A sexta havia chegado e com ela um novo sentimento de esperança nos corações de todos. A reunião era importante, pois se tratava de algo formidável: liberdade. Nos últimos dias isso se tornou claro na última vez que o intervalo se fez. As ponderações de Norman acerca do motivo da reunião se fizeram corretas. Todos falavam sobre tomar o poder e sobre a oportunidade que tinham. Isso deixou Norman e Dimitri entusiasmados, mesmo que receosos. Se eram muitos e se fossem unidos, poderiam quebrar as barreiras daquele lugar e tomar um novo destino para suas existências, ou pelo menos reivindicarem direitos. Utópico? Talvez, mas essa era a única oportunidade que tinham. Tomar o poder. Revolta. Liberdade.

Quando nenhum observador se fazia visível, o ponto cego se tornara evidente, e com isso, o soar do apito, ao longe, fez com que todos parassem suas obrigações. Haviam de se reunir toda sexta para combinar e arquitetar bem os planos, assim como definir metas, objetivos, e partilhar o conhecimento que tinham. Reunidos no mesmo local do trabalho, milhares de almas de todos os outros setores se mostraram presentes ao encontro.

— Nós somos fortes e podemos nos unir contra eles. Somos no mínimo dez vezes mais que eles em quantidade, temos poder de influência. Se um dia isso acontecer, podemos tomar nossa área e eles terão que partir... — dizia Tim, o porta-voz de todos.

— Não sei, hein... Eles podem ser poucos, mas são mais fortes. O que vamos usar? Nossas correntes? — disse um contrariando a ideia, erguendo os pulsos provocativo.

— É uma ideia boa — rebateu Tim — Usaremos o que estiver ao nosso alcance. Já reparou que estamos envoltos por peças de metal? Por que não usar elas a nosso favor? Lanças? Correntes ainda são algo, por menores que sejam. Obrigado pela ótima ideia.

— Não participarei disso — dissera o outro voltando a trabalhar sozinho, pegando as peças.

Boa parte da multidão vaiou o homem, outros ficaram neutros. Maria e Alice não esboçaram reação, enquanto Norman e Dimitri foram tomados pelo espírito rebelde.

— Se todo o nosso plano der certo, em pouco tempo a ideia de opor-se ao poder tomará conta de todas as áreas do Inferno, e a área 999 de 5 de Agosto ficará conhecida como a fagulha da revolução!

— O que acham sobre isso? — Alice perguntou incômoda.

— Essa é nossa chance, ele está certo — respondeu Norman.

— Mas a questão não é essa, será que não percebem que isso é loucura? Nós mal chegamos aqui, nem conhecemos nossa nova realidade e quer embarcar nessa aventura? Isso não faz sentido — a expressão raivosa em sua face.

— O que não faz sentido é o que diz. Quer continuar aqui por mais quanto tempo? Quer sofrer calada? Aqui não, garota.

— Não precisa ser rude com ela, Norman — disparou Dimitri.

— Espero que entendam o lado dela. Ela, assim como eu, não está segura com isso tudo. É tudo novo demais, não tivemos tempo de nos situarmos como os outros — disse Alice.

— Mas se a maioria, que está aqui há bem mais tempo que você, quer, por que iria se contrapor a eles? Eles parecem ter esse plano há muito tempo. Nós não passamos de novatos aqui. Não devemos contrariar algo que não está somente sob nossa alçada.

— Eu não quero sofrer mais por uma causa sem sucesso — Alice disse por fim.

— O que temos a perder se já estamos na merda? — Dimitri interveio.

— Errado. O que temos a ganhar... — finalizou Norman.

E, ouvindo isso, as duas se mantiveram caladas, como se concordassem.

A maioria acabou cedendo à ideia. Algumas pessoas foram contra, mas não havia como negar o que boa parte das almas reivindicava.