Obsession
26 Tortura
Tortura
Hermione pegou a varinha de dentro da carteira em uma velocidade que surpreendeu até os homens que estavam a cercando. Feixes de luz começaram a voar da ponta, tentando a todo custo atingir alguns. Não conseguia desaparatar e sair daquele lugar, já sabia que estava presa de alguma forma. Deviam ter lançado um feitiço antiaparatação na mesma hora em que viram que ela estava sozinha. Como poderia ter sido tão burra?
Um homem gemeu quando foi estuporado, mas antes que Hermione pudesse terminar de lançar seus feitiços, foi atingida na barriga por um raio e sentiu seu corpo amolecer devido à dor. Sabia que eles não usariam feitiços praticados em Hogwarts. Aqueles tipos de homens não se preocupavam se maldições eram imperdoáveis, foram figuras fáceis em cenas de tortura na guerra.
Ela cambaleou um pouco, sua cabeça rodando. O jardim da mansão Malfoy começou a se desanuviar. Esforçou-se para não fechar os olhos e caiu de joelhos, sentindo a grama úmida bater de encontro à pele.
As respirações começaram a ficar menos ruidosas. Hermione tombou a cabeça para baixo, apenas fitando a grama, sua mente tentando trabalhar em um plano para uma possível fuga. Mas ela realmente não estava conseguindo pensar em nada. A dor em sua barriga estava arrancando toda a atenção da garota.
Dois sapatos negros pararam em frente aos joelhos dela e logo depois ela sentiu uma mão pegar seus cabelos, puxando-os com força para cima e obrigando-a a olhar o homem nos olhos. Ela o reconheceu. Era um dos que estavam ao lado de Scabior quando ela se sentou também ao lado dele. No dia, olhava para ela com cobiça, mas naquele momento, seu olhar estava claramente mais assassino.
– Vamos colocar algumas considerações aqui. A esposinha de Scabior agora vai nos ajudar...
O homem puxou ainda mais seu cabelo e Hermione sentiu alguns fios se soltarem. Sua barriga doía muito e ela estava levemente enjoada, mas não poderia se dar ao luxo de devolver o sanduíche que havia comido. Claramente estava sendo ameaçada.
– Não vai, garota?
Ele sorriu para ela, mostrando os dentes amarelados. Ela sentiu todos os olhares dos homens quase a perfurarem. Respirou fundo, sentindo sua barriga doer ainda mais com aquilo. Antes que pudesse pensar em algo, o homem agachou-se à sua frente, esperando uma resposta.
Ela cuspiu no chão, demonstrando qual seria sua escolha.
– Garotas...
Ele disse, e antes que Hermione pudesse puxar sua cabeça para fora do aperto daquele homem, sentiu outro raio lhe atingir. E então, estava inconsciente.
[...]
Scabior terminava o seu oitavo copo de Uísque de Fogo só naquela noite. Queria esquecer tudo o que havia passado naquele maldito lugar de onde havia saído. Sua cabeça começava a latejar, mas ele sabia que eram consequências da bebida. Já estava acostumado com aquilo. Infelizmente o motivo de beber tanto agora era diferente.
Ele não queria lembrar-se da discussão que teve com ela. Não queria lembrar-se de tê-la chamado de mulher amarga e de como a garota havia o olhado com isso. Sabia que havia a chateado. Estava acostumado a irritá-la, deixá-la possessa. Mas nunca magoá-la. Não intencionalmente.
Sentiu uma presença ao seu lado e reconheceu a mulher que o olhava com luxúria. Conhecia-a, e sabia que era uma boa noite quando se tinha ela na cama. Ela se aproximou, passando o dedo longo pelo braço dele, claramente surpresa com o terno que ele vestia. Scabior parecia uma coruja branca no meio de corujas negras com aqueles trajes. Estava totalmente incomodado com isso.
Ele olhou para a mulher e ela interpretou aquele olhar como um sinal verde. Seu dedo longo desceu pelo braço dele, correndo pelo terno. Quando chegou à perna, antes que ela pudesse tocá-lo, ele prendeu o pulso dela com a sua mão, claramente impedindo-a.
– Deixe-me.
Disse sem nenhum escrúpulo. Ela não objetou, sabia que quando os homens não queriam, poderiam se tornar violentos. Mas não estava acostumada a ser dispensada daquela forma. Saiu de perto do homem e foi em direção a um grupo de bruxos bêbados que estava em uma mesa.
Scabior correu os olhos pelo bar. Não havia ninguém conhecido aquela noite. Achou estranho, para não dizer suspeito. Perguntou-se se Edgar estava tramando algo. Fechou os olhos, visivelmente irritado. Acenou para o garçom e pediu mais uma dose de Uísque de Fogo.
A risada da mulher reverberou pelo bar. Aquela risada alta que as mulheres davam para chamar a atenção dos homens. Scabior ignorou-a, sentindo-se um idiota. Não conseguia mais ter desejo por nenhuma mulher que não fosse aquela maldita garota irritante. Ele queria apenas Hermione Granger.
Fechou os olhos novamente e tomou um gole da bebida, tirando as moedas do bolso e colocando-as sobre o balcão. Saiu sem terminar a sua dose. Quando sentiu o ar gelado da noite percorrer seu corpo, pensou no lugar em que queria ir e desaparatou.
Reconheceu a fachada do prédio. Subiu as escadas com um pouco de dificuldade. Estava um pouco tonto pelo tanto de Uísque de Fogo que havia tomado, mas não bêbado o suficiente para não se responsabilizar por seus próprios atos. O elfo doméstico estava a postos e cumprimentou-o com entusiasmo. Scabior apenas acenou para ele, fazendo os olhos da criatura brilharem. Normalmente os moradores o ignoravam.
Ele chegou ao andar desejado pela lareira. Tateou o bolso interno do paletó à procura da varinha, e quando finalmente a achou, respirou fundo para o que ia fazer a seguir.
Ele iria pedir desculpas.
Não desculpas por ter ficado nervoso na reunião. Ela sabia que iria causar aquilo nele no momento em que ele soubesse das regras novas, principalmente da regra que o impediria de ganhar mais dinheiro. Não. Ele iria pedir desculpas por tê-la chamado de mulher amarga. Por ter perdido a cabeça e por tê-la deixado sozinha naquele maldito jardim, o mesmo jardim em que ele a deixara aos cuidados da louca da Lestrange.
Apontou a varinha para a maçaneta da porta e entrou no apartamento silenciosamente. Procurou algum vestígio da menina. Não achou nada, nem mesmo um copo de água sobre o balcão da cozinha. Seus olhos azuis correram atentamente pela sala luxuosa, mas nada viram. Ela já estaria dormindo?
Pensou que estava sendo idiota. Claro que ela já estaria dormindo. Ela nunca o esperou chegar em casa. Por que naquela noite seria diferente? Principalmente quando haviam discutido?
Escutou o gato dela se aproximar e virou-se. Bichento correu em direção ao homem, miando de forma estranha. Ele achou aquilo um tanto quanto perturbador. O animal nunca se aproximava dele, nem mesmo para pedir comida. Olhou de relance a cozinha e percebeu que o potinho estava cheio.
–Ai!
Exclamou quando sentiu as unhas finas do gato lhe fincarem a perna, passando pelo tecido da calça. Bichento miou e foi em direção ao corredor. Scabior franziu o cenho, seguindo o maldito gato. O animal entrou no quarto dela, a porta completamente aberta. Ele achou aquilo estranho. Seguiu novamente o gato.
– Garota?
Chamou-a baixinho, com receio de acordá-la. Já não bastava ela quase querer matá-lo nos últimos momentos em que a viu. Não houve resposta, apenas um miado mais alto por parte do gato.
Ele tateou a parede, procurando aquilo que os trouxas chamavam de interruptor. A luz banhou o quarto no momento em que ele o ligou. E quando viu a cama intocada da garota, percebeu o motivo da inquietação do gato.
Ela ainda não havia chegado.
[...]
Archie praguejou quando escutou novamente as batidas na porta. Aquilo claramente era alguém tentando arrombá-la. Sua esposa já havia acordado há muito tempo e levantou-se assustada da cama.
– O que está acontecendo?
– Deve ser alguma emergência, Dana. Volte para a cama.
– As pessoas costumam usar a lareira para emergências, Arch!
Archie sabia que sua esposa estava certa, mas não colocou o pensamento em voz alta. O endereço de sua lareira era dado a todos do Departamento para caso de emergências, e apenas emergências. E aquilo não havia acontecido mais de duas vezes. Mas seu endereço físico nunca fora usado para tais circunstâncias.
Ele olhou para o relógio que ficava na cabeceira da cama. Eram quatro horas da madrugada. Que bruxo iria até sua casa às quatro horas? Dana estava certa, teriam que mudar para um apartamento. Morar em casa estava ficando inconveniente.
Archie pegou sua varinha e saiu do quarto, descendo a pequena escada e indo em direção à sala. Sua casa era pequena. Dana ficou na espera, no segundo andar, perto da escada. Os olhos da mulher estavam temerosos.
Ele apontou a varinha para a porta no momento em que a abriu, e quando viu o marido de Hermione Granger do outro lado, não entendeu de imediato.
O homem não esperou um convite, entrou na casa enfurecido, visivelmente abalado e nervoso. Archie segurou a varinha com mais força.
– Posso saber que tipo de brincadeira de mau gosto é essa?
Ele perguntou. Scabior virou-se para ele, sem conseguir acreditar emcomo foi parar ali. Demorou quase uma hora para achar o endereço daquele homem e agora ele estava achando que sua presença era motivo de uma brincadeira maldosa.
Ele se aproximou do homem e olhou-o atentamente. Suas palavras saíram tremidas quando ele deu a notícia.
– Eles a pegaram, Archie.
[...]
Hermione abriu os olhos pesados, sentindo uma fincada horrível na cabeça. Piscou algumas vezes, tentando fazer sua visão se acostumar com a escuridão do lugar onde estava. Fedia muito ali. Ela percorreu os olhos ao redor, percebendo que estava em um porão. Apenas a luz do andar de cima entrava pela fresta de uma porta de madeira escura e puída, comida por cupins.
Ela tentou se levantar, mas sua barriga ainda doía muito. A garganta estava arranhada pela sede que sentia, como se não bebesse água há dias. Seriam dias? Há quanto tempo estava ali?
Estava frio naquele lugar, as grades que a prendiam em uma espécie de jaula estavam enferrujadas, tornando tudo aquilo grotesco demais. Sua barriga também protestava a falta de comida, e algo lhe dizia que não comeria tão cedo. Mesmo que eles oferecessem alimento, ela nunca iria tocar em nada que aqueles homens haviam tocado.
Ele tinha razão. Scabior.
Fora burra em colocar-se tão exposta. Os homens não tinham dignidade o suficiente para conversar ou duelar. Eram covardes que andavam em bandos. Hermione não tinha como sair daquele lugar. Uma sensação estranha de déjà vu se apoderou de seu corpo. Já havia sido mantida em cativeiro na guerra. Lágrimas embaçaram sua visão, mas ela esforçou-se para contê-las. Não iria chorar naquele momento. Era forte. Precisava sair dali.
O rosto daquele snatcher que era seu marido flutuou em sua mente. A última vez em que o vira, chamando-a de amarga. Estava com raiva e irritado. Havia a deixado sozinha naquele maldito jardim. Hermione sabia que não poderia culpá-lo por isso, mas não deixou de pensar na noite em que ele lhe falara para ter cuidado.
Lembrar-se dele fez com que cada momento da vida dela com ele voltasse à tona, e ela entrou em pânico. Olhou para sua roupa e viu que estava intacta, tirando a imundice do vestido. Seus sapatos haviam sumido, logicamente junto com a varinha e sua carteira de mão. Mas sua roupa íntima ainda estava lá e ela não sentia nenhuma dor no baixo ventre, indicando que os homens do andar de cima não haviam tocado nela de forma mais masculina. Quase respirou fundo, se não fosse por vozes que ficaram mais audíveis no momento em que escutou passos vindos do primeiro andar.
Hermione engatinhou até perto das grades que ficavam ao lado da porta, apurando os ouvidos para tentar escutar melhor.
– Não vai adiantar colocarmos essa garota em cativeiro se não conseguirmos arrancar algo dela.
– Eu sei, mas como poderemos fazer isso?
– Eu não sei, seu imbecil! A ideia de trazê-la para cá foi sua!
– Cale a boca e fale mais baixo.
– Ela está desacordada.
Hermione prendeu a respiração. Eles achavam que ela estava desacordada? Agradeceu-se mentalmente por não ter feito nenhum barulho. Quanto mais achassem que ela estava inconsciente, melhor. Não queria que eles descessem ali. Eram três vozes distintas, mas ela sabia que havia mais homens naquele lugar. Eram tantos quando desacordou...
– E o que faremos com aquele maldito do Scabior?
– Scabior não é problema para nós, você sabe disso.
O coração dela comprimiu-se no seu peito e ela perguntou-se o motivo daquilo. Desde quando seu corpo dava aquele tipo de sinal? Ele estaria ferido? Estaria em outro porão no mesmo local que ela? Não soube responder, as vozes voltaram a falar.
– Uma Maldição Cruciatus pode resolver o problema. Ela falará.
Hermione prendeu a respiração, fechando os olhos. Seu corpo começou a tremer.
– A garota lutou mais do que você na guerra, seu inútil. Está mais do que acostumada à maldição. Ela não falará por causa da dor.
– Então podemos atingi-la através de Scabior.
– Vocês são todos uns tolos. Aquela garota não ama Scabior, aquilo que vocês viram foi apenas um teatro. Ela não dirá nada para defendê-lo.
A última voz era diferente, mais rouca. Ela não a reconheceu. O dono da voz parecia calmo e o mais inteligente daquele lugar, como se fosse um líder que todos seguiam. Um tipo de voz fria, calculista. Ela estremeceu e abaixou a cabeça, perguntando-se se aquele homem tinha razão. Faria algo para defender o homem que chamava de marido?
– Tragam a garota.
A voz rouca ordenou e Hermione sentiu o pânico predominar em seu corpo. Passos reverberaram pelas escadas quando dois homens desceram, apontando a varinha em direção às grades. Ela se encolheu quando os homens sorriram.
– Ela já está acordada... ótimo.
As grades se abriram quando um acenou com a varinha. Subitamente, e em uma situação de desespero, Hermione tentou correr, retirando do seu corpo o último resquício de força física. Mas não chegou nem mesmo perto da porta. Cordas negras foram conjuradas, entrelaçando-se nos pulsos e tornozelos da garota. Ela caiu, batendo o ombro fortemente no chão. Mais uma dor aguda adicionada ao seu corpo.
– Não desmaie, garota, precisamos de você bem acordada.
Ela sentiu seu corpo deixar o chão. Estava sendo carregada por um deles. Fechou os olhos, tentando sair do aperto, mas o homem era forte. Foi jogada de qualquer maneira em uma cadeira velha e seus olhos castanhos correram pelo lugar. Havia no mínimo dez homens ali. O homem que Hermione poderia jurar ser o dono da voz fria se aproximou, olhando-a com atenção.
– É o seguinte, garota, você irá nos ajudar, se quiser sair daqui esse ano ainda.
Ele esperou, mas ela apenas desviou os olhos. O homem pegou a varinha com calma, apontando para ela.
– Crucio!
A dor invadiu os sentidos de Hermione. Cada poro do seu corpo parecia estar sendo queimado e rasgado por pequenas lâminas. Mas ela não gritou. Ela nunca gritaria. Aquilo não era dor física, não era real. No mesmo momento que a dor lhe invadiu, ela desapareceu.
O homem olhou para a garota, visivelmente surpreso. Nada. Nem mesmo um grito, nem mesmo um arfar de dor. Aquela bruxa parecia ser mais forte do que ele pensava. Ele se aproximou um pouco mais dela eapontou a varinha novamente.
– Imperio.
Hermione sentiu seu corpo leve dessa vez. Uma voz calma lhe dizia para contar tudo sobre as últimas decisões do Ministério da Magia. Os lugares em que as fronteiras não estavam sendo totalmente observadas quase fluíram de sua boca, mas ela se segurou. Sabia da manipulação da maldição, e treinara bastante com Harry para não se sujeitar a ela.A voz saiu de sua mente rapidamente.
Ele percebeu que arrancar algo dela seria mais difícil do que havia imaginado. Ajoelhou-se em frente a ela. Hermione o olhou em desafio, os cabelos imundos caindo nos ombros doloridos, tampando uma parte grande da sua visão periférica.
– Caso não colabore, terei que matar aquele seu maldito marido.
Ela não respondeu, mas seu corpo foi percorrido por um arrepio de medo. Não queria o snatcher morto. Não agora... nem por ela. Achou estranho sentir aquilo, mas ignorou. A última coisa que precisava era dissertar sobre seus sentimentos.
– Se encostar o dedo no meu marido, vingarei a morte dele com a morte de cada um que está nesse lugar.
Ela disse com convicção. O homem apenas sorriu, levantando-se do chão e ficando em pé em frente a ela.
– Isso é fácil de resolver... matamos você primeiro.
A risada de Hermione reverberou pelo lugar, ela sentiu sua garganta protestar a isso. Há muito não usava a sua voz e sentia-a quase trincar por causa da falta de água.
– Eu não tenho utilidade nenhuma morta.
O homem estacou. Percebeu que a garota era mais inteligente do que ele imaginava. Sua raiva começou a ficar visível pela primeira vez desde que Hermione fora colocada na cadeira. Ele estendeu o braço apontando a varinha novamente para ela.
– Crucio!
A dor tomou o corpo dela novamente e ela mordeu a língua para impedir o grito que queria sair. Não daria nenhuma demonstração de dor para aqueles homens imundos e nojentos. A dor cessou e ela respirou fundo, sentindo uma lágrima escorrendo por seu rosto. Olhou de relance a pequena janela que estava ao fundo do lugar. Percebeu que já estava amanhecendo.
Sentiu-se desesperada, pelo menos vinte e quatro horas havia passado ali. Nenhum homem havia dito um nome sequer. Hermione olhou todos, decorando cada rosto ali presente, cada característica marcante em cada um. Se não pudesse ter nomes, pelo menos uma fisionomia procuraria. Caso saísse viva dali.
A dor lhe invadiu novamente, mas cessou rapidamente dessa vez. Ela gemeu, tombando a cabeça para frente, os cabelos sujos tampando sua visão totalmente agora. Uma risada reverberou pelo local.
– Finalmente a garota está provando que não é de ferro!
Outros riram e Hermione travou o maxilar. Ela levantou a cabeça novamente, sentindo um líquido quente escorrer do seu lado, provavelmente sangue.
– Vá se foder, seu bruxo inútil!
Disse, a voz entrecortada. A fúria da Maldição Cruciatus a atingiu com mais força dessa vez, fazendo-a tombar novamente a cabeça. Cada músculo do seu corpo latejava. Ela abriu a boca, um pouco de sangue escorrendo por ela e derramando-se no vestido.
– Levem-na daqui.
O homem disse. Hermione respirou fundo e levantou a cabeça, olhando pela janela. Não conseguia dizer onde estava, só conseguia fitar um pouco do céu, que estava nublado. Mas aquilo era vasto demais para tirar conclusões. Em quase toda Inglaterra o céu era daquele jeito. Um dos homens se aproximou dela, mas antes que as mãos enluvadas pudessem pegá-la, Hermione escutou um barulho forte.
Todos se viraram para a origem do som. Alguns sacaram a varinha. A porta de madeira escura que parecia dar para a entrada foi arrancada da parede, caindo com estrondo no chão. Chuvas de feitiços cortaram o ar, cada feixe de uma cor, mas Hermione pôde observar feixes verdes, e não gostou nem um pouco daquilo.
Claramente estava no meio de um duelo.
Sem varinha, amarrada, no meio de um duelo. Ela observou tudo com atenção e pavor. Viu Archie duelar com facilidade com um homem de estatura mediana e touca negra na cabeça. Ficou satisfeita ao vê-lo. Tentou sair das cordas, em vão. Estavam amarradas com força e apenas um pequeno movimento fazia sua pele arder.
Esforçou-se para retirar a cadeira do lugar, mas essa não mexia. Não sabia se estava enfeitiçada ou se ela estava fraca demais até para se locomover. A segunda opção era mais viável, já não sentia mais dor. Sua mente estava se desprendendo do corpo, tudo estava escurecendo.
Uma varinha apontou diretamente para ela e Hermione fechou os olhos automaticamente, esperando mais uma enxurrada de facas e dor. Tortura. Mas o que sentiu foi diferente. As cordas desapareceram dos seus pulsos e tornozelos, fazendo a pele respirar e sangrar com isso. Sentiu-se livre, mas não forte o bastante para fugir.
A varinha desceu um pouco e Hermione olhou para o dono da mesma. Reconheceu imediatamente agora a mão que a empunhava. Um anel em formato de cabeça de bode – algo que ele não usava há tempos – apenas lhe dava a certeza de quem era. Era Scabior.
Ela não conseguiu falar, apenas piscou algumas vezes e viu o rosto que descobriu estar ansiando por ver desde que fora jogada naquele porão. Ele estava sério, como ela nunca o vira. Ele se aproximou e pegou Hermione no colo com facilidade. Pela primeira vez desde que fora abandonada no jardim da mansão Malfoy depois da reunião, se sentiu protegida.
– Eu vou te tirar daqui.
A voz dele foi como música para os ouvidos dela, mas antes que ela pudesse responder, havia desmaiado.
Scabior olhou para a garota, ficando alarmado com o estado dela. Estava mais magra do que o normal. Os cabelos estavam imundos, assim como a pele. Seu vestido estava sujo e manchado de sangue. Ele perguntou-se de onde veio o sangue. Procurou um pouco desesperado algum corte ou machucado, mas não achou nada visível.
Os feixes de feitiços ainda ricocheteavam pelo lugar. Ele não teria tempo de procurar por mais ferimentos, precisava tirá-la dali antes que alguém o reconhecesse. Olhou para a garota desacordada no seu colo e apertou-a mais ao seu peito, beijando de leve sua testa.
Quatro dias haviam passado em desespero procurando-a. Mas agora nada importava. Havia a achado, e ela estava segura em seus braços novamente.
Fale com o autor