Once Upon a Time in Hidden Islands
7 A Life For a Life
Notas iniciais

O dia da coroação tinha começado quando Merida e sua tripulação avistaram Arendelle. Estava claro que um navio estranho chegando ao porto não seria nada sutil e que provavelmente teriam problemas com os guardas do reino. A princesa ruiva botou seu clássico vestido e certificou-se que sua adaga estava bem presa em seu lugar e sentiu falta de seu arco. O havia esquecido em seu quarto e agora estava desarmada a não ser por sua lâmina de trinta centímetros. Foi até a bacia cheia d’água no canto da janela e juntou as mãos. Mergulhou-as e jogou um pouco do líquido no rosto. Precisava estar mais acordada do que nunca.
— Espero não chamar muita atenção.
Já saía da cabine quando algo a fez parar. Lembrou-se de sua mãe e das aulas de etiqueta que forçava a filha a assistir. Sempre dizia algo como “Uma princesa não fala alto”, “Uma princesa é gentil, calma e delicada” e “Uma princesa deve estar sempre deslumbrante”. Isso sempre fez com que Merida quisesse vomitar. Mas também se lembrou das dicas da rainha para um baile: usar vestido que fosse uma armadilha para príncipes; estar com pele e cabelos bem limpos; maquiagem que tirasse o ar dos rapazes.
— Não acredito que estou fazendo isso... — Disse enquanto deu meia volta e abriu seu armário.
Entre xales de peles de ursos e outros animais e vestidos casuais, havia pendurado num cabide um vestido de festa. Não era qualquer vestido. Era o vestido em que as melhores costureiras de DunBroch haviam trabalhado por um ano inteiro. Elinor havia pagado elas para construírem o vestido para o aniversário de dezesseis anos da ruiva. Mas ela de fato não o usou. Na verdade, ela sumiu na floresta para não ter que ficar presa em nenhum baile. Agora, sabia que provavelmente enfrentaria um desses bailes reais — levando em conta que sobrevivesse aos guardas. O vestido era do mais vibrante dos vermelhos. No torso do vestuário, o tecido escurecia um pouco. A parte de baixo da roupa era... Espaçosa. Parecia uma grande copa de árvore, só que vermelha e cheia de detalhes. Era feito da mais fina seda, vinda diretamente de Agrabah. Uma fortuna. Não era tomara que caia. Uma manga curta vermelha se erguia no ombro direito.
— Não acredito mesmo.
Merida sabia que não sairiam vivos se chegassem com um navio inimigo num reino cheio de soldados. Mas ela tinha que conseguir. Tinha sido mandada ali para matar uma pessoa... O que tomava boa parte de seus pensamentos. “Quem sou eu pra tirar a vida de outra pessoa?”. Essa frase sempre soava em sua mente. Mas se não o fizesse, provavelmente ouviria gritos de seus pais e seria forçada a usar vestidos engomados e cinco quilos de maquiagem por noite pelo resto da vida.
— Não tenho muito tempo — agarrou o cabide e socou o vestido dentro de uma sacola de pano qualquer.
Pensou em jogar o cabide no chão, mas resolveu colocá-lo junto com o vestido. Olhou para o canto da cabine e achou o que procurava: um par de sapatos pretos como ébano. E para piorar a situação ainda era de salto alto. Merida abominava tudo aquilo, contudo não havia outra opção. Ela teria que ir a um baile. E isso era pior do que enfrentar o maior exército. Terminou de arrumar sua bagagem e deixou-a em cima da cama. Olhou mais uma vez para a janela e viu a costa litorânea do reino. Era um lugar lindo. Então lhe veio um pensamento. Tinha que correr para o convés antes que fosse tarde demais. Saiu pela porta e a bateu tão forte que os poucos marinheiros no corredor se assustaram. Ela passou por eles como um raio e subiu as escadas para o convés. Teve que colocar a mão à frente dos olhos por causa da forte luz da manhã. Foi até o timão do navio e puxou Rufus pelo braço. Tomou o controle do navio de gritou para que subissem as velas e abaixassem a âncora.
— Está louca princesa? — Rufus já parava ao seu lado e a observava com atenção. A tripulação estava apática como se não soubessem se seguiam as ordens ou não.
— Pelo contrário meu amigo, — virou-se para o marujo e sorriu, logo voltando à expressão dura — se nós entrarmos no campo de visão do palácio teremos sérios problemas. Nossos inimigos vão retalhar o navio e perderemos o elemento surpresa. Pararemos por aqui e você me levará à terra firme com um bote.
Ele a fitou mais um pouco e estreitou as pálpebras como se quisesse quebrar aquela confiança ou ver até onde ela iria. Por fim se virou para a tripulação.
— Não ouviram a dama, seus ratos? — Berrou para os outros e foi ajudá-los a cumprir as ordens da dama.
Em poucos minutos, o barco estava parado a poucos quilômetros do litoral. Merida se despediu dos companheiros de viagem e desceu para pegar suas coisas. O saco com sua roupa — quase uma fantasia — pesava bastante. Não sabia se era a responsabilidade, o medo, o repúdio pela roupa ou realmente o peso do vestido. Pegou numa caixa escondida sob o colchão um colar de rubi e um anel da mesma joia. Subiu e Rufus já estava pronto para ir a terra.
Os primeiros minutos foram silenciosos. As ondas batiam no casco do bote e o balançavam. A princesa estava apoiada na borda da embarcação observando o mar. O marinheiro remava rapidamente. O sol não estava no alto do céu, logo, tinham a noção de que não era nem meio dia.
— O que tem de tão pesado aí? — O homem perguntou sem parar de remar.
— Algo que vai nos ajudar a cumprir as ordens do meu pai — respondeu sem olhar para o marinheiro.
— Como um vestido, sapatos e joias vão ajudar a tomar um reino?
— Como descobriu? — Agora sim o encarava e colocou uma das mãos sobre o saco ao seu lado.
— Esqueceu que sou um pirata? — O sarcasmo era evidente. Mas o homem percebeu que a menina não estava a fim de se abrir demais. — Então, me conte essa história de como nós dois vamos invadir um reino com uma espada e uma roupa de festa.
— “Nós dois”?
— Claro. Você achou mesmo que iria sozinha?
— Rufus, eu não acho isso. Tenho certeza.
— Madame Merida, não há chance de eu deixá-la sozinha contra Arendelle.
— Eu preciso de você no navio. Vocês não vão ficar parados...
— Então o que faremos?
— Vão prestar atenção. Se eu não voltar amanhã de manhã, invadam Arendelle.
— Então por que não esperamos para fazer isso? Para quê ir agora?
— Porque eu vou tentar passar pela defesa deles. Se eu consigo, significa que vocês também conseguem.
Ele a observou, sem parar de remar. Estavam a poucos metros das pedras. O resto do trajeto foi quieto. Somente o barulho do mar. Chegaram perto das pedras e Rufus o prendeu com uma corda que estava jogada dentro do transporte. Merida saiu da embarcação tão depressa que nem percebeu que Rufus se preparava para segui-la, mas ao se virar para despedir-se, reparou que o velho marinheiro já saía do bote atracado.
— O quê está fazendo? — Caminhou lentamente em sua direção.
— Você não pode entrar num reino inimigo desarmada...
— Não estou desarmada — pôs sua mão na adaga por cima do vestido, para ter certeza do que dizia.
— Acha mesmo que uma adaga vai te proteger de lanças e bestas carregadas com flechas — disse fazendo gestos com a mão para onde a adaga estava.
— Como você... — Ela não queria de fato saber COMO ele sabia da adaga, então decidiu evitar a pergunta. — Não importa, mas você não vai deixar os outros indefesos e desenformados, vai?
— Não posso fazer isso com a minha tripulação, por isso — ele retirou sua espada e segurou minhas mãos para que eu segurasse o cabo da arma — estou te entregando uma arma de confiança.
— Mas esta é a sua espada, — ela tentou devolvê-la ao marujo — não posso tomá-la de você.
— Não pode tomar algo que lhe foi dado — o homem se virou e voltou para o bote, deixando a princesa sozinha nas pedras.
— Obrigada Rufus — ela prendeu a espada em suas costas e acenou para o capitão. — Estou contando com você... Meu pai tem muita sorte de tê-lo como amigo e capitão.
— E seus pais tem muita sorte de tê-la como filha.
Com isso o homem de cabelos meio grisalhos empurrou o bote com os remos e o desencalhou da pedra. De volta ao mar, ele foi vigiado por Merida até que chegasse ao navio. Somente após ele estar a salvo, ela se virou e entrou nas terras de Arendelle. Talvez Rufus estivesse certo, mas ela não tinha tempo para pensar naquilo e não sabia se de fato era uma boa filha.
Depois de subir algumas rochas, encontrou finalmente um vale. Caminhou por ele e viu pássaros fazendo acrobacias no ar e esquilos escalando árvores. A grama parecia tão confortável que era como se chamasse a princesa para deitar-se sobre aquele verde. O céu estava sem muitas nuvens, mas a brisa se mantinha presente, fazendo com que as copas das árvores balançassem assim como o cabelo ruivo da menina. Suas madeixas pareciam dançar. Mais alguns passos à frente, avistou um riacho estreito que cortava o campo. Perto de sua margem havia uma árvore com galhos espaçados e longos.
— Bem... — Passou a mão nos cabelos, deixando o rosto livre de seus cachos. — Faz tempo que não tomo um banho de rio.
Correu até a árvore e viu um pássaro acompanhá-la, voando, até o destino. Chegando lá, a ave pousou num galho e ela retirou seu vestido de festa, com o cabide, e o pendurou no mesmo galho. “Ainda bem que trouxe o cabide” pensou consigo. Retirou a espada das costas e a encosto na base do cedro. Em seguida, deixou seu vestido escorregar pelos ombros e aterrissar na grama. Dobrou-o e o pôs na relva. Retirou o equipamento que segurava a adaga e o largou em cima do vestido dobrado. Sem mais incômodos, pulou no rio. A correnteza não era forte e muito menos o rio fundo. Merida mergulhou e aproveitou a água. Estava sozinha, mas estava livre. Pelo menos por uns momentos. Esfregou-se bem e lavou bastante o rosto. Ali, nua naquele vale, ao som do farfalhar das folhas e do vento, ela não era a descendente de DunBroch, Princesa Merida. Era somente uma garota, aproveitando sua tarde. Claro, antes de invadir um castelo e matar uma rainha (o que provavelmente desencadearia uma guerra).
Ao terminar seu banho, foi novamente para a relva e sentou-se sobre as raízes da árvore, para secar o excesso de água. A luz do sol passava por entre as folhas, fazendo um show de cores. Que tarde maravilhosa. Será que Arendelle era sempre assim? Por que seu pai queria destruir um lugar tão belo e calmo?
— Pare de pensar besteiras — disse para si mesma, balançando a cabeça para afastar o pensamento. — Não cabe a você decidir o que vai acontecer.
Passado algum tempo, levantou-se e pôs o vestido. Não sabia como havia ficado com aquela roupa, mas não queria descobrir. Aquilo era somente um trabalho. Pôs os sapatos e as joias. Já se preparava para seguir o rio, à caminho do centro do reino, quando ouviu um barulho altíssimo. Parecia o rugido indignado de um urso pardo, com uma única diferença: vinha de cima. Ela olhou para o céu, mas estava numa parte do vale onde as copas das árvores bloqueavam a visão. Somente pode notar a sombra de um animal alado muito grande.
— Era só o que me faltava — bufou e assoprou sua franja que caía sobre os olhos, tirando-a do campo de visão. Correu e apanhou suas armas e o vestido dobrado. — Fugir de um monstro voador com esses saltos.
Assim o fez. Saiu em disparada, se esgueirando pelos troncos e seguindo o leito do rio. O barulho e a sombra a perseguiam velozmente. O vestido atrapalhava bastante a corrida, mas nada que a derrubasse. “Nem por um crânio de urso empalado eu sujo ou rasgo esse vestido. Minha mãe me mataria”. O indesejável aconteceu: a princesa perdeu o rio de vista e chegou numa clareira. A presença do animal sumiu e de repente tudo ficou silenciosamente perigoso. Nem o canto dos pássaros ou o barulho dos ventos estivera tão quieto assim nos últimos minutos. Parou sob a proteção das sombras da floresta, a poucos centímetros da campestre. Ela prendeu sua adaga na perna direita e sacou a espada, caminhando para o centro da clareira. Observando as árvores ao redor, não percebeu o movimento até que um reptiliano de escamas negras como a noite e que media dois metros de altura estivesse atrás dela. Ele havia chegado como um fantasma. Nem um ruído. Ela recuou e levantou a espada. A criatura soltou um raio púrpuro que atingiu a lâmina, derretendo-a. Não havia tido a chance de sequer defender-se. Morreria ali, como comida de monstro.
Indescritivelmente, não se apavorou. Estava a segundos da morte certa, mas não se assustou. O animal a encarava com grandes olhos verdes e deitou na grama, com os olhos fixos nela. Parecia um gigante e mortífero cão de caça. Ela se aproximou devagar e estendeu a mão para tocar-lhe o focinho. Se quisesse, o bicho poderia tê-la derretido como fez com a espada. Ou simplesmente abocanhar sua mão. Mas parecia conhecê-la , como se fossem velhos amigos. Tocando a pele do animal, o acariciou.
— Vejo que já conheceu o Toohless, princesa Merida.
A garota sacou a adaga e se virou. Se não fosse o rugido do animal escamoso que a fez parar, ela teria degolado o jovem rapaz que se encontrava atrás dela. Era alto e moreno. Seus olhos, verdes como o do dragão, era penetrantes e simpáticos. Não havia ameaça em seu olhar. Sua vos soava como a de um adolescente brincalhão, apesar de sua armadura e da espada nas costas dizerem o contrário.
— Hey, hey! — Ele ergueu as mãos em sinal de rendição. — Calma princesa.
— Quem é você? — Disse puxando-o para perto e pressionando a lâmina da adaga contra seu pescoço.
— E-eu sou Hic... — Ele levantava o queixo tentando se afastar de mim.
— Hic? Que tipo de nome é esse? — Questionei-o, aproximando nossos rostos, olhando-o com desconfiança e seriedade.
— Sou Hiccup. Meu pai é Stoik, rei viking de Berk e aliado de seu pai.
Rapidamente, o soltei. Mesmo que ele estivesse mentindo sobre a aliança, não queria ficar perto demais daquele garoto.
— Como posso saber que fala a verdade?
— Bem... — Ele continuou com as mãos erguidas e começou a me rodear, ficando ao lado do animal gigante e montando nele. — Ele me mandou te entregar uma coisa.
Somente ali percebi que o bicho usava uma cela e que levava umas bagagens. Aquele monstro imenso era uma espécie de transporte para longas viagens? Não que isso importasse para a ruiva, mas seria engraçado imaginar aquilo. Hiccup retirou de uma sacola um arco e uma aljava cheia de flechas. Aqueles objetos lhe pareciam comuns. Isso porque ela já os tinha visto. Teve certeza ao reparar que eram os seus arco e flechas. Desde nova ela os usava, mas havia se esquecido de leva-los na viagem. E agora um garoto esquisito com um animal estranho estavam lhe entregando.
— Pensa rápido — ele arremessou os itens para a princesa, que os agarrou firmemente nos ares. — Bons reflexos princesa.
— Eu sei disso — pôs a aljava com as flechas nas costas e segurou o arco. Subitamente puxou uma flecha e a encaixou no arco, apontando-a para Hiccup. — Agora... Pode me contar como conseguiu essas coisas e como me achou. Isso se não quiser ter uma flecha atravessada na sua testa.
O garoto engoliu em seco e contou como chegara a DunBroch e como conseguira os artefatos. Falou sobre a bruxa que os encantou e que ele havia sido mandado para ajudá-la. Ele e sua namorada, Astrid.
— Você está me dizendo que — ela fez uma pausa, para rever tudo o que havia escutado — você e sua namorada, vikings, voaram no seu dragão até meu castelo e que uma bruxa velha encantou meu arco?
— Yup — nessa altura da conversa, ambos estavam sentados na grama, de pernas cruzadas e de frente um para o outro. Hiccup descansava a mão esquerda na cabeça de Toohless.
— E que depois disso, vocês foram enviados pelo meu pai para me ajudarem?
— Certo.
— Só tem um erro na sua história, perneta, — ele fez uma careta ao ouvir a palavra, mas deixou-a continuar — cadê sua namorada?
— Bem aqui — uma voz feminina, forte e audível, veio de trás da princesa.
Merida olhou por cima dos ombros e viu caminhando em sua direção uma garota loira, com rabo de cavalo e uma franja. Suas roupas eram feitas de couro de animais mortos. De fato, a única coisa que a ruiva gostou em Astrid. A loira emanava superioridade. A viking passou pela princesa e sentou-se ao lado de Hic, agarrando-o e lhe dando um beijo demorado. Quando pararam, ele se virou para Merida, corado e Astrid se aconchegou em seu ombro como se dissesse “Ele é meu, vadia”.
— Me desculpe, princesa — ele se levantou, retirando a cabeça de Astrid de seu ombro e deixando-a com uma cara não muito boa. — Mas temos que ir, não?
— Espere um pouco, — Merida disse, levantando-se também e logo Astrid também o fez. — Vocês vão me deixar aqui?
— Claro que não, madame — ele montou no dragão e lhe estendeu a mão. — Você vem comigo.
— Eu? Com você? — A ruiva fez uma careta.
— Ela? Com você? — Astrid lançou um olhar ameaçador para o namorado, como se o desafiasse a repetir a frase.
— Sim, é claro. Vamos para Arendelle e o Tooh só aguenta duas pessoas.
Merida riu baixo, mas não se virou para Astrid. Daria tudo para vê-la vermelha de raiva. Mal conhecia a menina, mas já sabia que teriam problemas. A princesa de DunBroch resolveu aceitar a mão do rapaz e subir a bordo de Toohless, só para irritar a namorada estressadinha.
— Ah claro, — Astrid respirou fundo e se acalmou — e o que eu fico fazendo? Assisto o baile do lado de fora?
— Astrid, não viemos aqui para ir a bailes — eles encararam o vestido de Merida. — Viemos para ajudar a senhorita Merida a invadir e conquistar um reino — todos os três encararam o chão, Ninguém estava feliz em fazer aquilo.
— Então qual é o plano? Dançar com ela a noite inteira? — A loira encarou com certo ciúme a ruiva, que fingiu não ver e continuou a tirar folas que estavam presas ao vestido.
— Não, querida — ele disse com sarcasmo, como se já houvesse passado por aquela situação várias vezes. — O plano é você ficar de olho enquanto nós entramos. Nos dar cobertura. Se algo começar a dar errado, você chama a atenção dos guardas.
— Ah, e a propósito, — Merida decidiu informá-los — meus homens estão de prontidão em nosso navio. Têm ordens de invadirem o castelo pela manhã, caso eu não volte.
— Ótimo — Hiccup disse aprontando Toohless para voar. — Então podemos ficar tranquilos.
— Hey, princesinha, — Astrid se dirigiu à Merida que estava às costas de Hiccup e perto das sacolas — me passa minha espada.
— Pensa rápido — Merida jogou a espada aos ares, mas Astrid não conseguiu pegá-la.
Assim, o cabo da espada acertou em cheio a cabeça da loira, que soltou um “Ai”. Merida gargalhou e Hiccup segurou, com dificuldade, os risos. Até Toohless soltou uns barulhos em aprovação.
— Ah, me desculpe, querida. Tomara que não tenha doído. Ah, e mais uma coisa: espero que não se importe se eu usar sua maquiagem.
Merida prendeu sua bolsa na cela do dragão e Hiccup pediu que Merida se segurasse firme. A menina não teve outra opção a não ser abraçá-lo. Nem Merida, muito menos Astrid gostaram daquilo. Logo, numa velocidade impressionante, Tooh alcançou os céus. Estavam no mínimo há trezentos pés de altura. Arendelle era linda, mas vendo-a de cima era mais bela ainda. O ar parecia mais fresco lá em cima, e mais forte. Merida não segurou um sorriso. Estava voando, num dragão! Deixou que os ventos balançassem seus cabelos Quando Tooh desacelerou, ela soltou Hiccup e abriu os braços. Nunca havia se sentido tão livre na vida!
— Tooh gostou de você — Hiccup disse sem olhas para trás.
— Quem? — Merida saía de seu estado de êxtase e abaixou os braços, mas sem agarrar o jovem. — Ah sim, o dragão.
— Ele mesmo. O quê você fez pra amansá-lo daquele jeito?
— Eu não sei — de fato, não tinha ideia de como escapou de ser ração de dragão.
— Não se preocupe em virar ração de dragão — ela se assustou em como ele conseguiu ler seus pensamentos. — Ele só come peixes. Bem... Normalmente.
— Obrigada senhor domador de dragões, realmente me relaxou saber disso — eles riram um pouco e ela desviou o olhar para sua prótese. — Me perdoe a pergunta, mas... O quê aconteceu na sua perna?
— Uma longa história...
Hiccup contou como conheceu Toohless anos atrás. Por isso, Tooh tinha perdido uma das barbatanas da causa e ele fez uma artificial para o réptil. Os dragões eram caçados pelos vikings, mas ele conseguiu mudar isso, com certa dificuldade. Quebrar tabus vikings era difícil. E acabou que no fim da luta contra um dragão gigante ele perdeu a perna. Contou também que se não fosse Toohless ele teria perdido a vida.
— Ah, sei bem como é ter pais cabeças dura.
— Meu pai chegou a me desertar, mas depois voltou atrás. E minha mãe... Bem, eu a reencontrei não tem muito tempo. Ela costumava ser uma domadora de dragões solitária, mas depois que meu pai... — ele parou como se algo o sufocasse. — Depois que meu pai quase se foi, ela foi viver conosco em Berk.
— Hiccup... — Ela pôs a mão em seu ombro, e ele a olhou sobre os ombros. — Sinto muito. Eu quase perdi minha mãe e foi terrível o suficiente, imagina perder seu pai.
— Mas ele está bem agora.
— O quê? Como assim “bem”?
— Não disse que ele morreu, ele QUASE morreu. Mas o Dark One conseguiu evitar isso.
— Você foi até o Dark One? Rumplestiltskin?
— Eu não fui até ele. Ele veio até nós nos oferecendo uma vela que salvaria a vida de meu pai, em troca de outra. “Para que alguém viva, outro alguém deve morrer”.
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— Sim, é assim que a vela funciona — Rumplestiltskin ria, debochado, assistindo a dor de Hiccup e Valka. Ele fez surgir em suas mãos uma vela de duas extremidades: uma branca e outra preta.
— E o que você quer em troca, seu demônio? — Valka perguntou, em lágrimas, impaciente.
— Toda magia, especialmente uma tão poderosa, vem com um preço. Salvar uma vida sem esperança significa quebrar as leis da natureza . Então se irá salvar uma vida, então deve perder outra no lugar.
— Quem deve morrer? — Hiccup perguntou com um nó na garganta.
— Isso é você quem decide. E este será meu pagamento: uma escama do seu dragão.
— O quê tem de tão importante numa escama?
— Tenho planos de lançar – ou de lançarem para mim – uma maldição. E nela, os afetados não deverão envelhecer. Seu dragão te, essa qualidade. Na verdade todos têm, mas não é tão simples conseguir uma. Temos um acordo?
— Como usamos a vela?
— Deve mantê-la sobre o coração a ser sacrificado e sussurrar o nome dele. E quando a vela for acesa, a vida deste ser será trocada pela do seu pai.
Assim, Rumplestiltskin sumiu numa nuvem vermelha que logo se dissipou. Restava saber que vida seria sacrificada.
— Vamos Hiccup, — Valka segurou as mãos do filho — sussurre meu nome.
— O quê? Não!
— Você e seu pai viveram a vida juntos e eu não mereço ficar com você.
— Escute: você é minha mãe. A felicidade de vocês é a coisa mais importante pra mim. Eu faço isso.
— O quê? Não vou deixar meu filho morrer.
— Deixem comigo — Astrid surgiu de repente.
— Astrid, não posso deixá-la morrer por meu pai.
— O quê? — Ela bufou como se fosse a coisa mais idiota do mundo. — Não vou morrer por seu pai. Nem por ninguém. Mas Storm vai.
Ela chamou seu dragão e ele logo aterrissou ao seu lado.
— Você abriria mão da Storm assim?
— Você fica me devendo uma.
Aquilo soou tão frio. Foi como um soco no estômago. Dragões estavam conectados com seus treinadores. Mas ela desistiria de Storm sem pensar duas vezes. Aquilo partiu meu coração. Mas não argumentaria com ela. Assim o fizemos, Storm se foi e meu pai se salvou. Eu abracei a carcaça do dragão e senti como se tivesse perdido Tooh. Chorei bastante. Eu amava todos os nossos dragões em Berk. Astrid simplesmente disse um “descanse em paz, amiga”. Eu senti vontade de sacudi-la e perguntar “Qual o seu problema? Pelo menos finja que se importa”. Mas eu sabia o que ela queria com aquilo: queria que nós ficássemos juntos para sempre. Aquele sacrifício estaria nos unindo eternamente, mesmo que fosse contra nossa vontade. Não sabia se eu amava aquilo, ou se sentia medo dela.
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— Fiz minha mãe virar um urso uma vez.
Merida contou sua história para Hiccup e os dois riram bastante. Era incrível como seus pais já foram insuportáveis, mas os dois abririam mão de tudo por eles. Elinor havia melhorado muito em sua convivência com a filha, mas continuava com a mania do casamento.
— Meu pai também quer que me case e assuma a liderança de Berk.
— Pelo visto nós dois temos bastantes problemas.
— Vamos ter mais ainda daqui a pouco. Estamos perto do reino e os portões já se abriram. Temos que nos apressar e fingir que somos ‘nobres atrasados’.
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