Obsession
27 Abalo
Abalo
Scabior andava de um lado para outro, as botas cortando o silêncio do Hospital St. Mungus quando encontravam o chão de mármore branco. Passava as mãos nos cabelos longos, atrapalhando-os um pouco. Estava visivelmente nervoso.
Porque não sabia como iria dar a notícia a ela.
Pensara em todas as maneiras, em todos os assuntos que poderia abordar antes de dar a notícia que fora designado a dar. Mas não encontrou nenhum jeito satisfatório. Estava temendo a reação dela.
A curandeira já estava no quarto há mais de meia hora. Scabior sabia que ela estava fazendo exames diários e dando as poções que a garota precisava tomar para ter uma recuperação mais rápida. Mas ele também sabia que ela estava na cama ainda, eisso estava deixando-o nervoso. Três dias havia se passado desde que a levara para o hospital. Já não estava na hora de receber alta?
O som de passos fez com que Scabior saísse de sua linha de pensamento. Ele virou-se, fitando os três amigos da garota vindo em sua direção. Um era o famoso Harry Potter, com seus óculos redondos e rosto sério. Dois eram ruivos, o snatcher sabia que faziam parte da família Weasley. Uma parecia ser a companheira de Potter. O outro ele infelizmente conhecia. Conhecia de uma época passada.
O outro foi o que no momento lhe desferiu o soco.
Ele sentiu o punho forte que aquele maldito ruivo tinha, e sabia que merecia a demonstração violenta, mas nada disse, apenas segurou o maxilar e fitou os olhos azuis do garoto.
– Seu snatcher maldito. Desde que você entrou na vida de Hermione ela apenas piorou!
Ele gritou, furioso. Harry segurou o amigo para que ele não avançasse novamente em direção a Scabior. Ginny segurou o braço do irmão.
– Ronald, estamos em um hospital! Fale baixo!
O rosto sardento da menina começou a ficar vermelho, e Scabior se perguntou se ela estava assim por vergonha da atitude do irmão ou pela raiva que ela estava claramente emanando ao olhar para ele. Os Weasley eram estranhos.
– Você nem devia estar aqui!
Ele falou um pouco mais baixo, mas ainda em um tom desconcertante para um hospital. Ginny apertou o braço do ruivo mais uma vez.
– Acalme-se, garoto. Eu só quero o bem dela.
Scabior respondeu, tentando por meio disso fazer o menino se calar. Rony fez um barulho de descrença. O outro não gostou daquilo. Harry finalmente deixou o amigo, olhando-o com atenção. O ruivo se aproximou do snatcher, fitando-o com raiva.
– Você sabe que o que aconteceu com ela foi culpa inteiramente sua.
Ele disse para Scabior, e o homem não ousou respondê-lo. Afinal, mesmo que tentasse não pensar naquele ponto de vista, sabia que ele tinha razão.
[...]
Hermione acordou em uma cama desconfortável, sentindo o seu corpo dessa vez mais forte. Abriu os olhos, remexendo-se inquieta no colchão fino. Reconheceu que estava em um quarto de hospital. Um hospital bruxo. As paredes eram escuras como asde um castelo, e não claras como em hospitais trouxas. Havia uma lareira acesa em frente à cama, indicando que já estava de noite. Diversos potes e frascos com líquidos coloridos estavam pousados em um móvel que ficava ao lado de sua cama.
Uma pequena coruja prateada voava silenciosamente no teto. Um Patrono. Um Patrono de alguém que queria ser mantido informado. Talvez um curandeiro?
Ela pensou nas suas últimas horas consciente. Sentiu-se desesperada. Desde quando estava naquela cama? As evidências e provas poderiam ter sido apagadas de seu vestido, ou até mesmo do seu corpo. Retirou a fina manta que a cobria e percebeu que estava de camisola. Parecia ter tomado banho, apesar de claramente ainda estar se sentindo suja. Ela pegou uma mecha do seu cabelo e cheirou.
– Maresia...
Ela anotou aquele aroma mentalmente. Se seu cabelo fedia a maresia, ela poderia partir do ponto de que havia estado perto do litoral da Inglaterra. Seus pensamentos foram cortados quando a porta se abriu. Uma curandeira rechonchuda entrou com uma bandeja em mãos. Em cima da bandeja havia um prato de comida e um frasco semelhante aos frascos que estavam pousados no móvel.
A mulher sorriu ao ver Hermione acordada. Caminhou até ela rapidamente.
– Sente-se, querida. Terá que tomar essa poção. Alimente-se um pouco também.
Ela fez o que a mulher pediu. Seu estômago roncava, mas parecia sentir menos fome do que quando saiu daquele lugar assombroso.
– O que aconteceu comigo?
Perguntou, enfiando a poção amarga na boca e engolindo-a sem pestanejar. Seu corpo estava dolorido, sentiu isso ao se sentar. Mas a poção fez a dor passar em questão de segundos. A mulher a olhou atentamente.
– Você tomou poção nutritiva por três dias, não é a mesma coisa que comida, mas evita que você fique desnutrida... você ficou desacordada por esse tempo. O curandeiro-chefe mandou fazer isso. Suas contusões e ferimentos eram graves demais para mantê-la acordada. Iria sentir muita dor...
A mulher pousou a bandeja no colo de Hermione.
A garota continuou olhando-a, no momento que começava a comer. A comida era boa, muito diferente de comida de hospital trouxa. Ela continuou a fitando, esperando mais informações. Desde pequena era uma pessoa que gostava de saber tudo o que se passava a sua volta, principalmente se a informação fosse em relação a ela.
– Mas pode ficar tranquila. Seus ferimentos já estão curados e o máximo que sentirá agora é um leve desconforto físico, como se você tivesse malhado por horas a fio.
A curandeira tinha criação trouxa para saber de academias de ginástica, Hermione concluiu. A mulher sorriu para ela, mas a garota percebeu o olhar triste por trás daquele semblante. Seu sexto sentido começou a dar os primeiros sinais. Claramente aquela mulher estava lhe escondendo algo. Terminou o prato de sopa rapidamente, sentindo-se satisfeita.
– Seu marido ficou no quarto por dias. Ele deu uma saída, disse que precisava resolver algo. Mas daqui a pouco está aqui. Ele não sai do seu lado!
A mulher lhe disse. Hermione suspirou. Como as aparências enganavam. Qualquer um que visse aquele snatcher em seu quarto acharia que ele era um marido devotado. Já ela sabia que ele estava apenas com peso na consciência. Ou não? Não queria pensar muito nisso. Apenas assentiu para a curandeira e essa pegou a bandeja, andando até a porta. Hermione deitou-se novamente na cama, relaxando.
Olhou para a janela grande que ficava do lado da cama. Era um dia chuvoso em Londres. Sabia que o Hospital St. Mungus tinha as janelas enfeitiçadas assim como o Ministério da Magia. Mas sabia que o tempo que a janela mostrava era o mesmo que estava fazendo. Fechou os olhos, escutando dessa vez com mais atenção as gotas grossas da chuva baterem na janela de vidro fino.
A porta rangeu quando alguém a abriu. Hermione olhou para o local. O viu entrar com calma, fechando a porta logo em seguida. Desviou o olhar. Não queria vê-lo naquele momento, e não sabia o motivo disso.
Scabior se aproximou da cama, sentando-se no colchão ao lado dela. Ela permaneceu com os olhos grudados em um ponto fixo do quarto. Sentiu o dedo áspero do homem pegar o seu queixo, e com uma força leve, ele levantou o rosto dela, fazendo-a fitar diretamente os olhos azuis.
– Você está bem?
Ele perguntou. Senti-lo ali, tão perto, depois de tudo o que havia passado, parecia surreal demais. Estava fora do contexto. Era para ele ser sarcástico e tratá-la como objeto. E não para tocá-la daquela maneira, tão... carinhosa. Não era para ele se preocupar com ela. Engoliu em seco.
– Sim... só quero ir para casa.
Scabior quase sorriu ao ouvi-la dizer aquilo. Dias atrás ela falaria que gostaria de ir para a casa dela. Mas ela esqueceu-se de falar daquela maneira. O que havia mudado?
– Vou te levar para casa amanhã. Prometo.
Ela sorriu. Ele gostou de vê-la sorrir, mas não pôde deixar de notar que o sorriso era triste. Hermione desviou os olhos novamente e acomodou-se melhor na cama, inconscientemente querendo senti-lo mais por perto. Ele continuou a fitá-la com uma tristeza visível. Ainda não sabia como diria àquela garota o que o curandeiro-chefe lhe contou.
Sem conseguir se conter, passou a mão delicadamente pela perna dela através da manta, acariciando-a. Ela o olhou surpresa. O que ele estava fazendo? Os olhos azuis dele a fitavam com um carinho contido.
– Eu disse que eles iam te achar.
Hermione não respondeu. Scabior se aproximou automaticamente, inclinando-se para ela. Agora sua perna tocava o braço dela. Ela gostou do toque.
– O que aconteceu com aqueles homens?
Ela perguntou, curiosa. Ele desviou os olhos dos dela.
– Quase todos fugiram. Conseguimos prender dois...
Ela não fez mais perguntas. Não queria ainda ter notícias daqueles homens. Não, queria descansar. Apenas assentiu e percebeu o homem fitá-la novamente, comaquela mesma tristeza comque a curandeira lhe fitou minutos antes. O sexto sentido de Hermione voltou a conversar com ela.
– Posso saber por que está todo mundo me olhando com tristeza?
Ela perguntou, um resquício de irritação fluindo no tom de sua voz. Scabior remexeu-se inquieto, sabendo que agora ela não iria lhe dar paz enquanto não soubesse a resposta. Ele a fitou nos olhos e se aproximou dela. Seu dedo automaticamente passou pelo seu braço desnudo.
– Você recebeu muitas Maldições Cruciatus... e de forma muito violenta... isso deixou sequelas no seu corpo...
O pânico começou a tomar Hermione. Ela tentou se levantar da cama por extinto, para se ver. Queria ver seu corpo. Mas ele apenas pousou a mão forte no colo dela e empurrou-a delicadamente para a cama novamente.
– O que vai acontecer comigo? Quais sequelas?
Ela perguntou, olhando-o com desespero. Scabior respirou fundo.
– Hermione, você nunca poderá ter um filho.
[...]
Hermione entrou no seu apartamento no dia seguinte. Recebera alta, mas conseguira sair do St. Mungus apenas pela parte da noite. Bichento veio ao alcance da dona, visivelmente satisfeito em vê-la. Ele ronronou ao passar pela perna dela e ela se abaixou, pegando-o no colo. O gato fechou os olhinhos.
Ela andou um pouco pela sala, calmamente, observando tudo ali. Já não sentia mais nenhuma dor. Estava curada. Scabior observava-a com atenção, um pouco preocupado. A garota estava apática a tudo. Até mesmo o carinho que estava fazendo no gato parecia ser algo automático.
Ele ficou perturbado com ela. Não com sua saúde física. Essa estava perfeita. Mas com a sua saúde emocional. Ela simplesmente não tivera mais nenhuma reação desde que ele contara que ela nunca poderia ser mãe. Nenhuma. O olhar ficou vazio, os lábios um pouco entreabertos. Parecia estar sonhando acordada.
Era isso que estava preocupando-o. A frieza com que ela lidava com a situação.
Hermione andou até o corredor, entrando em seu quarto. Colocou Bichento na cama. Scabior a seguiu, atento a tudo. O gato olhou-o com cuidado, miou baixinho e saltou, depois saiu do quarto. O homem arqueou uma sobrancelha, acompanhando o bicho com os olhos até que o rabo peludo saísse pelo batente.
Quando fitou-a novamente, viu que a garota estava retirando as roupas. Ela estava louca para um banho. Um banho de verdade, com água, sabonete, colônia e tudo o que ela tinha direito. Ela deixou o restante das roupas na cama e caminhou nua até o banheiro. Percebeu que o homem a seguia de perto.
– Por que está me seguindo?
Ele a olhou, incrédulo.
– Você acaba de sair de um hospital.
Hermione deu de ombros e entrou no box, abrindo o chuveiro. A água quente correu por seu corpo e ela fechou os olhos, apreciando cada segundo. Scabior apenas continuou onde estava, fitando-a com cuidado. Claro que começou a fitá-la demais, mas tratou de tirar pensamentos impróprios da sua mente.
Ela se virou, vendo-o olhá-la, um olhar de luxúria e preocupação. Um misto dos dois. Mordeu o lábio e ele tentou ignorar aquilo, focando sua atenção na torneira do chuveiro.
– Você pode me dar um pouco de privacidade?
Ela perguntou calmamente. Ele assentiu, saindo do banheiro.
No momento que se sentiu finalmente só, Hermione fechou os olhos, pegando o sabonete e passando-o pelo corpo, sentindo o cheiro leve de baunilha e a espuma fofa que fazia. Seus pensamentos correram pelo rumo que sua vida havia tomado. Pensou seriamente que enquanto não enfiasse todos aqueles malditos em Azkaban, nunca teria paz.
Pensar naqueles homens fez com que algumas cenas da tortura que havia sofrido voltassem a sua mente. Pensou pela primeira vez em sua infertilidade. Nunca poderia ser mãe. Nunca teria um filho saindo de seu ventre.
Tentou tirar tais pensamentos de sua cabeça. Não conseguiria dormir. A curandeira receitou poção para o sono, mas ela se recusava a tomar aquilo. Um dia teria que lidar com seus problemas, a poção apenas mascarava esse dia. Saiu do box, enrolando-se na toalha e caminhando para o quarto.
Scabior estava sentado na cama dela. As roupas que a garota havia jogado na cama agora estavam jogadas na poltrona. Ele já estava de banho tomado. Ela demorara tanto assim no banho? Ele usava uma calça de moletom preta e uma blusa de malha da mesma cor com mangas. Seus cabelos estavam penteados para trás, mas ainda estavam molhados.
Hermione caminhou para o armário, pegando um pijama quente. Fazia frio naquela noite, e chovia muito. Andou até a bolsa que ele havia pegado para ela no dia anterior e retirou dali sua varinha. Archie conseguiu recuperá-la, e a garota seria eternamente grata ao homem por isso. Não suportaria abandonar sua varinha naquele momento. Acenou com elae seus cabelos caíram pelos ombros, secos.
Foi em direção à cama e puxou o cobertor pesado, quase chorando ao ver seu colchão e seu travesseiro. Deitou-se ali, olhando-o logo em seguida. Ele ainda estava sentado na cama dela.
– Boa noite.
Ela desejou a ele. O homem apenas assentiu, seu braço se estendeu e foi em direção à cabeça dela, fazendo um pequeno e contido carinho no cabelo sedoso. O cheiro divino de baunilha havia voltado. Como Scabior sentiu falta daquele cheiro...
Sentir a mão do snatcher lhe acariciando fez com que lágrimas embaçassem a visão dela. Ela encolheu-se, no momento em que ele se levantou e caminhou para a porta do quarto. Ele lhe deu uma última olhada, sabendo que ela queria ficar só. Conhecia-a o suficiente para isso. Quando Hermione escutou o barulho da porta, libertou tudo o que estava contendo. As lágrimas desceram com velocidade pelo rosto e ela gemeu, afundando o rosto no travesseiro.
No corredor, Scabior escutou a garota finalmente se entregar à real tristeza. Mas nada fez, apenas esperou, e quando viu que ela se acalmara, caminhou para o seu próprio quarto.
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