Once Upon a Time in Hidden Islands
18 The Meeting
Notas iniciais

— Parece que chegamos bem a tempo, não acham? — Hiccup disse radiante, montado em seu dragão negro no qual desferia carícias na cabeça.
Atrás do moreno, Merida olhava para baixo, verificando se Tooth havia realmente pego Rapunzel em sua queda. Estavam à frente do grupo, planando, a vários metros do chão. Rapidamente, o dragão pousou em frente ao grupo, colocando a princesa de Corona em segurança no solo. No segundo em que a menina tocou na neve, Anna se ajoelhou ao seu lado e a abraçou. Flynn desabou do outro lado do penhasco, aliviado. Ainda paralisado pelo pânico, mal conseguia piscar. Merida desceu do réptil e em seguida o domador de dragões e seu dragão foram até Rider. Descendo da criatura alada, o jovem de Berk ajudou o príncipe de Corona a se levantar, passando o braço direito deste pelo seu ombro e dando apoio para que se levanta-se.
— Está tudo bem agora amigo — Hiccup lançou um sorriso animador para o marido de Rapunzel, que não conseguiu retribuir por dois motivos. Um, seus músculos faciais estavam imóveis. Dois, ele não sabia como agir naquela situação. Havia desconfiado das pessoas que acabaram de salvar a vida de sua esposa. E mesmo que eles houvessem sido mau-caráter no começo, usando nomes falsos, isso não era algo que ele podia julgar. Afinal, há algum tempo, ele fazia o mesmo.
— O-Obrigado… — Forçando-se ao máximo, Rider conseguiu falar.
— Hey, não se force mais — o nativo de Berk apoiou o rapaz em Tooth e o próprio dragão o jogou pra cima de seu dorso. — Já vivenciou coisas demais por hoje e…
— Por que está fazendo isso? — Eugene segurou a mão do menino de olhos verdes. — Vocês não são nossos aliados…
— Nessa situação atual, — Hiccup pôs sua outra mão por cima da de Rider — nós precisamos uns dos outros mais do que nunca.
Assim, montou no dragão e voltaram para o outro lado da fenda. Aterrissando lá, Flynn foi tomado por uma força e desceu cambaleando do animal, caindo de joelhos ao lado da esposa, ainda pálida e muda. Anna se sentiu na obrigação de se levantar e deixar ambos aproveitarem aqueles momentos. Chorando, o marido abraçou sua amada e afogou sua face no pescoço da mesma. A morena passou as mãos pelos cabelos castanhos dele e afogando seus dedos ali. Ficaram naquela posição por alguns minutos, com Eugene aos prantos e Rapunzel tentando consolá-lo com “Tudo está bem agora” e “Não foi culpa sua”. Para falar a verdade, a mulher estava com muita raiva, mas de ninguém mais além de si. “Se não fosse tão imprestável, isso não teria acontecido”. Merida abraçou os próprios braços, enquanto Anna secava uma lágrima que caía de seu rosto. Kristoff foi até Hiccup que descansava as mãos sobre o crânio de seu dragão.
— Normalmente eu estaria batendo com uma pedra na sua cabeça e na desse bicho — o loiro cruzou os braços sorridente e olhou para o garoto que era mais baixo. — E eu nem quero saber sobre esses assuntos diplomáticos de aliados e inimigos, mas isso que vocês fizeram, salvar a garota, foi bem legal.
— Você achou? — Hiccup olhou para o rapaz bem maior do que ele mesmo. — Digo, é claro que foi. Cá entre nós, eu salvo aquela ruiva ali há dias, já virei expert no assunto…
— O que foi que você disse hein? — Merida surpreendeu o garoto por trás, apertando o pescoço dele com o braço, fazendo com que seus olhos quase saltassem das órbitas. — Repete, seu maldito!
— Na… Nada… — O jovem conseguiu dar uma banda na princesa que caiu de costas na neve. Ao fazer isso, o rapaz ficou por cima dela, encarando-a com um sorriso no rosto. Ele realmente estava se soltando mais. — Nada que não fosse verdade.
— A única pessoa que me salva… — Num movimento com as pernas, a princesa de DunBroch conseguiu reverter as posições e ficar por cima, colocando o cotovelo próximo ao pescoço do rapaz, mas sem apertar já que ambos estavam apenas descontraindo. — Sou eu mesma.
Ela se levantou e estendeu a mão para o rapaz também ficar de pé. Sorriram um para o outro, e depois Hiccup se virou para Kristoff e ambos conversaram apenas com os olhos: “Essas mulheres estão mais assustadoras a cada dia”. Anna ajudou sua prima a se levantar, enquanto Flynn o fez por si só. Todos então se aproximaram e ficaram dispostos num círculo. Kristoff e Flynn estavam de frente um para o outro, com braços cruzados. Hiccup estava ao lado do loiro e de Anna, que acariciava uma de suas tranças. Rapunzel, ao lado do marido, se abraçando, e Merida perto do cortador de gelo, com as mãos na cintura.
— Então, acho que temos muita coisa para conversar — O domador de dragões começou. — E acho que a primeira delas deve ser o porquê de nossa demora…
— Estou mais preocupada com a demora de Jack — a irmã de Elsa interrompeu o jovem. — Não que eu não estivesse preocupada com vocês, porque é claro que eu estava. Mesmo sendo inimigos, mas que agora são amigos — ou pelo menos eu acho que são.
— É verdade, — Merida se segurou para não rir da tagarelice de Anna, que ela achava super engraçada — não estou vendo o “geladinho”.
— “Geladinho”? — O viking esfregou a própria cabeça, em dúvida. — Desde quando demos um apelido pra ele?
— Ele seguiu em frente há alguns dias — Flynn respondeu a ruiva — e disse para nós que assim que encontrasse Elsa, ele nos daria um sinal.
— Mas isso já faz dias — Rapunzel disse, retornando aos poucos o tom dourado da pele. — O que deve ter acontecido?
— Talvez ele tenha encontrado algum problema, quem sabe algumas cobras? — Merida encarou Hiccup e Tooth enquanto falava, e eles sabiam exatamente do que ela falava.
— Eh… Olá? — Kristoff levantou a mão e todos olharam para ele. — Lembram de mim? O cara que vive de venda de gelo? Eu sei que ninguém liga, mas eu estou perdendo vendas enquanto vocês conversam sobre um cara que nem existe.
— Jack Frost é real, seu loiro fedido a rena— Hiccup deu um pulo, acertando um tapa na cabeça de Kristoff, que entendeu a brincadeira do menino.
— E a fada do dente? E o bicho papão? — Ele bagunçou o cabelo do viking e fez biquinho, como se falasse com uma criança de três anos. — São reais também, “Atchin”?
— O nome é “Hiccup”, e não, — ele cruzou os braços e balançou a cabeça, arrumando os cabelos lisos em dois segundos — eles não são reais, aí já seria ridículo.
— Disse o rapaz que desfila pela vida voando em um dragão — Rapunzel levou a mão à boca, escondendo o sorriso.
— O que você está fazendo? — Todos olharam para Kristoff e logo depois, seguiram o exemplo dele e olharam para a parede da montanha. Anna estava escalando-a — ou pelo menos tentando.
— Estou indo ver… — Ela parou, enquanto segurava numa pedra mais acimado limite dos seus braços. — A minha irmã…
— Você vai acabar se matando — os outros se juntaram ao lado dele, observando a princesa. — Eu não colocaria meu pé aí…
— Você está me distraindo — a morena disse, escorregando por não ouvir Kristoff.
— Ou aí… — Ele a alertou novamente e, novamente, ela escorregou.
— Sou bem capaz de escalar isso aqui, obrigada — respondeu apoiando o pé numa protuberância acima de seus joelhos, ficando completamente torta na visão do grupo.
— Como sabe que a Elsa quer te ver? — O loiro perguntou, enquanto Hiccup se aproximou e cochichou “Hey, amigo, não conteste uma mulher irritada” e Flynn confirmou com um balanço de cabeça.
— Só estou te ignorando porquê tenho que me concentrar aqui.
— Sabe, normalmente, — ele continuou — a maioria das pessoas que desaparecem na floresta querem ficar sozinhas.
— Ninguém quer ficar sozinho — Anna continuava a escalar, com muita dificuldade, o que fazia seus pulmões clamarem por mais oxigênio (visto que ela nunca fazia tal tipo de esforço). — Exceto você, talvez.
— Eu não estou sozinho, — o loiro cruzou os braços e, mesmo que não ligasse para isso, sentiu um certo desconforto ao perceber que era o único ali que não tinha nada a ver com a situação da Rainha e que quando aquilo acabasse, ele voltaria à ser o simples cortador de gelo. Então por que continuava ali? Antes, pensou ser pelo seu trenó, mas agora, não tinha certeza — eu tenho amigos, se lembra?
— Ah, os especialistas em amor?
— Eles mesmos! — Ele passou a mão pela nuca, desconfortável.
— Por favor… Digam que estou quase lá… — Anna arfava freneticamente e conseguiu apoiar os pés e os braços em pedras forte o suficiente para sustentá-la e para que ela pudesse respirar calmamente. Não tinha ideia do quão engraçada aquela situação era. — O ar parece muito rarefeito aqui em cima...
Todos observaram com cuidado. Anna havia demorado dez minutos e subiu somente um metro de altura. Merida, sem sucesso, tentou segurar o riso. Hiccup mordeu o dedo indicador para se forçar a não rir. Rapunzel colocou a mão na testa e Flynn encarou fixamente a princesa de Arendelle. O homem da rena sorriu, agraciado, e caminhou até a base da parede.
— Aguente um pouco — ele já estava pronto para descer a garota quando uma movimentação à esquerda o chamou sua atenção, assim como a dos outros.
— Hey, Sven, — Olaf falava sentado sobre o dorso da rena — não sei se isso resolve o problema, mas achamos uma escada que leva exatamente para onde vocês querem ir.
A alegria enfestou o rosto de Rapunzel, que bateu pequenas palmas, surpresa, e pulou para abraçar o marido. Este passou a mão pela cintura da mulher e colocou seus corpos, afogando-se novamente em seu pescoço. O domador de dragões e a ruiva trocaram olhares de alívio, mas também de incerteza. Kristoff reparou isto com a visão periférica, mas não se achou no dever, ou no direito, de perguntar o motivo. Anna, ao ouvir a notícia, se jogou da pedra e caiu nos braços do loiro. Sorridente, ela olhava para Olaf como quem acabara de receber a melhor notícia do mundo. Kristoff ficou observando a garota pelos poucos segundos em seus braços e reparou pela primeira vez em como suas bochechas coradas e traços finos da boca e do nariz a tornavam linda. Seus grandes olhos azuis e longos cabelos castanho-claro faziam um contraste difícil de não se admirar.
— Graças aos deuses! — Rapidamente, pulou dos braços do rapaz e se virou para ele um pouco antes de começar a seguir Sven. — Obrigada! Isso foi como um exercício louco de confiança…
Por um segundo, ele ficou ali, paralisado e sorridente, agindo como uma pessoa que acabou de presenciar o mais belo pôr-do-sol e degustado do melhor dos bolos de chocolate.
— Você não vem? — O marido de Rapunzel pôs a mão no ombro do loiro e o retirou de seu transe, e só então este percebeu que os outros já estavam a frente, seguindo Olaf e Sven.
— Sabe, para um “mestre em escalar montanhas”, você é bem desligado — Hiccup surgiu do nada, mandando seu dragão seguir em frente e pondo uma mão nas costas de cada um e os empurrando.
— Hey, hey, estou indo — Kristoff sorriu e começou a andar ao mesmo tempo em que o domador de dragões começou a caminhar ao lado dos dois. — Eu só fiquei meio… Cansado.
— Como é, Kristoff? — Anna berrou de lá da frente e saiu correndo em direção ao loiro, dando um pulo e começando a apertar as bochechas do rapaz com certas força e violência. — Você ficou cansado de me segurar? O quê quer dizer com isso? Que sou pesada?
Todos pararam para rir da cena: Anna apertava raivosamente o rosto do rapaz, fazendo várias caretas e forçando-o a fazer algumas também. Ele soltava alguns sons estranhos de agonia enquanto a menina bufava, vermelha. Merida riu desajeitada e Rapunzel apontou para eles, segurando a barriga de tanto rir. Flynn se apoiou no ombro de Hiccup para se sustentar de pé já que suas forças haviam se esvaído de tanto gargalhar. O viking levou as mãos à face, para escondê-la de tão vermelha que estava devi aos vários risos. Olaf desceu de Sven e ambos se reduziram a observar aquela cena e não conseguiram evitar de ceder aos risos. O Night Fury tombou a cabeça para o lado, em dúvida, com seus grandes e profundos olhos verdes examinando a situação, até que começou a interagir com Sven. Quando os meninos conseguiram finalmente explicar à Anna que aquele havia apenas sido um comentário infeliz (sem intenção de chamá-la de gorda), a menina se permitiu largar o cortador de gelo. Este, estava com suas bochechas em brasa e um pouco inchadas. Ele passou ambas as mãos por elas, para confortar a área e o grupo seguiu em frente.
— À propósito, — a dupla de Tooth conseguiu parar e caminhar até o loiro, estendendo a mão para ele — me chamou Hiccup.
— É um prazer…? — O loiro demorou para apertar a mão do rapaz. Não estava acostumado com tanta simpatia vinda de pessoas. Para falar a verdade, nunca havia ficado tanto tempo com tanta gente como naquele momento.
— E eu sou Merida — a ruiva deu passos largos à frente e acenou para o rapaz, que retribuiu, confuso.
— Eh… — Ele passou a mão na nuca, nervoso. Não sabia o que fazer, não ficou tão nervoso assim ao conhecer Anna. Pareceu tudo tão natural. Por que estava pensando em Anna numa hora dessas? Ah, sim, porque ela acabara de destruir suas bochechas… — É um prazer, eu acho…
Após subir por uma trilha em meio à pedras cobertas de neve, o grupo chegou a uma zona plana e alva, intocada. Alguns metros à frente, uma escada bem incomum ligava esta parte a um nível mais acima, separados por um abismo que não deixava seu fundo à amostra. A escada de cristal era um tanto quanto curva e tinha traços bem finos. No nível superior, todos ficaram boquiabertos ao vislumbrar um palácio de gelo refinado, com arquitetura única e perfeitamente desenhada. O monumento de aproximadamente trinta metros de altura só possuía uma única torre que também era o corpo da construção. Como numa igreja gótica, pilares de sustentação dispostos três de cada lado mantinham-no de pé. Acima da enorme porta dupla, no alto da torre, avistaram uma varanda. O castelo parecia emanar luz e magia, e isso ainda se juntava com os raios solares de fim de tarde tornando uma das paisagens mais lindas que todos já viram.
Olaf saiu correndo, dando saltinhos, pela grande área branca seguido por Sven e Tooth, que se enterrou na neve (ou pelo menos, tentou). Hiccup, assim como Merida e Rapunzel, teve que se segurar ao máximo para não iniciar uma guerra de neve ali mesmo. A situação estava caminhando à uma tensão sem dimensões, já que todos se encontravam a poucos metros de distância de Elsa e ninguém queria que as coisas saíssem erradas já que isso resultaria no possível congelamento de todos. Mas todos ali sabiam que a Rainha nunca faria isso por querer, já que todos que a conheceram sabiam que a jovem era benevolente e responsável. O problema era aquela magia descontrolada dela. “Se ao menos ela soubesse controlar” o domador de dragões pensou consigo. Não queria fazer mal à ela, mas estava seguindo ordens e mesmo que nunca houvesse feito mal à nenhum ser humano (inocente) ele se viu obrigado a obedecer Merida. Esta, se aproximou do rapaz, ficando ao seu lado e ele percebeu a dor em seus olhos que fitavam o castelo. Ela também não tinha intensão de ferir ou enganar a irmã de Anna, ou nenhum daqueles ali presentes. Ela só queria achar um lugar onde pudesse fazer o que quisesse e que não se visse obrigada a escolher entre a cruz e a espada.
— Não se preocupe — ele tocou na mão da menina, tentando transmitir confiança. — Tudo vai ficar bem, só… Tenha certeza que está fazendo o que é certo.
— É mais fácil falar do que fazer… — Eles cochichavam para não chamar atenção dos outros. O bracelete pesava e ela não sabia se era de culpa ou se era a forte magia, o fato é que Merida quase não conseguia andar por isso. Os outros se aproximavam dos dois e ela resolveu encerrar o assunto.
— Isso é um castelo e tanto… — Flynn assobiou para a construção.
— Oh! — Rapunzel deu um pulo e se virou para o marido com um grande sorriso no rosto. — Depois que tudo isso acabar, Elsa podia fazer uma grande pista de patinação no reino ou… HEY HEY, já sei! Ela podia fazer um castelo de gelo pra gente!
—Algo me diz que isso está só começando… — Flynn cruzou os braços, pensativo.
— Wow… — Kristoff apertava as mãos de emoção desde que chegaram a planície e ele avistara o castelo de gelo. — Isso sim é gelo… Eu poderia chorar agora.
— Vá em frente — Anna passou por ele mas sem tirar os olhos do refúgio de sua irmã. — Ninguém vai te julgar…
— Então, — Hiccup se virou para todos, apreensivo. — Qual é o plano?
— Eu vou entrar lá e conversar com a minha irmã.
— Então nossos traseiros quentinhos dependem da sua conversa com a Rainha?
— Basicamente, é isso — Rapunzel falou enquanto observava suas unhas.
— Então o que estamos esperando? — Merida soltou os cabelos e rodou os braços. — Vamos entrar lá e falar com ela… Eu queria pedir perdão à Elsa pela nossa postura na noite do baile…
— Na verdade, — a princesa de Arendelle bateu as mãos, nervosa — eu estava querendo falar com ela às sós… Não que eu não queira que você vá, porque seria maravilhoso você estar lá e se desculpar e tudo ficar bem, mas… Isso é uma conversa de irmã para irmã…
— Mas eu… — A filha de Elinor não conseguiu terminar sua frase pois as palavras ficaram presas em sua garganta. Não conseguiria mentir para uma irmã desesperada e viver bem com isso.
— Ela entende. — por sorte, o viking pensou rápido e inventou uma continuação da frase de Merida. — É que nós realmente estamos muito envergonhados por termos agido tão vergonhosamente e queríamos nos desculpar. Mas tenho certeza de que todos resolveremos isso quando voltarmos pro castelo, certo?
— Sim, certamente — Anna concordou com um sorriso e seguiu em frente, enquanto os dois aliados se entreolhavam.
Logo, os dois foram andando até Tooth que rabiscava a neve com sua cauda. O moreno arremessou bolas de neve no dragão que correu atrás do atacante. Merida ficou de pé, desviando dos ataques e das investidas do dragão. Rapunzel e Flynn deram as mãos por conta do nervosismo e observaram Anna subir as escadas para a entrada do palácio. Olaf estava à sua frente, totalmente animado, enquanto Sven tentava se sucesso subir os degraus. Kristoff teve que movê-lo para longe a escada e instrui-lo a ficar quieto. Flynn ficou impressionado com a facilidade que o loiro moveu a pesada rena e pensou consigo “Talvez eu deva levantar mais peso...”. O cortador de gelo passou a mão pelo corrimão da escada e subiu os degraus atrás da princesa, assobiando de admiração por cada detalhe esculpido em gelo.
A garota de tranças ficou frente à frente com as enormes portas de gelo, com Olaf e Kristoff bem em seu encalço. Recuou por alguns segundos, não tinha coragem para bater. Já havia presenciado aquela cena tantas vezes em sua vida que perdera a esperança. Durante anos ela batia à porta de Elsa e a irmã nunca a atendia, era sempre ignorada. “Vá embora Anna”. Aquela frase voltou à mente da princesa e ela quase deu meia volta e correu. Mas atrás dela Olaf falava coisas como “Bate”, “É só bater” e quando se virando para o cara das renas o perguntava “Por que ela não bate?” e “Será que ela sabe bater?”. Engolindo seco, a garota bateu três vezes, sua batida especial. Por um segundo, nada aconteceu. Então a estrutura reboliu e as portas se abriram, fazendo com que a morena desse um passo para trás, assustada.
— Ela abriu… — Estava mais surpresa e feliz do que nunca. — Isso é novidade.
Só então foi se dar conta que Kristoff ainda estava ali atrás, a acompanhando.
— O que está fazendo? — Ela cochichou para ele mesmo sem precisar. — Eu disse que era uma conversa de irmãs.
— Não vou deixar você entrar lá sozinha, está louca?
— Eu não sou indefesa, sei como socar uns rostos… — E percebendo o quão violenta essa frase havia ficado, rapidamente tratou de sorrir envergonhada. — E além do mais, ela é minha irmã. Nunca iria fazer nada contra mim.
— De qualquer forma, — ele deu de ombros — eu estou indo.
— Acho que você deveria esperar aqui fora com os outros — tomando para si que o rapaz estava se importando com ela, tentou convencê-lo de outra forma. — Da última vez que apresentei um garoto, ela congelou tudo.
— M-Mas… — Ele gaguejou, incomodado, e logo bateu o pé como uma criança fazendo pirraça. — Ah, por favor! É um castelo de GELO! Gelo é minha vida.
— Então era por isso, seu… — Ela mordeu os lábios, desiludida. Então mordeu os lábios e sorriu por conta do rosto irritado do rapaz.
— Tchau, Sven! — Olaf virou de costas para os dois e começou a caminhar para dentro do castelo, acenando para o loiro, mas foi parado por Anna que pôs a mão em sua cabeça.
— Você também, Olaf — se abaixando para ficar frente à frente com o boneco, o tom compreensivo de sua voz e a tranquilidade do pequeno entraram em sincronia. — Nos dê um minuto, e faça companhia pra esse cabeçudo — a última parte foi cochichada, como se fosse um segredo.
— Certo… — Logo após concordar, com um sorriso, o homem de neve se sentou no último degrau da escada e começou a contagem regressiva de um minuto.
— Se sentirmos que algo não está certo, — Kristoff segurou levemente a menina pelo pulso antes de deixá-la seguir para o interior da construção — vamos entrar.
— Tudo bem, — com um sorriso, o rapaz a soltou e ela pôde entrar — obrigada.
Ao adentrar no palácio, as portas atrás de si se fecharam cuidadosamente, quase não provocando barulho. A princesa olhou ao redor, sozinha. Encantada, avistou uma larga área lisa e cristalina. O chão era gelo puro, azul como todo o resto do palácio por refletir a cor do céu. Esse hall de entrada tinha aproximadamente quinze metros de diâmetro, dando lugar a um espaço vazio e vasto. Caminhando por ele, escorregou algumas vezes por conta do gelo, quase caindo. As paredes eram majestosas e com firmes colunas, sustentavam um teto singular, com abertura para o ar livre em forma de um grande floco de neve e que detinha um pequeno lustre em seu centro. A parede oposta a porta era tomada por duas escadas que se conectavam em forma de C. Ambas levavam ao mesmo lugar, o andar superior, e tinham em seu centro um chafariz congelado de três andares.
— Elsa? — Maravilhada, nem percebeu que atrás de si, materializado por uma nuvem branca como neve, Jack aparecera. — Sou eu, Anna.
— Anna? — Ele disse surpreso, como se subitamente tivesse lembrado do real motivo de ter seguido Elsa.
— Meus deuses! — A morena deu um pulo de susto, se virando para o garoto ainda com expressão de medo, que se desfez ao vê-lo. — Ah, Jack... Oi. Desculpe pelo grito, e pelo pulo, e pelo...
Então a garota percebeu algo estranho. O quê Jack fazia ali? Pelo que sabia, ele havia ido atrás de Elsa e os mandaria um sinal quando a encontrasse. E isso havia sido há dias, eles pensaram até que o rapaz houvesse entrado em apuros. E agora, ele simplesmente aparece, no castelo de Elsa, como se nada tivesse acontecido. Ele a observava com certa culpa, o que só aumentava a curiosidade da princesa para saber o que havia acontecido.
— O que está fazendo aqui? — Ele perguntou, olhando para o chão e com peso na voz. — Digo, como chegou até aqui? Onde estão os outros?
— Ah, os outros estão lá fora e... — Ela se abaixou, a ponto de ver o rosto do rapaz, fitando os próprios pés. — Eu ia te perguntar a mesma coisa. O qu-
— Anna? — Falando do alto da escada, Elsa finalmente aparecera.
A irmã se virou para onde vinha a voz e quase não a reconheceu. Estava linda, como sempre, mas agora a loira parecia mais à vontade. Mostrando seu longo cabelo na forma de uma trança que alcançava a altura de seu umbigo e desfilando num vestido azul claro que cintilou quando a Rainha foi para a luz que entrava pela abertura do teto. Na parte superior, onde estava o corpete, era encrustado de cristais de gelo que exaltavam o brilho do vestido. O bojo parecia moldar perfeitamente os seios de Elsa. De mangas longas, a vestimenta também detinha uma longa capa que partia do dorso da jovem. Para compor o visual elegante e sensual, uma fenda no vestido que deixava a perna direita da jovem amostra e saltos feitos de gelo, com detalhes que lembravam pontas de flocos de neve.
— Nossa... — Anna ficou boquiaberta com a visão e piscou os olhos várias vezes para ter certeza de que aquela Elsa era a mesma garota recatada do baile. —Elsa, você está diferente. No bom sentido. E este lugar é incrível!
— Obrigada — a loira olhou em volta e abriu os braços, orgulhosa. — Eu nunca soube do que era capaz...
— Sabia sim, — Jack se pronunciou, acenando com a cabeça e andando até o lado de Anna — só precisava que alguém a lembrasse.
— Sinto muito sobre o que aconteceu no baile... — A princesa ameaçou subir as escadas e ir de encontro à irmã. — Se eu soubesse...
— Não, — Elsa recuou receosa, mesmo estando a metros de distância da irmã. Jack não entendeu o porquê daquela reação, afinal, a menina esses dias havia controlado bem os seus poderes. Mas algo ainda a atormentava. — Está tudo bem, não precisa se desculpar. Mas você deve ir embora, por favor...
Apertando as mãos e batendo os polegares um contra o outro, a ansiedade tomava conta da Rainha, preocupando o albino. Ele sabia que os poderes da jovem estavam diretamente ligados às suas emoções e que a garota ainda não tinha total controle sobre eles. Aquela situação era uma dinamite, esperando somente uma faísca para mandar tudo pelos ares. Anna notou de longe a maquiagem borrada da irmã. Claro, ela provavelmente teria tentado limpar, mas ainda havia rastros. O que significava que ela andava chorando.
— Mas eu acabei de chegar — a caçula avançou, subindo um degrau e olhando para Frost, que a encorajava com o olhar mas também a alertava do risco.
— Você pertence a Arendelle, — a loira recuou mais ainda, totalmente insegura. Sentia-se sem amparo, como se fosse uma simples formiga sendo levada pela correnteza de um rio — e tenho certeza que será uma ótima rainha. Digna da honra de nossos pais...
— Você é a mais velha... — Rindo ingenuamente, lembrou-se dos momentos que compartilharam juntas quando menores. — E também sempre foi a mais responsável. Você é a Rainha que precisamos. E é a irmã que eu amei todos esses anos. Também pertence à Arendelle.
— Não, Anna — tentando ignorar as palavras da irmã para que não desmoronasse em lágrimas novamente, a primogênita caminhou até o mainel de onde estava, posicionando suas mãos ali e fitando o chafariz logo abaixo de si. — Meu lugar é aqui... Sozinha, onde posso ser quem sou, sem machucar ninguém.
Jack encontrou os olhos da garota e entendeu que com “sozinha” ela quis dizer “com ele”, apenas não quis dizer a irmã isso por achar que a garota pensaria que Jack era mais importante. E realmente, não era isso. Anna era a pessoa que Elsa mais amava, mas também a pessoa que mais temia ferir. Jack, por outro lado, além de ser boa companhia não podia ser ferido por ela. Ao notar que a irmã achava que seu isolamento traria paz ao reino, Anna percebeu que ela não sabia nada sobre o “Inverno Eterno” que havia lançado naquele hemisfério.
— Na verdade, — erguendo o indicador, em sinal de “oops, eu não te disse?”, a morena reunia coragem para revelar a real situação para a irmã — sobre isso...
— Cinquenta e oito, cinquenta e nove, sessenta! — Olaf interrompeu o diálogo e entrou correndo e saltitando pelo saguão com o término de sua contagem regressiva, chamando a atenção de todos.
O espírito do inverno sorriu com a entrada do boneco de neve desastrado. O homenzinho correu envolta dele, segurando no cajado de madeira do rapaz e rodando como se fosse uma criança. Após isso, foi pulando até Anna e se enfiou sob a capa de inverno da menina, saindo dali logo depois e fitando a loira.
— Espere, — Elsa fez uma careta de quem foi brutalmente assustada ou impressionada por algo — o que é isso?
— Oi! — Olaf acenou com seu bracinho de graveto, causando sorrisos nos rostos de Anna e Jack. — Eu sou Olaf, e gosto de abraços quentinhos!
— Olaf? — Aquele nome a atingira bem no coração. Não acreditava no que estava vendo e ouvindo.
— É, — envergonhado, olhou receoso para a rainha e juntou as mãozinhas — você me fez, se lembra?
— E você está vivo? — A garota não conseguia sorrir, mas estava extremamente encantada com o pequeno homenzinho de neve.
— Humm... — Ele levantou as sobrancelhas e mexeu os braços, para ter certeza de que estava realmente vivo. — Acho que sim?
Elsa olhou para as próprias mãos, em busca de respostas. Como ela havia dado vida àquele boneco de neve? Ela se lembrava de ter feito um há uns dias, mas tinha certeza de que não estava vivo.
— Para falar a verdade, — Jack se transportou com uma neblinado primeiro andar para o corrimão, ao lado da loira e sentado no mesmo corrimão — isto fui eu que fiz.
— O quê? — Elsa jogou uma das mãos para o lado e apoiou a outra no quadril.
— Quando você o criou, naquela noite, — o menino ficou agachado no corrimão, sem perder o equilíbrio por um segundo se quer — estava tão feliz e, como deve saber, seus poderes estão bem ligados aos seus sentimentos.
— O que quer dizer com isso? — Anna estava confusa, mas não tanto quanto Elsa.
— Que você depositou na carcaça do boneco suas melhores lembranças, — Frost invadiu o espaço pessoal da rainha, pondo uma mão em sua cabeça, e outra em seu coração após largar o cajado no chão — e seus sentimentos mais puros. Olaf era um poço de felicidade, da sua felicidade.
— Em outras palavras, — ela levou a mão ao coração, sobrepondo a mão do rapaz e tocando sua pele alva — ele é a representação da minha alegria...
— Exatamente — eles se olharam profunda e seriamente, mas Jack logo quebrou a ligação e se voltou para os dois aos pés das escadas. — Quando eu senti... A intensa força emocional que vinha dele, não resisti. Tive que enchê-lo com vida.
— Pensei que isso fosse impossível — A caçula apertou as próprias bochechas de tensão.
— Dar vida à coisas mortas é — sorrindo para Olaf, que retribuiu o gesto, ele continuou. — Dar vida à objetos inanimados, não.
— Ele é igual ao que fizemos quando crianças... — A morena se abaixou e deu pequenos tapinhas nas costas do boneco de neve.
— É, sim — Elsa falou com alegria e voltou a focar a atenção em suas mãos, depois voltando-a respectivamente para Jack, que apanhava seu cajado e a direcionava um sorriso sincero, e para Anna com Olaf.
— Nós éramos tão próximas... — A morena disse com tristeza por se lembrar dos bons tempos que eram tão distantes, mas direcionou uma expressão compreensiva e convidativa para a irmã. — Podíamos ser assim de novo.
O sorriso da rainha se transformou em terror demonstrado em seus olhos. De repente, aquela noite inteira foi revivida em sua cabeça. Desde Anna indo acordá-la de madrugada, passando pela diversão no escorrega de neve e a dança com o antigo Olaf, e terminando no acidente. Quando seus poderes atingiram a cabeça de Anna e levaram, além das memórias dela, todo o relacionamento que tinham, enquanto ela segurava a irmã desacordada e via a mecha branca brotar em sua cabeça e ela chorava pelos pais. Então a voz daquele homem de preto de seu pesadelo voltou a gritar em sua mente “Quero que você renda-se ao seu medo, renda-se a mim, ou então essa sua dor não ficará apenas no mundo dos sonhos, minha querida”.
— Não! — Balançou a cabeça para afastar tais pensamentos, apertou a barriga para conter a vontade de vomitar que lhe surgiu e recuou para o segundo lance de escadas que levava ao seu quarto no andar de cima. — Não podemos... Adeus, Anna...
— Elsa, espera... — A garota se levantou e rapidamente subia os degraus para alcançar a rainha o mais rápido possível.
— Não, — Elsa estendeu um braço, pedindo para que a garota parasse a aproximação, mas não adiantou, então ela começou a subir para seus aposentos, deixando Jack sem saber o que fazer — Anna, só estou tentando proteger você.
— Não precisa me proteger, eu não tenho medo!
O menino ficou de pé, e conectou seu olhar com o de Anna. Ambos emitiam preocupação e culpa pelo que estava acontecendo. Ambos então seguiram a loira pelas escadas, deixando Olaf sozinho, tentando subir as escadas com suas perninhas curtas.
— Por favor, — Frost suplicava para garota, que nem sequer virava para trás — não se isole de novo.
— Você não precisa se afastar novamente! — A garota tentava convencer a irmã à todo custo. — Nós podemos resolver isso juntas! Você pode parar de viver com medo de tudo, porque dessa vez eu vou estar aqui com você!
O trio já chegava nos aposentos da rainha, que não era muito diferente do hall. Também era simples, praticamente vazio. Tinha um grande lustre de cristal, com pontas e placas afiadas, mas de resto, totalmente vazio. Anna se perguntou onde a irmã dormia, se é que ela dormia e não passava a noite toda em claro. O albino percebeu ao olhar para trás, pelo caminho de onde vieram, quem Olaf estava quase alcançando a metade do segundo lance de escada quando Kristoff e o casal de Corona entraram andando lentamente pela porta da frente. Elsa e Anna não perceberam, então a mais velha finalmente a encarou com um sorriso compreensivo nos lábios.
— Anna, por favor, volte para casa. Você tem uma vida toda pela frente, vá aproveitar o Sol e abrir finalmente os portões do castelo!
— É, pode ser mas...
— Eu sei que você quer o meu bem, — normalmente, a garota não era de falar, mas a ansiedade a dominou — mas pode me deixar aqui. Estou só, mas pelo menos tenho minha liberdade. Bem, posso não estar totalmente sozinha, mas o ponto é que: todos ficarão seguros se eu ficar longe.
— Não, — Anna sentia que não adiantava adiar a conversa ou esperar o momento certo para falar, pois não havia momento certo para aquilo — não ficarão...
— Como “não ficarão”? — A loira encarou a mais nova, levantando as sobrancelhas por conta da dúvida.
— Acho que você não percebeu ainda... — Jack interviu, lançando um olhar de cumplicidade para Anna e os dois fitaram o chão. Elsa percebeu os olhares e notou que algo estava acontecendo e ela não sabia.
— O que eu não estou sabendo? — Ela olhava para os dois alternadamente, intimando-os a confessar.
— Arendelle... — A morena apertou as próprias mãos e fez uma careta. — Está completamente afundada na neve...
— C-Como? — Elsa entortou o pescoço, em agonia.
— Não sabemos como, mas, — Frost ficou com uma expressão séria, preferia que ela soubesse logo da verdade — você talvez tenha criado um tipo de ‘Inverno Eterno’ em toda parte.
— Por toda parte? — Começou a faltar o ar para a rainha, que iniciava o processo de hiperventilação. Sua cabeça ficou mais leve, perdendo o equilíbrio. Tombou para o lado e sentiu seus membros perderem a força gradualmente.
— Sim, mas está tudo bem — Anna percebia que talvez tivessem falado rápido demais para a irmã digerir. — Você pode descongelar tudo, está vendo como é simples?
— Não é assim — Elsa repreendia o pensamento da irmã de que seus poderes eram tão facilmente controlados, mas não a culpava. Afinal, ela havia nascido normal. — Não é tão simples. Não posso fazer isso... Nem sei como!
— Claro que pode! — Desesperadamente, a morena tentava levantar a autoestima da irmã, encorajá-la e apoiá-la. — Eu sei que pode!
Elsa sentia que precisava afastar-se dali, sair de perto de Anna. Sair de perto de Arendelle. Ela precisava sumir do mapa. Por sua culpa, talvez crianças estivessem morrendo de hipotermia ou adquirindo outras doenças. Mais do que nunca, se sentiu inteiramente como uma aberração. Consequentemente aos pensamentos negativos, os poderes da rainha começaram a se manifestar. Um vento forte certou a mulher e neve começou a cair em voltada mesma, criando um pequeno furacão de neve, no qual a loira era o centro.
— Eu sou uma tola! — Lágrimas escorriam pelas bochechas da rainha, e ela levava as mãos ao coração, apertando-as contra o peito para tentar aliviar a dor que estava sentindo. — Como pude pensar que seria livre?!
— Elsa, você não pode ter medo! — Jack gritava para a menina ao ver que quanto mais o desespero tomava o coração dela, mais densa a tempestade de neve ficava e mais violentos os ventos rajavam. Percebendo que aquilo não adiantaria, ele precisava tirar Anna dali o mais rápido possível, então voltou-se para ela. — Precisa sair daqui!
— O quê?! — Os dois gritavam, pois a ventania atrapalhava a propagação do som. — Não vou deixar ela aqui!
— No momento, — ele apanhou o pulso da menina com leveza e a encarou — tenho certeza que ela quer mais que tudo te proteger, então vamos...
— Não, por favor — ela tentou se soltar, mas mesmo que gentil o toque, Jack tinha mãos fortes. Ela não conseguiu, então desabou em lágrimas e Frost teve que ampará-la. Ela bateu algumas vezes no peitoral do rapaz, mas voltou a si. — Não me obrigue a abandonar minha irmã assim! Ela precisa de mim.
— Mas aqui é muito perigoso... — Após olhar fundo nos olhos da garota, percebeu que estava disposta a tudo para colocar sua irmã em paz. Até mesmo arriscar sua segurança. Sentiu outras presenças se aproximando e, ao olhar para o portal da escada, viu que Rapunzel, Flynn e Kristoff, acompanhados por um cansado Olaf, adentravam no quarto e se esgueiravam pelas paredes, escapando do tufão ao redor de Elsa. — Está bem, eu te levo até lá.
Ele deu a mão à Anna e, segurando-a fortemente, eles começavam a entrar no corpo do tufão de neve. Com seu cajado empunhado na outra palma, ele desviava os ventos mais fortes e possibilitava o avanço de ambos na angústia de Elsa. Aos poucos, conseguiram enxerga-la no centro da ventania. Flocos de neve se prendiam nas roupas e nos cabelos dos dois.
— Não tem escapatória da tempestade dentro de mim... — A loira falava para si mesma, mas em alto e bom tom.
— Podemos resolver isso juntos — Jack gritava para a garota desolada enquanto ele e Anna colocavam os braços em frente ao rosto para impedir que a neve atrapalhasse seu campo de visão.
— Não posso controlar essa maldição! — Ela gritava de volta para ele, sem esperança.
— Vamos reverter isso tudo! — Anna também tentava se comunicar com Elsa.
— Anna, por favor, — Elsa encarava a irmã, em pânico — você só está piorando as coisas!
Virou-se de costas para ela e se viu de frente para uma das paredes de gelo do cômodo que refletia sua imagem. Por um minuto, ela se observou: normal por fora, e uma desgraça por dentro. Não só pelo que achava de seus poderes, mas pelo que guardava para si. As angústias, o medo, as inseguranças. De repente, todos os anos de exclusão voltaram à tona, e o tempo que passara com Jack, que ela achava que havia regenerado sua alma, tudo foi ocupado pelo terror.
— Não entre em pânico — o albino a aconselhava, mas era inútil. Haviam muitas vozes em sua cabeça naquele momento. A dela, a de Anna, a dele, de seus pais, dos trolls, do homem de preto...
— Há muito medo ... Vocês não estão à salvo aqui!
— Escute, — Anna segurava sua toca com uma das mãos e agarrava a mão de Jack com a outra — nós podemos consertar isso juntas, mudar o clima, e tudo vai ficar bem!
Os ventos, que sopravam para o leste subitamente mudaram o seu curso para oeste. Logo, toda a neve e a força do vento de antes se condensou no centro do tornado, neste caso, em Elsa. Toda aquela energia acumulada em menos de um segundo foi liberada de uma única vez.
— Não consigo! — Ao gritar, a garota liberou a onda de energia se propagou horizontalmente pelo cômodo.
Todos teriam sido atingidos se Jack não tivesse arremessado seu bastão em direção ao grupo de Rapunzel à tempo deste criar uma pequena barreira. Ele e Anna não tiveram a mesma sorte. Ele, graças aos seus poderes compatíveis com os de Elsa, não recebeu dano nenhum, já Anna recebeu a carga de magia bem na altura de seu coração. Por um momento, a área atingida se iluminou de azul, e a garota arregalou seus grandes olhos e dilatou suas pupilas pelo impacto. Levando a mão até o coração, ela desabou no chão. Jack estava também com os olhos arregalados e em estado de paralisia. Ao passo que os outros corriam até Anna, ele conseguia movimentar seu corpo lentamente para que pudesse observar Elsa. Lágrimas secas em seu rosto e um espanto tremendo em seu rosto brotaram. E ele se lembrou da única vez em que vira a mesma expressão: no dia em que ela teve que se esquecer de quem ele era. Rapunzel se sentou no chão e apoiou a cabeça de Anna em seu colo. Olaf ficou parado ao lado dela enquanto Kristoff e Flynn seguravam, cada um, uma das mãos de Anna. Com um gesto de mão, o bastão voltou à mão do albino.
— Anna! — Rapunzel batia levemente no rosto da prima desacordada, e ela começava a despertar. — Graças aos deuses...
Todos fitaram Elsa e Jack, e os olhos da prima das monarcas de Arendelle se encheram de revolta ao notar Frost ali. Flynn não entendia o que ele fazia ali, mas preferiu focar sua atenção na garota desanimada. Olaf observava a menina despertar e Kristoff não sabia se ficava preocupado com a garota ou se ele também desmaiava. Afinal, ele estava de fato vendo um rapaz mais branco que a neve em si, e que se encaixava na lenda contada pelos trolls. Poderia ser Jack Frost?
— O que você está fazendo aqui?! — Os olhos avermelhados da princesa de Corona deixavam as lágrimas de raiva rolarem seu rosto enquanto ela gritava para Jack, que fitava o chão. — Era para você ter nos reportado há dias! O que você tinha na cabeça? Ah é, nada, porque você é um fantasma que só se importa em se divertir! Não tem um pingo de responsabilidade...
— Punzie... — Rider tentou acalmar a esposa, mas esta nem ao menos parecia ter lhe escutado.
— Se você tivesse nos dito logo onde a Elsa estava, podíamos ter nos organizado melhor, e não ter ficado andando dias pela floresta.
— Dizer onde eu estava? — Elsa olhou para Jack, desacreditada. — Então é por isso que você estava passando esse tempo comigo...
— Não, não é isso... — Ele não sabia o que dizer, estava se sentindo muito mal com tudo aquilo.
— Antes ele tivesse feito o que prometeu: nos levado até você! — Rapunzel começava a se acalmar, mas estava longe de parar o desabafo. — Se nós não estivéssemos cansados, exaustos, nós teríamos nos organizado melhor, isso não teria acontecido...
— Mas eu mandei um guia até vocês! — Ele gesticulou, se exaltando também. — Um floco de neve que deveria trazê-los até aqui!
— Claramente, — Eugene disse sem tirar os olhos de Anna, quem ele ajudava a se sentar, seguido por Kristoff que a colocou de pé — ele não nos achou.
— Jack... — Elsa desviou o olhar do rapaz e se afastou lentamente. — Você... Você me enganou. Fingiu estar se divertindo aqui, fingiu que me entendia! Mas você estava ajudando as pessoas que eu gosto, até a Anna, até mim! Mesmo sabendo o que podia acontecer?
— Elsa, eu só-
— Você sabia o quanto eu tinha medo de algo acontecer! — O terror deu lugar ao ódio, à medida que Rapunzel se acalmava, Elsa estava se irritando. — Você... Quero você fora daqui! Traidor!
Flynn se ergueu, junto com Rapunzel. Eles ficaram observando o estado de Anna, que parecia melhorar radicalmente.
— Você está bem? — Kristoff parrava a mão nos ombros e no rosto da garota.
— Sim... Sim.
— Quem é esse? — Elsa finalmente havia percebido a presença do loiro e ficou meio incomodada com a proximidade dele com a irmã. — Não importa, vocês tem que ir embora!
— Não! — Anna rebatia a irmã e nem percebia que as paredes do castelo começaram a estalar, como se o gelo fosse se partindo aos poucos. — Sei que podemos resolver isso juntas.
— Como? — A indignação era dominante, pois a loira não conseguia fazer a irmã entender que só queria ajuda-la ficando longe. — Que poder você tem para deter esse inverno? De deter a mim?
— Pessoal, acho que temos que ir... — Flynn e Rapunzel se abraçavam, observando os estalos do castelo, e repararam que Jack estava imóvel e mudo há um minuto. Talvez estivesse pensando sobre tudo que falaram para ele.
— Não vou sair daqui sem você, Elsa!
— Sim, você vai! — Uma brilhante ideia veio à mente da rainha: se ela com suas palavras não conseguia mantes Anna afastada, força bruta iria.
Se concentrando com dificuldade, ela ponderou sobre o que seria mais intimidador naquele momento para um guarda. Estendeu suas mãos para o chão a sua frente e usou seus poderes para erguer um gigante de neve e gelo. Aos poucos, tomando forma, o guarda de três metros de altura tinha uma grande bola de neve para chamar de tronco e dois cilindros enormes de neve para as pernas, e mais dois com cinco garras afiadas para os braços e mãos. Espinhos de gelo decoravam suas costas, tornozelo e cotovelo. Elsa aproveitou a distração para correr até o canto do quarto. Jack permanecia parado, não sabia o que fazer agora que todos estavam magoados com ele, principalmente Elsa. Ele havia estragado tudo! Todo o tempo que passaram juntos foi apagado para ela, e só restou raiva. E quanto aos outros, os únicos que acreditavam nele, estavam também com repulsa. Os outros ficaram aterrorizados com a criatura que pairava sobre eles.
Como um milagre, a porta de cristal que abria para a varanda foi brutalmente aberta por um dragão negro bem agitado que levava em seu dorso uma dupla. A ruiva empunhava seu arco e flecha, com a afiada ponta direcionada ao nada, até que ela avistou o monstro e apontou-a para ele. O jovem moreno sacou sua espada de fogo e saltou do Night Fury, entrando em posição de batalha com a guarda fechada enquanto se aproximava do grupo lentamente, se retirar os olhos do gigante de neve.
— Bem na hora! — Kristoff apanhou Anna em seus braços e começou a andar em direção ao dragão.
— Espera um pouco, — Hiccup abaixara sua espada bem naturalmente — o quê Jack está fazendo aqui? Ele não tinha se perdido, ou algo?
— Sem tempo pra discutirmos isso — Jack se aproximou deles e apontou o cajado pro monstro que começava a caminhar em direção ao grupo. — Tem um monstro gigante bem ali, pronto para palitar os dentes com seus ossos. Deveríamos sair daqui e...
— Não vou à lugar nenhum com você... — Rapunzel ainda estava magoada e não prestava esforços em esconder isso.
— Sem tempo para discutir isso — Flynn disse, chamando a atenção de todos para o gigante que estava bem a frente dele, de Rapunzel e de Hiccup. Contudo, ele passou direto por eles e apanhou Kristoff e Anna em uma de suas mãos, enquanto levou Olaf na outra.
— Saiam daqui! — Merida gritou para todos enquanto atirava a flecha de seu arco e já apanhava mais algumas em sua aljava.
Rider saiu em disparada em direção à escada, seguido por sua esposa e por Hiccup. Jack sumiu no meio da confusão, enquanto Elsa se abria uma passagem na parede com sua magia e entrou por ela, desaparecendo. O gigante deixou o cortador de gelo cair enquanto defendia as flechas da princesa (que realmente não surtiram outro efeito a não ser esse). Ele ficou ali parado, observando. E só foi descer as escadas quando Merida gritou para que ele o fizesse. Tirando Tooth, Merida estava sozinha contra o gigante que prendia Olaf e Anna.
— Venha, seu algodão gigante! — Ela provocava o inimigo com um sorriso debochado no rosto. — Que tal eu fazer uma roupa de você?
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