Omnes Sanguis
1 Lâmina Seca
Ao caminhar pela rua em um dia chuvoso, parei para pensar. Pessoas vêm e vão, andam, correm... Mas qual a razão? Por que habitamos este mundo? O que acontece depois? O dilema me assombra, respostas que talvez nunca encontre. Vejo pessoas, elas nascem e morrem. Parece tão simples e puro e o que acontece depois cabe aos mortos descobrirem e aceitarem. Esse é o ciclo da vida que compreende todos os seres que a possuem. Infelizmente para mim, existe outra classe de seres que não se encontram no conjunto dos seres vivos. Quando matamos um monstro o que acontece? Nada, ele volta, e continua voltando, de tempos em tempos como ervas daninha. A tão cobiçada imortalidade ou, como gosto de chamar, Maldição da Imortalidade é um fardo muito grande, e deveria ser atributo exclusivo dos Deuses. Formas de vida simples, não deveriam sofrer com tal desgraça.
No ano de 1942, acordei em meio a escombros, minha roupa rasgada e banhada em sangue. Andei pelas ruas de uma cidade fantasma, cinza pela poeira, silenciosa e habitada por ratos, abutres e cadáveres. Aceitei a situação como final cliché de um filme de guerra. Nunca fui de acreditar na existência de almas, todavia, a minha era muito corrompida. Esperava pela aparição do senhor do mau como um viajante que espera pacientemente pelo trem.
Em minha curta vida causei mal à minha mãe, feri e assassinei pessoas inocentes, cobicei um poder que estava além da minha compreensão. Uma das coisas que aprendi com meu pai foi como reconhecer más ações. Ao julgar pelo meu estado, e o local em que me encontrava, parecia-me verdade as descrições sobre o asilo dos condenados, o que me incomodava era a falta de ação do lugar, a ausência dos gritos, o fato de o fogo concentrar-se apenas em veículos destruídos e em restos de lixo pelas ruas. Senti o chão, olhei em volta, um avião cortava o horizonte perto do mar. Este era, eu sabia que não poderia, o mundo real.
Morrer na guerra não era o bastante, eu acordei após o fim apocalíptico. Precisava ter a certeza de que estava realmente de volta à vida, fui até o prédio mais próximo, ou o que sobrou dele, e acertei um soco na parede que desmanchou à minha frente, estava claro que depredar cenário de guerra não me seria grande feito, andei então em direção à um tanque onde vi outro soldado morto caído no chão, abri o bolso da calça e encontrei um canivete de lâmina virgem e fiz um corte em meu braço, olhei, apenas a marca nada de sangue, conferi o canivete, olhei o braço novamente, nada de sangue, nada de marca, estava novo e limpo. Fato curioso que me fez testar o corte novamente aplicando um pouco mais de força. O pavor tomou conta de mim naquele instante, ao ver o ferimento aberto ausente de sangue cicatrizar diante de meus olhos, só pude pensar em tentar de toda forma me ferir, e eu me recuperava cada vez mais rápido. Deslizei a faca pelo meu peito, sentindo meu coração imóvel se partir em dois. Ao terminar de tirar a faca do peito não havia mais corte algum. Gritei, e clamei por ajuda, ninguém respondeu. Após um tempo caído no chão, resolvi aceitar a minha realidade e seguir adiante. Pus-me de pé e caminhei, quando ouvi uma voz rouca de um rapaz um pouco mais jovem que eu fardado, perguntar sobre o que havia acontecido, respondi que alguém havia perdido a guerra e que éramos tudo o que havia sobrado.
– Ouvi gritos! – Disse o garoto – Você está bem?
Hesitei por um instante, e então respondi.
– Estou.
– Meu nome é Charlie, acordei ontem nesse lugar.
Ainda estava um pouco confuso, e minha memória não me ajudava muito. Aproximei-me do rapaz esticando a mão.
– Sou Arthur, acabo de voltar dos mortos.
Percebi que o rapaz não entendeu que eu realmente falava sério sobre voltar dos mortos, isso ou então nem se importou.
– Temos que seguir para o norte. – Disse Charlie – Achei um mapa na prefeitura que mostrava os arredores, a cidade mais próxima fica 8 quilômetros ao norte. Se partirmos agora, chegaremos antes de anoitecer.
Concordei, certo de que deveria ter cuidado com o estranho que acabara de conhecer, minha única opção era segui-lo, já esperando por uma armadilha. Seguimos os dois, pela estrada rumo ao norte.
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