Once Upon a Time in Hidden Islands
13 A Fight Against Magic
Notas iniciais

— Bom dia, bela adormecida! — Hiccup acordou Merida jogando água nela.
Perto dali havia um lago congelado. Hiccup conseguiu quebrar um pouco do gelo e encher seu capacete com a água. Merida levantou gritando de susto e completamente encharcada. Não conseguiu sorrir ou atacar o moreno que ao lado de seu dragão perdia o ar de tanto rir. Ela só ficou parada olhando para ele enquanto congelava. Depois que o efeito do susto passou, ela conseguiu falar algo.
— Não me chame de Bela Adormecida... — Torceu um pouco do cabelo para escorrer a água. — Aurora não consegue nem evitar uma roca de fiar.
— Mas aquela senhora dos chifres não é uma fada que você pode evitar facilmente.
— Sabe o quê também não é fácil de evitar? — Merida disse se aproximando do rapaz com um sorriso nos lábios.
— Não... — Ele cerrou os olhos, tentando adivinhar o quê estaria por vir.
— Da minha vingança... — Ao terminar, ela se abaixou tão rapidamente que Hiccup não teve tempo de reagir.
Ela chegou ao solo branco e pegou um grande punhado de neve e quando se ergueu, enfiou toda a neve nas calças do domador de dragões. Ele fez uma careta tão esquisita que até mesmo Toothless riu. Merida abraçava o abdômen de tanto rir e Hiccup, mesmo com as pernas e o pênis congelando, conseguiu em meio a careta soltar um sorriso. Mas quando percebeu que provavelmente era perigoso estar com gelo nas partes em pleno inverno fora de época provavelmente era um atestado de impotência, retirou as calças rapidamente e saiu correndo para trás de uma árvore próxima para que a ruiva visse o menos possível. O quê pode ter dado certo, já que ela só viu o traseiro branco dele correndo para trás da árvore.
— Você sempre faz isso? — Merida perguntou se virando e caminhando na direção oposta do tronco.
— ‘Isso’ o quê? — Hiccup gritou por detrás da árvore, enquanto retirava os restos de neve de sua calça para que pudesse coloca-la. — Ter minhas calças entupidas com neve e sair correndo para trás de uma árvore?
— Sim, — a ruiva inclinou-se sobre Tooth e se virou para o tronco novamente. O moreno ainda estava escondido — isso e ficar com essa sua bunda gorda amostra.
— Minha bunda não é gorda! — Hiccup disse atrás da árvore, já se preparando pra colocar as calças. Estava corado e fazendo biquinho, então tentou observar o próprio traseiro. — Okay... Talvez ela seja um pouco...
— Mas eu gosto dela assim, — Astrid surgiu por trás de Merida, como um fantasma — é bom apertar. E é bom pra bater quando ele for um garoto mau.
— Astrid! — O domador de dragões terminou de se vestir rapidamente e correu para longe da árvore, em direção às meninas. — Há quanto tempo você estava por aqui?
— Fui buscar madeiras secas para uma fogueira à noite e cheguei agora... — A loira percebeu que Hiccup estava corado e com os olhos arregalados. — Por quê? O quê estava acontecendo aqui?
— N-Nada demais, eu só fui tirar um pouco de neve que entrou nas minhas calças...
— Neve não entra sozinha nas calças de ninguém — Merida pôs a mão no ombro do jovem e tomou o discurso. Era mais baixa que Astrid, então teve que olhar um pouco para cima ao continuar. — Eu a coloquei lá.
— Na verdade é uma história bem engraçada amor...
— Não quero saber, — Astrid estava com raiva e eles perceberam isso estampado em sua face, mas ela tentou ignorar mudando de assunto — eu descobri algo que pode ser útil para nós.
Ela largou os galhos sobre a neve e foi até sua sacola. De lá, a loira retirou um pequeno livro e abriu numa página que tinha em si desenhado um pequeno cão negro. Astrid explicou que aquele cão era um dos símbolos de Hécate, a deusa da magia, e que aquele cão na verdade era uma pequena escultura de metal estígio que bloqueava qualquer magia de qualquer pessoa em contado com ele.
— E de acordo com esse livro, o cão é migratório — a loira continuou. — Isso quer dizer que ele percorre todos os reinos com magia.
— E daí? — Merida pôs as mãos nos quadris.
— Daí que nós podemos achá-lo e enfiá-lo goela abaixo nessa rainha geladinha e talvez esse inverno acabe — Astrid fechou os punhos com muita força enquanto falava sobre seu plano.
— Mesmo que concordemos em ir procurar essa estatueta, — Hiccup cruzou os braços e encarava a namorada — como você tem tanta certeza de que ela está por aqui? Logo em Arendelle?
— Porque enquanto eu estava procurando lenha, eu notei o símbolo de Hécate esculpido numa pedra duas horas ao norte daqui.
— Alguém pode ter esculpido isso aleatoriamente na pedra — Merida não estava certa de que seguir um artefato mágico fosse seguro. E, além disso, tinha medo do que Astrid podia fazer à Elsa quando ela estivesse sem magia.
— Dificilmente... — Astrid virou para uma cara debochada.
— Okay, nós vamos procurar esse cachorro maldito, — Hiccup disse descruzando os braços e fixando o olhar em Astrid — mas quando Elsa estiver sem poderes nós não vamos fazer nada que não possa ser revertido. A líder dessa missão é a Merida, lembre-se disso.
Um silêncio tomou conta da conversa. Hiccup quebrou o contato visual com a namorada e caminhou até seu dragão, deixando Merida e Astrid sozinhas. A princesa de DunBroch se virou de costas para Astrid para que fosse até o moreno ajudá-lo a organizar a bagagem, mas a loira a segurou pelo braço, forçando a ruiva a se virar para ela. Merida notou um ar desalmado no olhar de Astrid, como se ela não tivesse setimentos, não tivesse um coração.
— E antes que eu me esqueça, garota-do-urso, — Astrid apertou com força o pulso da ruiva, que não deixou transparecer dor ou medo. Merida se segurava para não dar o gosto de vitória para a loira — se tocar nas calças do meu namorado, ou em qualquer parte do corpo dele eu quebro seus dois braços.
— Eu gostaria de ver você tentar — respondeu, puxando seu braço fazendo com que Astrid o largasse.
Virou-se e deu um passo para frente, parando logo depois. Uma dúvida veio em sua mente e precisava tirá-la. Olhando por cima dos ombros, viu a namorada de Hiccup parada no mesmo lugar.
— Onde conseguiu esse livro?
— Não lhe devo explicações — respondeu ríspida, com um sorriso no canto dos lábios.
— Mas acho que eu mereço alguma, — Hiccup chegou sorrateiro por trás de Merida e espantou ambas. Merida ao escutar a voz grave e máscula do moreno sentiu toda a raiva e aflição que sentia naquele momento esvair-se em sua respiração — não é mesmo, Astrid?
— Você vai me humilhar na frente dessa... — Astrid não ousou completar a frase quando observou o rosto de Hiccup. Ele não estava brincando, ou sendo crianção como sempre. Estava realmente sério.
— Eu iria lhe perguntar isso quando estivéssemos a sós, mas Meri leu meus pensamentos — ele nunca havia a chamado daquele jeito, e se não estivesse naquela situação ele teria corado. Merida estranhou o som da palavra, mas decidiu não ligar. — E então? Estou esperando uma resposta.
— Você sabe que na biblioteca de Berk tem vários livros... — Astrid disse após engolir em seco. Hiccup nunca havia sido tão irredutível assim.
— Mas meu pai não liberou os livros sobre magia ainda... — Hiccup deu uma pausa para raciocinar. — Você roubou esse livro, não roubou?
— Não diria ‘roubar’, — ela empurrou Merida e se aconchegou no peito de Hiccup — acho que é mais como “pegar algo emprestado do meu sogro”. Ah Hic, sejamos realistas, eu serei chefe de Berk ao seu lado dentro de algum tempo. Não temos que seguir regras...
— Astrid, depois conversamos melhor — Hiccup disse, frio. Merida viu pela primeira vez o moreno tomando controle da situação e sentiu muita admiração por ele. — Neste momento, tenho mais com o quê me preocupar do que com a sua criancice. Partimos quando, Merida?
A ruiva ainda estava boquiaberta com o quê acabara de acontecer. Não conseguia falar nada e tanto Hiccup como Astrid olhavam para ela. Até Tooth que estava mais longe a observava com aquele olhar penetrante. Por fim, conseguiu recuperar o ar e dizer “à noite”. Hiccup assentiu, deu meia volta e saiu caminhando sem olhar para trás. O Night Fury ameaçou segui-lo, mas o garoto fez um gesto para que não saísse do lugar. Merida se virou para Astrid, mas ela não estava mais por ali. Encontrava-se a uns metros sobre um galho de uma árvore e envolta em seu casaco de pele. Merida foi até o dragão e fez carícias em seu crânio e ele ronronou como um gato. Dali ela podia ver Hiccup caminhando mais ainda adentro da floresta branca e decidiu segui-lo. Caminhou atrás dele numa distância em que não o perderia de vista, mas que não chamasse atenção. Hiccup parou depois de alguns metros de caminhada e se sentou na neve. Merida ficou por trás de um tronco, observando-o até que depois de uns minutos decidiu se aproximar.
— Hey — ela disse para anunciar sua chegada.
— Hey... — O domador disse em resposta, desmotivado, e sem olhar para a moça.
— Está tudo bem?
— Você acha que está tudo bem? — O garoto percebeu então que sua resposta poderia soar grosseira. — Me desculpe Meri. Não quis dizer isso... Você é a única que têm sido legal comigo desde ontem quando nos conhecemos. Você e o Tooth.
— Hey cabeça-de-escama — Merida tentou segurar o sorriso por ter ouvido “Meri” novamente. — Eu não conheço a Astrid direito, mas acho que ela deve estar nos dias de estresse.
— Não é isso, ela têm sido assim há muito tempo — Hiccup continuava a observar a paisagem a frente deles. — No começo era tudo diferente. Então do nada ela mudou depois que voltou de uma viagem de reconhecimento na Enchanted Forest...
— Por que ela mudou? — Merida sentou-se ao lado do rapaz.
— Não sei... — Finalmente ele olhou para ela e sentiu algo estranho dentro de si, mas aquela não era a hora para sentimentos estranhos. — Mas ela se voltou outra pessoa. Talvez seja a convivência... No início tudo parece real, parece certo. Mas depois esse sentimento acaba e somos deixados com nada.
— Hey, não diga isso — Merida pôs as mãos no rosto do menino fazendo que ele olhasse só para ela e prestasse atenção em suas palavras. — Vocês estão juntos há seis anos. Eu não tenho muita experiência em relacionamentos, na verdade nenhuma, mas acho que isso é um tempo considerável. Se não a amasse, já teria terminado, não?
— Não sei... — Uma lágrima ameaçou sair do olho esquerdo do menino e a ruiva a secou com o polegar. — Eu só queria que ela voltasse a ser a minha Astrid. Nada parece certo nesse lugar. Minha cabeça está uma bagunça e a única coisa que parece correta nisso tudo... É você.
— Como? — Merida inclinou a cabeça, como Tooth fazia.
— Eu sinto como se você fosse meu porto seguro — Hiccup pôs as mãos nos ombros da menina. — Nos conhecemos há um dia, mas parece que quando eu estiver confuso, tudo o que preciso é conversar com você.
— Sei como se sente, Hic — ela não pretendia, mas se sentiu bem em chama-lo pelo apelido. — Quando estou com essa tempestade de aflição eu sinto vontade de conversar com alguém. Normalmente eu corro pros bosques de DunBroch, deito-me da grama e fico observando as nuvens até que me sinta tranquila de novo.
— Prometo que quando tudo isso acabar, e claro, se sairmos vivos, eu irei te visitar sempre em DunBroch e teremos um ao outro para conversar, — Hiccup cuspiu em sua mão direita e estendeu-a para Merida — certo?
— O quê é isso? — Merida perguntou em meio aos risos.
— É assim que eu selo promessas.
— Então está bem... — A ruiva repetiu o ato do jovem, cuspindo em sua mão direita e apertando a de Hiccup.
— Então... — Ele disse quebrando o aperto de mão. — Como é que se faz isso?
— Isso o quê? — Merida pareceu confusa com a pergunta do amigo.
— Se tranquilizar observando as nuvens... — Uma brisa passou fazendo com que os cabelos vermelhos da menina dançassem e Hiccup quase perdesse sua frase.
— Eu não sei, somente fico olhando-as, imaginando formas e quando vejo, meus problemas se foram.
— Interessante — Ele esticou as pernas e pôs as mãos apoiadas no solo às laterais do corpo e virou-se para o céu. — E o quê você vê agora?
— Eu? Bem... — A menina cruzou as pernas e apoiou a cabeça numa das mãos e olhou para cima. — Eu estou vendo três pequenos ursos brincando.
— Sério? Certo... Eu estou vendo um Night Fury atacando um Screaming Death.
— Você não está vendo isso.
— Como pode ter tanta certeza? — Ele olhou sorrindo para Merida e ela retribuiu. — Tá okay, eu não estou vendo isso.
— Tente esvaziar a sua mente.
— Certo... — O moreno tentou seguir o conselho da princesa e se surpreendeu com o resultado. — Estou vendo o Tooth!
— Parabéns, cabeça-de-escama!
Os dois riram bastante e passaram o resto da tarde observando as nuvens e de vez em quando arremessando punhados de neve um no outro. Sentiam como se voltassem a ser duas crianças se responsabilidades ou problemas. O sol já se punha quando se cansaram da brincadeira, voltaram a se sentar. Arfavam em busca de ar e soltavam alguns risos.
— Isso foi divertido! — Merida se abanava com a mão.
— Meri, posso te fazer uma pergunta? — O menino perguntou após uns segundos de silêncio.
— Se eu disser que não, você vai perguntar mesmo assim.
— Você já se decidiu sobre o quê vai fazer com Elsa, Anna... Aredelle...?
— Eu... — Ela deu uma pausa e seu humor mudou para um tom mais sério. — Não, eu não sei o quê fazer.
— Me desculpe, eu não queria te deixar triste — Hiccup desviou o olhar para a lua.
— Não, você não fez nada — Merida apertou seus punhos. — Eu teria que pensar nisso numa hora ou outra. Eu só não quero fazer nada injusto!
— Nem quer ser pressionada depois que tomar sua escolha.
— Você não tem a menor ideia do que eu escutaria quando chegasse ao meu reino...
— Acho que tenho uma noção — Hiccup limpou a garganta. — “Você é uma vergonha!”, “Não é mais minha filha!”, “Você é uma decepção” e “Não deveria ter confiado em você”.
— Seria isso aí nas primeiras cinco horas — a menina disse tentando sorrir.
— Merida, você é uma garota extraordinária! — O garoto disse pegando nas mãos da jovem. — Não se preocupe em escolher uma opção pensando nas consequências. Use o seu coração que eu tenho certeza de que você pode aguentar tudo que venha depois — Eles estava bem próximos nesse momento, tanto física quanto emocionalmente. — E eu vou estar do seu lado para te dar apoio. Eh-Não que você precise mas eu acho que deveria... Quero dizer, claro, se você permitir...
— Obrigada Hic, — lágrimas caíam do rosto da ruiva e ela tentou secá-las, mas subitamente Hiccup a abraçou e ela arregalou os olhos. Sem dizer uma palavra. Ele era centímetros maio do que ela então o rosto da menina estava em contato com o peitoral do domador de dragões e os braços dele a envolviam pelos ombros. Ela nunca havia sentindo tamanho espanto e felicidade ao mesmo tempo. Também nunca havia estado tão perto de um homem deste jeito, mas algo a dizia que o menino de Berk não era como os demais homens que conhecera. Lentamente, ela também usou os braços para abraçar o menino em sua cintura e se não fosse um momento tão sentimental, ela teria corado ao sentir os músculos de Hiccup — muito obrigada.
Depois do abraço afetuoso, ambos decidiram que deveriam voltar para a clareira e partir em procura da estátua de canina. E Astrid deveria estar arrancando os cabelos e se não estivesse morta de raiva, com certeza mataria os dois. Ao chegaram a sua base, perceberam que a loira não estava por ali e Merida notou que ela não mais descansava no tronco de qualquer árvore.
— Tooth, para onde a Astrid foi? — Hiccup acordou o dragão e perguntou ao amigo, que balançou a cabeça em sinal de negação. — Você não a viu saindo? — Mais uma vez o réptil negou.
— Acho que sabemos para onde ela foi — Merida chamou a atenção dos dois com o dedo apontado para o norte. — Duas horas ao norte daqui.
Eles partiram na direção que Astrid os indicou. Optaram por ir andando, afinal a noite estava escura e não conseguiriam ver nada de lá de cima. Eram guiados somente pelo senso de direção de Tooth e a única fonte de luz era a Lua, acompanhada pelas estrelas.
— Por que ela viria sozinha procurar a estátua? — Hiccup disse enquanto se abaixou para passar por um galho.
— Você não sabe como nós mulheres ficamos quando somos provocadas — a ruiva saltou por cima do mesmo galho. — Nós ficamos cegas de orgulho.
— Vocês são mais parecidas do que eu percebi — o moreno respondeu. Ele estava ao lado da princesa e atrás do dragão. Sua espada mágica estava deposta em seu dorso e Merida estava armada com seu arco e flechas encantadas. — Só desejo que você não mude como ela.
— Pode ficar tranquilo quanto a isso... — Merida foi interrompida por Tooth, que parou abruptamente afrente deles e forçou os dois a pararem. Estiveram caminhando por alguns metros. O Night Fury soltou um raio de luz e mostrou que logo a uns passos afrente estava uma rocha com um símbolo muito estranho. Um pentagrama em uma lua cheia com três tridentes cruzados por trás. Ao lado direito da lua cheia uma meia lua com a boca virada para a direita e, a esquerda, outra meia lua com a boca virada para a esquerda.
— Aquele deve ser o marco de Hécate — Hiccup disse avançando lentamente. — Mas onde está Astrid?
— Será que ela se perdeu na floresta? — Merida passou a mão nos cabelos.
— Não acho provável — Hiccup balançou a cabeça. — Ela tem um ótimo senso de direção. Talvez tenha voltado para o acampamento.
— Então vamos voltar, mas antes... — Merida foi para o lado de Hiccup, parando em frente à rocha. — Como será que nós achamos esse maldito cachorro?
Toothless se pôs de pé em suas patas traseiras e afastou os dois com as restantes, se aproximando da rocha e expelindo no símbolo o seu espectro roxo. O emblema absorveu a luz para as suas marcações e por um segundo ficou brilhando, porém logo se apagou. Os três ficaram parados uns instantes, esperando algo sobrenatural acontecer. Hiccup até assobiou e jogou os braços para frente e para trás com o objetivo de descontrair. Merida chegou à conclusão de que nada aconteceria.
— Então... — Estava prestes a sugerir que voltassem para a base, mas foi interrompida por um forte tremor. As árvores tremeram fazendo com que a neve presa entre seus galhos caísse. Merida se segurou em Tooth, mas Hiccup caiu no chão. O terremoto não durou nem mesmo um minuto, mas para eles pareceu uma eternidade. Quando o fenômeno finalmente parou, a ruiva deu a mão para que o moreno se levantasse.
— O quê foi isso? — Hiccup disse enquanto batia em sua roupa para tirar a terra, mas ele observou que a rocha não estava mais como antes. — Olhem... A rocha está partida.
— Espere... — Merida se aproximou cuidadosamente da pedra e apontou para a sua rachadura. — Tem uma coisa dentro da pedra!
— Me deixe ver — ele se avançou e colocou a mão na rachadura. Quando o fez, sentiu algo extremamente frio e liso, que pareceu querer puxar sua força ao tocá-lo. Agarrou o objeto e retirou a mão da fenda. — Aqui está ela!
— A estátua desgraçada do cão!
De repente eles escutaram um grito desesperado e deram um pulo de susto. Depois, olharam ao redor e o cenário quietou-se, nem mesmo o vento ousava fazer barulho. De repente houve mais um grito, ainda mais alto que o anterior e uma ventania forte veio. Eles olharam para o céu e viram uma tenebrosa nuvem negra tampar a Lua, tornando a floresta um total breu. Estavam no escuro com o ser gritante e não sabiam quanto ao desconhecido, mas eles pelo menos não viam no escuro total. Merida e Hiccup deram pequenos passos para trás e encostaram as costas. Pelo menos tinham a certeza da presença do outro ali.
— O quê está esperando? — Merida cochichou para o menino.
— Esperando pra quê? — Hiccup ficou confuso. Estava muito nervoso para raciocinar estrategicamente agora.
— Sua espada, ela entra em chamas, seu idiota! — Merida teria dado um tapa nele se pudesse vê-lo.
— Ah sim! — O jovem desembainhou a lâmina. — Eldur pode fazer isso! Só não tenho ideia de como fazê-la pegar fogo.
— Você é o dono dela! — Merida não estava irritada com ele de verdade, somente queria poder ver de novo. — Como não sabe usá-la?!
— Eu nunca tive a oportunidade de aprender! — Ele balançava a espada e dava comandos como “acenda”, “queime” e “vamos logo merda, funciona”.
Foi então que se lembrou de Elsa, uma das poucas pessoas que ele já vira usando magia. Como será que ela controlava aquilo? Ele fechou os olhos e tentou se concentrar, pensar em algo que pudesse funcionar. Tanto ele quanto Merida sentiam dezenas de olhos sobre eles naquele instante. Mais uma vez o grito tomou conta do local, mas desta vez pareceu estar tão perto que Hiccup levou um susto tão grande e quanto abriu os olhos viu que Eldur ardia em chamas, iluminando o local. Reacostumando-se a luz novamente, ele estreitou as pálpebras e Merida olhou por cima do ombro do rapaz para a mesma direção que o menino olhava. Tooth estava atrás deles. Todos os três prenderam a respiração ao observarem que, ao redor deles, umas vinte serpentes sibilavam encarando-os. Mas não eram serpentes comuns, mas sim répteis de seis metros de comprimento com escamas negras como ébano e olhos amarelos como o sol no brasão de Corona. Ele foi olhando para todos os ângulos e escutou o grito vindo do Oeste e quando virou a lâmpada para tal direção, viu Astrid sendo apertada por uma das cobras. Eles viram a expressão de terror nos olhos da loira e perceberam que se ela fosse apertada mais um pouco, sua cabeça explodiria. Literalmente.
—Astrid! — Merida gritou e pôs as mãos em frente à boca.
— Eu vou tirá-la daí! — Hiccup ergueu sua lâmina e correu eu direção à serpente e deu um salto, caindo com a espada no pescoço do animal.
O crânio caiu e rolou e o corpo sem vida afrouxou o aperto e Astrid caiu de joelhos. Estava fraca, o quê não era estranho levando em conta que quase todos os seus ossos quase foram quebrados e seus órgãos estourados. Hiccup pegou-a no colo e Merida correu até eles, pegando Eldur das mãos de Hiccup para que ele confortasse melhor a namorada em seus braços. Os demais répteis somente os observavam. A ruiva passou a mão no rosto de Astrid procurando uma reação por parte da menina, mas ela ainda estava desnorteada.
— Ela está mal, precisamos levá-la para a clareira — Merida informou ao domador de dragões.
Uma risada fantasmagórica tomou conta do local e eles olharam em volta para achar a fonte, mas sem sucesso. “Vocês estão em meu território, roubando algo que me pertence”, a voz feminina dizia. “Não vão sair daqui sem antes sofrerem nas mãos dos meus bebês”.
— Hécate? — Merida perguntou à entidade.
— Deusa da magia, sim — a voz respondeu fria.
— Nós precisamos dessa estátua, minha senhora — Hiccup protestou. — Por favor, deixe-nos ir.
— De acordo com as lendas, você é bem cooperativa com humanos — a ruiva acrescentou, esperando uma resposta positiva da deusa.
— Eu sou mesmo, não? — Hécate respondeu com certo orgulho. — Mas estou cansada de ser passada para trás! Devolvam-me o cão ou morram!
— Hiccup... — Astrid disse bem baixinho. — Me perdoe... Isso é culpa minha, deixe a estátua aí.
— De jeito nenhum! — Merida protestou e olhou nos olhos de Astrid com compaixão, pela primeira vez. — Ela quase te matou por essa estátua! Não podemos deixar ela sair ilesa!
— Menina idiota, — Hécate caçoou de Merida — o quê acha que pode fazer? Me transformar num urso com um bolinho horrível?
— Você deve ser bem dependente dessa estátua, não é mesmo, Hécate? — Hiccup pronunciou-se. Estava assustado, mas havia pensado em algo e precisava tentar. As serpentes sibilaram mais irritadas e começaram a mover-se em torno deles, se preparando caso fossem ordenadas a atacar. Não conseguiriam sair todos dali a bordo de Tooth, ele não aguentaria mesmo se conseguissem enganar as serpentes e a deusa.
— O quê disse, moleque? — A deusa parecia insultada ou muito surpresa pela coragem do menino. Ou por sua tremenda burrice.
— Hic, está maluco? — Merida apertou o braço do rapaz. — Quer que todos sejamos a janta dessas cobras?
— Confie em mim — ele cochichou para ela e voltou a falar com Hécate. — Isso mesmo que você ouviu! Você não deve conseguir fazer nada sem essa estátua.
— Você está duvidando da minha força?
— Sim, afinal, se você não precisasse dessa estátua barata, não precisaria nos ameaçar! Você seria gentil!
— Eu sou muito gentil! — A deusa protestou. — E não preciso dessa estátua, mas ainda sim ela me pertence e vocês estão roubando-a!
— Duvido muito que você seja tão forte quanto dizem, sem essa estátua.
— Vou lhes provar o que digo! — As serpentes avançaram lentamente.
— Parabéns, cabeça-de-escama! — Merida apertava o braço de Hiccup com toda a sua força e quase subiu nos ombros do rapaz para escapar das serpentes.
— E vou também lhes mostrar minha generosidade! — Hécate acrescentava informações em sua sentença. — Se conseguirem se livrar dos meus queridos que os cercam, poderão levar o cão.
De repente, uma das serpentes agarrou o pé de Hiccup com a cauda e o puxou, fazendo com que ele deixasse Astrid cair no chão. A serpente o arrastou e abriu a boca para engoli-lo. E teria o feito, se Merida não arremessasse Eldur para o moreno e ele atravessasse a garganta da cobra, fazendo com que ela se parasse o ataque e caísse morta. Ele teria sido esmagado, se não tivesse rolado para o lado. Merida sacou seu arco e pegou uma flecha, atirando-a no olho de outra cobra das dezoito restantes. Ela urrou e Merida aproveitou para pedir à Tooth que explodisse a cabeça da cobra com um raio, e ele o fez.
— Bom garoto! — Ela disse, e logo depois Hiccup se juntou a eles.
Astrid se arrastava no chão e eles a protegeriam enquanto estivesse debilitada. A espada flamejante de Hiccup continuava a ser a única fonte de luz. Dezessete répteis rastejantes ainda os cercavam, e cinco deles investiram rapidamente contra os jovens, mas Merida utilizou sua habilidade de arqueira para cegá-las parcialmente, facilitando o trabalho de Hiccup, em decapitá-las. Os corpos pesados e sem vida caíram ao redor deles, fazendo uma espécie de barreira para as outras serpentes. Isso determinou um limite porcamente seguro para eles. Hiccup subiu em Tooth e eles levantaram voo, Merida ficou no perímetro tomando conta de Astrid. O plano do moreno era cortar as cabeças das serpentes mais rápido com a velocidade de Toothless, mas não deu certo pois os répteis eram muito ágeis e não permitiam ao domador e ao seu dragão chegarem perto. Pensaram então em atingi-las com os raios do dragão, mas elas eram rápidas e desviavam dos ataques. Ele planou então até a ruiva novamente e do alto chamou-a.
— Merida! — Gritou. — Você tem que cegá-las com suas flechas!
— Mas eu tenho que tomar conta da Astrid, ela está fraca ainda! — Protestou. — Não poderá se defender se alguma delas vier atacá-la!
— Vá logo, princesa... — Astrid arfou, retomando aos poucos a consciência. Pela primeira vez, Merida não sentiu desgosto na palavra “princesa” vinda de Astrid. — Eu consigo sobreviver até vocês acabarem com essas minhocas...
Merida assentiu e Hiccup puxou-a para o torso de Tooth. Saíram voando baixo, para enxergarem as cobras. A princesa de DunBroch mirava nos olhos de uma serpente e com perfeição conseguia acertá-los. “O arco nunca erra”, Hiccup pensou. Quando uma delas ficava cega, ele passava com a lâmina no pescoço da cobra e litros de sangue jorravam em conjunto com a queda do cadáver. Eles liquidaram nove cobras negras com essa tática.
— Não... — Merida disse assustada.
— O quê? — Hiccup perguntou sem olhar para a menina, que estava atrás dele assim como no voo para o castelo de Arendelle.
— Minhas flechas acabaram! A aljava está vazia!
— Como é?! — Ele e Tooth viraram para olhá-la e não viram que uma serpente os acertaria com a cauda.
— Olhem pra frente! — Merida alertou, mas era tarde demais.
Tooth foi abatido e eles caíram no chão. Hiccup e seu dragão bateram com a cabeça fortemente no solo e ficaram inconscientes. Merida rolou algumas vezes e sua testa se cortou com o impacto, deixando um pouco de sangue escorrer pelo seu rosto. Ela levantou meio desequilibrada e cambaleou até a Eldur, caída no chão. Ela pegou no cabo da lâmina e notou que duas das três serpentes restantes rastejavam até eles. Uma delas avançou e a ruiva apontou a espada para ela. Eldur atravessou a garganta do animal. A outra aproveitou a situação e se enrolou nas pernas e no abdômen de Merida. Com os braços livres, ela pode esfaquear o corpo do réptil gigante e num movimento de dor ele a soltou e ela pode cortá-lo ao meio. O cheiro de carne queimada reinava no ambiente devido ao contato de Eldur com as cobras na hora de matá-las. Merida caiu de joelhos, pensando que havia acabado. Mas rapidamente notou que um dos monstros ainda estava vivo e quando olhou para onde Astrid estava, notou que ela ainda se arrastava, tentando fugir da cobra que serpenteava até ela. O réptil deu uma mordida forte da perna de Astrid e ela urrou de dor. As duas presas cravaram na panturrilha da loira, que teve sorte de serpentes de grande porte não serem venenosas.
— Astrid! — Merida tentou correr até a viking, mas suas pernas não a obedeciam, estavam exaustas.
Foi então que ela se lembrou de algo que poderia ajudar. Levantou seu vestido até a altura da perna e pegou sua adaga. Gritou pela atenção da namorada de Hiccup e quando ela olhou, Merida arremessou a pequena lâmina para ela. Eldur não alcançaria Astrid pois ela estava muito longe e a espada de Hiccup era pesada demais. Astrid pegou a lâmina no ar e num gesto certeiro cravou a lâmina no crânio da serpente. Sentiu então a mandíbula afrouxar e pode retirar sua perna da boca da serpente. A nuvem que bloqueava a luz da Lua finalmente dissipou-se e Hiccup e Tooth começaram a recobrar a consciência. Quando o moreno levantou-se, ele e Merida caminharam até Astrid e a ajudaram a se erguer e sentar-se no Night Fury. Hiccup pediu que ele voltasse com Astrid para o acampamento e assim ele fez. Hiccup e Merida se apoiaram um no ombro do outro e foram andando para a clareira. Ao chegarem lá, Hiccup abraçou Astrid que ainda estava fraca e descansava sentada na neve com as costas apoiadas no tronco de uma árvore.
— Por que foi sozinha para lá? — Ele parecia irritado, mas na verdade estava bem aliviado. — Estava maluca?
— Hiccup, não a force demais — Merida pôs a mão no ombro do menino e ele se acalmou.
— Só estou feliz que esteja bem — assim, ele se retirou, mas parou e voltou-se novamente para as meninas. — Você pelo menos sabe nos dizer o porquê da pedra só ter se manifestado com o raio do Tooth?
— Ele... — Astrid se esforçou para falar. — Ele é uma criatura mágica. Logo... É agraciado com uma linhagem de Hécate. Criaturas mágicas... Podem abrir cofres mágicos.
O menino deu um sorriso, deu um beijo na testa de Merida para dar boa noite e depois se dirigiu para Astrid. Ela fez bico, para beijá-lo como desejo de bons sonhos, mas ele decidiu beijá-la na testa também. Ela ficou meio surpresa. O domador de dragões se jogou no torso de Tooth, que já dormia, e adormeceu ali sobre o dragão. Merida pegou um pouco de água no lago e alguns tecidos nas sacolas. Limpou seus ferimentos e os de Astrid. Enfaixou a perna da loira e lhe deu boa noite, mas antes que pudesse se recolher, a viking chamou seu nome.
— Por que está sendo tão legal comigo?
— O quê quer dizer? — Merida olhou para Astrid e viu como ela estava abatida.
— Você me salvou lá, — a ruiva percebeu enquanto a loira falava que ela já recuperara o ar para falar sem pausas — você limpou meus machucados e fez curativos. Mesmo eu tendo pego no seu pé desde... Bem, desde que nos conhecemos.
— Esse é o meu jeito — Merida cruzou os braços. — E tenho certeza que você também faria isso por mim.
— HAHA! — A loira riu ironicamente, e pôs a mão na barriga como se tivesse doído. — Não tenha tanta certeza disso.
— Hiccup me disse que você era bem parecida comigo...
— Mas as pessoas mudam, Merida — a princesa pode identificar um tom sombrio na voz da jovem. — Meu interior não é mais o mesmo. Ele mudou há muito tempo.
— Não precisa se forçar a se abrir comigo — Merida informou à loira, e tentou mudar de assunto. — Mas estou interessada em saber como você foi pega por aquelas cobras? Hiccup me contou que você é a melhor lutadora de Berk.
— Quando eu tentei abrir a pedra, eu fui cercada por aqueles monstros. Eles são... Eram protetores do cão. Quando seres não mágicos tentam pegar artefatos enfeitiçados, eles capturam o humano. E mesmo eu sendo “a melhor lutadora de Berk”, não sou páreo para vinte minhocas gigantes enviadas pela deusa da magia...
— Isso é verdade, nós quase morremos hoje — Merida percebeu que conversava pela primeira vez com Astrid sem que as duas tentassem se matar. Mas decidiu que era hora das duas dormirem. — Mas amanhã é um novo dia, e nós temos que dormir. Principalmente você — ela sorriu para Astrid. — Boa noite, Astrid.
— Boa noite, Merida — Astrid não sorriu, mas só por retribuir o desejo de boa noite já era motivo para que Merida acreditasse que elas podiam conviver pelo menos.
Astrid se virou e dormiu rapidamente. Merida demorou mais um pouco porque decidiu que dormiria no galho de uma árvore. E como se já não bastasse isso, era a primeira noite em muitos anos que dormia sem sua adaga consigo. Havia esquecido de tirá-la do crânio da cobra que Astrid matara. Mas, mesmo desprotegida, sentiu-se segura porque sabia que Hiccup dormia logo abaixo, e ele a dava segurança como sua adaga nunca havia lhe dado. Seu último pensamento antes de fechar os olhos foi “Como será que Elsa está agora?”
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