One Last Chance
10 Red Is The New Black
Notas iniciais
*Damon*
Já se passavam quase cinco meses desde que eu havia deixado Mystic Falls — e a sensação não poderia ser pior. Passei por mais sete cidades diferentes, sem contar algumas pequenas em que às vezes ficávamos apenas para dormir.
Aquela noite, havíamos passado num avião direto para Little Rock. Eu realmente não sabia o que estávamos fazendo ali, mas Katherine insistiu e eu acabei cedendo.
Eu também não sabia porque estava viajando com ela, mas, por algum motivo, a presença dela era melhor que a ausência de todos. De vez em quando. Não posso negar que houveram noites de sexo casual, a maioria quando bebíamos além da conta. Mas eram somente isso, casual. Nada de dormir abraçados ou ficar olhando profundamente nos olhos um do outro depois como dois adolescentes apaixonados. No máximo, nos consideraria dois adolescentes no auge da puberdade. Terminávamos, virávamos as costas um para o outro e a noite seguia sem mais intercorrências, apesar de Katherine ter forçado uma conchinha ou deitado no meu peito e fingido que estava dormindo algumas vezes só para me irritar. Nessas ocasiões eu simplesmente a empurrava com força o suficiente para ela cair da cama. Então claro, tinha horas que eu tinha vontade de arrancar a cabeça dela fora por ela ser tão incrivelmente um porre. Mas às vezes, acredito que ela me entendia, no fundo. Ou eu entendia ela. A questão era que: nós gostávamos das mesmas coisas. E não ficávamos nos julgando ou julgando um ao outro por fazer coisas que por outros seriam consideradas erradas. Ela não ficava me olhando com olhos de repreensão quando eu quase drenava todo o sangue de uma pobre garota, e eu não a criticava por manipular o garçom, o padeiro e até a faxineira, para depois sugar o sangue de cada um deles. O ponto forte de nossa "relação" era que nós dois aceitávamos muito bem o que éramos.
"Bom dia passageiros, sejam novamente bem-vindos à American Airlines. Nosso pouso será efetuado em 20 minutos. Obrigada."
A voz da aeromoça acordou à todos, inclusive eu e Katherine.
— Estamos chegando! — ela disse animada, esfregando uma mão na outra.
— Katherine, agora sério, me fale, o que estamos fazendo aqui?
— Você sabe que eu estou cansada de fugir, Damon.
— Então isso tem alguma coisa a ver com Klaus?
— Isso tem tudo a ver com Klaus.
— O que quer dizer com isso?
— Conheço uma bruxa que me deve alguns favores. E ela vai me ajudar a me livrar dele.
— É impossível. Se ele morrer, você morre. Não que eu ligue. Mas se isso acontecer, eu também morro.
— Não estou falando sobre matá-lo. Estou falando sobre eu me livrar dele. — ela parou de falar de repente. E então fez uma cara meiga e deu um tchauzinho para uma menininha que nos observava. Pelo jeito como a mãe dela nos olhava, ela provavelmente tinha ouvido a conversa, que não soaria normal em outro contexto. — Falamos disso na hora certa, ok?
Assim que o avião pousou, arrumamos um táxi e depois saímos à procura de um hotel, que Katherine fez questão de ser cinco estrelas. No momento do check-in, uma atendente falou para nós:
— Estão de lua-de-mel? Vocês formam um casal lindo. — Katherine apenas sorriu e eu ri sem tentar disfarçar o nível de altura, mas parei quando ela me deu seu olhar de "vou te matar".
— Bem que ele queria! — ela disse, sorrindo para a moça e pegando o cartão para entrar no quarto. Assim que nos afastamos, cochichei no ouvido dela:
— Essa aí vai ser a primeira! — e então ela me deu uma dolorosa cotovelada no estômago, mas mesmo assim não consegui me controlar e acabei rindo novamente.
Ao chegar no quarto, coloquei as malas dentro dos closets e tirei meus sapatos. Katherine começou a tirar as roupas ali mesmo e colocar um vestido preto tubinho de mangas compridas e um salto de mesma cor.
— Vestida para matar, é? Onde você está indo?
— Encontrar minha bruxa. — ela respondeu enquanto se olhava no espelho e passava rímel em seus cílios.
— Ei, vou com você.
— Por quê? Não vai não, pode ficar aí deitado comportadinho.
— Estou achando isso tudo muito suspeito. — coloquei meu sapato de novo — Então vou junto.
— Se você insiste — disse ela já abrindo a porta e saindo do quarto.
Ela deu o endereço ao taxista e fomos parar num restaurante de luxo no centro da cidade. O atendente da porta nos guiou até uma mesa mais afastada, no canto do salão, assim que ela mencionou que era Katherine Pierce. O lugar era moderno e muito bem decorado, com lustres pendurados e espalhados pelo teto e mesas com arranjos de flores e porta-guardanapos de ouro.
— Que tipo de bruxa é essa, hein? Ela faz parte de Sex and The City, ou algo do tipo? — ela ignorou minha pergunta e nos sentamos.
— A Srta. McLean já está vindo. — o atendente falou, e depois me olhou com cara de poucos amigos — Ela não nos avisou que viria com um acompanhante.
— Foi meio que de última hora.
— Aceitam alguma coisa?
— Duas taças de Bourbon, por favor. — ela respondeu sorrindo, sem nem mesmo olhar o cardápio de bebidas.
— É pra já. — ele disse, e logo após saiu.
— Então você é fã de Bourbon? — perguntei, levantando as sobrancelha.
— Eu? Nem tanto. Agora, pelo que me lembro, você é. Ou estou errada, ou eu não sei o que você faz com aquela quantidade de garrafas que você guardava no seu porta-malas.
— Bem observado. — falei, e, no mesmo segundo, uma loira alta, usando um vestido vermelho colado ao seu corpo e um batom exuberante, chegou à mesa.
— Katherine! Que prazer em revê-la. — ela se levantou e as duas se abraçaram — Senti sua falta, vadia.
— Eu também, Alicia. Esse é Damon, ele veio me acompanhar na cidade.
— Um dos irmãos, eu suponho. — ela disse enquanto eu me levantava para cumprimentá-la.
— Certamente.
— Ah, então sou famoso por aqui?
— Meio que. — Alicia respondeu dando uma risadinha discreta e um olhar malicioso para Katherine.
Nós três nos sentamos e nossas taças de Bourbon chegaram. Alicia chamou o garçom de volta, assim que ele deixou nosso pedido.
— Não sejam tímidos, queridos! Podem pedir qualquer coisa que quiserem. E quando eu digo qualquer coisa, é, literalmente, qualquer coisa.
Demorei um tempo a entender o que ela queria dizer, mas quando caiu a ficha, quase que fiquei boquiaberto.
— Mais duas taças de O negativo, por favor. E uma de algum vinho tinto que você possa me recomendar. — o garçom assentiu, e deixou a mesa.
— Não vou explicar isso agora. Vamos direto ao ponto. O que você precisa, minha querida?
— Como você sabe, Klaus está ciente de que estou viva. — ela fez menção para Katherine continuar — E estou cansada de fugir. Quero voltar a poder sair por aí sem me preocupar de ter um vampiro ou híbrido a cada esquina pronto para me entregar à ele.
— Entendo. E você quer um feitiço para te esconder, é isso?
— Não. Quero um feitiço para me proteger de Klaus e qualquer um que seja subordinado à ele. Você pode fazer isso? — pensei em como isso fazia sentido, e também encarei a bruxa.
— Hm, posso pesquisar, mas já tenho um em mente, que faria isso que você me requere. Mas se você quiser, eu tamb...
— Não, está ótimo! Esse mesmo que você pensou. É perfeito, não preciso de nada mais.
— Ok, então. Que dia podemos fazê-lo?
— Amanhã pode ser?
— Amanhã é perfeito.
O garçom chegou com nossas taças de sangue, e ao prová-lo, por mais estranho que isso pareça, parecia ter vindo direto da veia. Eu e Katherine entreolhamos.
— Como... — comecei a falar
— Desculpe, é sigilo. — ela riu, e piscou com um olho. Meu Deus, como ela era gata. — E aí, o que planejam fazer hoje à noite? Estou dando uma festinha, se quiserem ir. Vocês ficariam surpresos com a quantidade da espécie de vocês que há aqui em Little Rock.
— Claro, seria ótimo. — respondeu Katherine quase imediatamente.
Antes de voltar para o hotel, passamos em um shopping e compramos roupas para a festa. Eu comprei uma camisa branca de gola e uma jaqueta de couro, enquanto Katherine escolheu um vestido prata tomara-que-caia, no qual eu fiquei o dia todo irritando-a sobre como ele mal tampava sua bunda. E levei uns belos tapas na cara por isso.
Quando o relógio apontou quase 10 da noite, resolvemos já ir para a festa, e, ao chegarmos o local onde seria, nos surpreendemos com sua "festinha". Era uma mansão enorme, vários seguranças estavam na porta e a música dava-se para ouvir de uma distância de uns seis quarteirões.
Demos nossos nomes na entrada e entramos naquele lugar que eu nem conseguia descrever. Eu nunca havia visto algo parecido, e pelo rosto de Katherine, acho que nem ela. Estava mais para uma festa num banco de sangue.
Via-se vários vampiros ali, se alimentando na frente de todos e interagindo com os humanos normalmente depois disso. Esse pessoal tinha que estar compelido, não era possível.
— Não, eles não estão compelidos, se é o que você está se perguntando. — Katherine falou, como se tivesse lido meus pensamentos — Bem vindo à Little Rock.
Eu, provavelmente, nunca tinha ido à uma festa tão boa em meus quase um século e meio de vida. Para todo lugar que eu olhava, havia sangue espalhado. No chão, nas paredes, no teto, nas roupas das pessoas — na minha inclusive! A maioria delas estava encharcada com o líquido vermelho. E todos pareciam drogados de sangue ou muito bêbados.. As músicas eram tão altas que abafavam o som de qualquer pessoas gritando — o que quase nunca acontecia, pois, na maioria das vezes, os humanos é que se voluntariavam para nos alimentar. Aquilo era simplesmente o paraíso.
Quando a festa começou a esvaziar, era por volta de quatro da manhã, pois a maioria dos vampiros não possuía aneis ou objetos que os protegesse contra o sol. Quando Katherine e eu fomos embora, era por volta das seis, e só tinham humanos alcoolizados ou passando mal.
Ao chegar no hotel, tudo que o que eu conseguia pensar é que eu estava cada vez mais perto de alcançar minha cama e poder dormir o dia todo. Katherine falou que iria direto para a casa de Alicia para fazer os preparativos para o feitiço. Eu estava com vontade de ir, por curiosidade, mas meu cansaço me venceu.
Entrei no elevador e tive que ficar me apoiando nas paredes para não cair. Minha jaqueta estava fechada para não mostrar minha camisa encharcada com sangue, mas eu mal podia esperar para tirá-la, pois já estava me incomodando. Quando cheguei no meu andar, virei à direita no corredor que me levava ao quarto, que era o último. Ao tentar encaixar o cartão no leitor para abrir a porta, não conseguia controlar minha mão o suficiente, e o tempo todo a luzinha vermelha acendia como se para propositalmente me humilhar mostrando que a porta não havia sido aberta. Tentei milhares de vezes, mas não dava certo. Me estressei e tirei meu casaco, jogando-o no chão e abrindo os primeiros botões da minha camisa.
Ouvi o elevador parar novamente no andar, e o barulho de umas duas ou três pessoas descendo e conversando, e já me apressei em pedir, sem nem mesmo me virar para olhá-las.
— Ei, podem me ajudar aqui? Acho que bebi um pouco mais do que devia e...
— Damon? — Ouvi uma voz familiar perguntar, ao mesmo tempo que ela falhava na última sílaba.
Ao me virar para ver quem era, tive que limpar a mente para ver se não estava imaginando coisas por causa do álcool, ou se não havia confundido. Mas não. Lá estava. A única pessoa no mundo que eu achei que nunca mais veria de novo. Também a que eu mais queria.
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