Obsession
34 Reunião
Reunião
O pergaminho confirmando que Sophia ficaria mais duas horas além do combinado estava abertoà sua frente. Hermione olhava para a mesa de sua sala, sentindo seu corpo totalmente cansado de tudo aquilo. De ficar horas no Ministério da Magia. De chegar em casa apenas a tempo de ver Themis cair em um sono profundo, de aguentar cargas proibidas passando por causa de trabalho malfeito de outros bruxos. Precisava imediatamente e desesperadamente de férias.
E ainda tinha aquela maldita reunião.
Escutou a porta de sua sala abrindo e viu Scabior entrando sem pedir permissão, algo que ele fazia desde o momento em que começou a trabalhar ali. Ele sentou-se na mesa dela, algo que ele também fazia, mais por mania do que para irritá-la.
– Acho que não vou à reunião.
Ela saiu de sua linha de pensamentos e ficou inquieta com a declaração dele.
– Como? Por quê?
Aquilo era um absurdo. Além de ele ser seu marido e ela apreciar a presença dele ao seu lado, ele trabalhava no Departamento. Havia dispensado Michael para que Scabior fosse com ela.
– Eu preciso terminar os inúmeros relatórios que seu querido chefe me mandou fazer.
Para a merda com os relatórios! Desde quando ele era responsável com o trabalho que fazia? Ela franziu o cenho, mas concordou com aquilo. Poderia estar exagerando. Desde que entrara para o Ministério da Magia iaareuniões diversas e importantes sem a presença dele, não era agora que tal situação iria deixá-la insegura e nervosa.
Devo estar de TPM.
Ela pensou, acenando com a cabeça. Scabior aproximou-se dela e beijou-a levemente nos lábios, afagando o cabelo volumoso.
– Se eu conseguir terminar tudo a tempo, te encontro lá. Se não, te vejo em casa.
Ele piscou para ela de um jeito maldoso e Hermione fez uma careta quando ele saiu da sala dela. Olhou para o relógio de parede. Faltavam vinte minutos para a reunião começar. Trancou as gavetas com seus feitiços como de costume e pegou a bolsa, saindo de sua sala e caminhando para a sala de Archie.
Bateu e esperou alguns segundos para entrar. O bruxo estava terminando de assinar alguns pergaminhos. Olhou-a com tranquilidade e selou o pergaminho, guardando-o em sua gaveta e trancando-a do mesmo modo que Hermione trancava as suas.
– Está pronta?
Ela acenou afirmativamente e respirou fundo. Archie caminhou em direção a ela e pousou delicadamente a mão pesada em seu ombro. Ela sentiu a sensação familiar de estar sendo puxada pelo estômago por um gancho grande e forte. Fechou os olhos, e quando os abriu, já estava no local certo.
[...]
Sabia perfeitamente o motivo de estar nervosa. Aquela era a casa de Viktor Krum. A casa que ele havia comprado antes de se casar, tornando-se praticamente um cidadão britânico quando o fez.
E agora o búlgaro estava solteiro. O término do casamento do famoso apanhador de Quadribol havia saído em todos os jornais bruxos, inclusive no Profeta Diário, que era rotulado como um jornal sério. Mas as páginas de fofocas sempre eram as mais lidas.
Ela olhou o grande salão em que Archie havia os levado. Um elfo doméstico pequeno e magricela correu na direção dela, pedindo gentilmente a bolsa e a pasta da garota para que ele tivesse a honra de guardá-las. Hermione agradeceu o elfo e quase o fez chorar, mas ele dedicou-se a fazer seu trabalho e virou-se, correndo em direção a um cabideiro elegante que estava perto da porta.
Ela revirou os olhos. Gostava de Krum um pouco menos depois de ver o estado da roupa do elfo doméstico, e de como ele havia ficado satisfeito apenas quando ela o agradeceu. Estava mais que claro que a criatura não era tratada como alguém, e sim como um bicho.
Ela andou pelo salão, percebendo alguns bruxos do Departamento em que trabalhava. Malfoy estava conversando com um bruxo de aparência séria, que usava vestes roxas escuras e fechadas. O seu ex-colega de escola estava vestido com um terno negro e impecável, como de costume.
Archie estava ao lado dela, e percebeu alguns homens olhando para a garota. Não sabia se era porque ela estava muito bonita, ou se era porque ela tinha fama por ser Hermione Granger, a garota que havia lutado ao lado de Harry Potter e agora era uma das bruxas mais bem-sucedidas da Inglaterra. Poderia ser uma mistura de ambos.
Por mais que gostasse de reuniões e que apreciasse conhecer bruxos de outras nacionalidades — e estava claro que o lugar estava cheio deles -, ela não queria estar ali. Sentia-se estranha sem Scabior ao lado dela, e preferia estar com o marido e com a filha comendo um jantar improvisado do que estar ali.
– Hermione.
A voz dele soou atrás dela e a garota se virou, olhando os olhos castanhos profundos do búlgaro. Krum aproximou-se dela, pegando sua mão e beijando-a como um cavalheiro faria. Ela sentiu-se incomodada com isso. Por mais que soubesse que aquele era o jeito dele, sabia que o homem a olhava de forma diferente, como se estivesse redecorando todo o corpo dela, e lembrando-se de como ele era quando estava sem as roupas.
– É sempre um prazer revê-la.
Ela sorriu de forma automática.
– O prazer é todo meu.
Respondeu mais por educação do que por vontade.
– Archie.
O chefe de Hermione o cumprimentou com entusiasmo. Ela esforçou-se para não revirar os olhos ali mesmo. Sabia que Archie considerava Krum um dos bruxos mais influentes da Inglaterra, levando em conta tanto sua carreira como político como sua carreira como jogador. Krum abriu um sorriso e pousou a mão delicadamente nas costas dela.
– Vamos?
Ele indicou o local em que seria a reunião para Archie e para Hermione. Ela seguiu o chefe, tentando se desvencilhar do toque dele.
No cômodo em que entraram, havia uma mesa grande e comprida. Quase todos estavam sentados. Havia dois espaços vagos quase no meio da mesa, lugares em que Archie e Hermione se sentaram. Viktor Krum sentou-se em um lugar distante do dela, para alívio da garota. Malfoy pigarreou.
– Marquei essa reunião para que possamos discutir algo que o Ministério da Magia da França nos propôs. Mas não se preocupem, não demorarei muito e serei bem sucinto.
Ele sorriu minimamente e abriu uma pasta de couro envernizado, retirando dali alguns pergaminhos e distribuindo para todos os bruxos ali presentes. Ela quase o agradeceu por isso. Era uma noite de sexta-feira e estava visível que todos ali estavam cansados e queriam ir para a casa.
Ela correu os olhos pelo pergaminho e leu com atenção a proposta do Ministério da França, não gostando nem um pouco. Malfoy voltou a dissertar.
– O Ministério da Magia da França propôs que eles pudessem interferir nas barreiras que interligam os dois países, e que os ministros representantes se encontrassem para modificar todas as leis com o intuito de ambos os países terem um aval indireto para vigilância mútua.
– De jeito nenhum.
Hermione disse sem pensar. Não sabia nem mesmo se Malfoy pediria uma opinião para ela ou se aquilo era mais um comunicado do que um debate. Ela conseguiu arrancar a atenção de todos ali sentados. Archie virou-se para ela.
– Acha que seria impossível um acordo entre os Ministérios da França e Inglaterra?
– Não impossível, mas imprudente. Trabalhamos demais para organizar as leis para que as fronteiras ficassem bem vigiadas. Nosso trabalho está dando resultado, e agora que colhemos os frutos, o Ministério da França quer interferir? Não concordo. Quanto mais leis e mais burocracia tivermos, mais fácil bruxos de ambos os países conseguirem burlar alguma lei.
Archie ficou calado, assim como o restante dos bruxos. Alguns balançaram afirmativamente a cabeça, concordando com Hermione. Malfoy não disse nada.
– Acho que não devemos questionar a pessoa que trabalhou mais do que qualquer um aqui sentado para criar as leis e deixar nossas fronteiras seguras.
A voz de Krum cortou o ambiente, elogiando-a indiretamente com aquela declaração. Hermione nem ao menos olhou para o bruxo, mas percebeu agora outros que estavam sentados concordarem e voltarem a ler o pergaminho.
Já o búlgaro focava sua atenção na garota do outro lado da mesa. Sentia o distanciamento dela em relação a ele. Não conseguia deixar de pensar que Hermione ainda estava casada, e perguntava-se mentalmente o porquê de ainda manter um casamento com aquele tipo de homem que ela chamava de marido. Ela não era mulher para ele.
Hermione sentiu os olhos de Krum pousados nela, mas fingiu não notar, observando com atenção agora um bruxo desconhecido concordando com ela e dizendo os motivos que envolviam o Departamento dele.
Ela suspirou, cansada. Queria estar em casa. Com ele, com Themis. Mas a reunião ainda iria demorar.
[...]
Finalmente havia acabado. Ela se despedia de todos ali presentes. Malfoy já havia ido embora, assim como Archie. Alguns bruxos pegavam as bolsas com os inúmeros elfos que trabalhavam naquela casa. O elfo pequeno e magricela entregou a bolsa de Hermione, e ela virou-se para o anfitrião para despedir-se dele, mas Krum apenas pegou o braço dela.
– Fique. Quero conversar com você.
Ela relutou, pensou em inúmeras desculpas para dar a ele. Não queria ficar ali. Não mesmo. Mas concordou com a cabeça, a curiosidade a vencendo. O que ele ainda teria para falar a ela? Devia aquilo a ele. Não havia dado a chance para que o búlgaro ao menos conversasse assuntos pessoais com ela.
Aos poucos os bruxos foram saindo do grande salão, deixando-o vazio. O piso frio fazia com que a brisa da noite chegasse refrescante ao corpo dela, e ela agradeceu mentalmente isso. A noite estava quente. As cortinas claras esvoaçavam por causa do vento, mas ele indicou uma pequena sala à esquerda, indo em direção ao lugar. Hermione o seguiu.
Ao entrar no cômodo, percebeu que era um pequeno escritório, decorado de forma luxuosa. Os troféus e medalhas que Krum colecionava estavam separados em um armário de cristal, e pareciam brilhar cada vez mais quando ela continuava os olhando. Havia uma mesa baixa e de madeira escura com alguns pergaminhos arrumados de forma milimétrica. O lustre era grande e carregava velas enfeitiçadas para que as chamas iluminassem mais do que o normal o local. Um tapete vermelho escuro estava sob os pés dela, tão fofo que Hermione sentiu vontade de tirar as sandálias de salto e andar por ele.
Um barulho fez com que ela parasse de decorar cada móvel do escritório e focasse a atenção no bruxo. Ele estava colocando uma bebida cor âmbar em um copo. Hermione conhecia aquela bebida. Era a bebida que Scabior mais gostava. Uísque de Fogo.
– Diga-me. Como vai o casamento?
Ele é direto. Ela pensou. Mas não se intimidou com a pergunta, apenas deu um sorriso sincero, fingindo que não havia entendido o rumo que ele gostaria de tomarcom aquele assunto.
– Está ótimo. Lamento que o seu não tenha dado certo.
O cinismo com que ela disse aquilo a ele fez com que algo brotasse no íntimo do búlgaro. Ela não sabia se fora raiva, decepção ou até mesmo vergonha. Mas a fisionomia dele mudou. Ela reconheceu nos traços do rosto forte a impaciência. E com a impaciência veio a pergunta.
– Por que ainda está casada com aquele homem?
Ela sentiu seu corpo começar a se esquentar. Ele estava sério, e parecia realmente achar que Hermione fosse responder tal pergunta. Sentiu-se insultada. O modo como ele havia perguntado, parecia que ele estava jogando na cara dela que o casamento dela estava dando certo por causa de um acordo mútuo que envolvia interesses. E só.
Dessa vez foi ela que perdeu a paciência, e pelo que pensou que iria falar, até a educação.
– Eu não sei. Acho que pelo simples fato de meu casamento ter dado certo. Ao contrário do seu.
– Aquele homem não é para você, Hermione. Não vê o que todos falam? Apenas as pessoas do Departamento que você trabalha gostam dele, e as mulheres. Fato que eu não consigo entender. Sei que ele foi um snatcher no período da guerra. Ele simplesmente não presta. Não sei como Archie contratou alguém como ele, mas julgando o modo que aquele ancião controla o Departamento, não fico surpreso.
A enxurrada de palavras fez com que Hermione se sentisse agredida não apenas verbalmente, mas também fisicamente. Parecia que Krum estava lhe dando um tapa na cara. Qual era o problema daquele bruxo? Ressentimentos porque ela havia o deixado sozinho em quarto, depois de uma noite que ele julgou ser incrível?
– Eu não vou ficar aqui com você ofendendo meu chefe e meu marido.
A gargalhada soou forte pelo escritório e ele terminou a bebida que estava tomando em um só gole. Ela apertou a bolsa contra o corpo e virou-se a fim de sair daquele lugar, mas sentiu a mão forte dele lhe prender o pulso. Ele a puxou, e quando Hermione virou-se para xingá-lo e mandá-lo soltá-la, sentiu os lábios carnudos e quentes dele de encontro aos seus.
E detestou cada toque. Ela travou os lábios, sentindo uma vertigem pequena. Não de prazer, mas de repulsa, quase asco. Não era certo. Ela queria os lábios de Scabior. Não os lábios daquele bruxo nojento.
Ela começou a desferir socos fortes pelos ombros dele, tentando empurrá-lo. Mas infelizmente Krum tinha o físico e a força de um atleta. Cada soco parecia lhe fazer cócegas, e ela sentia como se estivesse tentando empurrar uma muralha.
Estava tão concentrada em tentar empurrar aquele monte de músculos que não viu um vulto passar pelo corredor, parando em frente à porta. Era Scabior.
Krum sorriu entre o beijo e depois a largou quando ela finalmente juntou todas as suas forças e conseguiu empurrá-lo.
– Seu filho da puta nojento!
Reuniu todas as suas forças e estapeou o rosto do bruxo. Krum levou um susto com a reação violenta dela. Ela respirava com dificuldade devido à raiva. Um pigarro soou pelo cômodo e os dois viraram-se para a origem do som. O búlgaro logo abriu um sorriso ao ver aquele bruxo que era uma vergonha para a sociedade ali parado. Hermione quase desmaiou. Ele havia visto tudo. E a julgar o modo como as orbes azuis do homem a fitavam, estava acreditando fielmente que ela estava o beijando com vontade e luxúria.
– Scabior...
Ela tentou dizer, mas ele já havia saído de lá. Ela escutou o som dos passos fortes e raivosos dele reverberando pelo corredor. Voltou sua atenção para Krum.
– Nunca mais encoste um dedo em mim. Ou senão o amaldiçoo.
Krum não disse mais nada. Ela nem ao menos ficou para ver a reação do búlgaro, saiu do escritório e andou rapidamente e em passos largos pelo corredor do local, chegando ao grande salão, procurando-o desesperadamente. Queria explicar o que havia acontecido. Queria dizer que não havia gostado nada do toque do outro homem.
Mas ele já não estava mais lá.
[...]
Ela aparatou em casa, jogando a bolsa no sofá. Respirou fundo.
– Scabior?
Chamou em um tom baixo. Sabia que há muito Sophia havia ido embora. Mas a julgar pela luz fraca do abajur, Themis estava dormindo. A cuidadora nunca deixava a criança desprotegida, e só ia embora quando tinha certeza de que algum dos pais estava em casa...
Correu para o quarto de Themis, mas não o achou ali. Um pequeno lince prateado andava porlá, rodeando o berço. Era o patrono dele, mas logo quando a criatura a viu, desapareceu. Ela conjurou o próprio patrono, deixando a lontra fazer o seu trabalho. Bichento estava dormindo na mesma poltrona que sempre dormia, e não pareceu se dar conta da confusão que a dona havia arrumado.
Ela aproximou-se do berço e inclinou-se, beijando o topo da cabeça da filha. Themis remexeu-se no cobertor, aconchegando-se melhor e suspirando. Hermione sorriu, e logo após saiu do quarto.
Ela andou rapidamente para o quarto deles, abrindo a porta com esperanças.
Mas ele também não estava lá.
Observou algumas gavetas e portas do armário abertas. Ele havia juntado algumas roupas, saindo com rapidez dali. Aquilo era claro.
Ela se sentou na cama e juntou as pernas ao corpo, apoiando os cotovelos nos joelhos. Enfiou o rosto nas mãos.
E chorou.
Fale com o autor