Once Upon a Time in Hidden Islands
14 Dance With Me
Notas iniciais

— Então... — Elsa caminhava ao lado de Jack e se dirigiu ao menino. — O quê fazemos agora?
— O quê quer dizer? — Jack olhou para a loira ao seu lado e notou novamente que era mais alto do que ela, mesmo sendo fisicamente mais novo.
— Nós estamos andando há uns minutos e não acho que esses saltos deveriam ser usados tanto na neve — Elsa olhou para o rapaz e seus olhos se encontraram. Ela sorriu graciosamente quando percebeu que estavam se olhando por mais tempo que o normal. — Não, agora falarei sério: eu quero dicas suas.
— D-Dicas? — O albino piscou algumas vezes, como se estivesse acordando de um sonho. — Que tipo de dicas?
— Liberdade, — ela olhou para o céu e juntos as mãos. Admirou um casal de gralhas-azuis que passou voando e brincando — diversão, qualquer coisa que não seja obrigação de uma Rainha.
— Vamos pensar... — Jack cravou seu cajado na neve e cruzou os braços, forçando uma expressão pensativa. — Fugir de um baile e fazer um palácio de gelo contam?
Elsa ameaçou sorrir, mas Jack a fez lembrar-se da noite anterior. Repentinamente, era como se ela estivesse novamente naquele momento em que Anna retirara sua luva e ela liberou seus poderes. Lembrou-se dos olhares assustados voltados para si. O coração batia, rápido e o desespero tampava sua garganta, sufocando-a. Choraria se tivesse forças, mas o medo a impediu. Logo estava no pátio do palácio e se recordou de Merida que estava lá para mata-la e daquele menino com nome estranho, Hiccup. Então já havia mudado de lugar e estava no meio do povo e eles se afastavam dela com receio de sua magia incontrolável. Sua respiração acelerou e ela começou a se sentir tonta.
— Elsa! — Ela voltou à realidade com o chamado de Jack. Ele a segurava nos braços com firmeza, mas sem a machucar. Estava bastante preocupado. Ela sentia que poderia cair se ele por um acaso a soltasse. — O quê aconteceu?
— Nada demais — mentiu. Pôs as mãos nas de Jack e lentamente as retirou de si, cambaleando. O menino a segurou e ela notou que não acreditaria nela. — Acho que só estou um pouco cansada.
— Foi o que eu disse, não foi? Sobre o baile? — Ele fitou o chão, sentindo o peso do mundo em seus ombros por causa da culpa.
— Não, Jack, — Elsa percebeu que não adiantaria mentir para o garoto, afinal ele a conhecia bem demais. — não foi culpa sua. Na verdade você é a única coisa neste momento que me impede de enlouquecer.
— Acho melhor voltarmos para o palácio... — Ele não estava convencido pelas palavras doces da rainha, então a pegou em seus braços antes que ela pudesse recuar. Não a deixaria andar mais um metro, e quanto ao seu bastão, o prendeu em suas costas com magia. — Provavelmente não foi uma boa ideia você não ter dormido esta noite.
— Não podia dormir enquanto fazia o castelo, — ela deitou no ombro do rapaz e cruzou os braços. Não estava acostumada a proximidade com pessoas e nessas vinte e quatro horas em que passou com Jack ele já havia violado seu espaço pessoal algumas vezes. — mas acho que você está certo.
— Eu queria que passássemos esta manhã nos divertindo, igual fazíamos quando você era criança — ele começou a andar de volta para a arquitetura de gelo.
— Desculpe, eu ainda não me acostumei com essa ideia de não lembrar-me de parte da minha vida. Como eu me esqueceria de alguém como você... Alguém como eu.
— É o que a magia dos trolls faz, retira as memórias que podem ser dolorosas ou perigosas demais... — Elsa notou a amargura na resposta do menino, como se aquelas palavras deixassem um gosto ruim ao serem ditas.
— Mas o quê aconteceu de tão ruim assim?
— Algo que você não conseguiu conviver e tentou acabar com a culpa... — Ele fechou os olhos, se negando a reviver aquelas lembranças. — Mas isso não importa mais.
— Tem razão — a loira mentiu novamente, e desta vez rezou para que o garoto estivesse tão perdido em seus pensamentos que não notasse isso. Sentiu-se culpada por trazer memórias doloridas de seu passado oculto, mas estava curiosa como nunca para descobrir o que aconteceu. — Mas eu queria tanto saber como nós nos divertíamos antes...
— Como é? — Ele sorriu e a encarou. Os enormes olhos azuis da menina pareciam os lagos de Arendelle no verão. — Você está exausta para fazer qualquer coisa agora.
— Ah, não seja chato — Elsa levantou a sobrancelha e tentou usar sua ironia com um belo sorriso. — Pensei que fosse querer fazer um voo por Arendelle, de novo. Ou algo assim.
— Ah eu sou chato? — Ele pôs a menina de pé no chão e respondeu também com sarcasmo — Até algumas horas atrás eu era o “Sr. Frost” lembra?
— Isso foi quando eu não o conhecia ainda — olhou para a ponta de sua longa capa, desviando o olhar de Jack, que notou que a Rainha já havia se recuperado da fraqueza.
— E agora você me conhece? — o albino pôs as mãos na cintura. — Só passamos um dia juntos. Bem, pra você foi só um dia- Não que seja “só um dia” pra mim, mas é que...
— Jack, acalme-se — Elsa se virou para o rapaz. — Eu sei que foi só um dia e mesmo que eu não me lembre de você, é como se te conhecesse...
O menino sentiu uma necessidade enorme de tirá-los daquela onde de depressão. Não gostava de ver Elsa tão concentrada nesses assuntos desgastantes. Ela já tinha muitas responsabilidades pra sua idade e não queria que ela continuasse infeliz por pensamentos difíceis. Ele adorou vê-la usando ironia pela primeira vez quando o chamou de chato. O sorriso mais claro que o sol da menina aquecia seu interior e fazia até aquele momento sombrio se clarear. Foi então que lhe surgiu o jeito de alegrar as coisas. Abriu sua mão e nela materializou-se uma bola de neve tão branca como os dentes sorridentes da menina. Tomou impulso e arremessou-a na loira, acertando bem no meio de suas costas. Ela sentiu o impacto e olhou-o por cima do ombro, virando-se para o mesmo logo depois.
— O quê foi isso?
— Você não queria saber como nos divertíamos? — Ele fez um gesto como se apresentasse um show para plateia, abrindo os braços e com um sorriso espontâneo. — Aí está!
— Mas isto não é justo! — Ela juntou as mãos e inclinou a cabeça. — Você controla seus poderes e, bem... Eu não.
— Palácio de gelo — Jack ficou sério e estreitou os olhos, como se dissesse “Sério?”.
— Okay, entendi o quê quis dizer — Elsa afastou os braços e fechou as mãos. — Como eu faço uma bola de neve com minha magia?
— Primeiro, algo que um velho amigo diz, tenha pensamentos leves — o garoto começou a flutuar e se deitou em seu cajado. — E depois disso, diga para si mesma que você merece esse poder e se esforce para tornar material o que quer.
A garota fechou os olhos e respirou devagar. Tentou ter pensamentos leves, mas não sabia bem o quê aquilo significava. Sua mente foi recebendo lembranças de momentos que usou seus poderes: Anna sendo acertada em cheio quando criança, o incidente do baile... Mas foi então que se recordou da alegria que viveu na infância com sua irmã e na felicidade que a caçula sentia ao ver Elsa usando a magia. Também focou na voz de Jack a incentivando noite passada a criar aquela bela arquitetura de gelo e notou o vestido que utilizava. A beleza e sua magia, Anna, Jack, esses eram seus pensamentos leves. Disse para si mesma que merecia ser feliz mesmo que isolada e ter liberdade para ser quem era sem machucar ninguém. Seus poderes podiam ajuda-la e foi quando pensou em bolas de neve. Jack planava quando foi acertado por uma tempestade de bolas de neve vindas das palmas de Elsa. Ele caiu sobre a neve e foi soterrado pela neve. Elsa abriu os olhos e notou que dezenas de esferas brancas saíam de suas mãos e Jack coberto de neve, fazendo suas caretas.
— Desculpe — se desconcentrou e a enxurrada parou.
— Não se desculpe! — ele deu um pulo que fez toda a neve presa em si cair. — Aquilo foi incrível!
— Não, você podia ter se machucado... — Elsa recuou lentamente.
— Eu sou imortal, esqueceu? — O menino usou seus poderes para desaparecer e reaparecer por trás da loira, fazendo com que ela esbarrasse em si e continuou com um sorriso. — Nunca vai me machucar.
Ele entendeu que estavam voltando para o assunto “proibido”, então pôs sua mão no queixo de Elsa e levantou seu rosto fazendo com que se olhassem nos olhos. Seu olhar percorreu por toda a face da garota, desde seus longos cabelos — tão loiros que pareciam brancos como os seus —, sua pele pálida como a neve e seus olhos azuis como o céu, até seus lábios delicados e vermelhos como sangue e seus dentes alvos como a Lua. Toda vez que parava para observar a menina que conhecia há anos e aceitava o fato de que ela havia crescido sentia algo em seu peito que não sabia explicar, mas era como se todos os seus problemas do passado se esvaíssem.
A Rainha por sua vez não perdeu a oportunidade de admirar o rosto do rapaz. As madeixas curtas e brancas do menino eram como seu caráter: únicos. As íris eram tão azuis como as suas e sua pele era quase tão branca quanto o cabelo. A boca do rapaz era bem desenhada e parecia que a atraía. Carregava nos olhos uma mistura de felicidade, pureza e dificuldades que ela desconhecia. Ele era um livro aberto para ela, assim como ela tinha certeza que era para ele. Porém, alguns capítulos deste livro estavam ofuscados e ela não conseguia lê-los. Mesmo que estivesse há cinco centímetros de distância deste livro.
— Quero que me acerte de novo — Jack começou.
— O quê? — A rainha foi tirada de seu transe. — Não, não dá. Aquilo foi um incidente, não vai se repetir. Agora vamos, acho melhor voltarmos para o castelo.
— Ah, vamos lá! — Jack lamentou como Anna fazia quando era criança, mas Elsa continuou a andar, deixando o menino para trás. Fio então que ele fez outra bola de neve e arremessou na jovem. — Vamos, faça de novo! Vamos, vamos, vamos! — E a cada ‘vamos’ era mais uma bola de neve criada em suas mãos e arremessada.
Elsa se segurou para não rir e continuar andando, mas a alegria de Frost era contagiante. Por volta da quarta bola de neve que a atingiu, ela parou de caminhar. Sem que o garoto pudesse ver, ela riu com o canto dos lábios e o olhou por cima dos ombros. Lembrou-se das dicas dele para controlar os poderes e repetiu os passos. Desta vez, se esforçou mais do que nunca para manter as coisas sobre controle e ao invés de uma enxurrada de bolas de neve, ela resolveu fazer somente uma e compensar em tamanho. Desenhou no ar com suas mãos várias espirais e quando as ergueu sobre a cabeça surgiu uma enorme bola de neve, com um metro de raio. Jack ficou boquiaberto e paralisado, Elsa sorriu e se virou para ele, arremessando o amontoado de neve no rapaz que perdeu o ar quando atingido.
— Esta foi boa o bastante pra você? — Elsa caminhou até o monte de neve no qual Jack estava soterrado e somente com os pés livres.
— Isso foi maravilhoso! — Disse quando Elsa o ajudou a emergir. — Mas acho que você vai querer voltar para o palácio agora...
— Agora que a brincadeira está começando a ficar boa? — A jovem encarou o menino com um olhar sugestivo.
— É exatamente por isso que você vai querer ir para o castelo — o albino sorriu sarcasticamente e fez um gesto sutil com a mão direita.
Imediatamente, por trás de Elsa, um gigante boneco de neve se formou e os jovens o observaram. Jack estava sorridente e Elsa, aterrorizada. O menino abraçou a loira pelas costas, prendendo os braços dela.
— Agora! — O homem de neve pulou em cima dos dois e Elsa gritou, esperando uma tonelada de neve esmaga-la, mas não foi bem assim.
Eles somente ficaram com neve em partes onde não deveria ter nada extremamente frio. O boneco se desfez com o impacto e eles ficaram com neve até a cintura e com um sopro o menino afastou a nevasca, os libertando. Ele ria como uma criança e Elsa estava assustada ainda.
— Okay, me desculpe pelo susto — Jack disse secando uma lágrima de tanto que riu. — Mas foi engraçado.
— Teria sido engraçado se não tivesse sido aterrorizante — a menina o olhou com o canto dos olhos.
— Ah, me perdoe Floco de Neve ... — o garoto pegou na mão da rainha e a beijou, a mão mais leve que ele já tocara. — tentarei não assustá-la de novo.
— ‘Floco de Neve’? — Elsa sorriu, desconfiada — Não era ‘Elsie’?
— Tem razão, ‘Elsie’ é mais prático.
— De qualquer forma, Sr. Frost, acho que o senhor deve ser punido por assustar a sua Rainha — a jovem disse recuando e sorrindo. Pôs as duas mãos atrás de si e formou uma pequena bola de neve.
— Ah, eu devo mesmo — o menino não pretendia, mas sua resposta soou mais sexual do que pretendia. Seu olhar também ajudou na sexualidade. — Fui um menino muito mal, não? Me puna.
— Sim, — Elsa se aproximou do menino novamente, ficando bem próxima e passou uma de suas mãos nos cabelos do garoto, parando em seu pescoço. Estavam mais perto do que nunca — irei puni-lo.
Com sua outra mão, atingiu o rosto de Jack com a esfera de neve e saiu correndo pelas colinas brancas, rindo. Ele se recuperou e partiu atrás dela, segurando seu cajado e sem voar. Queria curtir aquele momento como uma pessoa normal. Com facilidade, alcançou a menina afinal os saltos não a davam muita facilidade para correr sobre cinquenta centímetros de neve. Ele pulou na garota, fazendo com que os dois caíssem e rolassem morro abaixo em meio a risadas. Passaram a tarde fazendo guerra de neve. Realmente foi uma guerra, com direito amuralhas de gelo por parte de Elsa e a exército de bonecos de Jack. Ao fim da tarde, decidiram que era hora de voltar para o palácio glacial. Foram caminhando, queriam aproveitar o resto do dia em todos os aspectos, inclusive a presença um do outro.
— Então, — Jack puxou o assunto — o quê achou de seu primeiro dia de liberdade, Vossa Majestade?
— O melhor dia da minha vida! — Elsa parou o menino com um movimento do braço e apontou para o sol que já se punha. — Mas a melhor parte é agora: o pôr do sol. Vejo pela janela do meu quarto há anos e quero apreciar ao ar livre agora.
— Permita-me — o jovem passou seu braço pela cintura da loira e a puxou para perto. Seus corpos estavam colados e ela podia sentir o abdômen definido do rapaz e seu peitoral assim como ele sentia aquele delicado corpo feminino e os seios fartos. Os levitou até o galho mais alto da árvore mais alta daquele bosque e pôs a menina em segurança sobre ele, sentando-se ao seu lado. — Agora você terá uma vista privilegiada.
— Obrigada — agradeceu pondo sua mão sobre a do albino e fazendo contato visual, quebrando-o logo depois. — Só queria que Anna estivesse aqui.
— Eu nunca tive a oportunidade de ver vocês juntas se divertindo, desde que as conheço.
— Quando você me conheceu? — Elsa continuava com o olhar fixo no céu.
— Acho que foi logo no dia em que separaram vocês, digo, pelo acidente.
— Ah sim, aquele dia — sua voz soava melancólica e ele pode ver lágrimas se formando em seus olhos, mas ela balançou a cabeça para fugir daqueles pensamentos. — Pelo menos houve um benefício nisso tudo...
— Qual? — Jack se espantou, Elsa nunca havia sido otimista quanto a nada nesses últimos anos.
— Ter me libertado e salvado meu povo da minha maldição... — Desviou o olhar para o solo a metros abaixo de si e murmurou algo para o menino em tom mais baixo.
— O quê você disse? — Falou pondo a mão atrás da orelha para ouvir melhor.
— Eu disse que, além disso, ainda ganhei um dia com o garroto mais infantil de centenas de anos que já conheci — a loira não podia ver, mas tinha certeza que havia corado ao dizer aquilo. — Mas eu preferiria ser uma prisioneira torturada numa câmara escura se a minha irmã pudesse me visitar em minha cela todos os dias... — Ao redor da rainha, flocos de neve começaram a cair lentamente.
— Hey, não fique assim — ele já havia visto aquilo várias vezes. A fonte da magia de Elsa vinha do coração, portanto, ela deveria aprender a controlar as suas emoções para obter domínio sobre sua mágica. Seus poderes refletiam seus sentimentos e aquela neve que caía era claramente tristeza. — Acho melhor pararmos de falar por enquanto, se não perderemos o pôr do sol.
Os dois se viraram novamente para o céu e notaram que o astro rei já havia se posto pela metade. O céu estava alaranjado e os raios solares refletidos na neve faziam com que a paisagem brilhasse. Ela olhou com o canto dos olhos para Jack e notou que ele parecia triste, como se aquele momento lhe trouxesse memórias dolorosas e ele realmente se sentia assim, apesar de não ter ideia de que lembranças eram aquelas. Apenas sentia a dor. Ficaram ali parados por alguns minutos até que a noite caiu. Jack ergueu o antebraço direito e os dois jovens foram envolvidos por uma nuvem branca gelada, mas parecida com névoa condensada, e quando esta se dissipou, os dois estavam em frente à escadaria que dava para o castelo de gelo.
— Ainda tenho que me acostumar com isso — a irmã de Anna ficou meio desnorteada com o transporte mágico, mas logo se recompôs e notou que Jack ainda estava calado e sua expressão não era das melhores. Era como se ele estivesse enfrentando alguém invisível, fazendo uma força enorme em seu interior. — Jack, está tudo bem?
— Não sei... — Ele balançou a cabeça em negação, ainda focando seu olhar no solo. — Eu senti como se estivesse num deja vú. Você estava lá, mas não era você realmente... Ah, eu acho que foi um delírio por causa da luz do sol.
— É... — Elsa fingiu concordar, mas ficou um pouco preocupada com aquilo. — Deve ter sido.
— O mais engraçado é que depois do deja vú, a imagem mudou.
— Mudou para quê?
— Eu me olhado num lago, mas no meu reflexo meus cabelos eram negros como a noite e meus olhos eram amarelos — o garoto passou a mão na nuca, como se aquilo fosse loucura e ele estivesse envergonhado de falar sobre aquilo. — Loucura, não?
— Sim... — a jovem sentiu um arrepio na espinha com aquele assunto. — Totalmente.
— Mas agora acho melhor você subir — ele apontou com o cajado para a escada de gelo que ela fizera naquela madrugada e que levava para a entrada do castelo. — Deve estar muito cansada, não dorme há dois dias praticamente.
— Sim, mas e quanto a você? — Ela passou os dedos em sua trança descansada sobre o ombro direito, evitando qualquer contato visual com o rapaz. — Não quer subir e descansar? Posso fazer um quarto para você.
— Muito obrigado, Sua Alteza — ele achava engraçado chamá-la pelo título de realeza. — Mas eu não preciso dormir. De vez em quando eu faço, para não perder o costume, mas não preciso realmente.
— E o quê vai ficar fazendo a noite toda?
— Não sei... — Ele estivou uma perna e deu um passo sem dobrá-la, fazendo o mesmo com a outra perna, se movendo como um quebra-nozes. — Caminhar pelo bosque, tomar conta de você, me lembrar daquela música que tocou na sua coroação...
— Aquela música é linda... — Ela olhou para a lua. — Era a preferida dos meus pais. Eles dançaram aquela valsa em seu casamento...
— Sim, — o rapaz focou o olhar em Elsa e a achou estonteante à luz prateada da lua. Ele achava que não havia como ela ficar mais bonita, mas cada vez que olhava para ela via sua beleza se superando. Os olhos azuis tomavam um brilho sobrenatural com a noite e os cristais de gelo em seu vestido e em sua capa cintilavam como as batidas aceleradas de seu coração ao admirar aquela mulher. — ela é linda.
— Agora acho que vou me recolher — Elsa cruzou os braços, virou de costas para o rapaz e caminhou até a escada. — Boa noite Jack.
— Sabe o quê acabo de perceber? — Jack chamou a atenção da mulher, fazendo-a parar na base da escada.
— O quê? — Já havia posto uma das mãos no corrimão e subido um lance de degrau. Sua longa capa arrastando na neve a deixava mais bela. Ela se virou para o rapaz sem sair do lugar.
— Bem... — o albino deu alguns passos para o lado, como se estivesse tímido. — Você foi coroada Rainha, em um baile luxuoso e ainda não teve sua primeira dança como governante.
— Na verdade eu nunca dancei realmente... — Sorriu, envergonhada. — Só quando eu era menor. Meus pais me deram aulas de valsa. Meu pai me colocava sobre os pés dele, segurava minhas mãos e dançava. Depois disso, ele tomava minha mãe para a dança e eu ficara assistindo, como se estivesse observando uma chuva de estrelas cadentes... Mas depois daquele acidente, nunca mais dançamos. Acho que eles deixaram de lado porque nunca pensariam que eu fosse precisar, pois nunca iria me casar ou que eu iria se chamada em algum baile para dançar...
— Eu nunca aprendi a dançar, mas eu já bisbilhotei vários bailes e me lembro de alguns passos... — Jack fez um círculo com seu cajado e a planície de neve se transformou num campo de gelo. No centro, fez brotar em meio a lampejos de luzes brancas, ao ar frio e a geada, um grande chafariz circular. A água que supostamente deveria estar escorrendo, era uma cascata de gelo. Elsa assistia a tudo com brilho nos olhos. O chafariz detinha três andares, que decresciam de baixo para cima. Na base, que era o primeiro e maior degrau, Jack fez um boneco de neve que tocava piano feito de gelo. No segundo, acima do pianista, havia outro que sabia tocar violoncelo também de gelo e no último e menor degrau havia outro que trocava o triângulo do mesmo material dos demais instrumentos. Juntos, os três reproduziam quase que exatamente a mesma sinfonia que tocou durante a coroação de Elsa. — Mas você pode me ensinar. Concede-me esta dança?
A loira não podia acreditar no que estava vendo. Ela achou que o castelo de gelo era a coisa mais linda que já vira, mas agora não tinha mais tanta certeza. Aquilo era lindo demais: o chafariz, os músicos de neve com instrumentos de gelo, o campo glacial e a companhia da noite. As estrelas e a lua faziam tudo ficar mais encantador com seu brilho. Ela ficou um tempo parada, inerte e sem ar e Jack começou a se sentir mais envergonhado pela demora da resposta. Foi então que ele afirmou ter se esquecido de uma coisa, logo, jogou seu bastão para o alto e o deixou flutuando sobre sua cabeça. Fez um movimento com o braço, como se mandasse algo subir do solo, fazendo com que ele fosse novamente envolvido por aquela nuvem branca de neve que durou não mais que dois segundos. Quando se dissipou, Elsa viu que Jack havia trocado de roupa com sua magia. Agora ele não mais usava o xale esfarrapado ou o blusão branco por baixo. Estava usando um blusão de frio azul escuro e uma calça marrom, mas ainda estava descalço. Por fim, ergueu a mão direita e o cajado foi de encontro a ela, mas quando chegou ao contato do rapaz, o bastão se transformou numa rosa feita de gelo.
— Agora está melhor, Vossa Alteza? — Perguntou, estendendo a flor glacial para a donzela.
— Você é louco, — falou rindo e descendo da escada e caminhando lentamente até o rapaz com um sorriso nos lábios — mas eu aceito.
— Que honra — enquanto ela se aproximava, percorreu seu corpo inteiro com os olhos. O desenho do corpo da menina era único para o menino: sua cintura fina, seus bustos e quadris avantajados, mas não vulgares, aquela perna que ficava para fora do vestido por conta da fenda, era tudo perfeito. E ele não sabia fingir-se de nobre muito bem, o que fazia com que ambos rissem continuamente. Ele se curvou para a rainha e lhe entregou a flor.
Take my hand, take a breath,
Pull me close
And take one step.
Keep your eyes locked on mine
And let the music be your guide.
Ela pegou na não do rapaz e os conduziu até perto do chafariz, depositou a rosa sobre a borda da construção e se virou para o menino.
— Pegue minha mão... — Elsa estendeu a mão para o rapaz graciosamente e Jack o fez sem hesitar, porém com delicadeza. — Tome fôlego... — Novamente o jovem seguiu as ordens, nervoso. — Puxe-me pra perto, — não conseguia mais respirar, mas fez o que ela aconselhou. Puxou-a levemente para perto, fazendo com que o espaço entre os dois fosse mínimo, mas não chegando a encostarem um no outro. Nunca estivera tão nervoso perto de Elsa, era como se seu coração voltasse a bater e o contato entre ele e a mulher o deixasse indefeso — e dê um passo.
Ao tentar dar o passo, o garoto olhou para os pés dos dois. Elsa usou sua outra mão para tocar o rosto do rapaz que estava a cinco centímetros do seu. Ela passou a mão pelas bochechas e foi até o cabelo curto do menino, entrelaçando os dedos pelos fios e eles se olharam.
— Mantenha seus olhos presos aos meus e deixe a música te guiar — ela retirou a mão dos cabelos de Frost e, sem parar de olhar nos olhos dele, pegou a outra mão do rapaz e a fez segurar-lhe na cintura. Achou ter visto a o menino corar, apesar de saber que aquilo era impossível. Por fim, pôs sua mão delicada no ombro do homem e com isso, eles começaram a tentar dançar.
O som entrava pelos ouvidos de ambos, e era tão belo que era como carícias em seus tímpanos. Jack teve dificuldade para pegar o ritmo sem olhar para os pés, mas não foi difícil ficar olhando para Elsa já que ela chamava toda a sua atenção. Elsa movia-se como uma fada, enquanto Frost estava movimentava-se rigidamente. Elsa ria um pouco pelo nervosismo do rapaz, que deveria ser por estar sendo guiado por ela ao invés de ele ser o guia da dança.
— Agora vamos ver se aprendeu — parou e se separou do rapaz, ficando frente a frente com o mesmo. A música lenta ainda enchia o local.
— Pegue minha mão, — Jack estendeu a mão para o jovem e ela, sorrindo, a segurou — eu tomo o comando — ele a puxou para perto e começou a dançar totalmente diferente de como estava antes.
Take my hand, I'll take the lead
And every turn, will be safe with me.
Don't be afraid,
Afraid to fall,
You know I catch you through it all
Parecia que havia pegado o jeito de um segundo para outro. Foi guiando a dança de forma que se moviam na direção das costas de Elsa, logo ela não via para onde estava indo. Ele usou sua magia para criar uma rampa sem que Elsa percebesse, fazendo com que eles fossem subindo em direção ao céu em meio a dança. A loira só notou quando já estavam fora do chão. A rampa crescia conforme ambos avançassem, mas de repente, ele deixou que ela parasse de crescer, levando os dois para a queda. Elsa sentiu o chão sumir, mas não gritou quando caiu. Estava pasma com o olhar de Jack, que era hipnotizante de tão belo, e, além disso, ela confiava nele. Ela caiu por uns dois metros e quando sofreria o impacto, foi pega nos braços pelo menino. Ele havia desaparecido e se materializado no solo para pegá-la em seus braços. E os rostos dos dois estavam muito próximos, e Elsa passou os dois braços pelo pescoço do rapaz.
— Não tenha medo de cair, — falou olhando nos olhos da dama — você sabe que te pegarei.
Ele a pôs no chão e eles recomeçaram a dança, Jack desfez a ponte, fazendo com que vários flocos de neve ficassem passando ao redor deles enquanto dançavam. Seus passos estavam sincronizados, era como se tivessem dançado juntos há anos. Bailaram ao redor da fonte, cercados pela neve cintilante que já parava de planar. Elsa sentia a mão fria de Jack em sua cintura e inexplicavelmente ela transmitia impulsos quentes para todo o seu corpo. Com as mãos dadas, ela sentia segurança vinda dele. O sorriso que estampava no rosto para o albino era o mais genuíno de sua vida, somente Anna havia recebido tal sorriso antes. E o rapaz sentia como se a mão de Elsa que repousava em seu ombro fosse o seu mais precioso tesouro, e ele não podia fazer movimentos bruscos para não deixa-la cair e se quebrar. Era como se o contato entre suas mãos fizesse com que borboletas voassem em seu estômago, e ele não se lembrava de ter se sentido assim nunca em suas centenas de anos.
It's like catching lighting.
The chances we finding
Someone like you
It's one in a million
The chances we feeling the way we do.
And with every step together
We just keep on getting better
So can I have this dance?
Ele a girou em seu próprio eixo, sem deixar de soltar a sua mão. Quando ela parou e o contato visual retornou, ele a puxou para perto. Mas desta vez, eles não ficaram cara a cara, pois Elsa ficou de costas para o rapaz. O menino sentia o calor que emanava da pele da dama por conta da proximidade em que estavam. Jack pôs seus lábios em contato com o pescoço da loira e ela levou um pequeno susto porque pensara que os lábios de Frost eram o próprio inverno e se surpreendeu com a ternura e com o calor. Sentia o peitoral do homem encostando em seu dorso e por mais inocente que aquele momento fosse, sentiu as partes dele em contato com seus glúteos, tamanha era a proximidade entre os dois. Jack sentia o perfume de Elsa que o lembrava de chocolate e hortênsias, as flores fortes e belas que sobrevivem mesmo aos invernos mais rigorosos. Seu aroma era sutil e inesquecível, como a própria rainha.
Queriam que aquela noite durasse para sempre e que eles ficassem colados daquele jeito. Claro, eram desejos secretos e eles não revelariam isto um para o outro, mas não sabiam mais o quê sentiam um pelo outro. Elsa estava de costas para o rapaz, e mesmo assim eles bailavam sem nem mesmo um erro. Ela começava a achar que Jack havia mentido sobre não saber dançar. E ele realmente não sabia, mas era como se seus pés se movessem sozinhos. O impensável aconteceu: a música acabou. Os homens de neve pararam de tocas e ficaram parados como se esperassem ordens. Jack continuou tomando conta das costas de Elsa e sentindo o aroma de seu pescoço. Ela fechou os olhos e se lembrou da dor que sentiu ao perder Anna. Mesmo que ela não tendo morrido, elas nunca mais foram realmente amigas próximas. Perder alguém querido era horrível, era como se o amor fosse uma fraqueza. E ela não pretendia amar mais ninguém, já tinha fraquezas demais.
— Jack, você acha que algum dia eu vou conseguir recuperar a minha irmã? — Elsa perguntou enquanto lágrimas começavam a escorrer por suas bochechas.
— Como você pode recuperar uma coisa que nunca perdeu? — Ele fez um espelho de gelo se criar em sua mão e o estendeu. Ele apoiou seu queixo no ombro da menina para que ambos vissem as cenas que começaram a aparecer no cristal.
— Isto é... — Elsa continuava a chorar, mas prestava atenção nas imagens. — Somos eu e Anna quando menores...
— Esse amor que vocês sentem uma pela outra... — Ele falava e sua voz grave fazia Elsa tremer — Isso não se perde nunca. É uma das maiores forças que eu já vi. Nem o Homem da Lua consegue vencer isso.
— Homem da Lua? — Elsa perguntou, confusa.
— Longa história... Mas veja só, esqueça isso e olhe como vocês eram felizes. Você pode voltar para Arendelle e consertar tudo isso...
— Não posso... Eu sou um monstro, e pessoas como eu devem ficar presas ou sozinhas.
— Você nunca vai estar sozinha... — Você tem a mim, Rapunzel, Flynn e sua irmã. Você vai estar acompanhada mesmo que em pensamento. Isso que está passando no espelho são as suas lembranças mais queridas, sei que você faria de tudo pelas pessoas que ama e...
Jack percebeu que Elsa ficara mais pesada. Foi quando notou que era porque seu corpo havia relaxado, já que ela pegara no sono em seus braços. Ele desfez o cristal e pegou a dama no colo. Rapidamente, eles foram envolvidos pela nuvem branca e gelada e quando esta se fora, ambos estavam no quarto vazio do palácio de gelo. Foi quando Jack riu, notando que eles se esqueceram de fazer algumas mobílias, como uma cama. Ele se aproveitou do fato de Elsa ser muito leve e segurou-a com a mão esquerda, usando a direita para criar um divã digno de uma rainha. A estrutura rococó era feita de cristal e a almofada, de neve. A neve mais fofa que ele já fizera. Com cuidado, depositou Elsa no móvel e a ajeitou, para que não acordasse com dores no corpo.
Ajeitou sua capa e utilizou um feitiço temporário que impediria a menina de sofrer hipotermia naquela noite. Já se preparava para sair voando pela sacada do quarto quando foi tomado novamente pela beleza da menina. Ele a observou por uns segundos e no silêncio da noite passou a mão pela bochecha da loira, sentindo sua pele de pêssego. Lembrou-se de quando ela era menor e eles passavam as madrugadas brincando de tiro ao alvo com flechas de gelo no quarto da menina. Sim, era perigoso, mas ele não deixaria nada de ruim acertar Elsa. Quando ouviam passos se aproximando do cômodo, Jack sumia com tudo antes que entrassem. Beijou então o rosto da jovem e desejou-lhe boa noite ao pé do ouvido.
Saiu voando pela sacada e foi parar na fonte que criara do lado de fora do castelo. Ergueu a mão e o chafariz e os instrumentos de gelo se desfizeram. Os homens de neve caíram no gelo e dois deles se desfizeram. Estalou os dedos e o campo de gelo voltara a se encher de neve. A rosa de gelo retornou à sua palma e voltou à sua forma de bastão. A roupa ele decidiu deixar daquele jeito, pois havia gostado da praticidade. Encarou a Lua e lembrou-se que já havia sumido por um dia, e que Anna e os outros estavam sem rumo na floresta, esperando um sinal dele para que fossem encontrar Elsa. Ela nem mesmo sabia que havia criado um inverno eterno em todo o reino. Mas ao mesmo tempo que ele havia prometido ajuda-los a achar Elsa, ele não podia destruir a felicidade da loira levando-a de volta para sua prisão. O albino abriu sua mão e um floco de gelo do tamanho da palma apareceu.
— Isso deverá servir — ele encarou o objeto. — Vá até as proximidades do reino e traga os que procuram Elsa para cá.
Sua dúvida o consumia. Se ele cumprisse a promessa, estaria contribuindo para o aprisionamento de Elsa numa vida que ela não queria. Mas ao mesmo tempo, estaria reunindo irmãs. E se ele desistisse de ajuda-los e vivesse ali com a Elsa? Talvez pudesse fazê-la feliz como era criança, mas aí Anna e os outros provavelmente passariam o resto dos seus dias procurando Elsa, até que se perdessem e morressem por hipotermia ou desnutridos. E se sobrevivessem, na melhor das hipóteses, Anna viveria infeliz.
— Preciso pensar... — Jack abaixou sua mão e se sentou na neve. O floco de gelo continuou girando e flutuando em sua frente, esperando um toque para cumprir as ordens que Jack dera de encontrar o grupo próximo de Arendelle e leva-los até Elsa.
Enquanto isso, Elsa dormia profundamente no divã, e sonhava algo tão realista que ela pensou estar acordada. Estava de volta em seu quarto, trancada como sempre. Ouvia passos se aproximando da porta de seu quarto e corria para a porta, com o intuito de escutar alguma conversa paralela. Por azar, era Anna que bateu em sua porta pedindo para entrar. Dolorida, disse para ela que fosse embora.
— Você não vai escapar de mim... — A voz de Anna tornou-se grave, odiosa e fria.
— Você não é a Anna... — Elsa disse se afastando da porta.
— Não sou sua irmã, — a loira viu a porta se abrindo lentamente, a maçaneta girando e uma mão magra, pálida e enrugada surgindo, acenando. Fechou os olhos pois não queria ver o terror que era dono da mão entrando.
Sentiu uma ventania e abriu os olhos. Não estava mais em seu quarto, mas no baile de coroação com todos a encarando. Estava encurralada e dessa vez não havia porta para que pudesse fugir. “Monstro”, ela os ouvia dizer. “Aberração”, “Não há lugar nesse mundo pra esses monstros”. Até Anna a repreendia com uma expressão de raiva e todos começaram a caminhar em direção a Elsa.
— Fiquem longe! — Ela estendia as mãos em suplica, mas eles não atendiam. — Não quero machuca-los, por favor.
— Eles não podem fazer nada — a voz que a amedrontou em seu quarto voltou a falar, mas ela não conseguia distinguir de onde vinha. Olhou para todos os lados, à procura do locutor, mas nada achou. — É da natureza dos humanos odiar e perseguir o que é diferente. Mas não é o seu caso é, Elsa?
— Quem é você? — Ela gritou, se encolhendo no chão do salão.
— Estou mais interessando em saber quem é você — os olhos das pessoas que a ameaçavam tornaram-se negros como ébano. — Você não é só diferente, oh não. Você é uma ameaça a eles, à vida deles.
— Pare com isso! — Ela se ergueu e observou que a multidão abria caminho para uma aura negra e sem forma que caminhava em direção a si.
— Está com medo, querida? — A aura se aproximou tanto de Elsa que ela tentava atravessar a parede para manter-se longe da escuridão. O espectro era mórbido e frio, e não era o frio confortável com o qual estava acostumada. Este frio a intimidava, como se estivesse à mercê da morte em si. No meio da fumaça negra, dois olhos amarelos se abriram. Ameaçadores, maníacos e cautelosos, eles a encaravam arregalados. — Que tal mostrar para estes vermes o quão poderoso pode ser o seu medo?
— Pare já com isso! — Elsa foi tomada pelo desespero e pela raiva, então tentou atingir o inimigo com um raio de gelo oriundo de suas mãos, mas o ataque passou direto pela ser. Ela ouviu um grito familiar e a sombra abriu espaço para que ela passasse e visse Anna caída no chão.
— Anna! — Ela correu até a irmã e se jogou ao seu lado, colocando a cabeça da irmã em seu colo. Passou a mão pelo rosto frio e cansado da irmã. — Anna! O quê há de errado?
— Você... — Anna disse com as poucas forças que lhe restavam, e mesmo assim as palavras eram carregadas com raiva — Você é mesmo um monstro... Deveria ter sido você à afundar naquele navio.
— Anna? — Elsa sentiu como se uma lança tivesse atravessado o seu peito, não só pela confissão de sua irmã, mas por sentir que seu corpo havia sucumbido ao seu ataque. — O quê está acontecendo? — Ela se virou para a sombra que a observava quieta e impiedosa e quando viu que não obteria uma resposta, voltou-se para a irmã em seu colo e a envolveu com os braços com lágrimas caindo de seus olhos. — Anna, não me deixe, por favor... O quê vou fazer?
— Bah, essa insuportável mereceu — a voz encheu a sala e só então Elsa percebeu que os outros convidados haviam parado de se mover.
— Cale a boca! — A loira se virou para a sombra com os olhos vermelhos de raiva. Nunca havia sentido tanto ódio em toda a sua vida. — Você a matou! Você que havia a enfeitiçado... — Disse voltando a sentir a dor da perda e abraçando mais o corpo de Anna.
— Oh, mas não fui eu querida... Foi você. — Elsa arregalou os olhos como se todo o peso do mundo caindo sobre si. — Você usou as maiores forças que existem: o medo, a raiva... Eles fazem com que descubramos forças que nunca imaginávamos ter — o desconhecido se aproximou de Elsa e ficou ao seu lado enquanto ela olhava para a caçula desfalecida. — E ainda ganhou um bônus... Retirou de seu caminho sua irmã, que só atrapalha.
— O quê você quer? — Conseguiu dizer em meio a tristeza, sem olhar para o lado.
— Quero que você renda-se ao seu medo, renda-se a mim, ou então essa sua dor não ficará apenas no mundo dos sonhos, minha querida.
Elsa viu tudo ao seu redor desmoronar. O salão se desfez em trevas e as pessoas evaporaram em almas gritando em desespero. De longe a cena mais perturbadora que já vira, e até mesmo Anna explodira em fumaça negra e foi quando o chão se partiu e a loira caiu na escuridão.
Jack ainda estava sentado na neve, observando o floco de neve e o desajeitado boneco quando ouviu os gritos de Elsa.
— Elsa! — Prontamente, pegou impulso para voar até o quarto da dama e, quando chegou à sacada (o que não demorou nem mesmo cinco segundos tamanha foi sua pressa), encontrou Elsa caída no chão com as mãos na cabeça e entregue às lágrimas. — O quê aconteceu?
A menina não respondeu então ele correu até seu lado e pôs a mão em seu ombro, tentando acalmá-la. Quando sentiu o toque másculo e firme de Jack, Elsa o encarou sem parar de chorar e o abraçou. Assustado, o garoto demorou um pouco para retribuir. Não conseguia parar de se perguntar o quê havia acontecido. Talvez um pesadelo, como os que ela tinha quando era criança. Foi quando ele se lembrou do quê fazia naquela época: ficava o resto da noite abraçado com a jovem, mesmo quando ela pegava no sono para que sentisse que estava segura. E foi o que ele resolveu fazer, ficar abraçado com Elsa a noite inteira e não demorou muito para que ela pegasse no sono novamente em seus braços. Desta vez, ela dormiu tranquilamente.
Lá fora, no pé da escada, o boneco de neve tentava se sustentar em pé e acabou esbarrando no floco de neve criado por Jack. O objeto tremeu e foi acionado, partindo rapidamente para a floresta em direção à Arendelle. Mas não sem antes atravessar o boneco de neve, destruindo-o com sua velocidade. O floco tinha somente o dever de seguir às ordens de Jack: achar um grupo que procura por Elsa, perto do reino, e leva-los até o palácio de gelo.
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