Oh, Dammit! [A SER REESCRITA]
9 Não é estupro se ele gostar!
Notas iniciais

Percy
Eu ainda estava completamente irritado com a ideia de ter perdido para Nico.
Qual é! O cara se mostrou muito ruim antes de eu aparecer! Eu tinha certeza que iria ganhar, mas aquele maldito era bom demais, eu tinha que admitir. Confesso que sou um mal perdedor, não consigo suportar a ideia de derrota.
Os únicos que me derrotaram até hoje foram Mírian e Jason. E até hoje eu tento ganhar deles, principalmente de Jason. Ele dizia que não ligava muito para isso, mas sempre que jogava contra mim, jogava como se sua vida dependesse daquilo. E a Mírian, claro, a garota que me ensinou a jogar, mas era óbvio que eu aperfeiçoei as técnicas que ela me ensinou, então estava confiante de que iria ganhar dela qualquer dia desses, já que ela estava passando um tempo em minha casa.
Mas depois da derrota do jogo com Nico, eu fiquei meio receoso. Eu consegui perder para alguém que tinha, no mínimo, uns 7 centímetros a menos que eu. Nico jogava de um jeito que eu nunca vi ninguém jogar. Nem Mírian jogava do mesmo modo que ele. Era realmente impressionante.
Confesso que eu o subestimei e achei que ia ganhar, mas como isso não aconteceu, não tive outra escolha a não ser revelar as fotos, o vídeo e chantageá-lo. Eu simplesmente não podia deixar de ficar perto dele. Não queria isso nem em um milhão de anos. Se eu não tivesse aquelas fotos e não tivesse chantageado Nico, eu o perderia de novo. Eu sabia disso.
Eu só fiz o que fiz para não perdê-lo novamente.
Aquela aposta poderia me trazer muitas coisas boas, mas vou maneirar um pouco. Afinal, eu acabo de praticamente implorar para ele aceitar o meu beijo. Eu tinha ficado meio paranoico quando soube que ele tinha aceitado o beijo de Jason de bom grado, então, em minha mente, eu estava fazendo aquilo apenas para não me sentir rejeitado. Ou não.
Assim que chegamos em casa, Nico correu para o meu quarto, passando por Thalia e Jason que estavam assistindo TV na sala. Thalia falou alguma coisa para ele, mas Nico a ignorou completamente.
Claro que ela achou que eu tinha feito alguma coisa com ele. Claro que ela ia me olhar feio. Claro que Jason também faria a mesma coisa.
– O que você fez com ele? – ela disse um tanto raivosa.
– Nada que seja do seu bico, priminha – eu disse com desdém, deixando-a mais irritada – Por um acaso você gosta de Nico para fazer essa ceninha toda?
Ela me olhou fulminantemente.
– Nico é meu melhor amigo – ela disse claramente tentando manter a calma, ou seja, se ela descontrola-se, eu nunca mais teria filhos – Não quero que nada de mal aconteça a ele.
Revirei os olhos e lhe lancei um sorriso convencido.
– Não se preocupe, ele está em boas mãos – eu disse subindo também, ignorando completamente seus xingamentos.
Entrei em meu quarto e escutei o chuveiro ligado.
Tirei minha jaqueta da equipe de natação e a blusa logo em seguida, jogando-as em algum lugar do quarto, já que estavam úmidas. Tirei a calça, também ainda úmida, e virei para ir ao armário, mas acabei dando de cara com um Jason com um olhar estranho.
– O que você fez com ele, Percy? – ele disse de braços cruzados me encarando feio. Apenas dei de ombros.
– Nada que ele não tenha gostado – eu disse abrindo mais meu sorriso convencido – Está se preocupando demais com ele... Está acontecendo algo? Quer me dizer alguma coisa?
Após ouvir minhas palavras, Jason pareceu espantado com a minha pergunta. Nós éramos bem próximos, contávamos praticamente tudo que acontecia em nossas vidas um para o outro. Mas como em uma boa amizade entre primos, nós dois tínhamos segredos. No caso eu sabia mais ou menos o dele – precisava de mais provas -, então estou em vantagem.
– Apenas fique longe de Nico – ele disse após se recuperar da carranca, encarando-me com um olhar feio e um tanto repreensivo.
– Não dê uma de Thalia para cima de mim – reclamei revirando os olhos. Qual o problema desses dois?
E em um piscar de olhos, Jason estava com seu braço em meu pescoço, prendendo-me entre ele e a parede mais próxima. Segurei seu braço para tentar me soltar, mas sem sucesso. Odiava isso, Jason sempre fora mais forte que eu.
– Eu não vou deixar você ferir meus sentimentos – ele disse olhando pra baixo e forçou mais o braço em minha garganta, fazendo-me engasgar um pouco – Não de novo.
Então me largou e saiu do quarto sem me encarar, deixando-me completamente confuso e tossindo por conta de seu braço em minha garganta. O que ele quis dizer com aquilo? Eu não conseguia imaginar nenhum motivo plausível para ele ter dito aquilo.
Jason, pelo visto, era realmente gay. Eu não me importava, claro que não, afinal, eu mesmo tinha um amigo gay e acabara de beijar um garoto de novo por pura experiência, mas isso me chocava um pouco. Jason sempre se mostrou muito macho, sempre pegava várias meninas as levava para a cama e essas coisas. Então o fato dele ter virado gay me intrigava um pouco e me deixava bastante curioso em saber o motivo disso.
Fui tirado de meus devaneios quando escutei o chuveiro sendo desligado. Esperei Nico sair e para minha infelicidade, ele estava de roupas. Mas o que me chamou a atenção foi que ele tinha cada pedaço de pele coberto e ainda por cima abraçava o próprio corpo enquanto tremia. Não estava frio para ele estar assim.
Nico encarou-me de cima a baixo para depois desviar o rosto, um pouco corado. Afinal, eu estava de cueca boxer apenas. Observei Nico passar por mim sem me olhar depois daquilo e ir pegar seu travesseiro, indo em direção à porta.
– Ei! Aonde você vai? – perguntei segurando sua mão e notando que ela estava muito quente, o que era estranho, pois Nico sempre teve a pele muito fria. – Nossa você está pelando.
– Vou dormir com a Mare e a Bia – ele disse tirando a mão rapidamente – É a água quente...
Ignorei o que ele falou e o peguei novamente pelo braço, o puxando para perto de mim e colocando minha mão em sua testa. Realmente ele estava pelando.
– Você está com febre – eu disse após largá-lo
– Desde quando você... – ele começou a tossir. Piscou os olhos rapidamente, se recompondo e continuou, arqueando as sobrancelhas– ...é médico?
Apenas revirei os olhos e o peguei pela mão novamente, levando-o até minha cama. Fiz com que Nico subisse as escadas e deitasse na mesma, mesmo sobre seus protestos.
– Deite – eu disse e ele me encarou com os olhos semicerrados – Eu vou cuidar de você.
– Não seja ridículo – ele disse tentando se levantar, mas eu o impedi, deixando-o sentado – Eu estou bem, okay? – mais uma crise de tosse.
– Ardendo de febre e tossindo desse jeito? – perguntei arqueando uma sobrancelha – Claro, você está em perfeitas condições. Agora deite.
– Mas... – ele tentou protestar, mas é claro que eu não deixei.
– Deita logo — eu disse empurrando-o e prendendo-o embaixo do meu corpo.
Nico ficou quieto, encarando meus olhos de maneira estranha. Abri um sorriso malicioso e ele virou o rosto, mais corado do que já estava por conta da febre. Meu sorriso aumentou e eu controlei o impulso de lascar um beijo nele novamente, então segurei seu rosto com a ponta dos dedos, fazendo-o me encarar e lhe dei um beijo na testa.
– Espera ai que eu já volto com o remédio – eu disse encarando-o. Ele apenas assentiu com a cabeça, o que foi suficiente para saber que ele não sairia dali.
Entrei no banheiro do meu quarto e me pus a procurar um remédio, porém eu não fazia ideia de qual remédio dar a ele. Na verdade, nem sabia o que ele tinha direito. Febre poderia significar muita coisa.
– Vamos fazer isso direito, Percy – falei para mim mesmo e peguei o termômetro que havia na gaveta.
Vasculhei mais um pouco até achar uma caixinha de remédio que tinha escrito algo para diminuir a febre. Assim que a encontrei, confesso que demorou mais do que eu esperava, sai do banheiro e vi que Nico não estava em minha cama.
Revirei os olhos, mas que menino teimoso!
Deixei as coisas em minha cama e sai do quarto, não antes de vestir uma bermuda jogada no chão, indo em direção ao quarto de Mare. Bati duas vezes e nada. Considerei a ideia de que ele havia ido para o quarto de hospedes onde Thalia estava, mas logo a descartei. Jason deveria estar lá e Nico estava evitando-o tanto quanto estava me evitando. Bati mais uma vez e a voz da minha irmãzinha soou.
– Ele não quer falar com você, Percy – sua voz fora abafada, mas pude notar seu tom indiferente, que me lembrava muito o mesmo tom de Nico.
– Ah não? — disse com desdém — Aposto que ele também não quer que certas coisas caiam em mãos...
Minha fala foi interrompida pela porta sendo aberta brutalmente, revelando um Nico com uma cara de ódio que não conseguia esconder, mesmo com as bochechas coradas por causa da febre, que o deixava mais fofo que o normal.
– Ok, Ok! – ele disse saindo do quarto e passando por mim – Você venceu, Jackson!
Entrou em meu quarto e aposto que só não bateu a porta porque sabia que eu entraria logo em seguida. Não pude deixar de dar um sorriso vitorioso e feliz.
Nico deitou em sua cama e se cobriu por completo, até a cabeça. Ele realmente quer que eu faça as coisas à força, não é? Então é assim que vai ser!
Cheguei perto de sua cama improvisada e arranquei o cobertor de seu corpo, revelando um Nico todo encolhido. A cena era até bonitinha, mas não pude admirar muito, tinha que ser rápido.
Antes mesmo de ele protestar, o peguei no colo, levando-o em direção a minha cama.
– O que você pensa que está fazendo?! – ele disse com a voz um pouco rouca. Provavelmente ele teria gritado, mas pelo que eu pude ver, sua voz estava bem rouca e fraca.
– Eu disse que iria cuidar de você, não disse? – falei sorrindo para ele.
Então me deparei com um pequeno obstáculo: as escadas que davam para minha cama.
Não eram muitas, mas por serem completamente na vertical, eu era obrigado a me segurar no ferro que havia em ambos os lados para não cair.
– Me coloca no chão agora! Se você tentar subir comigo no colo nós dois vamos cair – ele disse em um tom raivoso super fofo.
Ignorei seu comentário enquanto bolava um pequeno plano. Trouxe o corpo de Nico mais para perto do meu e soltei minha mão das suas pernas, deixando-as apenas apoiadas em meu braço, dando liberdade para essa mão. Nico não era pesado, afinal de contas.
– Nico, segure em meu pescoço e não solte – eu disse olhando para ele, que tomou uma expressão incrédula.
– Não! Você não vai fazer isso! – ele exclamou irritado – Percy, eu sei subir numa escada, não sou mais uma criança!
– Mas você esta doente! – rebati. A verdade era que eu só estava fazendo aquilo por achar engraçado.
– Isso não me impede de subir uma escada! Eu subi-as agora pouco — ele disse revirando os olhos e cruzando os braços – E não me trate como se eu fosse fraco.
– Sei que você não é – eu disse olhando para o lado oposto de onde Nico estava – Mas não posso me redimir pelo menos uma vez? – dessa vez olhei no fundo daqueles lindos olhos negros, que eu me lembrava muito bem de terem um brilho simplesmente sensacional.
Nico pareceu ficar mais corado do que estava e virou o rosto para não me encarar.
– Porque esta fazendo isso? Quero dizer, você me odeia – ele disse em um tom baixinho, mas que eu pude ouvir. – E por um motivo que eu não faço ideia.
Meu coração se apertou. Ele realmente não se lembra da nossa infância? Abaixei o rosto, encarando sua camisa preta.
– Então você não lembra, no fim das contas – eu disse em um tom triste.
– Não me lembro de que? — ele perguntou, encarando-me curioso.
Então eu estava para tomar uma decisão: contar ou não que nos éramos amigos de infância. Que nós éramos como unha e carne até ele se mudar para um internato e eu me mudar para Nova York. Contar de como passamos momentos maravilhosos juntos até nos separarmos de vez.
Respirei fundo e disse:
– Nada... Não há nada para se lembrar – minha voz soou mais triste do que eu queria.
Ainda com o rosto abaixado, senti que os olhos de Nico estavam repousados em mim. Antes mesmo que eu pudesse levantar a cabeça para encará-lo, ele passa os braços em volta do meu pescoço em um aperto forte para ele não cair e colocou a testa em meu ombro, escondendo seu rosto.
– Vou deixar você fazer isso só dessa vez. – ele sussurrou apertando mais os braços em torno de meu pescoço – Trégua só porque estou doente.
– Oras, você não disse que não estava doente? – disse tentando não esboçar um sorriso.
– Isso não vem ao caso agora – ele sussurrou – Esse tipo de coisa acontece com certa frequência.
Abri um sorriso, não por ele estar doente, mas sim por ele me deixar cuidar dele. Deixei minha outra mão livre, a que segurava suas costas, deixando-as apenas apoiadas em meu braço, assim como as pernas. Segurei nas duas barras de ferro firmemente e subi um degrau vagarosamente.
– E se você me deixar cair, eu arranco suas bolas fora! – ele ameaçou ainda com a voz rouca e o rosto escondido.
– Tá comigo, tá com Deus – eu disse soltando uma risada.
Com um pouco de dificuldade por causa da posição, consegui subir as escadas com Nico em meu colo. Coloquei-o em cima da cama, de modo que ele não ficasse em cima do termômetro e do remédio que eu havia deixado ali.
Desci as escadinhas e peguei um cobertor mais quente, uma garrafa de álcool e algodão para limpar o termômetro antes de colocar em sua boca. Cobri Nico com o cobertor e botei o termômetro em sua boca após limpá-lo. Nico apenas observava meus movimentos de maneira um tanto incrédula, até porque, eu "odiava" ele até alguns dias atrás e agora eu estava cuidando dele de forma afetuosa.
Ficamos em um silêncio desconfortável esperando o termômetro apitar. Assim que ele o fez, retirei de sua boca cuidadosamente e olhei a temperatura, 39 graus. Ele realmente estava mal.
– Vou falar com sua mãe que você está passando mal. Ela deve saber o que te dar. – eu disse levantando da cama. Estava com medo de dar aquele remédio que eu havia pegado e ele ter alguma alergia e não sabia, então era melhor dar a ele algo que está acostumado.
Ele assentiu e se enfiou mais nas cobertas. Pude ver que ele ficava pior a cada instante. Nico estava tremendo e suava frio, o que me deixava mais preocupado. Desci as escadas novamente e me encaminhei até o quarto de nossos pais. Bati na porta e a abri quando Maria disse que eu podia entrar.
– Maria, Nico está com febre – informei assim que entrei no quarto. Ela tinha um notebook no colo e digitava alguma coisa, provavelmente estava trabalhando.
– Como ele está? Só está com febre mesmo? – ela perguntou preocupada
Relatei os sintomas de Nico e ela vasculhou a mesa de cabeceira, me entregando uma cartela de remédio com apenas uma cápsula azul. Achei o remédio tão lindo que fiquei com pena de ter que dá-lo a Nico, mas eu queria que ele melhorasse logo.
– Parece que Nico ficou com a imunidade baixa depois do... — ela começou, mas deixou a frase no ar, me deixando bastante curioso – Quero dizer, não sei se isso tem a ver...
– O que? — perguntei ansioso – O que aconteceu com Nico?
Maria me encarou de forma triste, como se sentisse um aperto no coração. Balançou a cabeça minimamente, mas eu pude notar.
– É um assunto delicado, Percy – ela disse logo após de soltar um suspiro. – Cuide de Nico para mim, sim? Além de querer que vocês se deem bem, tenho trabalho a fazer.
Apenas assenti, me virando para sair do quarto.
Mas se Maria pensa que vai esconder alguma coisa de mim que aconteceu com Nico, ela está muito enganada.
Após pegar um copo de água na cozinha, ignorando as reclamações de Thalia, que ainda estava na sala, porém sozinha, subi novamente para o quarto, me deparando com Mírian saindo do quarto que Jason e Thalia dividiam. Ela abriu um sorriso estranho para mim e bateu sua costumeira continência com dois dedos.
– Está passando mal? – ela perguntou apontando para o remédio e o copo de água.
– Ah, não – eu disse olhando para os objetos em minhas mãos – Nico está doente.
Não foi nem um pouco estranho para mim o sorriso malicioso que ela me lançou, na verdade, eu sabia muito bem que ela faria aquilo.
– Mika... — eu disse olhando para o chão – Tenho algo a te contar.
– Oras, vamos para o seu qua... – ela começou, mas eu a interrompi.
– É sobre Nico. – encarei seus olhos vermelhos – E ele está lá dentro.
Mírian soltou um "Aaah" e fez um gesto com a mão para que eu a seguisse, mas falei que iria dar o remédio para Nico antes. Entramos no meu quarto e Nico ainda estava na minha cama, lendo algum livro com uma capa brilhante.
– Nee Nico-kun, soube que está doente! – disse Mírian assim que subiu a escadinha para minha cama e olhou para Nico com um sorriso afetuoso – Espero que não seja nada grave.
Nico olhou para Mika com curiosidade, mas lhe lançou um sorriso fraco.
– Imunidade baixa – ele disse dando de ombros – Deve ser uma gripezinha, afinal, fiquei na rua até agora e estava meio frio.
– Espero que melhore, Aye!
– Obrigado, Mírian
Entreguei o remédio a Nico e ele tomou rapidamente, para logo depois murmurar um "obrigado" e se virar de costas, se cobrindo mais ainda. Mírian deu um beijo em Nico (nunca vi menina mais sociável que ela. Mal conhece o garoto e já está dando beijo nele, acho isso bem engraçado) e descemos as escadas, indo em direção à porta.
Apaguei a luz e saímos do quarto, indo direto para quarto temporário dela. Ela se sentou na cama olhando para mim, como se dissesse "Pode falar".
Contei a ela tudo que estava acontecendo nos mínimos detalhes, desde a foto até o beijo que eu praticamente implorei. À medida que eu contava, ela ficava mais animada e às vezes murmurava um "Sabia que você iria ceder ao lado arco-íris da força!" e até fiz um pedido que nunca me imaginei fazendo.
– Espera ai – ela disse fazendo um gesto com as mãos – Você quer a minha ajuda para conquistar Nico?
– Não coloque dessa forma – pedi um tanto receoso, vendo sua expressão mudar de um tanto preocupada para uma extremamente maliciosa.
– Ta, ta! Você quer a minha ajuda para voltar a ser “amigo” dele – ela disse rindo e fazendo aspas com os dedos.
– Isso, bem melhor – eu disse e soltei um longo suspiro, fazendo-a parar de rir e me encarar de forma preocupada, como estava fazendo há alguns segundos antes. – Aceita ou não?
Ficamos um pouco em silêncio. Imaginei que ela estava pensando sobre minha "proposta". Alguma coisa estava acontecendo, pois para uma coisa dessas, Mírian iria topar na hora, não ia nem pensar duas vezes antes de responder um enorme "Hai" e pular no meu pescoço dizendo: "Vou te fazer o melhor seme de todos!". Eu conhecia bem aquela morena para saber que ela com toda certeza faria isso, se algo não estivesse incomodando-a.
– Okay – ela disse após soltar um suspiro um tanto derrotado – Eu te ajudo com seu "probleminha".
Abri um sorriso e a abracei fortemente, murmurando vários "obrigado" em seu ouvido. Mírian disse que pensaria como iria me ajudar ainda em meio ao abraço. Ela se desvencilhou de mim delicadamente e eu me levantei da cama, indo até a porta.
– Boa noite – eu disse sorrindo de orelha a orelha para ela
– Boa noite – ela respondeu mandando um beijo – Não se esqueça de tomar banho!
– Pode deixar, mamãe – ri saindo do quarto e entrando no meu.
Fui direto para o banho e fiquei pensando o que Mírian tinha e o que Maria estava escondendo. Várias coisas passavam pela minha cabeça, mas nenhuma delas me pareceu realmente cabível. Depois de ficar pensando nisso, tomei meu banho de verdade e sai do banheiro assim que terminei.
Não quis ligar a luz para não acordar Nico, então tive um pouco de dificuldade para trocar de roupa. Assim que terminei, parei no meio do quarto, olhando ora para minha cama, ora para a cama arrumada de Nico. Caminhei rapidamente até a porta do quarto, trancando-a, e depois corri silenciosamente até minha cama, deitando ao lado de Nico após subir as escadas.
Definitivamente não queria que ninguém me visse dormindo com Nico, ainda mais Linda ou meu pai.
Nico ressonava profundamente e às vezes fungava um pouco por causa do nariz entupido. Passei vários minutos encarando o rostinho pálido meio corado e fofo dele. De repente, minha mão pareceu se mover sozinha, indo em direção aos seus cabelos e acariciando-os de leve.
Ele se mexeu um pouco e eu imediatamente tirei a mão, mas ele não acordou. Soltei um longo suspiro.
– Ah se você soubesse como eu me sinto – sussurrei – Porque me esqueceu dessa maneira? Porque você não se lembra de mim? Você prometeu. Jurou com o dedinho.
Eu sabia que aquilo eram apenas perguntas que eu não obteria respostas dessa forma. A única pessoa que poderia me responder estava na minha frente, dormindo. Mas eu não tinha coragem de falar com ele quando estivesse acordado. Não sei do que ele se lembra ou não, não vou correr o risco de me magoar mais ainda.
Resisti ao impulso de abraçá-lo, então virei meu corpo, ficando de costas para ele e fechando os olhos. Demorei muito para dormir com um tanto de coisa passando em minha mente, mas antes de pegar completamente no sono, senti um braço passando por minha cintura, chegando mais perto e afundando o rosto em minhas costas nuas.
Senti a quentura do rosto de Nico e sorri minimamente, pegando no sono logo em seguida.
[...]
O final de semana se passou rápido e lento ao mesmo tempo.
Sábado fora um dia um tanto engraçado, mas me fez ser evitado pelo Nico até hoje, segunda-feira. Entretanto, eu tinha ciência de que essa vez era culpa minha.
Finalmente, para Nico, seu quarto estava pronto e no sábado ele tinha passado o dia pintando-o a seu gosto. Eu, claro, com toda a minha bondade, fui ajudá-lo, mas as coidas saíram um pouco do controle e ele tinha ficado um tanto estranho e com raiva de mim, não falando comigo o resto do dia e não olhando para minha cara em nenhum momento na segunda.
No domingo, ele já estava colocando seus pertences no quarto e os moveis que ele havia comprado tinham chegado. Dessa vez eu não tentei ajudar, mas lá pra de noite, quando ele estava terminando de ajeitar o quarto, fui desculpar-me pelo o que aconteceu no dia anterior e acabei escutando sons um tanto estranhos vindos de seu quarto. Pareciam gemidos e sua voz ainda estava rouca por causa da gripe. Pensei que Thalia tinha finalmente conseguido o que queria, mas eu sentia que não era esse o motivo dos barulhos.
Eu estava exausto por causa do final de semana. Além de tentar ajudar Nico, fiquei conversando com Mírian até altas horas da noite nos dois dias, me fazendo dormir pouco. Planejei uma coisa que eu esperava dar certo, seria o meu primeiro passo de verdade, então a ansiedade não ajudava muito no sono.
Mas o meu plano dependia mais de Nico do que de mim mesmo.
Eu havia dormido em todas as aulas naquele dia e assim que elas acabaram, fui direto para o treino de basquete.
Como sempre, Reyna Ramínez, nossa "treinadora", tinha pegado muito pesado conosco, principalmente comigo, Jason e Luke, que éramos os melhores do time, então ela sempre forçava mais o treinamento conosco.
– Bom, meninos, eu já tenho em mãos o nosso primeiro jogo das regionais do Intercolegial. – ela disse sacudindo a folha que tinha em mãos.
Então todos ficaram meio tensos. Por mais que sejamos bons, nunca ganhamos um Intercolegial. Sempre chegávamos as quartas de finais, mas ai perdíamos para o segundo time que jogávamos, ganhando do primeiro geralmente com um placar super apertado.
Mas nós tínhamos esperanças, pois os jogadores que entraram do primeiro ano eram realmente bons e Reyna queria forçar as habilidades deles até serem máquinas mortíferas no basquete.
– Como vocês sabem, jogaremos com cerca de 10 colégios da nossa região e apenas dois times passarão para as quartas de finais junto com os dois ganhadores das outras regiões – estávamos sentados no chão em volta dela enquanto Reyna falava – Nós temos que ganhar as regionais se quisermos ganhar o Intercolegial dessa vez. Nosso time cresceu e amadureceu bastante, mas isso não é suficiente para ganharmos.
Olhávamos atentamente para ela enquanto ela dizia suas palavras motivadoras. Pensei um pouco e meu coração apertou, esse era o último jogo que eu participaria. Eu tinha que pelo menos ganhar o Intercolegial desse ano para zerar a vida, já que não teria essa oportunidade ano que vem.
Repirei fundo e tentei controlar a sensação ruim que eu sentia com isso.
– Os nossos jogadores do primeiro ano são realmente talentosos, mas aposto que os outros colégios estão com jogadores do mesmo porte, com as mesmas habilidades – ela disse calmamente, mas era notório o seu nervosismo – Nossos treinos a partir de agora serão mais pesados e mais focados nas habilidades individuais de cada um. Já estou planejando o treinamento de vocês entre as regionais e as quartas de finais, caso passemos para as quartas, então quero que vocês deem o sangue e o suor para conseguirmos essa vitória que queremos desde que começamos a participar do Intercolegial.
Assentimos e ela continuou a falar.
– O primeiro jogo será aqui na Goode contra um colégio do Colorado. O colégio irá pagar uma boa parte das nossas viagens quando os jogos que forem em outros estados. Mas mesmo assim peço que continuem a juntar dinheiro para podermos pagar o resto das finanças. Já temos uma boa quantia em caixa com a arrecadação do ano passado que não foram usadas por não termos ido para as semifinais, mas não será o suficiente. Eu e meu pai estamos bolando um método de arrecadarmos mais dinheiro para não termos que mexer muito no bolso de vocês, mas isso será necessário de qualquer forma, só que com uma quantia mais baixa que o necessário. A escola investe muito em nós, então temos que ganhar esse ano.
Assentimos novamente.
– Treinos todos os dias a partir de hoje e os treinos de terça e quinta a partir da semana que vem serão mais de noite e em um clube aqui nas redondezas, que nos patrocinará, junto com o time de basquete do clube, que não participa do Intercolegial, claro. Então estejam preparados, o nosso jogo é daqui a duas semanas. Dispensados.
Fui para o vestiário correndo, tomei meu banho rapidamente, troquei de roupa da mesma forma e sai em disparada para o estacionamento, deixando Jason completamente confuso.
– Ei! – ele gritou antes que eu pudesse sair do vestiário – Não vamos juntos pra casa?
– Eu tenho um negócio para resolver! Volta com a Thals, ela não está no treino de vôlei? Então! Te vejo em casa – disparei com as palavras pra sair correndo vestiário a fora, sem saber o que Jason iria falar a seguir.
O meu carro era um dos poucos do estacionamento, então não demorei a achá-lo. Corri até ele jogando minhas coisas no banco do carona assim que entrei e pisei no acelerador, indo em direção ao clube onde Nico treinava basquete. Mírian, mesmo não sabendo o que eu planejava, me passou o endereço do local e disse que ia arrumar um jeito para que eu pudesse entrar.
Assim que cheguei perto do local, liguei para ela e disse que estava na porta do local, mesmo não sendo muita verdade, só queria adiantar o processo. Estacionei o carro na rua de trás e corri ate o portão principal, onde Mírian me esperava do lado de dentro das roletas.
Por participar da arbitragem do Intercolegial e por aquele clube patrocinar o campeonato, Mírian tinha livre acesso no clube quando havia treinamento de basquete, tanto feminino, quanto masculino. E descobri, por Bianca, que a partir daquela semana, os treinos de Nico seriam mais tarde que o normal, pois os colégios que vinham de fora teriam à tarde para treinar no clube.
Geralmente treinávamos no colégio mesmo, mas esse ano Reyna achou melhor treinarmos, além no colégio, em um clube. Ela queria ganhar o Inter mais que tudo e estava disposta a fazer de tudo para levar o outro para casa.
– Ele veio assistir o treino de basquete hoje – disse Mírian para o cara da portaria.
Ele apenas assentiu e pediu para que eu assinasse um caderno e escrevesse o número da minha identidade. Assinei rapidamente e ele liberou a passagem para mim. Mírian me deu um abraço e fez um gesto com a mão para que eu seguisse-a.
– Nee Percy-kun – ela disse depois de uns segundos de silêncio — O que você planeja fazer?
– Só uma coisinha para que eu possa... Hm... Digamos... Ficar mais tempo com Nico – eu disse tentando escolher as palavras, mas sabia que tinha falado merda quando ela me encarou maliciosamente.
– O plano "Fazer o Nico Voltar a Ser Meu Melhor Amigo" já começou? – ela disse fazendo aspas com as mãos e depois riu – Porque você não admite logo que quer o corpo dele todinho pra você?
– Não vou admitir uma coisa que não é verdade – eu disse tentando soar firme, mas minha voz tremeu um pouco.
– Aham sei... e eu odeio yaoi com todas as minhas forças – ela disse sarcástica
– É verdade! – eu disse empurrando ela de leve
– Claro, com certeza! Quem sou eu pra negar alguma coisa? – sua voz estava tomada de ironia. Revirei os olhos e ela me empurrou com o ombro – Chegamos.
– Tem algum lugar... Ahm... Que nós podemos ficar e não sermos vistos da quadra lá dentro? – perguntei antes que ela entrasse no ginásio pela porta que daria direto para a quadra
– Claro! Venha– ela disse e eu a segui para o outro lado do ginásio.
Subimos umas escadas e paramos em um local acima da arquibancada, onde havia alguns equipamentos de ginástica. Dava pra ver a quadra inteira, inclusive Nico e os outros jogadores reunidos perto do treinador.
A expressão fria e concentrada de Nico olhando para o treinador me fez sentir um arrepio e uma sensação esquisita. Não imaginava o que era aquilo, mas estava com um pressentimento esquisito.
Então o treino começou. Nada de inovador. A maioria dos exercícios a Reyna passava para nós e Nico se mostrou normal nessa parte do treino. Seus movimentos eram suaves e rápidos, mas nada comparado ao modo como ele jogou comigo outro dia. Às vezes ele dava uma pequena hesitada e balançava a cabeça, como se quisesse dispensar os pensamentos.
– Ai que tédio – eu disse sentando no chão ao lado de Mírian, ainda em pé, que estava o tempo todo encarando o treino com uma expressão séria. Meu plano estava indo de mal a pior. – Ei, porque essa cara?
– Eles são... Monstros... – ela disse um tanto incrédula
– Como assim monstros? Isso é apenas um treinamento normal. Não há nada de diferente nisso – eu disse encostando as costas na parede.
– Não é o treinamento em si... São os jogadores – ela disse – Eles têm um potencial anormal.
– Ora, são apenas jogadores, eu não vi nada demais neles – eu disse entediado.
– Isso porque você é um cabeça oca que não presta atenção em nada. E que não vê as coisas como eu vejo. –ela disse simplesmente – Esses caras... – ela se interrompeu – Levanta! Eles vão jogar agora!
Soltei um gemido antes de levantar, aquilo estava me dando a maior preguiça de todas. Apoiei meus braços na grade e apoiei meu rosto em uma de minhas mãos, olhando de maneira entediada enquanto eles formavam os times.
Depois de uns segundos, as equipes já estavam no centro da quadra.
Não deu nem 15 segundos para o time de Nico marcar os primeiros 2 pontos.
Arregalei os meus olhos e fiquei paralisado. Foi quase impossível acompanhar a bola de tão rápida que ela passou. Quando a bola foi para Nico, ele simplesmente deu um tapa nela, passando para o pivô, que fez a enterrada mais foda que eu já vi para um cara com a minha idade mais ou menos.
A bola mal caiu no chão e o time adversário já estava passando-a embaixo da tabela. Em poucos segundos, foi marcado um ponto para eles.
Peguei meu celular e comecei a filmar o jogo deles. Nunca tinha visto um jogo tão rápido e tão cheio de "truques" como aquele, para gente da minha idade, claro.
– O que você pretende com isso? – perguntou Mírian
– Quando funcionar eu te falo – eu disse olhando a filmagem e consequentemente o jogo, vendo o time de Nico fazer mais uma cesta. Abri um sorriso. Agora sim meu plano vai começar a funcionar!
– Esqueci que você tem essa superstição idiota – ela disse revirando os olhos.
– Sempre que eu conto algo que eu planejo a alguém, sempre dá errado, então espere até funcionar – eu disse sem tirar os olhos do celular.
Pelo canto do olho a vi revirando os olhos novamente e voltando a olhar para o jogo, bem a tempo de ver uma linda cesta de três de Nico. Um cara com os cabelos castanhos, com 1,80 e pouco, muito mais alto que Nico, bagunçou os cabelos dele com a mão enorme e lhe lançou um sorriso após a bola entrar na cesta.
A reação de Nico não foi a que eu esperava. Pra mim, ele iria dar um tapa na mão do cara e falar algo grosso, mas não, ele apenas sorriu com a brincadeira e falou alguma coisa que não me pareceu um xingamento. Por um segundo, meu coração parou e naquele momento eu queria esmagar aquele cara com todas as minhas forças, mesmo ele sendo bem mais alto que eu. Além disso, queria entender porque Nico correspondia a essas atitudes de outros garotos e não as minhas.
De longe Nico era o menor de todos os jogadores, mas em compensação era o mais habilidoso. A forma como ele jogava em equipe nem se comparava ao modo como ele jogava sozinho. Os passes dele eram rápidos e precisos e às vezes parecia que ele simplesmente sumia na frente do adversário de tão rápido que ele era.
E assim o jogo foi se passando, com o placar sempre pau a pau. Vez ou outra, um dos times marcava mais de uma cesta seguida, mas logo em seguida o time adversário devolvia na mesma moeda. Eles eram verdadeiros monstros.
– Nunca vi ninguém jogando como Nico – comentou Mírian sem tirar os olhos do jogo – Ele é o mais fraco de todos, mas a sua técnica é impecável. Nem meu treinador nos ensinou uma técnica assim.
– Talvez seja algo que apenas ele tem... Assim como você.
– Talvez... Mas de qualquer forma, quero jogar com ele. Vamos ver até onde suas habilidades individuais vão.
Apenas assenti com a cabeça e voltei a filmar quando eles começaram o último quarto do jogo. Geralmente, os jogos de treinamento ou até mesmo nos campeonatos juvenis, cada quarto era de 10 minutos, mas eles jogavam de 12 minutos, como era em campeonatos maiores, tipo a NBA. Pode parecer pouco, mas para o basquete, dois minutos são muita coisa e você pode morrer de tão cansado com dois minutos a mais.
– Eu não perderia a oportunidade de ter Nico no meu time. – disse Mírian no finalzinho do jogo – As chances de vocês ganharem o Intercolegial com ele são muito grandes. Claro, é a primeira vez que eu participo diretamente de um campeonato desses, mas eu assistia aos jogos pela televisão, conheço a maioria dos times que irão jogar.
– Isso seria vantajoso para nós? Digo, você nos dar uma espécie de "colinha" – eu disse sugestivamente com as esperanças de ela ceder.
– Claro que não! Não vou facilitar o campeonato para vocês só porque você e Jason estão participando. Isso seria injusto – apenas soltei um suspiro de decepção – Mas se quer uma dica, peça ao seu treinador para assistir as fitas do Inter do ano passado. Garanto que vocês tirarão proveito disso se o treinador de vocês tiver o mesmo nível de visão que eu.
Eu simplesmente amava Mírian.
Nunca tinha pensado por esse lado e nunca assistimos às fitas dos jogos anteriores, Reyna achava que era proibido, mas já que Mírian estava falando, então... Isso seria perfeito. O nível de “visão de reconhecimento” de Reyna não era tão elevado quando o de Mika, mas tinha quase certeza de que era o suficiente.
– Isso é realmente permitido? – perguntei apenas por desencargo de consciência
– Claro que sim! Vocês nunca usaram essa tática? – ela perguntou incrédula e eu apenas assenti com a cabeça – Vocês devem fazer isso esse ano então, se quiserem ganhar. E se eu fosse você... Não deixaria Nico escapar. Ele pode ser a arma perfeita para vocês.
Dei mais um aceno de cabeça e voltei meu olhar para o jogo, que estava nos últimos segundos. Claro que, enquanto conversava com Mírian, eu estava filmando o jogo.
Meu queixo caiu quando o treinador deles soprou o apito, dando encerramento ao jogo. O placar estava empatado. Nunca na minha vida eu tinha visto um jogo de basquete empatar. Já vi vários com vitória de apenas um ponto de diferença, mas um empate era quase impossível, ainda mais com aquela pontuação, 151 pontos.
– Eles... — comecei, mas Mírian apenas assentiu.
– Eles estão treinando para entrarem em times profissionais, principalmente os que participam da NBA. Eles conseguem muitos jogadores bons em universidades, então é bom treinar desde cedo – ela disse analisando os jogadores.
Eu não seguia parar de encarar o placar.
– Mais uma vez... Eu não o deixaria escapar – ela disse simplesmente e foi caminhando em direção à porta de saída, me deixando sozinho e ainda paralisado.
–Pode apostar que depois disso... Eu não vou.
[...]
A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi mandar um e-mail para Reyna com o vídeo e dizendo em letras garrafais: “PRECISAMOS DO NICO NO TIME!”. Eu tinha quase certeza que Reyna iria dar um jeito de colocá-lo no time, quando o assunto é convencer alguém, Reyna faz isso perfeitamente.
Meu plano até agora estava sendo executado com perfeição, só faltava Reyna fazer a parte dela.
A semana se passou rapidamente, com Annabeth começando a perceber o meu desinteresse por ela, graças a Deus. Eu realmente não queria magoá-la e só estava esperando que ela me desse um pé na bunda.
Nunca pensei que fosse gostar de levar um chute em toda a minha vida.
Depois de segunda, um pensamento me veio à cabeça e não saiu até quarta, quando me encontrei com Jake novamente. Eu tinha traído Annabeth com Nico? Quero dizer, nós somos homens! Isso poderia ser considerado traição?
Em minha mente só era traição quando eu ficasse com outra menina. Aposto que ela não ligaria muito se eu dissesse que beijei um garoto. Mas é claro que eu não iria contar a ela. Annabeth sabe ser uma cobra quando lhe convém.
– Colocando dessa forma... Sim, você traiu a Annie – disse Jake dando uma golada em sua bebida. – Porque você não termina com ela logo e vai para os braços do seu amado? – ele zombou me fazendo revirar os olhos.
– Primeiro, não importa o que você falar, não vou considerar traição – eu disse firme o encarando enquanto Jake soltava uma risada – Segundo, eu não vou terminar com ela! Não quero deixá-la mal. Terceiro, Nico não é o meu “amado”. Isso soa ridículo e ainda mais, eu não sou gay.
– Claro que não é, Percy – gargalhou Jake. – Sair agarrando homens quando se tem namorada é supernormal hoje em dia.
Revirei os olhos e Jake me deu um leve empurrão com o ombro.
– Ah! Lembrei! – ele disse virando seu corpo para pegar a bolsa que estava pendurada na cadeira, tirando uma garrafa de Keep Coller e me entregando.
Olhei para a garrafa roxa e logo em seguida olhei para Jake.
– Sério que é isso que você tinha para me dar? Uma garrafa de Keep Coller? – eu disse revirando os olhos – Se eu quiser eu compro uma no mercado perto da minha casa – olhei entediado para a garrafa, fazendo Jake rir.
– Não é Keep Coller que tem ai dentro, bobinho – ele disse rindo – Só coloquei ai para disfarçar... É uma coisa que vai deixar Nico bem... Animadinho, digamos assim.
Arqueei as sobrancelhas e olhei incredulamente para Jake.
– Você está me dando uma espécie de droga? – eu perguntei rejeitando a garrafa. – Não, não vou usar isso! O que você espera que eu faça com ele? Que eu o estupre? Nem fudendo! Só quero ser amigo de...
– Não é estupro se ele gostar – disse Jake dando a última golada de seu drink – Além do mais, não vai fazer mal... É uma coisinha que te deixa nas alturas, pode crer eu já usei.
– Então você tomou um negócio que mal sabe o que é? Você é louco! – exclamei. – Aposto que foi ideia do Brad! Vocês não tem jeito mesmo. E eu não acredito que ele aceite que você dê em cima dos caras.
– Primeiro, só porque eu converso com homens não significa que eu dê em cima deles. Eu estou conversando com você e estou dando em cima? Não, então pare de bobeira, você sabe que Brad é tão ciumento quanto eu. Segundo, você sabe que eu confio no meu namorado e como as coisas estavam esfriando entre a gente, ele resolver arrumar um jeito de “alegrar” nossas transas – ele disse simplesmente – Não vai fazer mal a Nico, confie em mim.
– Eu não vou embriagá-lo! Não é como se eu quisesse transar com ele – eu disse me sentindo estranho ao falar aquilo – Quero dizer, somos homens.
– Essa é a desculpa que todo gay enrustido dá – Jake riu e pegou um cigarro do bolso, oferecendo-me. Rejeitei o objeto e ele deu de ombros, acendendo-o e colocando-o na boca. – Você deveria experimentar. Não ficar apenas nos beijos roubados. Você mesmo disse que ele está começando a ceder e tá estampado na sua cara que você quer comê-lo.
Senti minhas bochechas queimarem com as palavras do meu melhor amigo idiota. Ele só podia estar louco em achar que eu estava cedendo para o outro lado. Talvez eu sentisse algo além de amizade por Nico, mas isso não me torna gay... Ou será que torna?
A cada dia que passava as coisas em minha cabeça ficavam mais e mais confusas. Uma parte de mim parecia relutar em deixar Annabeth, enquanto outra clamava por aquilo mais que tudo. Sem contar que só de lembrar dos lábios de Nico nos meus já me dava uma sensação estranha e boa.
– Eu não sei o que fazer – eu disse após pensar um pouco e desabar na mesa.
– Apenas deixe as coisas fluírem. Quando tiver que ser, será. – disse Jake sorrindo amigavelmente para mim – Mas não deixe de aproveitar essa sua chantagem, só não pegue pesado com o garoto.
Olhei para a garrafa de Keep Coller e voltei meus olhos para Jake.
– Leve com você, caso mude de ideia – ele disse rindo com a minha expressão – Brad consegue mais disso fácil, fácil. Não se preocupe.
Apenas assenti e peguei a garrafa. Paguei a minha parte e me levantei para ir embora, já estava tarde. Despedi-me de Jake e do garçom que sempre nos atendia e fui para a porta, mas Jake gritou uma obscenidade tão grande que me fez parar e ficar vermelho.
– Caso aconteça... Lembre-se que homens pagam boquete melhor que mulheres! – a cara de pau dele e o jeito de “estou pouco me fudendo para o que os outros vão achar” me impressionava. Tanto que ele apenas riu e deu de ombros quando gritou aquilo. E ele sabia bem como envergonhar as pessoas quando queria.
Apenas me retirei do recinto sem olhar para trás e fui andando calmamente até minha casa, perdido completamente em meus pensamentos.
Reyna ainda não tinha me dito se tinha conseguido ou não convencer Nico a entrar para o time e isso estava me matando por dentro. E olha que já tinha passado dois dias.
Cheguei em casa rapidamente, já era quase uma da manhã, então todos estavam dormindo. Entrei em meu quarto e a primeira coisa que eu fiz foi guardar aquela maldita garrafa no local mais fundo do meu armário. Não iria dar aquilo a Nico nem se me pagassem.
Despi-me rapidamente para colocar uma calça de moletom folgada e deitar em minha cama. O quarto parecia tão vazio e morto sem a presença de Nico que isso me deixou um pouco triste e os pensamentos em um certo moreno.
Não queria nem quero admitir, mas estava começando a ser difícil negar depois de tantas horas perdidas pensando no assunto. Minha mente dizia que “não”, mas meu corpo e meu coração diziam:
“Você está se apaixonando”.
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