Olhos De Dante
14 Caronte
Mantendo a calma para que não ocasionasse mais problemas para mim mesmo, esperei pelo dissipar das pessoas no trem depois que atingi seu final. Norman provavelmente se assustara e fora se esconder ou fora levado a alguma cabine pela influência de cogeres, como uma alma ordinária. Estava arrasado. Era como se houvesse perdido tudo o que havia planejado. Dezenas de cogeres estavam dispersos pelos vagões, vasculhando, entrando em todas as cabines e procurando pelos possíveis culpados da tragédia. Não me perguntaram o que fazia ali, pois estavam ocupados demais para isso.
Deveria agir rápido antes que fosse impossibilitado de continuar ali. Assim que todos haviam se direcionado aos seus destinos, parti para a porta da cabine do condutor. O metrô estava se movimentando no momento. Assim que notei a sua velocidade aumentar, segui o corredor central, rodeado pelas portas, e fui à frente do mesmo, andando numa pressa sem fim por centenas de portas iguais, já que na procura por Norman, tive que me deslocar por boa parte dentro do metrô.
Quinhentas portas eram dispostas para cada lado dos corredores e isso não era algo a ser percorrido facilmente. O metrô quilométrico, no entanto, tinha um fim, e depois de certo tempo cheguei ao término de minha procura incansável. Se tivesse tempo, teria que entrar em todas as salas para a averiguação, mas isso eu não poderia fazer.
Bati na porta esperando alguma resposta. Nada aconteceu de imediato. Bati de novo, com mais força e mais pressa dessa vez. Assim que alguns segundos se passaram, notei um pequeno visor ao lado da porta acender-se. A tela azul não mostrou nada, mas da caixinha de som acoplada pude ouvir a voz do sujeito.
— O que quer?! Será que não notou que temos um metrô em chamas na estação?! — gritou esganiçado. Sua voz continuava a mesma, como se houvesse sofrido um grave acidente na garganta. Uma corrosão por ácido.
— Sou eu, Dante.
— Eu sei que é você. Aliás, o que faz aqui? Já não tem muita coisa a fazer com a “vossa alteza”? — ironizou dando uma risada, desta vez, mais irritante que sua voz em estado normal — Ah, é mesmo... Como pude ignorar isso? Me parece que ultimamente não tem feito nada de útil, e, por isso, decidiu importunar os outros!
— Caronte, não me faça perder a paciência — disse massageando as têmporas.
A tela, antes azul, tornou-se preenchida por várias cores e formas, e em seguida um olho negro se formou. As pupilas viravam de um lado para o outro, procurando algo. Depois, focalizaram-se em mim.
— Parece que está sozinho. Onde está o seu cachorrinho, hein?
— Félix não tem nada a ver com isso. Eu preciso conversar com você, preciso de sua ajuda, infelizmente — disse por fim, mas ainda sem me render. Não imploraria por algo a ele, nem que fosse a única saída.
— Ajuda? De mim? — gargalhou alto — Dante, temo não poder te ajudar. Sou atarefado, você sabe, conduzo dez metrôs ao mesmo tempo. E olhe que hoje, mesmo sendo só nove, o trabalho continua... — seu tom mudou, depois de alguns segundos de pausa — Você não teve algo a ver com isso, teve? — prosseguiu. Seus olhos se tornaram mais ávidos por curiosidade. Eu notei sua pupila brilhar. Usaria isso ao meu favor.
— Deixe-me entrar. Eu tenho algo a te contar, e talvez, você gostará de saber o que é. Se não, acho que não terei nenhuma alternativa a não ser voltar para meu cargo lá fora.
Inicialmente minha vinda a Caronte requeria a presença de Norman, para nosso destino em comum, mas já que tudo estava ruindo, tendi a emendar um de meus planos. Ouvi o barulho de alguma alavanca ser pressionada e a porta se abriu em seguida. Quando destrancada, o visor ao lado se apagou. Assim que passei pela porta, ao fechá-la, observei o interior.
Não tivera tanto contato com Caronte durante os últimos séculos, por isso, tudo que estava lá e o que vi me causou certa surpresa, confesso. A cabine dele não se localizava dentro do metrô, embora fosse uma das formas de se chegar até lá. Aquilo não era bem uma cabine, mas sim algum espécime de escritório dentro do conforto da própria estação. Pude ver antes de entrar a vista pela janela com os prédios do lado de fora, e atrás da porta, o metrô em movimento. Altamente contrastante a diferença de ambientes.
Caronte também havia mudado fisicamente. Antes, o robusto homem que guiava as almas pela força dos braços no rio de Aqueronte, agora se vestia formalmente e aderira a um arranjo peculiar, desgrenhando seus cabelos brancos, mas, apesar da aparente idade avançada e da voz que possuía, estava bem.
— Um portal... — impressionei-me — Não é todo dia que se vê um. Quanta inteligência da sua parte. Achei que fosse mais convencional. Surpreendeu-me desta vez.
— É... — disse lentamente enquanto se levantava da cadeira, próxima aos monitores de uma parede — Fica mais fácil, depois de todo esse tempo de trabalho eu acho que merecia algumas regalias, e a cafeteria é aqui do lado. Um dia, quem sabe, usem portais pra transporte e eu me aposento de vez — brincou — Caso queira um descanso, posso deixar o condutor no automático. O computador faz isso pra mim melhor do que eu mesmo, para ser sincero. Apesar de todo dia serem rotas diferentes, a gente acaba se cansando...
— E quem diria que era com remos?
— Eu gostava.
Distanciando de seu centro de comando, onde vários aparelhos se encontravam ligados, ele foi para uma enorme mesa de mogno centralizada na sala, onde jaziam alguns papéis e vários modelos de pêndulos de Einstein. Nas paredes cobertas por um papel antigo, milhares de quadros de diferentes figuras, emoldurados com alguma madeira escura, contrapunham toda a modernidade à volta.
— O que precisa? Não tenho o dia todo — disse fitando-me ao bater com os dedos na mesa quando se sentou.
— Digamos que devido a alguns imprevistos, tenho duas coisas a falar — encarei-o bem nos olhos — A primeira é que preciso de um favor seu.
— Favores, favores... Já não faço muito sendo eu mesmo? — riu, levando uma xícara de café a boca.
— Preciso que me ajude a encontrar uma alma no metrô da primeira plataforma da estação... — disse sentando-me frente a ele na mesa. Olhei todos os papéis na mesa preenchidos por símbolos desconexos e fitei seu rosto de forma confusa por alguns instantes.
Ele riu alto, ameaçando se levantar e acabar por aí mesmo.
— E como acha que farei isso? — sorriu com o canto da boca, deixando a xícara na mesa — Melhor... Por que acha que eu faria isso? Dante, é você quem me surpreende.
— Se não puder ajudar... É aí que entra a segunda coisa... — disse lentamente para a melhor compreensão daquele homem, que tornou-se a sentar — Você acha que eu posso ter alguma coisa com o que aconteceu hoje, não?
— Como posso saber? — deu de ombros.
— Não pode, e é isso que quero lhe mostrar. Você, assim como todos os que estão designados aos cargos infernais, não fazem ideia do que está acontecendo ou do que está para acontecer.
— Espera... Isso é algum tipo de chantagem? — ele perguntou sério.
— Não, é um proposta.
— Olhe para mim, Dante. Acha que preciso de alguma coisa? Acha que preciso me unir a você para saber o que acontece ao meu redor? — questionou bebendo mais um pouco de seu café.
— Se espantaria com o que desconhece.
— Quem é esta alma que está procurando então?
— Uma alma capaz de mudar tudo o que conhecemos.
Sua expressão, anteriormente tomada por ironia estava séria.
— Um messias? Há milênios que não ouço esta palavra. O que você pretende? Fazer com que voltemos à era das pedras? — ironizou — Não será fazendo traquinagens com meus metrôs que conseguirá algo.
— Mudança. Essa é a palavra-chave. Queremos de uma forma ou de outra, acabar com tudo isso. Dar um fim à nossa sociedade como ela é — revelei.
Ele digeriu um pouco sobre o assunto em silêncio, fitando os quadros da parede ao lado. Eu imaginei que ele iria associar as coisas, ligar os fatos a uma lembrança remota, mas Caronte se mostrou mais lento do que esperava.
— Achei que já havíamos sofrido mudanças o suficiente para que todos estivessem contentes. Aos poucos acho que perdemos a nossa verdadeira essência. Como fariam isso? Quem acha que é? Deus?
— Um plano bem arquitetado pode superar divindades — fitei-o nos olhos — Imagine quem você poderia ser?
— Não tenho tanta certeza, mas creio que conspirações como essa não me beneficiariam diretamente. Desde o primeiro momento que o vi parado frente à porta, soube que estava armando algo. Sei como você é, e suas ideologias acerca de nosso sistema. Você nunca me enganou. Ingênuos os que viram em você transformação. Não tem medo de que contando tudo isso pra mim, sua casa caia?
— Não disse que não tenho — abri o jogo.
— Você terá muito o que explicar, Dante. Se Lúcifer souber que está metido em artimanhas que vão além de seu poder, não gostaria de estar em sua pele.
— Não tenho tempo para explicar, Caronte. Eu preciso encontrar esta alma. Ela é muito importante para que se perca por aí. Até que a ache, tudo está em risco, até você!
— Não cedo, jamais me envolveria com algo desta natureza. Você está sozinho nessa, Dante. O máximo que tem de mim é a neutralidade.
Metade de meu plano estava a caminho, a outra metade, a beira de se ruir. Sabia que poderia ser melhor em meu objetivo se não fosse falho, e sabia como Caronte seria necessário para me levar ao destino que desconhecia as rotas. Só ele sabia. Vi que obviamente ele não serviria para um aliado, tampouco um inimigo. Não aceitaria apartidários, então, que fosse feito de refém, mesmo que sem saber.
— Péssima escolha.
Caronte não se moveu, não conseguindo absorver muito bem o tom da conversa ali. Ele provavelmente imaginava algo, e isso me deixou mais inseguro. Eu tentei ler seus sentimentos na hora, mas fui interrompido por um sinal. Em meu relógio, a luz vermelha havia se acendido.
Não demorei a sair dali.
Em segundos, sorrindo para o homem que me fitava sem entender a repentina fumaça de minhas mãos, que passaram a sumir com meu corpo, saí daquele recinto, sumindo no ar. Todo teletransporte é uma árdua tarefa, e exige concentração. Apesar de anos de experiência, não era mestre em não deixar pistas, e por alguns segundos, resquícios de minha passagem continuaram evidentes no ar. Amaldiçoei-me por isso.
Mesmo não tendo saído como planejado, safei-me por pouco. No momento em que meu corpo havia se esvaído do ambiente, a porta se rompera, e, com ela, dezenas de cogeres apareceram à sala. Haviam se infiltrado na estação e acabaram por descobrir a exata localização de Caronte.
Os cogeres se distribuíram pelo salão, fazendo uma barreira espiritual para qualquer tentativa de fuga. Caronte encarou todos os homens ali presentes sem entender o que estava acontecendo. Não ousou falar algo. Ele sabia quem eram, mas não sabia o que queriam com ele. Pensou que se tratava de minha fuga.
Revirando todo o escritório, eles procuravam por algo. A expressão estática do condutor não o deixara se defender. Mesmo que tentasse, seria inútil. Não demorou mais do que alguns minutos para que alguns cogeres se reunissem. Próximo à parede decorada, um deles esticou a mão sobre um quadro. Sentindo sua textura, constatou algo e tirou um pequeno dispositivo do terno, apontando-o para a tela. O dispositivo apitou. Assim que notou uma fresta na parede, retirou o quadro, revelando uma cratera onde algo que tiquetaqueava se escondia. Retirou o objeto e colocou a pintura no chão. Ironicamente, era um quadro antigo onde seu narrador acompanhado daquele homem, que no momento já estava sendo algemado, se encontravam num barco.
Félix acertara em cheio desta vez. Meu plano inicial não falhara totalmente. Onde quer que Norman estivesse, estaria sozinho, sem minha guarda, mas para ir de encontro a ele deveria esperar por algum tempo, enquanto a poeira abaixasse.
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