One Last Chance
33 The Return
Notas iniciais
*Elena*
Naquela manhã, perdemos a hora e acordamos atrasados. Reunimos todas nossas roupas e coisas que estavam espalhadas pelo chão do telhado — nosso voo partiria em três horas e nós nem havíamos feito as malas.
Dessa vez, ao invés de voltarmos a pé, pegamos um táxi e pouco tempo depois estávamos em frente ao enorme hotel. Corremos para o nosso quarto e usamos nossa velocidade vampírica para arrumar tudo no menor tempo possível. Enquanto Damon tomava um banho, reorganizei as roupas dele dentro de sua mala e tentei me livrar de todos vestígios de nossa estada lá, como bolsas de sangue perdidas ou manchas vermelhas em algum lugar do quarto.
Assim que eu terminei meu banho, cheguei no quarto para encontrar Damon, já com tudo empacotado e pronto, sentado na cama me esperando. Ele falava ao telefone, e pelo que eu percebi estava pedindo um táxi, e depois ele fez nosso check-in no voo pelo celular para acelerarmos as coisas.
— Queria que pudéssemos ficar mais. — Eu falei, já sentada na poltrona de primeira classe do avião que Damon nos arranjou com uma compulsão. — Agora não vamos ter tanto tempo pra ficar a sós.
— Nós ainda temos uma eternidade pela frente, Lena. Podemos ir onde você quiser. — Meus olhos brilharam, imaginando o que o futuro guardava para mim e Damon. Bem, isso se sobrevivêssemos para ter um futuro depois que lidássemos com Stefan. Suspirei, e ele rapidamente entendeu meu sinal. — Vai ficar tudo bem.
— Ele vai me odiar, Damon. E a questão é que ele tem todo o direito.
— Ele não vai te odiar, Elena. — Seu rosto assumiu uma careta estranha, mas ele logo relaxou também.
O resto do voo passou muito rápido. Dormi por algum tempo no ombro de Damon, e quando percebi, ele já estava me chamando avisando que havíamos chegado em Charlottesville. Assim que saímos da sala de desembarque, vi de longe um cabelo ondulado e cor de chocolate, idêntico ao meu.
Katherine nos avistou e foi se aproximando, usando um óculos escuro escandaloso e um semblante impaciente, arrastando sua mala de estampa de onça igualmente chamativa.
— Nossa, como vocês demoraram. Estava quase deixando-os aqui e indo sem vocês.
— Ah, me desculpe madame, mas não consegui fazer com que o avião voasse mais rápido. — Damon comentou irônico, e eu mal prestava atenção na discussão dos dois, bocejando por causa da noite mal dormida.
Seguimos até o carro que eu havia deixado no aeroporto por todos esses dias e não muito tempo depois que já estávamos na estrada, ele apagou.
— Ótimo! — Katherine reclamou. — Já não me bastasse essa dor de cabeça infernal, o carro ainda quebra.
— Você podia parar de reclamar um minuto, Katherine? Tudo que eu ouvi desde que entramos nesse carro é como você está cansada, que o ar condicionado não está gelado o suficiente, que a música está alta demais, que está demorando para chegar... E ainda por cima, tenho que aguentar essas suas botas no encosto do meu banco! — Damon soltou, descendo do carro e empurrando-o para o acostamento da rodovia.
— Você podia ser um pouco mais agradecida, nós não éramos obrigados a te trazer conosco e ainda assim, aqui está você... — Comentei enquanto fechava os olhos e fazia uma massagem na lateral da minha cabeça e sussurando para mim mesma "paciência, Elena, paciência".
Depois de alguns minutos, desci do carro para ver se Damon precisava de alguma coisa. Ele mexia no motor e em alguns cabos que eu não fazia ideia de para que serviam.
— Oi. Precisa de alguma coisa? — Perguntei, abraçando-o por trás.
— Não. Acho que consigo arrumar, só preciso de um tempo.
Como se o universo estivesse conspirando contra nós, no segundo em que ele terminou de falar, pingos de chuva nos atingiram e em pouco tempo eles se tornaram grossos e constantes. Ouvi a porta do carro se abrir e Katherine sair de lá, sua jaqueta acima da cabeça tentando tampar seu cabelo.
— O que está acontecendo aqui?! — ela perguntou, falando alto para que nós a ouvissemoos através do barulho da chuva.
— Parece que algum cabo se soltou, não consigo descobrir qual. Elena, entra no carro e tenta dar partida.
Rapidamente fiz o que ele pediu e sentei-me no banco, girando a chave. O carro ligava por alguns poucos segundos, depois apagava novamente.
— De novo! — ele gritou.
Na segunda vez, o carro pegou e então Katherine e Damon correram novamente para dentro depois de fecharem o capô. Estávamos ensopados e ele tirou sua jaqueta, jogando-a no chão para que não molhasse os bancos.
— Já estamos chegando? — Katherine perguntou, pela trigésima vez. Respirei fundo e me afundei no banco, apertando o volante com força até minhas juntas dos dedos ficarem branca.
Parei no primeiro posto de gasolina que avistamos para um mecânico checar o motor e, assim que ele deu o aval de que estava tudo bem, voltamos à estrada. Damon insistiu em voltar dirigindo dessa vez porque eu “estava bocejando a cada cinco minutos”. Era verdade, mas eu não gostava de me dar por vencida. Algum tempo depois — não sei determinar quanto — acordei com algo coçando na ponta do meu nariz. Franzi, achando a sensação estranha e depois tentei afastar o que quer que fosse do meu rosto, sem abrir os olhos. Eu ainda estava sonolenta.
— Deixe ela em paz, Katherine. — Ouvi alguém falar. — Vai arrumar outra coisa pra fazer.
— Estou entediada. — Ela declarou.
Abri os olhos lentamente, tentando me lembrar de onde eu estava. O carro se movia rapidamente pela estrada, e as árvores ficavam para trás num borrão sem sentido. Já estava escuro e havia parado de chover. Assim que olhei para o lado, percebi que Katherine estava apoiada com os cotovelos um em cada encosto de cada banco. Ela segurava um lápis acima de mim e então percebi que era aquilo que ela usava para me irritar, encostando-o em meu nariz.
— Acordou, Bela Adormecida? — Ela me perguntou sarcástica, e Damon suspirou. Com o estresse que eu estava sentindo, tomei o lápis de sua mão e sem nem mesmo olhar para ela, perfurei-o em seu ombro, e ela rapidamente recuou, caindo de costas em seu banco. — Ai!
— Você mereceu. — Damon riu. — Essa é minha garota. — Ele falou, enquanto eu me inclinava e dava um selinho demorado em seus lábios. Atrás, ela revirava os olhos e tentava se livrar do pequeno pedaço de madeira enterrado em si.
— Ok, agora me sinto melhor. — Falei.
— Também né, do tanto que você dormiu. — Ele disse, sorrindo para mim.
— Eu estava cansada. Foi uma noite agitada, sabe...
— Hmm, mas valeu a pena. — Damon me encarou, malicioso.
— Argh. Será que dá pra vocês dois não darem uma freada nas insinuações sexuais enquanto eu estou aqui? — Katherine falou. — Eu já sei o quão você é bom na cama, Damon, mas gostaria de me manter ignorante sobre a Elena. — Ela adicionou propositalmente para me irritar, mas eu a ignorei.
— Ah, por que, Kitty Kat? — Damon a provocou, também ignorando a última parte. — Não é como se você não tivesse passado a viagem toda me torturando.
— Me desculpe por te deixar sozinho com ela. — Eu disse.
— Tudo bem, você pode me compensar à noite. — Ficamos em silêncio por um tempo e quando ela soltou um "ugh", rimos juntos.
— Agora é sério, estamos chegando? — Ela perguntou.
— Sim, Katherine, já estamos quase lá. — Damon respondeu, pausadamente e impaciente.
— Estou morrendo de sede e as bolsas de sangue acabaram. — Ela falou, voltando à sua posição apoiada em nossos bancos, apoiando seu queixo no banco de Damon, perto do pescoço dele. — Hmmm, seu perfume é uma delícia.
Fuzilei-a com um olhar fatal e ela riu baixinho, mas se afastou e se colocou em meu banco dessa vez. Uma música começou na rádio e eu rapidamente reconheci seu começo.
— Eu amo ouvir essa música no carro. — Me inclinei e aumentei o volume consideravelmente, começando a cantar Eye Of The Tiger. Damon pareceu gostar e me acompanhou, mas Katherine tampou seus ouvidos.
— Ah, por favor Katherine, vai dizer que você não gosta? — Damon gritou, mais alto que a música.
— Não com vocês cantando!
Uma hora se passou e finalmente estacionamos em frente à enorme Mansão Salvatore. Eu suspirei, aliviada, sem realmente pensar em quem eu encontraria lá dentro. Havíamos passado o resto da viagem fazendo de tudo para irritar Katherine, e assim que o carro parou, ela quase pulou para fora dele, mas eu e Damon não conseguíamos parar de rir.
*Stefan*
Assim que cheguei em casa depois de ir ao Grill com Caroline, peguei uma garrafa de whisky e me afundei no sofá, pronto para me embebedar mais ainda. Perto dela, ela tentava me controlar e ficar sempre de cima, e a única coisa que eu precisava no momento era álcool.
Fechei os olhos, mas segundos depois ouvi um barulho de carro do lado de fora da casa e vozes, principalmente risadas. Era isso. Havia chegado a hora. Elena havia chegado. Levantei-me, pronto para abrir porta, mas assim que o fiz, percebi que ela já havia entrado e colocava algumas malas no canto da porta. Assim que ela ergueu o olhar para mim, sorriu, mas havia algo de diferente nela. Olhei para trás dela, vendo se alguém mais se aproximava. Ela não parecia acompanhada por ninguém. Suspirei de alívio e comecei a andar em direção à ela, e ela fez o mesmo.
— Elena... — Sussurei. E então, mais rápido que eu pude perceber, ela se desviou do meu caminho, indo direto para a porta que levava ao porão e murmurando já de costas para mim.
— Desculpe, doppelgänger errada.
O que? Aquela era Katherine? Mas se ela era a Katherine, então onde diabos estava Elena? Como se meus pensamentos tivessem sido lidos, ela entrou pela porta, segurando mais malas e rindo altamente, e, atrás dela, ninguém menos ninguém mais que Damon.
Os dois riam de alguma piada interna e pareciam nem reparar seus arredores. Aquela visão me irritou. Me enfureceu. Assim que eles perceberam que estavam sendo observados, pararam no meio do corredor e abaixaram as malas no chão.
— Stefan... — Elena sussurrou, um pequeno sorriso amarelo e sem-graça em seu rosto. Não sei por que, mas aquilo me enraiveceu mais ainda, e acho que ela percebeu, pois seu rosto perdeu a cor. Damon me olhava suplicante, mas ao mesmo tempo controlado, como se estivesse preparado para qualquer tipo de reação que eu fosse ter.
— Hey, irmão. Sentiu minha falta? — Ele tentou brincar e vi que Elena enrijeceu mais ainda. Se pudesse, aposto que ela teria dado uma bela cotovelada nele agora.
Eu sentia um fogo crescendo no peito, uma fúria enorme e uma necessidade de extravasá-la. Não conseguia pensar direito, todos meus pensamentos eram incoerentes e bagunçados, mas todos me levavam à imagem de proximidade dos dois à minha frente. A imagem de Elena entrando e rindo e olhando para Damon com um brilho em seus olhos de uma forma que eu nunca havia visto antes. A paz e felicidade que transbordava dos olhos dele mesmo eu percebendo que ele estava tentando controlá-las. Eu não consegui pensar em nada mais depois disto. Senti o vidro da garrafa que eu segurava se espatifar sob minha mão e Elena reagir com um susto, uma expressão de dor surgindo em seus olhos. Vi meu irmão discretamente assumir uma posição protetora em relação à ela e esse foi o ponto alto de toda minha raiva.
Ela foi toda canalizada para meus movimentos, e eu rapidamente me vi correndo em direção à Damon, e ele empurrando Elena para o lado, que bateu com força contra um móvel de madeira e caiu no chão. Tudo que eu via na minha frente era o peito de Damon e a enorme estaca que havia se soltado do móvel quebrado no chão. Num segundo, me vi cegado pela fúria e a catei no chão, indo em direção ao meu próprio irmão, pronto para matá-lo.
Me joguei contra ele, nós dois batendo o chão com a força do nosso peso fazendo o chão se rachar abaixo de nós. Ele não se debateu sob mim, não tentou se defender, o que deveria ter me feito parar, mas eu não o fiz. A última coisa que ouvi foi um "não!" estrangulado atrás de mim e a última imagem que vi foi o movimento de meu braço, pronto para enterrar a estaca no peito de Damon.
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