One Night - Livro 1
57 Capítulo LVII
Notas iniciais
Impressionante que quanto mais nós queremos que as horas passem num dia, mas elas demoram a passar. Pois bem, era exatamente assim, que eu sentia que estava acontecendo naquela sexta. As horas daquele dia pareciam não passar, ou pior, passavam com tanta lentidão que estava sendo uma enorme tortura para mim.
Eu queria logo que chegasse a noite para ir para casa e esperar Grissom aparecer por lá. Só que ainda faltava tempo para isso. E bota tempo!
Foquei no meu trabalho e acabei esquecendo por longas horas do tempo e da minha vontade de que ele passasse logo para que eu pudesse ir embora da editora.
— Sara tô indo pra reunião com o pessoal da criação de arte do novo livro.
Levantei a cabeça para ver meu chefe parado diante da minha mesa.
— Ah, tá bom!
— Eu acho que em uma hora e meia tô de volta. — ele me comunicou após olhar rápido em seu relógio no pulso esquerdo.
— Certo. Boa reunião por lá.
— Valeu. Até mais.
Meu chefe saiu todo apressado e eu voltei a fazer o meu serviço. Precisava terminar aquela resenha rascunhada por Brooke antes do mesmo voltar, pois ele ia precisar desse texto digitado e impresso para apresentar ao editor-chefe.
Algum tempo depois, eu terminava meu serviço e na sequência já mandava imprimir o texto. Tão logo as impressões ficaram prontas, guardei as folhas numa pasta e não tinha mais nada para fazer.
Resolvi aproveitar a pequena folga e fui à copa apanhar um copo de café. Estava precisando. No meio do caminho escuto meu nome ser chamado. Me virei e vi Dayse vindo com cara de poucos amigos.
— Nossa que cara é essa?
— Cara de quem adoraria mandar a minha chefa ir... à merda! — Dayse sussurrou as duas últimas palavras enganchando seu braço no meu.
Não consegui evitar rir do que minha amiga disse. Dayse tinha uma relação nada amistosa com Sullivan por conta do péssimo humor de sua chefe.
— Você acha engraçado, não é?
— O jeito como falou sim. O que foi que houve?
— Ai, Sara, ela é chata demais. Nada pra ela tá bom. Jesus Cristo! Sabe aquela pessoa que só acorda de mau com a vida? É a Sullivan.
— A cara dela já diz bem isso mesmo.
— Se diz!... Você estava indo aonde?
— À copa! — respondi já puxando Dayse para me acompanhar até o lugar dito.
— Ah, eu também. A Sullivan me pediu para apanhar um café à ela. Será que se eu cuspir no copo dela a bruxa vai notar, Sara?
Fiz uma careta.
— Ai, Dayse, que nojo! Você não vai fazer uma porcaria dessas, vai?
Só de imaginar tal situação já fiquei enojada.
— Claro que não! Tô brincando, maluca. Sou doida, mas não a esse nível extreme.
Chegamos à copa e eu já fui direto ligar a cafeteira.
— Sara, eu estive pensando e decidi ir hoje lá para a casa dos meus pais dormir lá.
— Por quê? — olhei com certo espanto para Dayse postada ao meu lado. — Você nem gosta de ir lá.
— Não gosto pela minha mãe, pois não nos damos bem. Mas é que eu quero deixar o apê livre pra você e o Grissom conversarem à vontade e também fazerem outras coisinhas além de conversar. — Dayse abriu um sorriso bem malicioso.
— Você não presta, Dayse! — bati com meu ombro no dela.
— Até parece que isso não vai rolar se vocês se acertarem. E como não quero meus ouvidos sendo perturbados pelos "sons" de vocês dois, coelhinhos debulhando e "matando as saudades", então vou pra lá fazer visitinha a momys e popys. — ela rolou os olhos para cima e fez uma careta engraçada.
— Você não está falando sério! — duvidei um pouco daquela "história" dela.
— Tô, sim. Por você, eu vou me submeter a este sacrifício. Mas vai ficar me devendo essa.
Pelo visto é sério mesmo. Sorri e abracei Dayse, pois sabia que para ela não seria nada fácil ir dormir lá na casa dos pais. Porém por mim, para me deixar a vontade com o Gil, ela ia para lá.
— Quando você quiser eu pago a minha dívida. — disse ao largar a Dayse.
— Vou pensar em como e quando você vai ter que me pagar.
O meu celular tocou e ao apanhar o aparelho do bolso vi que se tratava de uma chamada do Grissom. Atendia na hora.
— Oi, Gil!
Ao me ouvir dizer o nome do Sr.Gostoso e ver o sorriso enorme que deixei escapar, Dayse fez com as duas mãos um coração e abriu um sorriso largo e malicioso.
— Oi, Sara! Tô ligando pra avisar que não vou poder ir mais a sua casa hoje a noite.
Ah, não!
— Por quê? O que houve?
Ao interpelá-lo, eu já não sorria mais como quando atendi a chamada. Dayse percebendo isso gesticulou-me qual era o problema. Fiz um sinal com a mão para ela esperar que depois eu contava.
Na linha ouvi Grissom explicar que daqui a pouco estaria viajando para Alemanha com o pai para resolverem umas coisas urgentes que surgiram de última hora por lá. Da Alemanha, no domingo, os dois iam à Wuhan, na China, onde ficariam por três dias para participarem de uma feira internacional das indústrias farmacêuticas. Depois retornariam à Munique e somente voltariam para os EUA na próxima sexta a fim de prestigiaram Lewis no lançamento das jóias dele. E, portanto, só aí, nesse retorno é que segundo Gil, nós poderíamos conversar.
Confesso que fiquei bem chateada com isso. Queria logo conversar com ele e acertar as coisas entre nós, mas pelo visto ainda terei de esperar mais uma semana para isso. Que droga! Porém se não tinha jeito, então que assim fosse. Paciência!
— É uma pena que só poderemos conversar daqui a uma semana! — respondi em tom de completa decepção e frustração.
— Sim. Sinto muito, Sara!
— Hum... — lancei um olhar nada contente a Dayse que me observava com a curiosidade estampando sua face.
— Ficou chateada?
É claro que fiquei, mas não com ele e sim, com o fato de ter que esperar mais uma semana para tentar consertar a besteira que eu fiz conosco.
— Sim, mas não com você. — esclareci a ele.
— Então é com o quê?
— Com essa situação. E também comigo mesma, porque isso tudo só está acontecendo por minha culpa.
Ouvi Grissom suspirar e permanecer em silêncio após o que eu disse.
— Ainda está muito ressentido comigo por não ter acreditado em você? — arrisquei em tentar saber dele.
Antes que Gil pudesse me responder, ouvi ao fundo da ligação a voz de um homem chamando por ele e avisando-o de que o jatinho já estava a espera deles no Hangar.
— Preciso desligar. Meu pai e eu já vamos. Nos falamos na festa do Lewis. Ele me disse que vai te mandar um convite pra ir.
— Ele me falou também.
— Nos vemos lá então?
Ver eu podia dizer que nos veríamos, mas se falar, aí, creio que já vai ser mais difícil, porque tenho certeza de que Maryane vai estar lá, pendurada no braço dele.
— Sim!
— Até lá!
— Até, Gil!
A ligação foi finalizada por nós dois ao mesmo tempo. Suspirei ainda descontente com o fato de não vê-lo hoje e também de ter ficado sem sua resposta acerca do que lhe questionei.
— O que foi que houve? — Dayse tratou logo de querer saber.
— Você não vai mais precisar ir dormir na casa dos seus pais. Gil não vai mais lá no apê hoje.
— Por qual razão ele não vai mais?
— Está indo agora as pressas pra Alemanha, depois de amanhã vai pra China e só volta na próxima sexta que vem para o lançamento das jóias do Lewis.
— Ai, mais que coisa! Você vai ter que esperar mais uma semana pra falar com ele?
— É, né?! Fazer o quê?
Ia ser uma longa semana para mim!
— E ele responde a pergunta que você fez?
— Não deu tempo!
— Aposto que ele já não deve mais estar tão ressentido assim com você, amiga.
Espero que minha amiga esteja certa mesmo!
***
Sem exageros, mas os sete dias mais pareceram sete meses. Demoraram à passar para burro! Tanto que foi uma tortura angustiante para mim a lentidão com a qual essa semana passou. Todavia, o grande dia chegou e era hoje. Sexta, o dia da festa do Lewis e o dia em que eu veria o Grissom.
Devo admitir que estou numa ansiedade louca para isso. Sabia que dificilmente iria conseguir falar com ele, já que minha prima, com certeza, estaria também na festa de lançamento das jóias de Lewis e não sairía de perto de Grissom, mas ao menos vê-lo, eu veria. Já era um alento!
— Sara tô pronta. E você? — Dayse terminou de passar o batom e guardou o objeto na bolsa.
— Também! — passei as mãos pelos cabelos ajeitando-os melhor, enquanto me olhava no espelho do banheiro da editora.
Como não daria tempo de irmos em casa nos arrumarmos melhor, pois o horário da festa de lançamento estava marcado para as sete e meia, e nosso expediente na editora terminou ainda pouco às sete e quinze. Então nós duas iamos direto do trabalho para a festa do Lewis.
Desse modo, hoje viemos trabalhar com um visual bem mais produzido que o habitual. Dayse vestindo uma saia social cintura alta na cor bege e uma camisa de alfaiataria na cor vermelha, com mangas até os antebraços.
Quanto a mim usava um longo macacão social na cor verde escuro, o qual possuía um leve decote em V na frente.
— Então se já estamos pronta, vamos né?
Assenti e nós duas saímos do banheiro. Poucos instantes depois, enquanto já descíamos de elevador até a garagem do prédio, Dayse me questionou se eu estava ansiosa para encontrar o Grissom?
— Sabe bem que sim. Só é uma droga que a Maryane certamente vai estar lá, grudada nele feito uma parasita.
— Ah, disso não tenha dúvidas. Ela com certeza não vai arredar o pé de perto dele pra evitar que vocês se falem a sós.
— Mas o que é dela já está chegando.
O elevador abriu as portas e nós saímos para pegar o carro de Dayse na garagem.
Foram uns bons minutos de carro até pararmos em frente a um loja de dois andares chamada JM — Jewelery for Men situada na 5a avenida, NY, onde estava rolando o lançamento das jóias do Lewis.
Entregando a chave do carro ao guardador, Dayse e eu seguimos para entrar na loja de fachada moderna e elegante onde algumas pessoas estavam paradas na porta.
Já lá dentro do estabelecimento nos deparamos com um bom número de pessoas — algo em torno de 50 — que se faziam presentes ali.
— Você está vendo o Lewis?
— Não!... Mas acabei de ver alguém que te interessa muito, amiga.
Me virei para Dayse e olhei na mesma direção em que ela estava olhando e, lá estava o Grissom conversando com dois homens. Um dos sujeitos, o mais velho, era seu pai dele. O segundo homem, mais novo que Grissom e seu pai, eu não fazia ideia de quem fosse, só sei afirmar que é um cara boa pinta.
— Ué! Cadê a sua prima parasita que não está grudada no Grissom?
Também gostaria de saber. Será que ela não veio? Ai, seria uma maravilha se ela não tivesse vindo mesmo.
— Não faço ideia de onde ela esteja. — comentei sem tirar os olhos de Grissom distraído na conversa com os outros dois homens. Céus! Como ele estava lindo num terno escuro e camisa azul marinho. Ô, homem para ficar bem de terno é esse! Senhor! — E adoraria se ela nem tivesse vindo.
— Seria bom demais isso.
— Sara... Dayse! Até que enfim as duas chegaram!
Nos viramos para encontrar Lewis. Ele cumprimentou cada uma de nós com um abraço apertado.
— Achei que iam me dar um bolo e não viriam.
— Jamais! — eu e Dayse dissemos juntas e acabamos rindo em seguida disso.
— Chegaram agora?
— Praticamente.
— Ah, então ainda não deram uma volta pra ver a coleção?
— Não!
— Então eu...
— Lewis!
Uma mulher muito bem vestida num terninho apareceu interrompendo a fala de Lewis. A desconhecida lhe avisou de que o dono da loja estava querendo lhe apresentar alguém importante. Nos pedindo desculpas por não poder nos levar para ver suas peças, Lewis seguiu com a tal mulher que veio buscá-lo.
— Já que ele não vai poder nos levar pra ver as jóias dele, então vamos as duas sozinhas. Vem!
Dayse saiu me puxando em direção aos estandes de vidros distribuídos pelo enorme e espaçoso salão da loja. Eu ia dizer à ela que preferia ficar por ali para Grissom me ver e assim vir falar comigo, mas ela não me deu chance disso.
Alguns minutos depois, empunhando cada uma de nós uma taça de espumante, que pegamos da bandeja de um dos garçons que por ali circulavam, Dayse e eu já tínhamos visto algumas lindas pulseiras, colares clips de notas, relógios incríveis e belas abotoaduras. Peças em prata, ródio negro, ouro branco e couro, e diamante negro. Tudo de uma beleza ímpar e um bom gosto incrível.
— Nossa, o Lewis manda super bem nesse lance de designer de jóias.
— Concordo interiramente nisso, Dayse
Minha amiga e eu viramos no mesmo instante em que ouvimos atrás da gente, a voz grossa de Grissom reverberar tais palavras.
— Ai, você me deu um susto, Grissom. — minha amiga tinha uma cara de espanto engraçada, que rendeu um sorriso em Grissom.
— Desculpa, não foi a minha intenção, Dayse.
Ele esboçou um sorriso mais largo a Dayse e me olhou, estampando o mesmo sorriso.
Involuntariamente, eu retribuí com um sorriso a ele.
— Eu acho que vou dar um rolê por aí.
Ouvi Dayse pronunciar antes de se mandar dali rapidinho. Sequer olhei para ela ou lhe respondi, porque meus olhos estavam mais interessados em se focarem no sujeito tremendamente tentador e gostoso, de quem eu sentia enormes saudades e o qual se encontrava parado diante de mim, me fitando tão fixamente quanto eu devia estar fitando-o.
— Olá! Como você está, Sara?
Eu podia dizer que estava com saudades dele, louca para esse dia chegar e poder vê-lo de novo, mas tudo o que eu disse, foi:
— Estou bem!... E você?
— Cansado, bem cansado. — ele deixou um suspiro escapar. Dava para ver em sua expressão certo cansaço e abatimento. — Essa semana foi puxada pra mim. Viagens; problemas no trabalho pra resolver; meu pai me enchendo os ouvidos de sermão; cobranças. — Gil listou ao chegar mais perto de mim. — Minha vontade era de estar agora em casa dormindo pra me restabelecer de tanta troca de fuso horário que enfrentei nessa semana. Mas eu não podia deixar de vir prestigiar o meu irmão nesse evento. É importante pra ele.
— Claro!
"Pergunta da sonsa pra ele!", Uma voz irritante sussurrou-me ao ouvido. Resolvi acatar aquele pedido, pois estava curiosa mesmo para saber daquilo também.
— E a Maryane?
— Não veio!
"Ai, meu Deus! Cadê os fogos de artifícios pra soltar?!"
Essa foi a melhor coisa de se ouvir naquele momento. Tudo o que eu mais desejava era que Maryane não tivesse vindo e ela NÃO veio!
— Por que ela não veio?
A bem da verdade é que pouco me importava o motivo pelo qual minha insuportável prima não veio, mas vamos fingir interesse.
— Mais cedo ela foi chamada pra ir no lugar de outra arquiteta à uma convenção em Seattle e só volta domingo a noite.
"Bendita convenção!"
— Aposto que Maryane não gostou nada de não ter podido vir.
Ela devia ter odiado ainda mais sabendo que eu estaria presente no evento.
— Não mesmo! Ela queria ter vindo prestigiar o Lewis.
"Prestigiar o Lewis, eu não digo, mas ficar grudada em você, com certeza, meu bem!"
— Ah, aí está você! Achei que tivesse dito que ia ao bar.
— E eu ia, pai. — Gil e eu no viramos para a figura do sujeito que surgiu ali sem pedir licença e com cara de poucos amigos. — Mas vi Sara e parei pra cumprimentá-la. Ela é prima da Maryane. Sara este é meu pai Joseph.
Enfim estava conhecendo e falaria com o pai dele. Até então só o conhecia por fotos e tive a oportunidade de vê-lo de longe no casamento de Camille, porem não nos falamos.
— Olá, senhor! — estendi a mão a ele em cumprimento.
O sujeito levou alguns segundos me encarando antes de aceitar meu cumprimento de maneira fria e séria.
— Ola, senhorita!
— Pode me chamar só de Sara. — lhe disse, soltando sua mão e tentando ser a mais simpática possível.
Ele assentiu me encarando de uma maneira incisiva demais. Eu não estava gostando disso. E quando ele voltou a falar, gostei menos ainda, principalmente, pelo que ele disse a mim.
— Espero que não crie aqui outro espetáculo deselegante como fez semana passada no casamento de Camille!
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