Temor

– Quatro meses depois -

Hermione estava no Ministério da Magia. Os olhos castanhos correram pela sala, procurando o relógio que ficava pendurado em cima da lareira. Mais vinte minutos e poderia ir embora daquele lugar. Estava cansada, mas estava tranquila. O trabalho sugava boa parte de sua energia, mas também a revigorava. Porque ela sabia que após sair de sua sala, homens ruins certamente teriam uma vida em liberdade mais curta.

Pensou em Themis e suspirou. Sentia falta da filha, da sua gargalhada, daquela mania irritante e ao mesmo tempo fofa de pegar todas as almofadas do sofá e jogar no chão. De sua tentativa de andar e logo depois cair, gargalhando de si mesma. Sorriu. Era uma criança adorável, e estava em boas mãos. A cuidadora que Ginny havia lhe indicado era a irmã da cuidadora que cuidava da filha da amiga. Então era de confiança, e Themis já a adorava. Hermione podia ir trabalhar mais tranquila e sem peso na consciência. Precisava disso para seguir seus projetos com sucesso.

Sabia que Scabior estava na sala ao lado. Pensou seriamente em como sua vida estava se ajeitando depois de meses e meses conturbados. Por mais que não quisesse admitir, seu casamento estava ótimo. Ele era um bom pai, carinhoso e cuidadoso. Ainda só se sentia à vontade com a filha quando achava que não estava sendo observado. Assim, conjurava fadas de todas as cores para a criança, mas quando Hermione entrava no cômodo, ele logo se levantava e dizia que Themis estava chorando e ele teve que conjurar as fadas para ela se acalmar.

Claro que aquilo tudo era um monte de mentiras.

Suas divagações foram cortadas quando alguém bateu na porta, não esperando um convite e entrando rapidamente. Era Michael, e carregava consigo um pergaminho pardo com o selo oficial do Ministério da Magia. Hermione fez uma careta quando ele estendeu o braço, entregando o envelope para ela.

– O que é isso?

– Todos os bruxos e bruxas da Inglaterra receberam um.

Ele sorriu, tranquilizando-a. Ela percebeu que ele carregava uma fisionomia calma, então concluiu que aquilo não poderia ser tão mau. Pegou o envelope da mão dele e observou-o sair da sala. Quando a porta fechou, ela direcionou sua atenção para a carta, abrindo-a rapidamente. Os olhos castanhos correram pelo comunicado pequeno e direto.

Prezada Senhora Hermione Jean Lloyd,

O Ministério da Magia da Inglaterra vem por meio desta comunicar o cancelamento da Lei de Casamento estabelecida no país com o intuito de produzir descendentes bruxos.

Caso queira anular o casamento, dirija-se ao Departamento de Casamentos, na seção de Divórcios.

Atenciosamente,

Ministério da Magia da Inglaterra

No mesmo momento, suas mãos começaram a suar. Os lábios tremeram um pouco e ela engoliu em seco quando sentiu seu coração quase ir até a boca. Sentia-o bater fortemente. A tontura começou a aparecer, mas ela respirou fundo tentando se acalmar.

Por que estaria nervosa? Ela não precisava temer aquela carta, precisava?

Sim, precisava. E estava temendo agora. Sabia que o snatcher preso a ela por causa de uma lei monitorada rigidamente pelo Ministério da Magia era uma coisa, mas a partir do momento em que tal lei fosse anulada e ele se sentisse novamente livre, tudo poderia mudar.

Afinal, por que ele ainda quereria ficar com ela?

Olhou para o relógio de parede. Dez minutos para ir embora.

Pegou a carta com seu nome e enfiou-a na bolsa. Tinha dez minutos para se acalmar e repensar o motivo de estar tão nervosa. Ele era um ex-snatcher, um homem rude com quem ela havia se casado por obrigação.

Tentou se convencer daquilo por alguns minutos, mas aquela ideia antiga já não estava a persuadindo como a persuadia meses atrás.

Olhou novamente para o relógio. Cinco minutos.

Levantou-se da poltrona, sentindo suas pernas fraquejarem um pouco. Prendeu o cabelo em um coque frouxo no momento em que dava passos largos e andava em círculos pelo tapete que ficava em frente à lareira. Tentou não pensar no real motivo de estar nervosa. Ela gostava daquele homem rude. Gostava dele, e não era pouco. E se ele terminasse o casamento...

Como poderia ter deixado chegar àquele ponto?

Olhou o relógio. O tempo havia acabado.

Hermione trancou as gavetas com seus feitiços e no momento que pegou a bolsa a fim de aparatar para sua casa, Archie entrou em sua sala, deixando a porta entreaberta.

– Vim apenas lhe entregar esse pergaminho.

Outro? O que mais poderia ter ali?

– O que é isso?

Ela temeu a resposta.

– Apenas o horário e as coordenadas para nossa próxima reunião.

Ela quase gritou de alívio. Achou que seria mais uma notícia ruim. Mas uma reunião era algo corriqueiro para ela. Passou os olhos pelo pergaminho e percebeu que ali não indicava o local. Seria no departamento mesmo?

– Onde será a reunião?

– Na casa de Viktor Krum.

Ela assentiu, ficando um pouco inquieta com a resposta de Archie. Felizmente o bruxo não percebeu, apenas acenou para ela e saiu de sua sala. Ela aproveitou o momento só para trancar a porta.

A última vez em que havia visto Krum, fora quando ela estava saindo sorrateiramente do quarto dele, deixando um búlgaro completamente nu entre lençóis amassados.

O que mais poderia acontecer naquele dia?

[...]

Ela aparatou diretamente em sua sala. Jogou a pasta pesada no sofá, mas deixou a bolsa no ombro. Bichento veio de encontro à dona, ronronando enquanto passava o corpo entre as pernas dela. Hermione acarinhou o gato e percebeu que o potinho de ração dele já estava cheio. Fez uma careta, não era obrigação da cuidadora deixar comida para o gato. Ele correu em direção ao corredor e ela percebeu que o gato havia entrado no quarto de Themis. Olhou em volta e percebeu em cima da mesa de jantar um bilhete. Leu-o com atenção.

Senhora Hermione,

A comida de Themis está na geladeira.

Sophia

Achou estranho Sophia não estar lá. Normalmente a cuidadora ainda estava ninando Themis quando Hermione chegava. Colocou o bilhete novamente em cima da mesa e caminhou rapidamente para o quarto da filha. A porta estava aberta, a luz do abajur estava acesa. Mas ela não estava no berço.

A criança estava no chão, montando bloquinhos coloridos. Bichento estava deitado na poltrona que ficava ao lado do berço, mas ela percebeu que o gato observava tudo ali com atenção. Scabior estava sentado ao lado da menina, de costas para a porta, e não percebeu a presença damulher, e que ela os observava. A filha tentava encaixar um bloquinho vermelho em um verde, e franzia a testa ligeiramente quando não conseguia, ficando visivelmente irritada.

– Merlin, Themis! Você está igual à sua mãe.

Ele falou, acariciando o cabelo dela, que já estava maior e já dava indícios de alguns cachos negros. Hermione revirou os olhos, mas não disse nada, apenas permaneceu fitando aquela cena. Themis conseguiu encaixar as peças e deu uma gargalhada quando percebeu os bloquinhos agora formando uma torre.

Scabior conjurou algumas borboletas para que a menina tentasse pegar. Ele adorava fazer aquilo. O fascínio com que ela olhava para as cores das borboletas era algo delicioso de se ver.

Hermione suspirou.

E quando ele escutou aquilo, virou-se para trás, assustando-se com a presença dela. Themis olhou para onde o pai olhava, e no mesmo momento sorriu, esticando os braços pequenos para que a mãe a pegasse no colo. Ele se levantou, visivelmente desconcertado com a presença de Hermione ali.

Ela pegou a filha no colo, beijando o topo da cabeça da criança. Scabior se aproximou com o intuito de beijar a bruxa, mas ela virou-se instintivamente de costas, parecendo não se dar conta do que o marido queria. Ele achou aquilo estranho. Ela estava estranha. Distante...

Themis bocejou e Hermione colocou-a no berço, cobrindo-a com uma coberta fina. A noite estava quente. Ela ficou observando a filha adormecer rapidamente e acenou com a varinha, conjurando o Patrono, que se deitou embaixo do berço como de costume. Bichento apenas enrolou-se em uma bolinha onde estava, fechando os olhinhos. O animal não passava a noite em outro lugar do apartamento que não fosse no quarto dela.

– Eu coloquei comida para ele.

Scabior disse e Hermione olhou para ele como se só tivesse realmente notado a presença dele ali naquele momento.

– Ah... obrigada... não precisava.

Ela virou-se e saiu do quarto, sendo seguida por ele, que encostou a porta com cuidado, deixando propositalmente um espaço para que Bichento saísse caso quisesse. O que ele duvidava muito. A seguiu pelo corredor.

– Por que está tão estranha?

Ela não respondeu, apenas entrou no quarto. Ele a seguiu novamente, dessa vez fechando a porta atrás de si. Hermione colocou a bolsa na poltrona e retirou dali a carta que havia recebido do Ministério da Magia, colocando-a na mão no homem.

Ele correu os olhos pelo pergaminho, reconhecendo ali a anulação da Lei de Casamento. A mesma carta que ele havia recebido horas atrás.

– Qual a importância disso?

Ela não respondeu. Na verdade, mesmo se quisesse, não conseguiria. Sentia as palavras paradas na garganta, impedindo-a de falar ou até mesmo respirar. Ele se aproximou dela.

– Você tem medo do nosso casamento acabar?

Ela não respondeu àquela pergunta também, mas ele percebeu um fraco rubor passar pelo rosto da garota. Deu mais dois passos à frente, ficando dessa vez de frente para ela. Jogou a carta em um móvel que estava perto e pegou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhá-lo. Aproximou-se do rosto dela, sentindo a respiração entrecortada da garota bater no rosto dele.

– Hermione, até quando você vai ter medo dos seus próprios sentimentos?

Aquela pergunta fez um arrepio percorrer o corpo dela. O que ele queria dizer com aquilo? Ele queria uma declaração? Ou aquilo era mais uma afirmação do que uma pergunta propriamente? Ela abaixou os olhos, fixando-os nos botões da blusa dele.

– Você... você recebeu a sua carta?

– Eu já joguei a minha carta fora.

Ela voltou a olhá-lo nos olhos. Sentiu seu corpo ser percorrido por um alívio. Algo tão bem-vindo quanto um bom copo de água depois de uma corrida cansativa. Os dedos dele começaram a acariciar o cabelo volumoso dela, deixando o coque um pouco mais frouxo.

– Eu não quero me separar de você, Hermione. Porque eu amo você.

Então o cérebro dela entrou em uma confusão incrível. Não aquela confusão ruimem que você não consegue organizar os pensamentos, mas aquela confusão causada por uma profusão de sentimentos que haviam aflorado no corpo, deixando cada músculo responder de uma forma diferente. Ele a amava, e havia dito isso com convicção e com todas as letras.

Ela não conseguiu evitar um sorriso bobo que percorreu seu rosto. Um sorriso que era a consequência de uma carga de alívio, paixão, amor e felicidade.

– Você conhece mais feitiços e receitas de poções do que qualquer bruxo do mundo. Mas consegue ser bem lenta quando o assunto envolve você e mais um homem. E sentimentos.

Ela deu um tapa no ombro dele, de brincadeira.

– Cale a boca.

Ele sorriu, pegando-a no colo com facilidade e colocando-a na cama. Suas mãos fizeram o trabalho de retirar as sandálias dela com facilidade, jogando-as no chão. Scabior começou a beijar toda a pele das pernas dela. Sentiu-a tremer ao leve toque dele. O gosto dela era tão bom... doce...

As mãos masculinas foram em direção ao vestido, subindo-o com delicadeza no momento que mordia sensualmente o interior da coxa dela, fazendo-a arquear-se um pouco. Ele não demorou a satisfazer os desejos dela, colocando a lingerie que ela vestia para o lado. A língua encontrou o sexo já molhado dela e pressionou o ponto sensível da garota, sugando aquela parte à medida que ela gemia mais.

Ela fechou os olhos, apenas apreciando o trabalho dele. E pensar que minutos atrás achou que nunca mais o sentiria ali, entre as pernas dela, tocando-a com aquela vontade e lascívia que apenas ele conseguia tocar, fazendo-a se descobrir a cada toque que o corpo dele fazia no dela.

Ela sentou-se no momento em que ele agachou-se em frente a ela, retirando os botões da blusa escura de suas respectivas casas. Ela ajudou-o a despir as calças e a roupa íntima. Sempre escura. Do modo que ela gostava, e parecia que ele sabia disso. Até mesmo as roupas que ele usava a excitavam.

Ele retirou o vestido dela, manuseando o fecho do sutiã rosa claro que ela usava por debaixo, olhando-a com fome e carinho ao mesmo tempo. Apenas ele conseguia direcionar aquele tipo de olhar para ela.

Scabior a fez se deitar novamente e espaçou as pernas da garota, fitando com atenção no mesmo momento que deslizava para dentro dela com facilidade. O corpo dela se arqueou, as pernas automaticamente enlaçando-o pela cintura e puxando-o ainda mais para si. Ele fechou os olhos. Podia sentia cada músculo do sexo dela o apertando, o cheiro de baunilha sendo capturado pelo seu nariz, o cabelo castanho selvagem espalhado pelo lençol claro da cama, as pernas o enlaçando.

Não abriria mão daquilo nem por todos os galeões do mundo. Para o inferno o Ministério da Magia com aquela Lei de Casamento ridícula. Ele havia casado apenas por negócios e chantagem, mas havia se apaixonado por aquela pessoa que agora estava totalmente entregue a ele. De corpo e alma.

E agora a amava.

Os movimentos foram aumentando de ritmo e ele abaixou-se, capturando os lábios quentes dela com os seus, a língua dele a invadindo e encontrando a dela. Os corpos dançavam em uma perfeita sincronia, e chegaram à sua satisfação absoluta no mesmo momento.

Ela gemeu o nome dele no mesmo momento que ele se derramava dentro dela, mordendo o pescoço dela. Algo que ele já estava viciado em fazer.

Ambos respiravam com dificuldade quando ele se afastou para fitar o rosto corado e satisfeito dela. Os olhos azuis profundos enfrentaramos olhos castanhos vivos. Ela abriu a boca.

– Eu também te amo.

Escutar aquelas palavras vindo de forma tão sincera e espontânea fez com que ele sorrisse. Não um sorriso aberto. Nunca aquele tipo de sorriso. Mas um sorriso jocoso, algo mais característico dele. Ele colocou um pouco dos fios do cabelo dela para trás de sua orelha.

– Você não sabe como me deixou feliz ouvir você dizer algo assim, sem que pensasse mil vezes e ensaiasse duas mil antes de fazê-lo, lindeza.

Ela deu outro tapa no ombro dele.

– Cale a boca.

Ele sorriu, beijando-a com carinho. Hermione correspondeu o beijo com o mesmo sentimento, entregando-se novamente nos braços daquele ex-snatcher, rude e folgado.

O pergaminho com a anulação da Lei de Casamento ficou totalmente esquecido em um móvel perto da porta do quarto.