia que Maryane estava lá na casa dos meus pais?
Erguendo a cabeça de seu ombro, eu olhei para o rosto dele e aguardei por sua resposta, que veio uma fração de segundos depois de ele muito pensar.
— Eu pus uma pessoa de confiança minha na cola da sua prima pra me relatar cada passo que Maryane desse, depois que terminei o noivado com ela.
Com os arregalados não consegui esconder minha surpresa diante daquela atitude dele. Não imaginava que ele fosse ao extremo assim. Se bem que... Para quem já mandou rastrear uma ligação minha para achar o meu paradeiro... Esse lance de colocar um espião atrás da Maryane parecia ser algo normal para Gil.
— Posso saber por que disso?
Ele explicou que desconfiava que mesmo com as ameaças que fez depois do término do noivado, Maryane pudesse vir procurar meus pais e se antecipar nós, como aconteceu.
— Não adiantou muito isso no fim das contas, pois Maryane foi mais rápida que nós dois.
— E isso é culpa do incompetente que mandei ficar de olho nela, que só me avisou da vinda da sua prima ontem pra cá pouco depois que te deixei na casa do seus pais. Segundo Ian, ele diz que tentou me ligar ontem a noite mesmo, mas não conseguiu. Inútil!
Olha... Me bateu até uma pena do sujeito pelo modo que Gil falou dele. O Sr.Gostoso se mostrou furioso com essa tal pessoa.
— O sujeito ao menos explicou por quê não ligou mais cedo pra te avisar disso?
— Nem lhe dei tempo pra tal coisa. Fiquei tão puto de raiva com sua incompetência, que desliguei na cara dele e mandei Luke voltar na mesma hora pra casa dos seus pais com a intenção de não chegar tarde demais a ponto de Maryane ter dito o que não era da incumbência dela.
A menção daquele nome me despertou a minha raiva.
— Nem me fale na Maryane.
Eu ainda estava engasgada com aquela peste. Ela pode não ter contado na minha frente sua versão mentirosa a respeito de mim e Grissom para os meus pais, mas sei que, de alguma forma, ela deve ter feito seu teatrinho para eles durante a conversa que tiveram antes. Sem contar que a sonsa também deu o start para o desagradável "confronto" que rolou há pouco entre Gil, eu e minha família, mais precisamente com o meu pai mesmo. Aquela falsa da Maryane ia me pagar por isso mais cedo ou mais tarde!
— Sua prima não perde por esperar. Não tinha nada que me desafiar e vir aqui.
Não houve tempo para se dizer mais nada, já que Luke parou o carro e nos avisou que havíamos chego no hotel.
Confusa com aquilo, eu olhei para Gil.
— Achei que estávamos indo pegar o jato de volta pra Nova York. — comentei com Gil antes de ele sair do carro.
Depois do desastre que foi o embate com meus pais, achei de verdade que não ficaríamos em Santa Mônica. Confesso que até preferia ir embora dali e voltar para minha casinha no Brooklyn, ou até mesmo ficar hoje e amanhã com Gil na casa dele. Entretanto, o Sr.Gostoso argumentou quando eu também saí do carro para nós seguirmos para entrada do hotel, que seria bom ficarmos ali na Califórnia até amanhã, pois quem sabe, alguém com mais sensatez e menos intransigência do que o meu pai, nos ligasse para uma nova e mais calma conversa.
Eu achava difícil isso acontecer de hoje pra amanhã, contudo, concordei com a proposta de Gil de permanecermos em Santa Mônica, ainda que esta não fosse muito da minha vontade.
****
O sol começava a ir se pondo lá no horizonte daquele fim de tarde. Encostada ao guarda-corpo de vidro da sacada da luxuosa suíte presidencial do hotel, eu me pegava recordando mais uma vez naquele dia a terrível conversa que bem mais cedo tive com meu pai.
"[...] Ao cruzar a porta desta casa... Esqueça que tem família."
Como meu pai teve coragem de me dizer isso?
Eu jamais poderia esquecer da minha família e menos ainda dessas suas duras palavras.
Nem consegui saber a opinião da minha mãe e do meu irmão direito, já que meu pai monopolizou a situação e somente sua opinião se fez presente na conversa. Mas vai ver que os outros dois membros da minha família também compartilhavam da mesma opinião do meu pai. Se bem que, eles deixaram visivelmente claro sua discordância quanto ao que papai disse sobre "eu esquecer que tinha família". Pelas suas reações e o que os dois disseram, eu vi que pelo menos nisso eles não estavam de acordo com ele. Mas e quanto ao resto? Vai saber!
Grissom talvez possa estar certo ao afirmar que o tempo ajude nessa situação. E tomara mesmo que ajude ou do contrário ia ser difícil para mim lidar com o fato de ser ignorada ou pior, rejeitada pela minha própria família. Além de ter que fingir que eles não existem, quando é o contrário.
— Sara cadê você?
— Na varanda!
Virando o tronco apenas um pouco e o rosto para o lado, respondi alto ao chamado rouco de Gil vindo de dentro do quarto.
Não demorou nem dois segundos e vi as cortinas escuras da porta-janela se abrirem. Por elas, Gil surgiu coçando um dos olhos e ostentando uma cara sonolenta.
Depois do almoço que fizemos no quarto mesmo, o Sr.Gostoso acabou pegando num sono pesado tão logo nos acomodamos na cama para ver um pouco de TV com o intuito de nos distrairmos.
Assim que ele dormiu, fiquei velando seu sono por um longo tempo até resolver sair da cama e vir para a varanda, onde já me encontrava há mais de uma hora.
— Ah, então foi aqui que você se escondeu, sua danadinha?!
Gil me abraçou por trás e beijou meu pescoço, arrancando-me um discreto sorriso.
— Não estava escondida!
— Por um momento achei que tinha me abandonado sozinho nesse hotel.
— Você pegou trauma disso pelo visto, né?
— Acho que sim!
Ouvi seu sorriso rente ao meu ouvido.
— Você dormiu alguma coisa, querida?
— Não.
— Aposto que essa insônia tem a ver com o ocorrido na casa dos seus pais, né?
Apenas confirmei com a cabeça. Não tinha porque razão mentir para ele.
— Meu amor... Olha aqui pra mim!
De maneira delicada, Grissom me fez virar de frente para ele e tomando meu rosto entre suas mãos, me fez olhar dentro de seus olhos.
— Já falei pra você dar tempo ao tempo. Agora pode parecer que esteja complicado e difícil de se resolver essa situação... Mas quando os ânimos se acalmarem e poeira baixar, as coisas ficarão mais suscetíveis a um melhor entendimento, e até aceitação.
Falando parecia fácil, mas acho que na teoria não seria assim não.
— Tenho tanto receio de que eles não queiram saber de mim nunca mais, Gil.
Acho que não saberia lidar com essa situação, caso esta acontecesse.
— Ei, "nunca mais" é muito tempo, Sara. Vai ver como logo eles vão acabar nos aceitando. Talvez isso demore ou com sorte, seja o contrário.
Ele deu de ombros.
— Então tomara que seja o contrário, e não demore nem para o meu pai e nem para o seu.
Não era só a relação estremecida com minha família que me preocupava, mas também a de Gil com o pai dele.
— Meu pai já é mais complicado. Vamos deixá-lo fora disso.
Ele fez uma careta para em seguida piscar um dos olhos.
— Não dá e você sabe disso.
— Sim, mas não quero falar dele. O assunto aqui é os seus pais, Sara. E caso eles demorem muito pra nos aceitar... Vai ser problema deles, pois vão perder a oportunidade de fazerem parte da nossa felicidade e do começo da família que pretendemos formar depois do casamento!... Quem sabe, se não tivermos um filho logo, eles não mudem de ideia.
Ele esboçou um sorriso que não me atrevi a retribuir. A menção da palavra "filho" me trouxe a desagradável lembrança de Gil não ter me deixado dizer a minha família que ele não era o pai verdadeiro do filho de Maryane. Inevitavelmente, eu cobrei uma explicação dele a esse respeito.
No mesmo instante o sorriso dele sumiu diante da minha cobrança. Então vi Gil suspirar para depois rolar os olhos para cima enquanto suas mãos abandonavam meu rosto para repousarem sobre meus ombros. Levou alguns segundos mais de espera até eu ouvir uma resposta do Sr.Gostoso.
— Sara... Eu fiz uma promessa a sua prima quanto a isso... e gosto de cumprir o que prometo, assim como cumpro as ameaças que faço.
— Mas ao seu irmão você contou naquele dia. Podia ter me deixado contar a minha família também.
Por acaso com ele era dois pesos e duas medidas?
Ele fez menção de se pronunciar, mas não deixei.
— Agora você escuta. Podia muito bem contar pra minha família que esse bebê não é seu biologicamente, mas que ainda assim o assumiria como seu por alguma razão que poderia ter inventado na hora, caso não quisesse contar a verdade. Porém você não fez isso. E se não bastasse tal fato, também não me deixou contar tudo a respeito da minha prima. Por que, Grissom? Estava com pena dela?
— Não é nada disso! Só achei que o que você havia dito sobre ela já tinha sido o bastante. Não havia necessidade de mais.
— Essa é boa!
A incredulidade era visível na minha entonação ao falar. Maryane jogou baixo comigo e eu não podia fazer o mesmo com ela?
— Sobre o bebê... Até concordo com você, mas como eu disse... Fiz uma promessa.
— Você já quebrou essa promessa uma vez, o que custava quebrar mais uma e não me deixar ser vista pela minha família como a mulher que está te separando do seu filho?
Muito provavelmente, a minha família estaria pensando desse modo ou até mesmo pior a meu respeito dados os fatos. Certamente, para eles, eu não só separei minha prima do noivo dela, como também, estava separando um pai de um filho. E Grissom com a sua "omissão" por causa de promessa, me jogava mais ainda para essa situação.
— Você vai me responder ou apenas ficar me olhando?
O silêncio dele durava segundos desde a minha fala anterior e isso começava a me irritar. O pior foi ver que ele permaneceu igual diante da minha cobrança. Mais irritada eu fiquei.
— Ótimo!
Com um leve empurrão, eu afastei Gil da minha frente e saí da varanda rumo ao quarto, deixando o Sr.Gostoso sozinho lá fora.
Não era a minha intenção brigar com ele, porém se fez inevitável diante das cobranças que fiz e as razões que expus, as quais Grissom não se dispôs a me dar qualquer explicação satisfatória.
Dane-se porra de promessa! Eu não fiz uma. Ele então podia muito bem ter me deixado contar tudo, mas não!
Que droga!
De costas para a porta, eu ouvi momentos depois o sutil barulho da cortina sendo aberta.
— Sara...
Felizmente o toque alto do meu celular reverberou no quarto e impediu Grissom de falar o quê quer que fosse. Agradeci pressa bendita interrupção da ligação, pois não estava afim de ouvir de Grissom desculpas no lugar de explicações.
Do móvel ao lado da cama, eu apanhei rápido meu celular. Quase não acreditei quando vi quem ligava. Era a minha mãe! Meu coração veio até a goela e o devolvi ao lugar após engolir a seco. Atendi a ligação no quarto toque.
— Alô... Mãe!
Com visível hesitação pronuncio a última palavra enquanto meu olhar encontrava o de Gil. Vi um sutil sorriso surgir no Sr.Gostoso após ouvir com quem eu falava.
— Sara... Você... ainda está... na cidade ou já foi embora?
Assim como eu, ela falou com certa hesitação.
— Ainda estou na cidade!
— Gostaria de falar... pessoalmente com você... querida.
Sua fala agora carinhosa assim como, a maneira doce com a qual acabava de me chamar, trouxeram-me lágrimas e fez acender dentro de mim uma pequena chama de esperança e alegria, quanto ao fato de ter pelo menos o apoio da minha mãe.
— Estou hospedada no Golden Hotel.
— Em alguns minutos chego aí então.
— Está bem!
Ao finalizar a chamada contei a Grissom que minha mãe estava vindo para conversar comigo.
— Que bom, querida!
Grissom veio para me abraçar, só que fui mais rápida e me esquivei dele Gil indo para a direção da qual ele veio, evitando qualquer contato ou proximidade entre nós. Ainda estava aborrecida com ele e o Sr.Gostoso pareceu entender bem isso, pois não ousou uma nova aproximação.
— Sua mãe virá sozinha ou Carl e Sean virão junto com ela?
— Acho que ela vem só mesmo, pois não mencionou nada sobre vir acompanhada.
Ele assentiu e fez-se um breve silêncio no cômodo.
— Sara... Sobre o que você disse na varanda...
— Eu já perdi a vontade de continuar esse assunto.
Eu queria explicações no momento em que havia lhe interpelado, agora já não estava mais interessada.
— Mas...
— Por favor, Grissom. Vamos deixar esse assunto por isso mesmo.
*****
Quando abri a porta do quarto após ouvir uma leve batida, tive a agradável surpresa de ver meu irmão acompanhando minha mãe. Fiquei contente por vê-lo ali. Ia convidar os dois a entrar, mas fui surpreendida pela minha mãe me abraçando.
— Você é minha filha e eu nunca vou virar as costas pra você, Sara, aconteça o que acontecer.
Essas suas palavras foram a melhor coisa que eu poderia ouvir no momento. Feito uma menina que acaba de acordar de um pesadelo horripilante, eu comecei a chorar abraçada a minha mãe.
— Muito menos eu vou virar as costas pra você, Sar.
Escuto meu irmão dizer enquanto se juntava ao nosso abraço e depois disso ele beijou minha testa. Ao menos eles dois não me odeiam! Uma parte de mim estava tão feliz por isso, porém outra não, por causa do meu pai.
— Me desculpem!
Se afastando um pouco de mim e com isso desfazendo o nosso abraço triplo, minha mãe segurou meu rosto e com as pontas dos dedos polegares enxugou as lágrimas que desciam pelo meu rosto.
— Não tem que se desculpar por nada, minha filha. Quem tem que se desculpar nessa história toda são: seu pai pelo que lhe disse, a Maryane pelas coisas que fez a você e até mesmo eu por ter no começo pensado mal de você. Pode me perdoar?
Assenti, esboçando um sorriso, pois era óbvio que eu a perdoava, mesmo ciente de que não havia nada a ser perdoado da parte dela. Ela sequer tinha tido oportunidade de expressar sua opinião mãos cedo.
— Além do mais, eu seria a pior mãe do mundo se compactuasse com essa história de lhe virar as costas. Ainda mais, depois do que soube.
— Como assim? O que você soube?
Confusa e agora curiosa, eu dei passagem aos dois visitantes para entrarem, já que ainda estávamos parados na porta.
Após entrarem os dois de maneira curta cumprimentaram Gil, que o tempo todo se encontrava ali presente, porém quieto e na dele lá no canto da pequena sala de estar que havia naquela enorme suíte presidencial onde estávamos hospedado.
— Imagino que queiram conversar apenas com a Sara.
Gil se levantou do sofá, mas minha mãe lhe impediu de sair ao pedir que ele ficasse, pois também tinha coisas a lhe dizer. Desse modo, o Sr.Gostoso tornou a se acomodar na poltrona que estava, enquanto eu, minha mãe e Sean nos acomodamos num sofá maior que havia ali.
— Sara depois que você foi embora, eu disse ao seu pai para falarmos com Maryane sobre tudo o que você disse a respeito dela e ele aceitou. Então fomos falar com a Mary.
— Aposto que ela negou tudo quando falaram o que eu disse, né?
— Pelo contrário, querida! Maryane confirmou exatamente tudo o que você nos disse.
Hein?
Instintivamente lancei um olhar a Grissom e assim como eu, ele se mostrou surpreendido com o que ouviu.
— Tudo??
Indaguei ao tornar a olhar para minha mãe.
— Sim!
Por essa eu não esperava. Juro! Achei que aquela sonsa ia mentir e inventar que tudo que não passava de inverdades minha para lhe deixar mal com meus pais, mas pela primeira vez aquela peste agiu de maneira correta. Só que algo me diz que ela apenas deve ter feito isso visando benefícios próprios, pois Maryane não se prejudicaria assim à toa. Ela bem deve ter alguma carta na manga.
— E o meu pai, o que falou pra ela quando Maryane confirmou o que eu disse?
— Eu percebi que ele ficou desnorteado. Não soube o que dizer. Apenas se limitou a falar a Mary que estava desapontado e bem decepcionado com ela. Depois disso saiu do quarto da sua prima e se trancafiou no escritório. Tentei falar com ele por duas vezes, mas Carl não quis abrir a porta pra mim.
— Certamente o nosso pai deve estar envergonhado de ter agido como agiu com você, Sara. Tenho certeza que logo ele te procura para pedir desculpas, maninha.
Apenas assenti, ganhando um beijo do meu irmão.
— Sozinha com Maryane, eu tive uma séria conversa com ela, Sara. Mandei que lhe procurasse e pedisse desculpas por tudo o que fez a você, filha.
Acho bem difícil da minha prima fazer isso. E se fizer não há o menor interesse de minha parte em desculpá-la, o que tratei de deixar claro a mamãe.
— Me perdoe mãe, mas eu dispenso as desculpas de Maryane.
Posso apostar que Maryane sequer me faria um pedido sincero. Portanto, nem valia a pena perder meu tempo desculpando-a.
— Ela alegou que te ameaçou por desespero, porque não queria perder o noivo, Sara.
Essa "justificativa" para mim não 'colava'.
— Também me disse que ama você, Grissom.
Minha mãe falou isso olhando diretamente para Gil. Também olhei para o Sr.Gostoso e este apenas ergueu uma das sobrancelhas ao ouvir as palavras de minha mãe. Ela ainda concluiu, dizendo que Maryane havia lhes revelado que o caso que ela vinha tendo com o amigo de Gil não existia mais há quase dois meses.
Por que será que não consigo acreditar em metade dessa história furada que Maryane contou? Ela estava mais para inventada do que para ser verdadeira. E eu ia justamente mencionar isso a minha mãe, quando Gil se pronunciou, me impedindo.
— Laura, você vai me desculpar a franqueza, mas... Se acabou ou ainda existe algo entre Maryane e esse sujeito que se dizia meu amigo, pra mim não importa mais, porque a minha relação com Maryane terminou e agora estou com Sara.
Ele me lançou um breve olhar cheio de carinho e amor, depois sorriu e prosseguiu sua fala sem sorrir.
— Sinto muito por Maryane e o fato dela estar apaixonada por mim, pois não há quaisquer chances de eu vir a correspondê-la se quem eu amo é a prima dela.
Confesso que aquela sua declaração me fez até chutar para o lado a raiva que ainda estava de Gil.
— Você não está enganando a minha filha mais nova como fez com a mais velha?
— Juro que não, Laura! Como eu disse há pouco... Eu amo a Sara!
— Espero que esteja falando a verdade, pois se magoar a minha irmã é comigo que vai acertar as contas primeiro, viu camarada?
Sean falou em tom de ameaça e Grissom apenas concordou. Em seguida o meu Sr.Gostoso fez questão revelar ao meu irmão e mãe que o que sente por mim jamais havia sentido antes.
Juro que depois disso eu quis me jogar em seus braços e lhe tascar um beijão daqueles. Mas me contive por conta da presença da minha mãe e Sean.
— E por Maryane, o que sentiu?
Não esperava por aquela pergunta de minha mãe, e Gil muito menos pelo que pude perceber. Mas mesmo assim, ele tratou de responder ao questionamento dela.
— Laura... Eu e Maryane não tínhamos uma relação comum de amor. Pra começo de conversa nem amor havia de ambas as partes. O que havia era uma... atração. E nosso relacionamento era aberto.
— Aberto?
Gil me olhou rapidamente e me surpreendeu ao abrir o jogo e explicar a minha mãe exatamente como era sua relação aberta com Maryane.
— Basicamente nós estávamos juntos, mas não tínhamos compromisso sério. Podíamos muito bem nos envolver com outras pessoas também.
— Isso mais parece coisa de adolescentes e vocês já passaram dessa idade há uns bons anos.
Vi certa insatisfação e até indignação por parte da minha mãe naquele seu comentário.
Com desconforto Grissom apenas concordou com o que foi dito. Por uns instante fiquei com dó dele, pois parecia visivelmente sem jeito diante da opinião um tanto forte de minha mãe. Dona Laura podia ser cabeça aberta para umas coisas, mas nem tanto assim para outras.
— E se era uma relação aberta, por que vocês não tomaram o devido cuidado de não acontecer uma gravidez como aconteceu? Agora há um bebê no meio disso tudo.
Que vontade enorme de me meter e dizer que o bebê não era dele, mas fiquei na minha.
— Quando essa criança crescer, vai achar no mínimo estranho e confuso o pai dela ser casado com a tia e não com a mãe, não acham?
Sabe que eu não tinha pensado nisso? Com certeza essa criança ia ficar confusa mesmo. Mas nada que uma boa conversa e uma excelente explicação não resolvam, quando fosse o momento certo para isso ser feito.
Porém essa aparente e até compreensiva "preocupação" da minha mãe, certamente, não existiria caso, soubesse que Gil não era o pai biológico dessa criança. Só que o Sr.Gostoso não revelaria isso.
Para amenizar a situação eu aleguei que ainda levaria tempo até essa criança estar entendida o suficiente para lhe explicarem as coisas. E finalizei, dizendo que quando chegasse o momento, Grissom ia conversar com o filho dele.
Não foi proposital, mas ao pronunciar a palavra "filho", eu dei mais ênfase nela do que queria. Notei Gil franzir o cenho e ficar me encarando de maneira séria por segundos até desviar o olhar de mim para fitar suas mãos.
— Ainda sim, vai ser confuso pra essa criança entender!... Me desculpem, mas... O certo seria o pai dela ser casado com a mãe, e não com você, a tia.
Ou seja, minha mãe achava que Grissom tinha que casar com Maryane, ao invés de, ficar comigo.
— Olha, mãe...
— Não sou o pai biológico dessa criança, Laura!
Meus olhos quase saltaram da cara ao encarar Grissom. Mal podia acreditar no que havia acabado de escutar saindo de sua boca.
Um silêncio gigantesco se fez na sala. Tanto minha mãe, quanto Sean e eu olhávamos para Gil, que olhava fixo só para mim.
Ué... E a tal promessa, gente? Ele resolveu quebrá-la? Por que? Se parecia tão convicto em manter-se fiel a ela.
Rompendo o silêncio Gil explicou a minha mãe que resolveu assumir a paternidade dessa criança logo que Maryane lhe contou sobre a gravidez. E que prometeu e também fez Maryane prometer que ninguém saberia que o filho dela não era seu, mas... Diante das circunstâncias e do fato de eu andar chateada com ele por não assumir ao menos para a minha família sobre não ser o pai biológico dessa criança que minha prima esperava, ele decidiu quebrar a promessa que havia feito a Maryane.
Ai, gente, assim eu vou me jogar no colo desse homem e lhe encher de beijos. Ele só contou aquilo por minha causa!
— Além do mais não quero que nenhum de vocês pensem que a Sara está me separando dessa criança, porque isso não é verdade.
Pelo visto ele levou em conta o que eu disse.
— Por que assumir um bebê que não é seu, cara?
Vontade não me faltou de revelar para Sean a verdadeira razão por trás deste gesto de Gil, porém faltou coragem.
— Questões minhas que não eu não vem ao caso ficar comentando, Sean. Trata-se de algo que só diz respeito a mim e Maryane.
Óbvio que ele não ia revelar que a verdadeira motivação disso, dizia respeito a ele assumir os negócios da família dele.
— Essa criança é filha do seu amigo, não é?
— É, mamãe.
Confirmei antes que Grissom negasse.
— E quem é esse sujeito?
Dessa vez Grissom foi mais rápido que eu e disse que não importa quem era, pois ele tinha assumido a criança como sua e assim gostaria que continuasse sendo, posto que ele mesmo se sentia o pai e já havia criado afeição a esse bebê.
Notei que minha mãe pareceu apreciar sua resposta e ainda comentou que essa atitude de Grissom estar assumindo um filho que não é seu, acabou de lhe fazer vê-lo com outros olhos, e certamente, com o meu pai aconteceria o mesmo quando soubesse disso.
— Só peço que não comentem sobre isso com mais ninguém além do Carl. Meu pai não sabe disso e quero que ele continue achando que essa criança é minha mesmo.
— Tudo bem. Agora sobre você e Sara...
— Quero casar com sua filha em um mês.
Seu olhar encontrou o meu e Gil sorriu para mim de um jeito lindo, que me fez suspirar.
— Tão rápido assim?
— É que não consigo esperar por mais tempo que isso para que sua filha case comigo.
— Eu só espero que a faça muito feliz.
— Eu farei.
— Na verdade ele já faz, mãe!
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