Omnes Sanguis

2 Cidade das Almas


Lá estava eu de volta a aquela rua fria e vazia, segurando um guarda-chuva preto. Ocorreu-me a visão de um caminhão de entrega passando por ali no minuto seguinte, me virei então e segui para o outro lado da rua, caminhei pela calçada até entrar na praça onde avistei um banco. Estava um pouco molhado, algo que não me incomodava tanto visto que minhas roupas já estavam molhadas, sentei-me e puxei do bolso um maço de cigarros. Era o meu ultimo, a ansiedade e a perturbação pela falta de respostas alimentaram meu hábito de fumar, acendi e coloquei o cigarro entre os dentes para prendê-lo e ao mesmo tempo ia me acomodando melhor no banco. A fumaça se destacava na atmosfera fria e minhas memórias já se reestabeleciam. E o cenário daquela cidade em 1942 se moldava ao meu redor.

...

Foi uma longa caminhada à cidade do norte, e chegamos por volta das seis da tarde. Senti um olhar estranho vindo dos cidadãos que estavam pelas ruas. Estávamos cansados e minha fome me matava. Encontramos então uma pousada para viajantes e refugiados, estramos no prédio onde fomos recebidos por uma pequena senhora de caráter duvidoso e aparência peculiar.

Perguntei se haviam quartos disponíveis, ela então me lançou um olhar com uma expressão que eu não imaginaria que seria possível tornar a face humana tão feia. Deu-me duas chaves com os números dos quartos, e apontou as escadas. Seguimos e subimos as escadas, ainda encarados pela senhora. Era um prédio antigo até para a época, todo detalhado em madeira e possuía apenas um andar, o corredor era estreito e as escadas eram bem no meio do prédio e acabavam em frente aos dois banheiros comunitários, ao lado havia uma placa indicando o lado A e uma o B do prédio, nossos quartos eram o 13 e 14 do lado B e ficavam um de frente para o outro. Despedimo-nos e entramos em nossos quartos.

Era um quarto pequeno e estava todo empoeirado, havia apenas uma cama, uma cômoda e um criado mudo onde ficava um velho abajur. Em cima da cama estavam duas toalhas e dois travesseiros, era tarde e eu precisava de um banho. Fui até o banheiro comunitário e tomei um banho quente de chuveiro a gás. Ao voltar para o quarto cruzei com outro hóspede no corredor, ele caminhava mancando e também me encarava. Por um instante parei para pensar em como todos os habitantes daquela cidade eram mal-encarados, o que me fez reparar que algo me era familiar. Conhecia aquelas pessoas de algum lugar.

Era por volta de 1 da manhã quando peguei no sono, apenas me lembro de ter despencado em um cenário familiar e nada agradável, uma lembrança se mesclava ao meu sonho e o roteiro era mais do que conhecido. O ano era 1939, e uma de minhas piores lembranças de quando ainda era vivo. Havia muito sangue, e pessoas gritavam, mães imploravam pelas vidas de seus filhos. Atirávamos, mas em quem atirávamos? Um fantasma de uma garota me assombrava, e tudo o que dizia era: “Me salve!”.

Acordei suando, por volta das três e meia, aquilo me arrancara o sono e me perturbara de tal modo que não pude pensar em outra coisa, a não ser levantar e sair para andar. Desci as escadas e andei pelo saguão até o salão principal onde sentava um velho senhor, aparentemente surdo, próximo à lareira. Passei em silencio, não para não ser notado, mas para não ser incomodado. Caminhei pelo corredor onde havia uma porta aberta com a luz acessa, caminhei meio sem expectativas até ela, olhei para trás e observei o senhor que ainda estava sentado no salão. Ao voltar meu olhar para frente, fui surpreendido pela senhora da recepção.

– Cuidado por onde anda senhor Le Mattie!

A luz se apagou e o corredor ficou completamente escuro, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela já não estava mais lá, desapareceu em meio às sombras. E a palavra “Lembre” ecoou ao meu redor, olhei para a luz do Salão que foi se apagando até tudo ficar completamente escuro.

Acordei em minha cama por volta das sete horas, levantei dolorido e meio confuso, acabei tropeçando em um penico que não havia reparado em sua existência até o então momento. Calcei minhas botas e arrumei o cabelo. Já era quase oito horas quando bati na porta de Charlie, ele abriu quase imediatamente e seguimos para o Salão de Refeições onde uma farta mesa estava posta. Charlie afirmou que não sentia fome e se retirou para esperar-me no Salão Principal. Sentei-me à mesa e experimentei a comida. A comida não tinha gosto, quer dizer, o gosto era o mesmo, mas as coisas que gostara já não me eram mais tão saborosas, as maçãs eram apenas água, os pães eram como papelão, tudo era seco e vazio, porém, as fatias de Bacon douradas, ainda possuíam um sabor delicioso.

Charlie me esperava em pé em frente à lareira e segurava um livro de contos infantis.

– Meu pai lia para mim, quando eu era menor. – disse olhando para mim e me mostrando a capa.

– Certamente que é um livro muito bom. – respondi.

– É a minha melhor lembrança dele.

Neste momento então ouvimos o soar de um sino, como os sinos de igrejas.

– Estou achando tudo muito quieto, não encontrei com nenhum hóspede esta manhã, e você? – perguntei.

– Não, não vi nem ouvi nada.

Fui à janela e observei por trás das cortinas uma multidão parada em pé no meio da praça. Saímos do hotel e observamos os cidadãos, imóveis olhavam para nós. Caminhei em direção a eles e antes que abrisse a boca, atrás de mim chamou uma voz conhecida. A senhora da recepção apontava-me o dedo:

– A família aguarda o retorno do assassino. A família aguarda o retorno do assassino. – repetia enquanto caminhava em minha direção.

Logo todos os habitantes da cidade repetiam “Assassino”, pessoas nas janelas observavam e repetiam as palavras “Retorno” e “Assassino”. Charlie estava petrificado ao meu lado.

– Vamos embora, Charlie. – disse-lhe puxando-o pelo braço.

Charlie ainda estava imóvel. Andei até um automóvel sendo seguido pelos cidadãos e arrastando Charlie. Coloquei Charlie do lado do passageiro e entrei no lado do motorista. Logo nos alcançaram e cercaram o veículo. Consegui dar partida e nesse momento todos se afastaram e continuaram olhando. Saímos da inércia. Estávamos a salvo, e em movimento.

Olhei pelo espelho e vi os cidadãos parados imóveis olhando a nossa partida. Num instante, vi materializar-se a senhora no banco de trás do automóvel. Nesse instante perdi o controle e quase bati em uma árvore. Senti sua mão em meu ombro, e uma voz rouca disse:

– Lembre-se, Le Mattie, lembre-se!

No minuto seguinte estávamos apenas nós dois no automóvel dirigindo pela estrada. Charlie ainda estava calado, mas sua melhora era perceptível.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.