One Last Chance
2 You're Gone
Notas iniciais
*Elena*
"Eu me sentia segura. E é algo que eu não podia dizer há muito tempo: Eu estou segura.
Eu sentia seus dedos acariciando meu cabelo suavemente, e o seu cheiro cravado em sua camisa, aonde eu colocava minha cabeça e quase dormia. A brisa fazia cada traço de capim se arrastar, e eu enchia meus pulmões com aquele ar fresco. Um humano qualquer não perceberia mudança, mas eu sabia que a manhã se aproximava pelos tons do céu um pouco mais claros que antes.
E eu não me importava. Não me importava que iria amanhecer. Que procurariam por mim. Não me importava de ficar aqui pra sempre nessa posição. Deitada em seus braços, tudo o que eu conseguia sentir era segurança.
Senti seu tronco mudar de posição e pela primeira vez em muitas horas, fitei seu rosto. E ele retribuiu. E o sonho era esse, nada mais. Aqueles olhos azuis me fitando, e eu os fitando de volta. Como se nada mais no mundo existisse. Só nós dois."
Senti algo se mexer abaixo de mim, e acordei meio desorientada. O colchão se mexeu? Desde quando eu havia apagado a luz? Me levantei e fui ao quarto de Jeremy para ver se estava tudo bem. Ele estava dormindo profundamente e não dava sinais de ter acordado. Então ouvi a porta da frente se abrir e fechar, e meus instintos me alarmaram. Num instante, eu já estava abrindo-a novamente e me vendo na varanda.
Lá estava Damon, quase pronto para atravessar a rua, quando se virou e me viu fitando-o. No instante em que seus olhos se cravaram nos meus, travei, me lembrando do sonho. Senti meu rosto corar imediatamente.
— Damon, por que você está aqui? Aconteceu alguma coisa? — Perguntei com verdadeira preocupação.
Ele parecia meio atordoado ao me ver, quase como se tivesse sido pego no flagra. Veio caminhando vagarosamente de volta, pelo jardim.
— Não, Elena, pode voltar a dormir. Só vim checar se você estava bem.
— Por quê? O que aconteceu? — Ele ficou calado. — Quer me contar o que está acontecendo ou não? — Alguma coisa estava errada. E ele demorou a responder.
— Ou não. — Ele disse, hesitando e fazendo uma careta estranha.
— Damon?
Um silêncio estranho pairou enquanto eu esperava por respostas e ele fitava o chão, pensando no que dizer. Ele finalmente olhou para mim de novo e eu levantei as sobrancelhas, uma pergunta implícita na expressão.
Ele caminhou até as escadas e parou, colocando as mãos nos bolsos da calça. Evitando meu olhar, como sempre fazia quando era algo sério, disse:
— Estou indo embora de Mystic Falls, Elena.
Impossível, mas eu poderia jurar que o mundo tinha parado de girar por um instante.
— O que? Como assim? Você não está deixando... Você não está indo embora, tipo... para sempre, né? — Perguntei dando uma risadinha nervosa no final.
O olhar que eu recebi de volta respondeu minhas perguntas sem que ele precisasse ao menos abrir a boca.
Na mesma hora, parei de rir. Eu senti meu estômago revirar, como se tivesse levado um soco em câmera lenta. Eu não conseguia mais focar meus olhos em alguma coisa. Estranhamente, eu me senti humana. Vulnerável. Como se qualquer coisa pudesse me derrubar naquela hora. E ele não respondeu, e nem mexeu um dedo.
"Elena, se recomponha", pensei comigo mesma, sem saber o que fazer com minhas mãos agitadas. Olhei de novo para ele, e ele não olhava para mim. Estava com o olhar distante, nas árvores — me evitando novamente.
— Damon, você não pode simplesmente... Não pode... — Por que meu cérebro simplesmente não conseguia formular um frase completa e coerente? Suspirei, frustrada comigo mesma.
— Stefan vai cuidar do Caçador, não se preocupe. — Ele me cortou. Ele achava que o problema era Connor?
— Ei, não estou falando disso! Damon, por que você faria isso?
— Eu preciso fazer isso, Elena. Eu não espero que você entenda. Apesar de ser óbvio. — Ele murmurou esta última parte quase para si mesmo, tão baixo que meus ouvidos humanos não capturariam.
— Entender? Entender o quê?!
— Stefan e eu fizemos uma promessa. Quem você não escolhesse deixaria a cidade. Será melhor assim. Mais fácil, pelo menos. — Ele parou. — Mas então você se tornou vampira, e as coisas se complicaram. Eu tive que ficar pra ajudar, é claro. Mas, pelo que vimos, isso não deu muito certo. — Ele desviou o olhar, e meu estômago se revirou de novo. Tinha me arrependido das coisas horríveis que havia dito a ele, mas só agora havia percebido o quanto. — Eu não tenho mais motivos para ficar aqui, Elena.
— Por favor. Damon, você não precisa fazer isso! Aposto que Stefan te quer aqui. Ele não deixaria você ir embora... — E então, acrescentei — Eu também te quero aqui.
Ele me olhou por um tempo, e por um milésimo de segundo, achei que ele estava amolecendo. Não durou.
— Não acredito que isso seja possível, Elena.
Ele se virou e começou a andar para a rua de novo. "Não, não, não, não!" eu pensava.
— Damon! Volte aqui! — Eu gritava para os quatro ventos. Ele não me ouvia. E uma última (e mais forte) vez — Damon!
— Meu Deus, Elena! Você tem que parar com isso. — Ele exclamou, virando-se para me olhar de onde havia parado no meio da rua. — Pare de fingir que se importa. Você não se cansa desse papel de mocinha acolhedora de casos perdidos que você insiste em fazer? Você escolheu o Stefan, ponto final, lide com isso. Ou você é muito idiota ou muito egoísta de me querer aqui. E aí, qual dos dois é?
Damon me olhava com seu olhar exasperado e frio que eu já conhecia de situações familiares. Eu conhecia aquela expressão — era a que ele usava toda vez que eu o machucava e ele não queria lidar com a mágoa. Um barulho até então desconhecido saiu do fundo da minha garganta quando percebi quantas vezes coloquei aquele olhar no rosto dele. Um segundo depois, ele pairava bem diante de mim, relutando em ceder, mas com o tom mais suave. Só agora percebi que eu chorava.
— Vai ficar tudo bem, eu prometo. — Ele disse enquanto segurava meus braços firmemente e plantava um beijo em minha testa. Ele limpou algumas lágrimas com seu dedo, e eu fechei os olhos, apreciando seu toque. Tudo o que eu queria era me agarrar à ele e não deixar ele ir, mas não conseguia me mexer. Suas palavras haviam me paralisado e eu temia dizer algo que trouxesse aquela expressão de dor novamente ao seu rosto. — Talvez eu volte um dia — Ele suspirou.
Ele ficou me olhando por mais alguns segundos e eu só conseguia prestar atenção em seus olhos azuis. As lágrimas escorriam pelo meu rosto e me embaçavam a visão. E, depois, quase hesitante, ele chegou mais perto. Uma batalha interna parecia estar ocorrendo em sua mente enquanto seus olhos encaravam minha boca. Durou segundos, mas parte racional pareceu ter vencido quando seus lábios pararam na minha testa. Foi um beijo suave, e eu quase senti que ele se sentia da mesma maneira que eu sobre estar partindo.
Não conformada com a decisão que ele havia tomado há menos de um segundo, segurei seu rosto e desviei sua boca para a minha. Não o beijei. Continuei de olhos fechados, roçando meus lábios aos dele, tentando memorizar cada traço, esperando e torcendo para que ele cedesse e tomasse a iniciativa que eu temia ter.
— Adeus, Elena. — Ele murmurou, a voz indicando uma garganta seca que segurava uma lufada de ar que ele não se deixava soltar.
E foi assim. Quando abri os olhos, ele não estava mais lá.
*Damon*
Eu quase desisti de partir. Quase joguei tudo para cima e pensei "Foda-se, Damon!". Quando a vi na porta de sua casa, seu rosto confuso e expressão preocupada, pensei que, afinal de tudo, eu não precisava ir embora. Mas eu preciso.
Corri até a Mansão novamente, afim de já pegar minhas coisas e ir embora antes que eu mudasse de ideia. Eu pensei em algumas maneiras de me despedir de Stefan, mas desisti de todas elas. Não sou muito bom com despedidas.
Quando abri a porta, a calmaria me apontou que ele já havia dormido. Fui até meu quarto e juntei tudo em duas malas. A esperança mínima que eu tinha me dizia para eu deixar algumas roupas lá. Joguei esse pensamento para fora da janela, me xingando mentalmente por ser tão idiota, e não deixei para trás nem ao menos um par de meias.
Apaguei as luzes, e olhei, uma última vez, para minha cama, onde Elena e eu havíamos nos beijado pela primeira vez. Não foram em circunstâncias agradáveis, mas era uma boa lembrança.
Desci para a garagem e coloquei tudo no porta-malas, fechando-o sem fazer muito barulho. Ah, claro, havia esquecido algo. Voltei correndo para a sala e peguei algumas garrafas de Bourbon. E antes, abri uma. Bebi um, dois, três copos seguidos.
Me apoiei um segundo no encosto do sofá e fiquei parado um tempo, sem saber o que fazer. Agora, mais lentamente, sem a pressa de antes, fui caminhando para o quarto do Stefan. Hesitante em abrir a porta, só deixei uma fresta, que era suficiente para enxergá-lo dormindo em sua cama.
— Até mais, Stef. Se cuida.
Eu já havia completado e estourado a cota de melosidade do dia. Fechei a porta, peguei as garrafas e fui direto pro carro. Dei partida sem pensar uma segunda vez. Acelerei pelas estradas vazias sem olhar pra trás, apenas uma única vez, quando passei na porta da casa de Elena. A memória dela em sua varanda, com seu rosto carregado de lágrimas, pairava em minha mente a cada segundo do trajeto.
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