Oh, Dammit! [A SER REESCRITA]
19 Ah, merda...
Notas iniciais
Capítulo 1: Merda de segunda-feira
Tudo estava calmo, em silêncio. O quarto estava completamente escuro e ele desejou passar o resto da vida naquele local. Ainda mais que sua cabeça latejava e uma forte onda de enjôo lhe bateu no estômago.
Mas as coisas não eram tão simples assim.
— Nathaniel D’Amico Fernandes, se você não levantar dessa cama agora eu não me responsabilizo pelos meus atos! – a voz de Mônica, sua mãe, lhe perfurou os ouvidos de forma tão intensa que ele achou que sua cabeça fosse explodir.
Nate resmungou, enfiando a cabeça embaixo do travesseiro para abafar os gritos de Mônica, mas as paredes eram muito finas, assim como a voz da mulher. Não queria de forma alguma levantar daquela cama, ainda mais para ir à escola naquela segunda-feira. Leandro, seu melhor amigo, tinha lhe arrastado para uma festa no topo da favela na noite anterior e tinha sido melhor do que ele esperava.
Como era de praxe, bebeu pra caralho, transou com sabe-se lá quantas mulheres e provavelmente tinha feito outras coisas das quais se arrependeria, mas que ele não se lembrava. Se ele não se lembrava, não aconteceu, esse era seu lema.
Mas sim, a noite tinha sido muito boa.
Provavelmente iria se sentir culpado por faltar aula mais tarde, mas aquilo era um problema para o Nate do futuro e o Nate do presente só queria pegar no sono novamente. Só que era óbvio que sua mãe não deixaria uma coisa daquelas, não demorando para que ele sentisse o travesseiro sendo arrancado de suas cabeça e água gelada sendo espirrada em seu rosto, fazendo com que ele se debatesse antes de levantar assustado.
Sim, Mônica tinha essa tática de acordá-lo com um borrifador de água.
— Eu falei que não me responsabilizava pelos meus atos caso você não acordasse – ela disse, séria. Mônica jogou o travesseiro em cima de Nate e caminhou até a janela para abrir as cortinas, deixando a luz do dia penetrar no quarto.
A luz ofuscante penetrou nos olhos de Nate, fazendo com que sua cabeça doesse ainda mais. Ele não conseguia pensar direito, apenas resmungar. A raiva lhe atingiu, detestava profundamente ser acordado, ainda mais daquela forma.
— Você é a pior! – ele resmungou pra mulher.
— E tu é um moleque ingrato! – ela devolveu – Passou a porcaria da noite fora e ainda chegou totalmente bêbado! Você sabia que tinha aula hoje de manhã!
Nate revirou os olhos.
— E daí? Eu posso faltar um dia que seja – ele rebateu – Minha frequência é impecável, ninguém vai morrer se eu faltar um dia.
— Ah, mas tu vai morrer se faltar! Eu vou fazer questão disso – Mônica estava verdadeiramente irritada. – Eu faço tudo pra te sustentar, te dar uma vida decente e você me agradece dessa forma.
— Não foi você que passou na merda da escola
— Mas não esquece que o bonito pode muito bem ser expulso dela no menor deslize e eu não vou deixar isso acontecer – ela se encaminhou para a porta do quarto, mas antes de deixar o cômodo, apontou para Nate ameaçadoramente – Se você não aparecer na cozinha em 10 minutos, você vai se ver comigo.
Então a mulher saiu do quarto, fazendo Nate revirar os olhos por uns segundos, mas finalmente se levantou da cama. Sabia que a mãe não estava brincando quando fazia uma ameaça daquelas, então achou melhor não contrariá-la.
Foi direto para o banheiro pequeno e limpo ao lado do quarto. Tomou um dos banhos mais rápidos que conseguiu e ao sair do local com uma toalha enrolada na cintura, bateu de frente com um ser miúdo.
— Um pouco de privacidade, por favor? – ele disse torcendo o nariz pra irmã, que lhe encarou de um jeito esquisito.
— Preciso terminar de me arrumar, não ouvi que estava tomando banho – respondeu ela. Ana Beatriz lhe encarou dos pés à cabeça com aqueles gigantes olhos castanhos – Vai me levar pra faculdade?
— Levo – ele respondeu, agora analisando melhor a irmã.
Ana Beatriz não era o tipo de garota que se arrumava para a faculdade, muito menos passava batom vermelho vibrante. Mesmo que estivesse no Rio de Janeiro, ela dificilmente usava shorts, mas agora usava um mais curto que qualquer outra coisa. Além disso, usava uma blusa solta com um decote, o que também não era de costume dela.
Preferiu não falar nada, apenas passou pela garota e foi para seu quarto.
Foi até seu armário pegando as peças do uniforme. Queria dizer que odiava as roupas da escola, mas não era verdade. Nate gostava da blusa branca social com a gravata azul escura, assim como da calça e do blazer da mesma cor, com o símbolo da escola bordado e alguns detalhes em vermelho. Só não gostava que tivesse muitas regras a respeito do vestuário, que tinham que ser seguidas e ele detestava, como o fato de não poder deixar a gravata frouxa ou usar alguns acessórios.
Ele odiava quase tudo naquele lugar. Desde que conseguira uma bolsa de 100% através de um concurso, há três anos, nunca se adaptou ao colégio particular. Não fizera muitos amigos e a maioria o tratava como se fosse um lixo, tudo porque ele era bolsista, pobre e morava na favela. Não tinha um minuto de paz naquele lugar, então acordar cedo todos os dias para ir lá, era o equivalente ao inferno.
Mas estava no terceiro ano e faltavam alguns meses para que ele se formasse e nunca mais visse a cara daquela gente mesquinha e metida. Nate apenas contava os dias para que aquele inferno acabasse de uma vez.
Se arrumou rapidamente, tentando fazer o nó da gravata enquanto caminhava para a cozinha. Como sempre, só tinha café pronto, algum pão velho e fruta. Raramente tinha algo além daquilo em casa. Às vezes ele sentia falta da vida boa que tinham quando o pai ainda estava vivo. Mesmo que não fosse um dinheiro limpo, pelo menos tinha uma vida decente.
A vida tem seus favoritos.
— Dois anos na escola e ainda não aprendeu a arrumar essa gravata – comentou Bia, com uma xicara na mão.
— Eu odeio essa merda – reclamou ele bufando. Encheu sua propria xícara, colocando mais açucar que o necessário.
— Você ainda vai morrer de diabetes assim – a irmã estava do outro lado da cozinha, apoiada no balcão e encarando o irmão com um tom de deboche
— Se for necessário
— Não seja idiota – ela revirou os olhos, então repousou a xícara atrás de si e foi até ele – Deixa eu te ajudar.
Ele deixou que Bia arrumasse a gravata em seu pescoço, o que permitia que ele pudesse analisá-la melhor. Ela estava de maquiagem, o que não era de seu feitio, ainda mais uma tão pesada que escondia as sardinhas que salpicavam o rosto da garota usualmente.
— Pra que tudo isso? – ele perguntou franzindo os olhos. – Eu gosto das suas sardinhas.
— Fala isso porque voce também tem – ela devolveu, se afastando – E não te interessa.
— Lógico que interessa, você tá totalmente diferente do habitual
— Eu só quis dar uma mudada, não posso? – ela arqueou uma sobrancelha para ele.
Nate deu de ombros e voltou a tomar seu café, encerrando o assunto. Ficaram em silêncio por pouco tempo, pois a mãe entrou igual um furacão na cozinha.
— Nathaniel, tenho uma boa notícia – Mônica disse enquanto aprontava seu almoço pra levar. – Não vai precisar mais vender a moto.
Nate ficou surpreso com a declaração, piscando algumas vezes para a mulher a sua frente. Os cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo alto e a pele pálida contrastava com suas olheiras, mas ela ainda tinha o semblante sério e determinado que sempre teve.
— O que aconteceu? – ele perguntou, um pouco temeroso da resposta.
— Eu consegui um serviço extra – ela respondeu, sem olhá-lo – Vai ser o suficiente pra pagar as contas do mês.
Nate a encarou seriamente. Viviam numa situação complicada desde que seu pai falecera. E desde então, Mônica se matava de trabalhar pra conseguir sustentar os dois, mas algumas dívidas antigas apareceram e um dos meios de conseguir dinheiro seria vendendo a moto de Nate havia herdado do pai, já que ela impedia ferrenhamente que ele e Bia trabalhassem.
— Mãe… – ele disse, pacientemente – Eu não me importo de vender, voce sabe. Não quero que você se mate trabalhando.
— Não se preocupe, meu bem – ela devolveu, juntando suas coisas e indo até a porta – As coisas vão mudar, tenham fé.
Então saiu apressadamente, sem que visse o revirar de olhos dele. Não tinha uma relação boa com a mãe, mas ainda era sua mãe e ainda a amava. Às vezes sentia-se culpado por não ser teimoso como sempre e arrumar um emprego sem que ela soubesse, mas aquilo seria praticamente impossível, ainda mais que tinha que manter notas na escola para manter a bolsa. Estava feliz que não venderia mais praticamente a única coisa que tinha sobrado do pai, mas ainda sim tinha aquele gosto amargo de impotência.
Ele suspirou e foi terminar de se arrumar. Pegou suas coisas, as chaves e foi em direção ao lado de fora da casa onde ficava sua moto. Gritou por Ana Beatriz e a garota apareceu alguns segundos depois que ele montara e ligara a moto. Entregou o capacete para ela e em pouco minutos partiram.
Chegou à federal depois de mais de meia hora. Odiava isso no Rio de Janeiro, mas não tinha muito o que fazer. Parou a moto em frente à entrada e esperou a irmã desmontar.
— Bia – ele chamou quando ela já tinha dado as costas. Beatriz virou-se, com uma expressão interrogativa. – Eu realmente não ligo para as roupas que você usa. – mentiu. Nunca teve que se preocupar com as roupas que a irmã usava. – Mas, pelo amor de, sei lá, Deus, se algum moleque tentar alguma gracinha com você, tu me avisa, okay?
Beatriz revirou os olhos e olhou para Nate com uma cara debochada.
— Eu to falando sério! – ele exclamou – Não quero que você seja uma Dayane da vida. Os caras gostam de mina rodada, principalmente pra te comerem.
— Que machista, Nathaniel – ela reclamou, olhando para o irmão com nojo. – Não se preocupe, eu cuido de mim sozinha.
Ele sabia que a irmã sabia se cuidar, mas ele não conseguia deixar de se preocupar com ela. Mesmo que ele tivesse aquele pensamento que ela dizia ser machista, só que era a verdade, a realidade e ele conhecia o mundo masculino. Não aliviava aquelas palavras.
— Mas eu me preocupo com você – ele devolveu, mas ela virou as costas. – Sua ingrata!
Ela nem se deu o trabalho de virar, apenas levantou o dedo do meio para ele. Nate revirou os olhos, mas não adiantava falar mais nada, a garota já estava longe. Então ele deu partida, indo em direção ao colégio.
Chegou uns uns 10 minutos adiantado na enorme construção antiga. Era um colégio de rico, com uma estrutura grande e bonita. Aquele lugar parecia quase um campus de faculdade e lembrava-se perfeitamente da primeira vez que colocou os pés naquele lugar e se perdeu completamente.
Caminhou em direção ao prédio que tinha as aulas do terceiro ano, mexendo em seu celular para não ter que encarar o pessoal daquele lugar. Seus fones de ouvido com uma música alta abafavam os comentários a respeito dele e sua aparência.
Só que ele não conseguia ter nem um segundo de paz. Não quando trombou na pessoa mais desagradavel e desprezível daquele lugar inteiro.
— Ora se não é a nossa princesinha do lixão – a voz debochada fazia o estômago de Nate revirar de ódio.
— Ah, merda… – ele resmungou, tirando os fones e encarou o garoto de cabelos negros com um sorriso debochado – Sete da manhã e o cara não me deixa em paz. Tu não tem nada melhor pra fazer?
O garoto abriu um sorriso malvado. Estava acompanhado de mais uns três caras, que Nate não fez questão de prestar atenção.
— Não posso deixar de atormentar minha princesinha favorita. – os olhos verde mar de Pedro transmitiam o desgosto e o sarcástico – Como foi o final de semana na favela? Roubou muita gente?
A presença de Pedro Cardoso era suficiente para irritar Nate ao extremo. Ele vivia chamando-o de princesinha do lixão ou mocinha da favela e outros adjetivos atacando sua aparência e sua condição financeira. Odiava muito tudo aquilo, mas quando se é atormentado pelo filho do dono da rede do colégio que você estudava, era difícil ter alguma reação. Ainda mais quando você era apenas um garoto pobre que conseguiu uma bolsa naquele colégio de rico.
Nate não tinha opção a não ser ficar quieto e apenas aguentar. Odiava aquela escola, odiava tudo e todos ali, mas não era opção sair. Não quando sua mãe lhe chantageava emocionalmente. Ela não fazia ideia do que as pessoas falavam dele ou o quanto sofria bullying daquele garoto e dos amigos dele.
Mas Nate estava acostumado, mesmo que doesse. Por ser androgino e ter alguns traços femininos, ele era sempre visto de maneira torta e as pessoas supunham coisas dele com base apenas nisso. Isso o irritava ao extremo, mas não podia simplesmente sair socando as pessoas na rua. Infelizmente tinha 19 anos e podia ser preso.
— Tu deve ter um tremendo tesão em mim, né Pedro? – ele debochou. Pelo menos tinha as palavras ao dispor – Não consegue viver um minuto sem estar do meu lado.
Com uma expressão de tédio, Nate apenas colocou os fones de ouvido novamente e passou pelos caras, mas sem antes comentar:
— Desculpa te decepcionar, mas você não faz o meu tipo.
Ele ia começar a subir as escadas quando foi brutalmente interrompido por uma mão, que lhe pressionou contra a parede ali próxima. Pedro segurava a gola de seu blazer com força, o olhando extremamente irritado. Nate apenas sorriu minimamente, fazendo sua melhor cara de tédio.
Pedro deveria ser uns 7 ou 8 centímetros mais alto, mesmo que Nate fosse dois anos mais velho. Não queria mesmo brigar para não perder sua bolsa, mas se começasse a apanhar ali, ele iria revidar e não se importava nem um pouco com isso. Faria questão de que ele não fosse o único a sair machucado daquela situação. Pedro nunca ousou agredir Nate fisicamente, o que lhe era um mistério, mas ainda sim nunca se sabia.
— Escuta aqui, seu viadinho de merda – ele começou, mas Nate o interrompeu com uma gargalhada.
— Tu que vive me seguindo, vive querendo tocar em mim e eu que sou o viadinho de merda? Faça-me o favor, Pedro – ele disse desdenhoso.
— Pedro, não tá passando dos limites? – o garoto ao seu lado interrompeu Pedro antes que falasse alguma coisa. Jean Cardoso, primo de Pedro e outro riquinho mimado de bosta.
Ele era um cara alto, mais alto do que todos os outros do time de basquete do qual faziam parte. Possuía os cabelos loiros que Nate jurava que eram oxigenados. Os olhos azul gelo bem intensos, combinando bem com sua pele branca . Eles se encararam por alguns segundos antes de Jean desviar o olhar.
Achava a situação estranha, pois ele nunca fora de interferir. Era o único que nunca fizera nada contra Nate, mas também não fazia nada a favor e apenas observava o outro sendo xingado e maltratado pelo primo.
Jean colocou a mão no ombro do primo e eles se encararam por alguns segundos. Nate não soube o que se passou, mas no mesmo instante o sinal tocou anunciando o incio das aulas, fazendo com que Pedro o largasse, mas sem deixar de encará-lo com desgosto.
— Ainda vou acabar com você, Nathaniel – ele ameaçou antes de virar-se e sair andando com o resto de sua gangue.
— Eu vou estar esperando! – Nate rebateu.
Então eles saíram em direção às suas salas. Sua cabeça ainda latejava e ele só queria dormir, mas infelizmente não podia.
Com um suspiro cansado, ele se encaminhou para sua sala. Queria um dia de paz, mas recebeu o ínicio de um dia no inferno.
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