Olhos De Dante
20 Tempo
O trabalho sem fim já estava deixando todos agoniados por estarem lá sem haver outra coisa a fazer. Norman e Dimitri ficavam se perguntando quantas peças deveriam ainda carregar para atingir a meta e o que aconteceria caso eles fugissem dali. Para onde iriam? O que aconteceria caso fossem pegos? Sair daquela metalúrgica velha e carcomida era mais do que uma missão impossível, era um anseio de vida e de morte, de existência. Era improvável que parassem o trabalho se estavam sendo vigiados por observadores a todo instante. Quem parasse de trabalhar era repreendido pelos demônios, que não pensariam duas vezes em uma punição, mas algo estranho aconteceu ali e que não esperavam. Um pequeno soar de apito e todos pararam com as tarefas, contrariando tudo o que foi dito. Norman e Dimitri pararam por um instante e olharam um para o outro sem entender o que acontecia. Assim que terminaram de carregar os objetos que seguravam nos braços, foram para onde todos se reuniam. A maioria das almas estava conversando normalmente, gesticulando e até rindo. Aquilo foi sem dúvidas estranho, se era proibido, não fazia muito sentido. Todos deveriam estar trabalhando. Não havia tempo para socializar.
— Ei novatos, acalmem-se, está tudo sob controle — um homem saiu do meio do grupo e voltou-se para eles.
— Por que pararam? Estão observando... — reclamou Dimitri.
— Não perceberam? Eles trocaram de turno, temos meia hora de descanso — riu o outro — Prazer, meu nome é Tim, qual o de vocês?
— Dimitri, e este aqui é Norman — disse pensativo — É Norman, certo?
— Sim, Norman é o meu nome.
— Ah, fiquem tranquilos. Não vai dar problema pra ninguém, o máximo que pode acontecer é dobrarem a carga horária dos observadores, mas eles também não gostam de trabalhar sempre. É gente como a gente.
Tim apontou a eles o grande relógio que ficava pendurado naquele setor. O relógio era de corda, e apesar de toda a ferrugem, ainda funcionava perfeitamente.
— Estão vendo aquele relógio? Usamos ele pra contar o tempo. Sexta-feira será daqui a dois dias, e nesse dia temos uma reunião. Algumas horas livres.
— O que planejam com uma reunião?
— Não posso falar ainda, mas contatem as outras que vieram com vocês; as garotas.
— Maria e Alice... Não sei onde estão — disse Norman.
— Ficam aqui próximo, caso estejam ajudando a exterminar aquelas pragas. Se reproduzem como coelhos. É até inútil tentar exterminar todas. Não entendo o motivo de só mulheres trabalharem com isso.
— Elas também ajudam na cozinha — interrompeu outro homem, chegando até os três.
— Ah sim, bom, isso é nojento — disse Tim, expressando uma cara de nojo.
— É o que eles comem. Poderia ser pior... Talvez, almas — brincou o outro.
— Não diria isso se fosse você. Já ouvi boatos de que existem demônios que comem almas de verdade, que não ficam nessa área, mas nas mais profundas.
— Bom, então isso é você quem diz, nunca ouvi nada disso antes por aqui.
E deixando os dois conversando, Norman e Dimitri partiram para o outro setor, a esquerda, onde as garotas provavelmente estavam. A metalúrgica era subdividida em vários setores, começando pelo descarregamento, pela seleta de material, pela fundição, forjamento, separação, armazenamento, transporte, e por último, a extinção de inermes.
Chegando ao setor, sem qualquer tipo de empecilho, viram centenas de mulheres que não estavam exterminando os vermes gigantes. Os inermes eram gigantescos insetos sem articulações e patas proeminentes, que se arrastavam pelo chão do setor de armazenamento. Eram amarelo-esverdeados e possuíam grandes arcadas de dentições que se dispunham em círculos na ventosa principal, sua boca. Roíam todo o metal capaz de conseguir e transformavam o mesmo em ácido, que transbordava de seus estômagos quando eram atingidos pelas lanças das almas encarregadas de os atingirem. Foi difícil encontrá-las ao adentrar pelo setor de inermes sem nenhuma proteção, mas logo que elas os repararam não foi necessário entrar totalmente pelo setor repleto de larvas no chão, paredes e até no teto, banhados em poças de ácido.
— Estava conversando com Maria agora sobre ir até lá falar com vocês. Parece que também foram “dispensados” — disse Maria, limpando restos dos vermes no corpo.
— É, mas só por alguns minutos. Parece que já sabem da reunião... Norman e eu fomos pegos de surpresa com essa. Achei que nunca pararíamos — disse Dimitri — As coisas por aqui são mais semelhantes com a Terra do que imaginei — riu.
— Pode ser, mas pelo menos lá não tinha que ficar matando tantos animais gosmentos por dia... e aparecem cada vez mais, não entendo.
— Antes matar esses vermes do que carregar peças quase do seu tamanho pra distribuição. Falam de barriga cheia — interrompeu Norman.
— Me desculpe, mas não é lá que tem que ter cautela pra se protegerem de ácido — rebateu Alice.
— Ok, poderia ao menos me mostrar como funciona essa “coisa” — referia-se a lança.
— Depois de algumas horas, a gente pega o jeito — e dizendo isso, Maria se virou e apontou a lança em uma larva que subia uma parede próxima. Em segundos a lança atingiu sua cabeça, explodindo o bicho em pedaços. O ácido de suas entranhas se propagou por boa parte do chão e parede — Fazem uma lambança, não é?
— É, agora estou em dúvida... De qualquer forma, já fizemos nossa parte. Agora temos que voltar para nosso setor. Até sexta.
O tempo decorreu lento dessa vez. Assim que voltaram para os afazeres, olhar para o relógio passou a fazer parte da rotina cada vez mais intensa e sofrida. Talvez ele estivesse ali só para aumentar o sofrimento de cada um que não se continha em ver a meta atingida ou um milagre vindouro, pois não tem nada mais agoniante do que esperar pelo tempo e este decorrer lentamente a cada vez que você o maldiz e o amaldiçoa. O tempo sempre será nosso inimigo declarado, disso todos teremos ciência um dia, seja em vida ou em morte.
O intervalo se fazia de 24 em 24 horas, quando o turno de observadores acabava e outro começava com espaço de tempo de meia hora. Porém, uma vez a semana, eles teriam algumas horas a mais para uma reunião, e isso era o que deixou Norman e Dimitri curiosos. O que os esperava? Se fosse uma fuga, provavelmente não haveria para onde ir, pois não tinham alternativas. Se fosse, muitos já teriam tentado, e não seria agora que eles o fariam, sendo só pela chegada deles. Seria muita coincidência. Se fosse greve, provavelmente não daria em nada, ou daria sim, punições severas que eles nem faziam ideia de como eram. Muitas almas já tentaram se salvar de exaurir pelo trabalho e por isso sofreram mais do que se tivessem aceito sua sina.
O que seria então? Como vencer uma guerra sem nada? Estavam perdidos em seu próprio mundo distópico e sem futuro. Não havia muitas opções de revolta ou rebeliões... Havia?
Fale com o autor