[Dimitri]

Fui o primeiro a notar o soar de alarme quando ele tocou estridente em nossos ouvidos. Precisávamos de toda a atenção voltada ao nosso redor, pois algo estava errado em nosso setor e deveríamos parar com todo o trabalho, desligando as máquinas. Desliguei a esteira de transporte das gigantescas peças aleatórias que deveria carregar pelas costas ao setor de armazenamento, mas assim que uma alma chegara próximo a mim, um pouco cansada pela correria que tivera até chegar ao nosso setor, parei o que fazia.

— Ei, vocês! — gritou impreciso olhando para os lados.

— Nós? — perguntei confuso.

— Sim, vocês dois — apontou para mim e Norman.

— Precisamos de ajuda, um operário sofreu um acidente no setor de fundição. Ele está preso nas engrenagens do forno.

— Nossa! — espantou-se Norman, juntamente de mim, que estávamos segurando, juntos, uma enorme peça de metal nas mãos — Vamos lá.

O acidente acontecera no quarto patamar da metalúrgica onde fundiam o minério. Por isso, subimos as escadas que se seguiam após corredores escuros correndo para chegar logo. O setor era enorme, de estruturas férreas compostas por paredes curvas nas laterais e aberto para o interior, onde dez tanques de ferro fundido se distribuíam, frente às formas que os operários deveriam preencher e trocar em seguida. O forno ficava na lateral direita, onde uma máquina gigantesca, à manivela, funcionava. Possuía grandes engrenagens e a força do movimento feito manualmente proporcionava o calor essencial para a fundição. Dezenas de homens deveriam girar os discos da máquina para que o calor fosse proporcionado, entretanto, um deles havia caído nas engrenagens da máquina aberta e em funcionamento. Seus gritos ecoavam por todo o ambiente.

— Onde ele está? — questionei indo em direção à máquina.

— Está ali — o homem apontou para o fundo escuro das engrenagens, bem ao canto esquerdo da gigantesca máquina. Só era possível ver metade de seu tronco. O resto se encontrava esmagado. A dor que ele sentia era enorme, indescritível, e mesmo assim se mantinha consciente, mesmo que perplexo o bastante para entender o que estava acontecendo de fato. Por estar impedindo o forno de se aquecer tiveram que soar o alarme para a paralização geral.

Alguns homens tentavam descer pelas engrenagens da máquina parada onde ele se encontrava, mas o calor excessivo os repelia facilmente. Lançaram cordas para içá-lo, mas o homem não conseguia alcança-las por estas serem curtas. O único jeito era esperar que a máquina esfriasse. Mas a agonia do homem não poderia esperar por tanto tempo, ele precisava urgentemente sair de lá.

— Aguente firme, Hugo — gritou um de seus companheiros — Estamos trazendo ajuda.

O homem respondeu com gemidos.

— O que devemos fazer? — questionou Norman.

— Precisamos de força pra puxar as rodas no sentido contrário para que ele saia, mas todas estão emperradas.

Empertiguei-me com o que o outro dissera e pus-me a frente de uma das manivelas.

— Isso não parece tão difícil assim. Puxem comigo — ordenei, olhando para os outros que estavam ao meu redor — Em três... Dois... Um...

E puxando o arco com toda a força, meus músculos se enrijeceram e minhas veias saltadas mostravam o esforço que fazia para que a roda se desemperrasse. Foi inútil da primeira vez, e da segunda, e da terceira. Já cansado para tentar pela quarta vez, me acolhi no canto da sala para revigorar as energias. Norman foi o próximo a tentar e com os outros, revezavam as tentativas de reverter a máquina.

— Não tem jeito, Dimitri — disse Norman, depois de tentar pela terceira vez.

— Ele não pode continuar lá — disse decidido.

— Não podemos fazer nada.

— Quer saber? Eu quero mais é que tudo se foda, Norman — e dizendo isso parti para dentro da máquina, me jogando na abertura de engrenagens. A queda me proporcionou consideráveis feridas, pois caíra apoiando-me nas pernas, e batera com o tronco nas peças giratórias de ferro. Levantei-me cambaleante em uma colossal engrenagem flamejante que me sustentava. A temperatura alta da máquina queimou meus braços e pernas que usei para me manter em pé após precipitar-me na abertura.

— Você é louco! — gritou Norman acima, com a cabeça esgueirando-me andar por entre o maquinário, saltando de uma engrenagem a outra. A sola de meu sapato quase derretia pelo excesso de calor.

— Somos almas, Norman. Não podemos morrer novamente. Não faz sentido ter medo por aqui. Você não gostaria de sofrer como ele.

E quando cheguei em direção ao homem, segurei-o por entre meus braços, puxando-o com força.

— Agora você sai — cerrei os dentes.

Com o pé esquerdo empurrava lentamente uma das engrenagens que ia se soltando aos poucos do homem. Fiz força para que a máquina revertesse seu ciclo e sozinho consegui mover milímetro a milímetro os dentes do corpo. O suor de seus poros mostrava que a tarefa era árdua. Em um último ímpeto de força, consegui fazer com que o mecanismo se soltasse completamente da alma. Sua carcaça parcialmente moída se reconstituiu ali mesmo vagarosamente de uma forma dolorosa.

Os músculos perdidos iam se reconstituindo aos poucos, fibra por fibra, amarrando-se nos ossos que nasciam de seus órgãos internos. A pele recobriu sua carne na superfície vermelha como uma camada de papel surgindo do ar. Em poucos minutos lá estavam suas duas pernas novas em folha. O homem se levantou calmamente, apoiando-se no metal escaldante e ferindo-se novamente. Os ferimentos causados pelas queimaduras ardiam fortemente, mas eram toleráveis, pois se regeneravam em seguida, mesmo que o próprio ato de se regenerar fosse doloroso.

— Obrigado — o sujeito se precipitara, abraçando-me.

Eu não consegui esboçar uma reação na hora, movido pela cumplicidade do outro. Mesmo que estivesse tocado com o ato, queria sair daquele inferno o quanto antes possível.

— Deixe seus agradecimentos pra depois. Vamos primeiro sair daqui.

Assim que voltamos para próximo à barreira do interior da máquina, nos jogaram duas cordas e subimos por elas, apoiando-nos pela parede metálica do maquinário. Chegamos sãos ao patamar, já recuperados, e fomos recebidos por todos com salvas de palmas.

— Temos um salvador entre nós, pobres almas condenadas. Deveríamos coroá-lo — gracejou Norman.

— Não sendo com um ramo de espinhos, tudo bem.