[Maria]

Estava rodeada de gente pelos lados. Todos seguiam pelos corredores daquele metrô apressados. As paredes metálicas, apesar de escuras, eram semelhantes a de um metrô urbano comum, só que sem janelas para o lado de fora e com um cheiro forte. Nas laterais não se encontrava nenhum banco, mas portas. Algumas das almas que vieram seguindo o corredor comigo entraram em algumas portas a minha direita, outros a esquerda. Achei que não fosse achar minha repartição nunca. Já havia passado por algumas centenas e as faixas luminescentes continuavam a mandar-me seguir.

Havia alguns minutos que estava seguindo as faixas dentro daquela locomotiva quando vi a porta brilhante que piscava na minha direção, a esquerda, a numeração antes invisível tornou-se clara pra mim, brilhando fluorescente, mesmo que um pouco manchada.

Área 999

Abri a porta com certo pesar na maçaneta metálica, saindo do corredor movimentado. Muitas outras portas seguiam-se a frente, apesar de que aquela fosse, para mim, a última área da minha plataforma. Segundo Beatrice, se eram distribuídas dez mil áreas em cada metrô, aquele comportava mil portas como aquela. Era até um pouco difícil de acreditar, pois nem parecia tão extenso.

Assim que a virei, abrindo a porta devagar, encontrei uma salinha retangular revestida de vidros que tinham como visão o lado de fora, mesmo que algum tipo de superfície escurecida e alguns espelhos impedissem uma total visibilidade. Havia bancos no compartimento que se ordenavam em três das quatro paredes. No meio, uma pequena mesinha. Sobre ela, um lustre, e acima da porta em que me encontrava, um televisor.

Assim que virei-me para fechar a porta, vi uma mão bloqueando-me, abrindo-a totalmente de novo. Fitei-o no rosto assustada. Ele se mostrou de mesmo aspecto. Foi uma situação estranha, e logo entendi o que estava acontecendo. Era um homem não muito mais velho que eu, alto, cabelos negros, pele muito branca e tatuagens que lhe cobriam seus dois braços. Seus olhos claros chamaram a minha atenção a princípio, assim como sua beleza inconveniente. “Homens assim só aparecem em minha vida depois de morta e indo para o inferno”, pensei. Perguntei-me secretamente os motivos para que estivesse ali comigo. Assim que o momento de estranhamento passou, ele fechou a porta e nos sentamos inquietos.

O que ocorreu em seguida nos desconcertou totalmente. A vibração intensa do chão e dos vidros juntamente do barulho de estouro nos assustaram. Achei que tudo fosse quebrar, mas mesmo assim, nada aconteceu dentro daquele âmbito, que se manteve intacto.

Mal percebi o homem, que, antes sentado distante de mim, agora estava ao meu lado, segurando com força em minha mão. Não poderia mais me sentir tão estranha com aquele combo de sensações. Eu queria, por um pequeno instante, ser protegida. Eu queria negar essa parte, mas estava amedrontada.

— Fique calma, vai dar tudo certo — ele disse, talvez mentindo para si — Qual seu nome, garota?

— May — respondi depois de um tempo.

— Dimitri.

Neste exato momento a porta se abriu novamente. Uma mulher de curtos cabelos negros e vestes provocantes entrou na sala. Ela nos observou e depois em um rápido movimento sentou-se fitando o ambiente, apreensiva, olhando do chão ao teto, provavelmente esperando por algo. Estava visivelmente mal com algo.

Quebrei o silêncio.

— O que foi aquele barulho?

Ela desviou o olhar um pouco pensativa, depois virou-se para mim tensa.

— O metrô da plataforma dois explodiu. Eu vi pelas janelas... Destruindo tudo a volta. Milhares de almas aos ares. Eu... Eu acho que isso acontecerá com todos — a mulher colocou as mão sobre a cabeça, absorta.

— Por que fariam isso? Por que motivos os guias mentiriam? O tribunal, as áreas, tudo para quê? — olhei pra ela, titubeante — E mesmo que ocorra uma explosão como no outro, não podemos morrer novamente — disse por fim.

— É estranho, não é? — Dimitri perguntou ao meu lado — Estarmos todos mortos... E mesmo depois disso ainda temos medo de morrer. É engraçado — e depois disso riu, pela situação em que nos encontrávamos.

— Tem razão — concordei.

Neste momento, a televisão, antes totalmente negra, projetou uma imagem de estática. Aos poucos, na televisão a silhueta de um homem se formou e a voz agonizante nos alto-falantes silenciou os presentes.

— Atenção... Não saiam de suas cabines. Repito, não saiam de suas cabines. Qualquer um que desobedecer esta regra será punido de uma forma terrível e irreparável. Aguardem e atentem-se ao segundo chamado que soará quando o metrô em que se encontram estiver pronto para a partida. Este será o único aviso.

A tela desligou-se em seguida.

Todos nos encaramos sem alguma reação quando a porta se rompeu sonoramente. Um homem havia adentrado e fechado a porta logo depois com movimentos bruscos. Ele estava cansado, provavelmente correra da explosão por sua “vida”. Bom, pelo menos foi o que imaginei. Sua respiração estava acelerada e ele suava sôfrego. Apoiando-se na porta, observou a sala, irresoluto. Parecia estar se escondendo de alguém. Depois de um tempo em pé, sentou-se próximo à mulher e encarou meu rosto.

— Parece que seremos companheiros de cela — comentei, quebrando o clima de tensão, forçando ao máximo um sorriso.

Ninguém disse nada. O homem a minha frente suspirou forte e apoiou suas costas na parede próxima a porta. Sob o acento, encostou a cabeça e fechou os olhos.

— É bom que Satã seja um cara legal, do contrário, vou embora — continuei em tom de escárnio.

— Você fala como se estivesse achando graça disso tudo — a mulher interveio com um semblante sério.

— É assim que eu vejo as coisas.

— O pior ainda não aconteceu, garota, e é para lá onde estamos indo — respondeu ríspida.

— Eu sinto como se acabasse de chegar em casa. Tá no inferno? Abrace o capeta! Não sei como estou indo para a mesma área que você... — respondi, fechando os braços. Não estava no meu melhor momento, tentei mostrar o quanto simpática eu não era.

— Cale a boca — ela disse, fechando o assunto. Estava abalada. Seus cabelos curtos constantemente lhe caindo nos olhos.

— Olhe aqui, sua...

Fui impedida de falar assim que o segundo sinal se tornou audível para todas as plataformas. Todos que deveriam entrar já deviam ter se instalado, se não por força, por medo. Neste instante, sentimos que o metrô estava se movimentando, ganhando velocidade. Olhei para a janela e fitei a plataforma correr pela minha visão. Em poucos segundos, a velocidade se tornou maior e o metrô percorreu pelos trilhos chegando ao túnel. O lustre no teto piscou severamente até que apagasse. A escuridão predominou por fim.