Obsessão
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– Ei. Acorde. Acorde!!!
Doralice balançava a jovem grávida pelos ombros, mas com certa delicadeza que era um dom de nascença.
Laura abriu os olhos assustados, acordando em um susto. O corpo todo doía, mas principalmente as costas e o pescoço, afinal, não era toda noite em que dormia amarrada em uma cadeira.
– Vamos para outro lugar.
Ainda estava confusa. Demorou alguns segundos para se dar corta de onde estava e percebeu que seus olhos ardiam muito. Chorou até dormir. Primeiro fugiu, depois quase foi levada por uma tempestade e, para completar, foi sequestrada.
Sentiu uma esperança ingênua.
– Vai me deixar ir para casa?
– Não seja estúpida. — Dora sorriu debochada. — Já passou tempo até demais aqui. Vamos para outro lugar.
Sentiu a frustração lhe matar por dentro.
Doralice se agachou na frente da moça e começou a desatar o nó da corda que amarrava os tornozelos finos e brancos da moça.
– Então... — Laura começou com medo. — Sua família não pode me ver...
– É claro que não.
– Então o que a faz pensar que isto é certo?
Laura ousou e não sabia que tinha feito errado. Os olhos de Dora encontraram os dela, estavam cheios de raiva.
– Não me entenderiam, é óbvio. Pare de fazer perguntas idiotas. — falou com os dentes cerrados. Não queria machucar Laura. Ela voltou a focar nas cordas amarradas. — Não vou perder minha filha novamente.
Só queria ir para casa. Mesmo nervosa, tinha algum bom senso. Ela sabia que Doralice não faria nada a ela, isso poderia afetar o bebê. Estava com medo, mas decidiu ousar um pouco mais.
– Senhora Champoudry, sei que sofreu muito quando... — ela apertou os olhos, queria dizer “morrer”, mas isso só faria Doralice irritar-se mais. — Quando perdeu sua filha... Não posso imaginar a dor. Não tire minha filha de mim, Senhora Champoudry, como pode desejar tal dor para outra pessoa? — tentava parecer calma, mas estava tremendo.
– Que se dane o que sentirá desde que eu não sinta. — respondeu ríspida, em seguida ergueu o rosto e viu o rosto espantado de Laura. — É isso mesmo querida, eu não ligo se é egoísta demais. — sorriu docilmente, mas de uma forma assustadora. Agora pare de falar, eu ainda posso te machucar sem ferir Madeleine.
Ela podia tentar mais, como perguntar “como pode machucar a pessoa que está carregando sua filha?”, mas não queria de jeito nenhum falar ou pensar dessa forma. Era sua filha, não de Dora, não queria usar a loucura da primeira-dama para se favorecer, ao mesmo tempo que faria qualquer coisa para salvar a si e sua filha.
Doralice desamarrou as cordas que amarravam os tornozelos de Laura e, em seguida, os pulsos. Os braços caíram para frente, moles e dormentes. Ela segurou o braço da moça e a levantou.
– Escute bem, nós temos que ir andando, se eu tentar pegar o carro farei muito barulho e acordei a todos. Não é longe.
– Não pode andar comigo pela cidade sem que ninguém me veja.
– Não? — Dora puxou a cortina da janela que estava bem atrás dela. Revelou uma paisagem escura. O jardim do prefeito no meio da noite. — O sol nem pensa em nascer ainda, minha querida. Vamos.
–
Mesmo que estivesse muito escuro, Dora cobriu Laura com um casaco com capuz e amarrou seus pulsos com uma corda mais fina. Doralice disse que se ela tentasse qualquer coisa, lhe cortaria inteira com uma faca que levava em sua bolsa. Não faria isso. Era complicado estar naquela situação, sua filha estava tão próxima, mas a mulher que a carregava queria levá-la para longe.
Laura também sabia que ela não a cortaria toda, mas, ainda assim, tinha medo, ela poderia agir por impulso caso ela gritasse ou tentasse chamar a atenção de alguma forma.
Dora levou Laura para um beco. Era um morro, não muito inclinado, começava com uma escada longa e depois um pouco de rua com paralelepípedos, semelhante a aquele beco que levava para a vila de Laura. Era um beco com casas abandonadas, pelo menos a maioria.
Alguns homens viviam ali, uma gangue, mas todos achavam que as casas estavam vazias. O líder deles foi solto da cadeia fazia pouco tempo. Eram traficantes, mas o líder, o jovem Henri LaRue, era um assassino frio, matador de aluguel, mas Doralice tinha um interesse um pouco diferente nele.
– Por que estamos aqui nesse beco? — Laura sabia que aquele lugar não estava abandonado e sabia bem as pessoas que habitavam ali. Henri era irmão de seu namorado, Bernard. Ele sempre teve inveja do irmão, principalmente quando este soube que Bernard se casaria com Laura, por quem foi apaixonado por muito tempo, desde a infância.
– Cale a boca. — Dora respondeu fria e continuou levando Laura pelo braço até uma das casas.
As casas eram todas grudadas, como se fossem uma só, dava para separá-las por conta da cor da fachada, mas eram praticamente iguais. Dora bateu a porta de uma que tinha a fachada azul e esperou.
Um homem forte e baixo atendeu. Tinha um bigode estranho, sem barba alguma. As sobrancelhas grossas se abaixaram.
– Que merda é essa? — ele perguntou.
– Certamente me conhece. — começou Dora, embora estivesse com o queixo levantado, estava com medo.
– É a esposa do prefeito, não deveria estar aqui. Não é lugar para damas.
– Vejo que sabe mesmo... Então deve saber que tenho dinheiro.
O homem ficou mais desconfiado ainda. Era insano receber a primeira-dama de Arles ali, mas a palavra “dinheiro” lhe chamou atenção.
– Senhora, deve saber que aqui não há brincadeiras. O que está querendo por aqui?
– Eu quero falar com o Henri.
Laura olhou para Doralice com os olhos arregalados. Era inacreditável como sua vida virou um inferno do dia para a noite.
– Não pode.
– Não ouviu que tenho dinheiro? — Doralice insistiu, mantendo o tom forte. — Eu não estou aqui pra brincadeira, está bem? Só deixe que eu fale com ele por um minuto.
O homem olhou para todos os lados, ainda estava inseguro. Ela era a esposa do prefeito, tinha quase certeza de que era uma cilada. Por que ela quereria algo com homens que quebravam a lei?
– Vá embora, senhora.
– Olhe...
Dora foi interrompida por um outro homem que apareceu na porta. Era Henri. O coração de Laura quase parou e o dele acelerou.
– Laura? O que está fazendo aqui? — indagou, só percebendo a presença de Doralice um segundo depois. Olhou para o homem de bigode do seu lado e se encheu de ódio. — Tá louco, cara?! É a mulher do prefeito! — sussurrou, como se ninguém ali soubesse disso.
– Eu sei que tudo isso é muito estranho, mas eu preciso da sua ajuda. Só ouça o que tenho a dizer.
– O que Laura tem a ver com isso? — ele perguntou, voltando a olhar a garota.
Foi só então que Doralice percebeu que eles se conheciam. Estava tão preocupada em convencê-lo que não ouviu quando ele disse o nome da menina pela primeira vez. E se ele fosse algum parente? Ela se pôs em uma armadilha, viu todo seu plano ser destruído. Teve vontade de sair correndo.
– H-Henri pelo amor de Deus, ela me sequestrou, por favor, eu imploro que me ajude. Por favor, me ajude! — as lágrimas saiam descontroladas de seus olhos, ele era sua única esperança embora não fosse a melhor.
– Você a sequestrou? — ele pergunto para Dora, ela ficou em choque, como pode ser tão burra, mas não tinha como saber. Ela só conseguia fitar a expressão confusa de Henri, sentindo que a qualquer momento ele tomaria Laura de seus braços, mas pelo contrário. A única coisa que aconteceu foi que um sorriso surgiu no rosto do rapaz. — Acho que podemos conversar. Entre aqui.
Doralice sentiu um alívio dominá-la, enquanto desespero tomava conta de Laura. Ela relutou, chorou, tentou gritar. A comando de Henri, o homem de bigode a segurou e tapou sua boca. Doralice estalou os dedos da mão direita, a que segurava o braço da jovem.
O cheiro lá dentro não era agradável. Tinha cheiro de cachorro molhado, segundo os pensamentos confusos de Dora. Era muito escuro e tinha mais dois homens e uma mulher sentada no colo de um. Mas não era sujo e era bem organizado, embora fosse apertado.
Henri levou Dora para um canto.
– Então você sequestrou Laura, — ele começou – por que?
– Gostaria de explicar mais tarde. Preciso de um cativeiro para deixá-la e sei que você que cuida de todas as casas daqui.
– Como sabe disso? — ele ergueu uma sobrancelha, eles eram muito discretos.
– Sou a mulher do prefeito. Eu sei dessas coisas.
Henri tinha trinta e cinco anos e ficou preso por cinco por tráfico de drogas, mas só por isso. Quando matava, matava com cuidado e por isso nunca fora indiciado por assassinato. Saiu antes por bom comportamento e todos acharam que ele era um novo homem, mas não. Ele voltou ainda mais forte para seguir com seus negócios.
A própria polícia sabia que ele ainda residia naquelas casas, mas não podiam simplesmente ir lá investigar algo sem alguma denúncia, parecia que até o momento Henri não tinha incomodado ninguém, não que eles soubessem.
– Sabe que isso tem um preço. — ele continuou.
– Isso não é problema. Mas eu preciso de mais uma coisa... Que um de seus homens vigie ela durante o dia. Eu não posso ficar longe de casa, por isso estou aqui a esta hora.
– Eu mesmo o farei. — ele olhou para Laura pelo canto do olho. O homem de bigode a segurou tão forte que ela se rendeu, estava sem forças e chorava muito enquanto o homem ainda a segurava e tapava sua boca. — Finalmente poderei mostrar a ela a dor que senti. — ele sussurrou, mas Doralice ouviu, talvez fosse um drama antigo. — Mas gostaria de saber o que faria a tão elegante Senhora Champoudry cometer um ato destes.
– Ela está com meu bebê, entende? — sabia que não entendia.
– Mas... Sua filha não morreu? Eu estava preso, mas sou informado das coisas.
– É muito complicado. Não posso apenas te pagar e você faz o serviço? — estava impaciente, mas logo se tocou de que não devia falar assim com um homem daquele.
Henri a olhou com os olhos semicerrados.
– Abusada... Mas tudo bem, não me interessa de verdade... Acho que nos daremos muito bem, Senhora Champoudry. — ele sorriu novamente, e ela também, mas forçou. — Pode ir tranquila, eu cuido dela daqui pra frente.
– Certo, mas não a machuque, não a ponto de machucar o bebê. — ele assentiu. — Espere, como saberei que não vai salvá-la assim que eu for embora?
– Eu não vou, Senhora Champoudry, seria mais fácil perdoar a maior dívida da boca.
– Certo. — assentiu, um tanto desconfiada. Ela se virou e andou até Laura, passando a mão em seu rosto para secar as lágrimas. — Vai acabar logo, querida, é só colaborar. Eu volto hoje a noite. Seja boazinha com eles e nada de mal lhe acontecerá.
Laura fechou os olhos, não conseguia parar de chorar. Doralice acertou últimos detalhes sobre o pagamento de Henri e partiu. Era loucura deixá-la ali com homens que mal conhecia, mas sentiu na voz de Henri que ele não deixaria Laura escapar, parecia que ela tinha feito algum mal para ele e era a hora dele se vingar.
–
Doralice chegou em casa e encontrou tudo como deixara. O marido e a irmã dormiam e tudo estava intacto. Ela foi para seu quarto e colocou sua camisola, mas perdera o sono, na verdade, ele nunca veio.
Estava sentada na beira da cama, apenas pensando. Será que Henri já havia posto Laura no cativeiro? Será que estava a maltratando? Estava um pouco aflita, porém confiante, até o momento em que um pensamento invadiu sua mente.
Depois que Madeleine nascesse, que faria com Laura? Ela voltaria para casa e contaria tudo a família, então iriam todos atrás de Doralice, precisaria fugir. Mas... E se algo acontecesse com Laura? Ela poderia pagar Henri para matá-la, já que era isso que ele fazia, mas não faria diferença, teria que fugir da mesma forma. Que desculpa arranjaria ao chegar em casa com um bebê?
Tratou de expulsar aqueles pensamentos de si, o que importava no momento era que Laura ficasse bem e presa, depois que sua filhinha voltasse para si, ela resolveria o resto.
Doralice se levantou da cama e foi para a escrivaninha. Ela deu a volta na mesma e tentou arrastá-la para longe da parede sem fazer barulho. Assim que o fez olhou para a cama, Maurice não movera um músculo.
Ela tirou um piso da base da parede, era um esconderijo. De lá, tirou seu caderno de couro preto, o seu famoso diário. Passou a mão para tirar o pó e o pôs em cima da escrivaninha, se sentado na cadeirinha em seguida. Abriu o caderno e começou a escrever sem parar. Escreveu e escreveu até cansar os olhos e as mãos. Acabou debruçando-se ali mesmo e dormindo.
As oito horas, o despertador de Maurice despertou. Ele não se assustou, já estava acostumado com aquele som diariamente. Virou-se com a barriga pra cima e esticou os braços para os lados para se espreguiçar. A mão direita bateu no criado-mudo e a esquerda bateu em nada. Abriu os olhos e não encontrou sua esposa. Talvez já tivesse se levantado.
Ele se sentou e levou um susto ao ver Doralice caída sobre a escrivaninha. Se levantou de imediato e foi até a esposa.
– Dora, querida. — ele pôs a mão em seu ombro.
Doralice despertou assustada, se ergueu e ficou com a respiração ofegante. Só então se deu conta de que estava em seu quarto, em sua casa.
– Céus, — ela passou a mão pelos cabelos bagunçados – acabei dormindo aqui.
– Mas fomos para a cama juntos. Ficou sem sono no meio da noite? — ele perguntou, ainda com a mão em seu ombro, ele a massageava.
– C-claro... — ela respondeu, esfregando os olhos.
Quando afastou as mãos do rosto, logo viu seu diário aberto em cima da escrivaninha. Percebeu como sua caligrafia iniciou bonita e legível e terminou com rabiscos. Fechou o caderno com rapidez e olhou para cima para encontrar Maurice. Ele estava normal, a olhando com o rosto cansado.
– Por que não desce e pede para Justina preparar o café? Eu já vou. — ela disse. Justina era a responsável pela cozinha, trabalhava lá ela e mais duas mulheres.
Ela sorriu docilmente e sentiu a mão do marido pesar em seu ombro. Estava um pouco incomodada.
– Está bem. — ele respondeu. Inclinou-se para beijar a esposa, um beijo rápido de bom dia. Fazia tempo que eles não se tratavam daquela forma e Maurice estava feliz por tudo voltar ao normal, Doralice também se sentia bem por estar feliz em casa, mas ainda preferia se isolar de todos.
Maurice se afastou e deixou o quarto. Doralice se levantou e sentiu as costas estalarem, dormira em uma posição horrível. Ela pegou seu caderno e o guardou no esconderijo de sempre.
O quarto estava gelado, o outono estava dando espaço ao inverno. Ela abriu um pouco a janela para ver como estava o tempo e viu uma tempestade vindo, andando pela rua e se aproximando de sua casa.
Foi como na noite em que viu Laura andando na rua, ela saltou de onde estava e andou rapidamente para fora do quarto. Não poderia correr, todos estavam acordando e saberiam que algo estava errado.
Ela tentou sair disfarçadamente pela porta dos fundos da cozinha e andar até o portão sem que ninguém percebesse. Por sorte, o motorista só chegaria na hora em que Maurice fosse sair, as dez.
Doralice abriu o portão e foi para atrás do muro para que ninguém a visse de dentro da casa.
– O que faz aqui? — ela perguntou ao ver Henri atravessando a rua para chegar até ela.
– Eu vou precisar de um adiantamento, tá legal?
– Não pode vir aqui! Não podia esperar até a noite?! — ela estava nervosa, mas falava em sussurros. Olhava para os lados a todo momento.
– Não, não podia. Eu preciso resolver umas coisas e preciso de dinheiro agora, ou eu te entrego para a polícia. Não, para a polícia não. Para o seu marido.
– Está me ameaçando? — franziu o cenho.
Ele não respondeu, apenas cruzou os braços impaciente. Dora virou os olhos e suspirou.
– Não tenho dinheiro aqui agora, não posso voltar lá e sair de novo sem que percebam, mas posso te dar... — Dora pensou um pouco e pôs as mãos na cintura quando sentiu algo balançar em seu braço. Era uma pulseira de ouro que ganhou da tia com quem morou após a morte da mãe. Não pensou muito na hora. — O que acha disso? — ela mostrou o pulso para Henri.
Ele olhou desconfiado, colocou a mão no queixo para analisar melhor. Olhou Dora com desprezo.
– Certo, acho que posso trocar isso. Mas eu vou precisar de dinheiro, senhora. — ele lhe apontou o dedo indicador enquanto Dora retirava a pulseirinha do braço.
– Está bem, está bem. — ela suspirou e entregou a pulseira na mão de Henri. — Agora, por favor, não volte mais aqui, é muito perigoso. — ela viu o homem assentir sem muita importância enquanto olhava melhor a pulseira. — Como está a menina?
– Está bem, só um pouco chorona.
– Certo, então vá agora, por favor. Te vejo a noite.
Henri assentiu mais uma vez e deu meia volta para ir embora. Doralice voltou para dentro da casa sem que ninguém visse, pelo menos era o que ela pensava.
Abigail estava acordada e decidiu ir à janela, imaginando que encontraria algum sol para lhe proteger daquele frio horrível que estava em seu quarto. Espantou-se com o vento que encontrou e com algo mais.
O traficante Henri LaRue andando por aquela rua. Mesmo que morasse longe, Doralice sempre lhe contava sobre coisas que aconteciam na cidade, além de Abigail ter visto uma foto do rapaz em um jornal de Avignon, por isso sabia que ele era um homem perigoso e, por isso, ficou um pouco preocupada. Mas sua preocupação se transformou em confusão total ao ver a irmã atravessando o jardim e indo até o portão. Foi quando os dois desapareceram de sua vista, pois estavam atrás do muro que segurava o portão.
Ela cruzou os braços e ficou ali, esperando algum sinal de alguém, até que viu Doralice voltar para o portão e, alguns segundos depois, viu Henri, mas estava indo para outra direção e mexia com alguma coisa com as duas mãos.
Não tinha nada para desconfiar, era claro: Doralice estava escondendo algo muito grande dela e de seu marido e tinha a ver com o que viu no diário da irmã. Tinha a ver com Laura. Quase perdeu o folego por um momento, mas tinha que se acalmar. Sabia exatamente o que deveria fazer.
–
O dia todo foi normal, exceto pelo fato de Doralice não querer passear. Disse que estava cansada, e não parecia ser uma desculpa, pois era visível em seu rosto, as olheiras se destacavam. Ela e Abigail ficaram o dia todo conversando sobre qualquer coisa e lendo. Doralice foi dormir por volta das duas e meia da tarde, o que Abigail estranhou muito. Quando era pequena, mesmo que estivesse exausta, nunca dormia a tarde, senão, não conseguiria dormir a noite. Por isso, as únicas vezes em que dormira a tarde foi porque queria fazer algo a noite. Poderia ser sua imaginação, mas ficou pensativa.
Maurice chegou as seis, Abigail estava só na sala.
– Boa noite. — disse ele, entrando pela porta da frente. — Onde está Dora?
– Dormindo. — ela respondeu.
– Dormindo? — Maurice franziu o cenho e sorriu. — Vejo que minha esposa está mudando por completo. — viu Abigail concordar quando levantou as sobrancelhas e abaixou rapidamente, logo seu olhar se perdeu. Maurice guardou o sorriso para si. — Abigail... Sobre aquela conversa que tivemos sobre aquela moça grávida... Laura. Ela ainda está desaparecida, não é? É... O que acha disso?
– Como assim?
– Eu não sei, é besteira, como já concluímos... Mas ainda pensa sobre aquilo que falamos? Sobre ela ficar... Focada na moça e essas coisas.
– Esqueça isso, Maurice. Doralice está perfeitamente bem. Temos que parar de nos preocupar com bobagens e ficarmos felizes por Dora estar melhor. Depois de tantas noites de choro e sem dormir por causa de Madeleine, ela está apenas compensando. Não se preocupe.
Abigail disse tudo com muita confiança, então Maurice se tranquilizou. Eles conversaram um pouco e Maurice foi para o seu quarto. Assim que ele deixou a sala, Abigail voltou com sua expressão pensativa e confusa.
As dez e meia a casa estava quase vazia. Os empregados tinham ido embora, inclusive Justina, que era quase como uma governanta, ganhara uma folga de Maurice. Ele se preparava para dormir enquanto Doralice ainda estava apagada. Abigail decidiu que era hora de se arrumar para deitar e que Doralice só levantaria na manhã seguinte.
Onze e meia, tudo estava escuro, quieto e frio, mas os pensamentos de Abigail não a deixavam dormir, por sua sorte.
Ela ouviu um barulho e tentou ficar mais silenciosa do que já estava. Após alguns segundos, ouviu um som de passos, muito baixos, mas reais. Com cuidado, ela se sentou na cama e seus pés encontraram o chão frio. Sabia o que estava havendo, de uma forma sabia.
Ela procurou por um casaco bem longo, pegou um vermelho, ele cobriu toda a sua camisola. Calçou os chinelos e, com cuidado, saiu de seu quarto.
A porta do quarto de Dora e Maurice estava meio aberta, ela olhou pela brechinha e encontrou apenas o cunhado na cama. Como imaginou, um descuido.
Desceu as escadas com cuidado e quase foi pega. Viu a irmã saindo pela porta da frente com muito cuidado. Quando a viu, já estava fechando a porta.
Abigail abriu um pouco a porta e viu Doralice atravessando o jardim até chegar ao portão e sair. Ela tinha uma cópia das chaves, Maurice a deu por precaução. Quando Doralice se foi, ela abriu a porta por completo e saiu. Pode apressar o passo já que não havia ninguém ali. Quando foi para a rua, não viu a irmã, mas foi para a direção em que Henri fora pela manhã quando estava indo embora. Seus chinelos eram silenciosos. Andou rapidamente até chegar a esquina, foi quando encontrou a irmã de novo.
Abigail a seguiu cuidadosamente por todo o caminho, estava entrando em ruas muito estreitas. Quando Doralice virou para descer as escadas do beco, Abigail parou. Sabia para onde estava indo e ficou com medo, mas devia continuar. Ela continuou a andar e chegou ao topo da escada. Encontrou a irmã conversando com Henri, tão focados que nem perceberam a presença dela ali, descendo as escadas.
– Doralice. — ela chamou, ofegante, quando terminou de descer as escadas.
Dora olhou para o lado e o queixo caiu. Sentiu que teria um ataque cardíaco.
– Abigail, o que faz aqui?
– O que você faz aqui?
– Quem é ela? — Henri perguntou, também estava assustado. — Senhora, foi seguida? Como pode se arriscar assim? Como pode me arriscar assim? Quem é essa?! — ele aumentava o tom de voz, cada vez mais nervoso e impaciente.
– Acalme-se, acalme-se. — Abigail mostrou as palmas das mãos para Henri.
– Essa é minha irmã... Abigail, eu não... Eu... — não havia desculpa para conversar com um traficante a noite após sair escondido de casa.
– Eu sei o que fez, Dora... Eu sei. Você está com Laura.
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