Obsession
31 Salto
Salto
Hermione andava ao lado de Scabior, ligeiramente temerosa com tudo aquilo. Na verdade, não se sentia assim desde que havia retirado as memórias dos próprios pais para entrar em uma caça às Horcruxes com Harry e Rony, anos atrás. Mesmo quando havia entrado na Sala de Casamento não havia sentido tal nervosismo.
Ela permanecia um pouco afastada dele, alguns passos atrás, como se sentisse vergonha de estar ali. Realmente ela não sabia exatamente o que estava sentindo, mas sabia que não era algo bom, do contrário seu estômago não estaria parecendo abrigar diversas borboletas.
O balcão foi se aproximando na medida em que o casal andava em direção a ele. Uma bruxa de aparência idosa e calma estava sentada naquele lugar. Usava um chapéu verde pontudo que fazia com que Hermione se lembrasse imediatamente de McGonagall. Ao chegarem mais perto, a garota parou relutante. Scabior percebeu isso, mas não chamou a atenção dela, pelo contrário, tomou a dianteira e aproximou-se do balcão, pigarreando para chamar a atenção da bruxa.
A senhora estava acenando com a varinha escura para diversos documentos, que voavam de forma delicada e pousavam cada um em uma pilha em específico, mas parou o movimento e o trabalho ao escutar Scabior limpar a garganta.
Olhou para o homem com visível desagrado e fungou um pouco, retirando os óculos pesados. Fez uma careta quando analisou o snatcher mais profundamente.
– O que deseja?
Ela perguntou sem rodeios, e Hermione pôde escutar um tom de impaciência em sua voz.
– Gostaríamos de ver as fichas das crianças que estão para adoção.
A mulher se irritou, olhando-o com incredulidade. Mas depois que percebeu que Scabior não estava falando apenas dele, correu os olhos claros pelo corredor e dessa vez viu Hermione, que resolveu se aproximar do balcão para ajudar o marido.
A fisionomia da mulher mudou completamente, da água para o vinho mais caro e apetitoso. As rugas desapareceram quando a expressão da senhora desanuviou e ela mostrou um sorriso contido e ao mesmo tempo sincero para a garota.
– Hermione Granger? Que prazer tê-la aqui! Admiro-lhe desde que lutou ao lado de Harry Potter na época da guerra...
Hermione sorriu para a senhora, visivelmente desconcertada com tudo. Scabior limitou-se a revirar os olhos, um pouco impaciente com a mudança súbita de comportamento daquela velha. Mas depois, pensando melhor no assunto, sentiu que estava se acostumando com as pessoas de todo Ministério olhando para a sua mulher com admiração. E até gostava disso, o que o surpreendeu ainda mais.
– Eu e meu marido gostaríamos de ver as fichas das crianças que estão disponíveis para a adoção.
– Oh! Marido? – A mulher olhou para Scabior um pouco envergonhada. – Claro, querida. Já providencio.
Hermione fitou o homem por apenas alguns segundos quando a mulher deu as costas para o casal. Não quis olhá-lo por mais tempo, senão começaria a rir. Perguntava-se mentalmente o porquê disso, mas estava se tornando algo cômico a reação das pessoas ao descobrirem que Scabior era seu marido.
– Aqui.
A senhora disse, entregando um montinho muito pequeno para Hermione.
– Está com feitiço de encolhimento, naturalmente. Mas se quiser olhar com calma, temos mesas dentro daquela sala. – ela apontou para o corredor leste, que continha uma porta muito bonita de vidro roxo. – Sei que esse tipo de análise exige cuidado e atenção.
Ela olhou de forma bondosa para Hermione, que sorriu e remexeu na pilha de fichas que a senhora havia lhe dado. Scabior apenas esperou a proposta que ele tinha certeza de que a garota faria.
– Eu não posso levar os documentos para minha casa? Prometo que lhe entrego rapidamente...
Bingo. Ele quase riu quando ela perguntou. Conhecia-a o suficiente para saber que a sua mulher nunca sentaria em uma mesa e analisaria aquelas fichas e documentos daquela forma. Porque ela tinha que trabalhar. E era quase pecado ela tomar uma decisão daquela proporção matando serviço.
A senhora pareceu relutar, mas depois acenou afirmativamente.
– Olha... costumamos não deixar os casais levarem os pergaminhos e documentos. Mas sei que você é uma garota responsável e vou abrir essa exceção. Claro que você terá que deixar sua assinatura aqui para podermos ter um controle da retirada das fichas.
Hermione assentiu e a mulher virou-se novamente para pegar o documento necessário. Scabior nem se incomodou em perguntar se seria necessário a assinatura dele, apenas esperou a garota assinar o pergaminho, que brilhou quando seu nome foi escrito, assim como todos os documentos oficiais do Ministério da Magia faziam. A senhora guardou o documento e agradeceu o casal, enquanto a garota enfiava os pergaminhos encolhidos na bolsa.
Saíram da Sala de Adoção.
– Olha, não gosto de emprestar meus pergaminhos preciosos para meros bruxos, mas para Hermione Granger abrirei exceção, mas apenas para ela. Porque seu marido não serve...
Hermione olhou para Scabior, que falava com uma voz fina e afetada, e percebeu que ele estava imitando a senhora que havia os atendido. O homem continuou.
– Porque ele simplesmente não merece ler os pergaminhos.
– Pare com isso, Scabior. Ela só estava sendo responsável com seu trabalho.
– Responsável? Isso é discriminação!
– Como se você se importasse com isso...
Hermione cutucou e Scabior apenas sorriu de lado. Realmente não dava a mínima para a opinião da mulher. Mas irritava-o quando as pessoas o olhavam como se ele não fosse digno de estar ao lado da famosa Granger.
Pararam em frente às grades do elevador, esperando-o.
– Se eu tivesse o cabelo liso e loiro de Lucius Malfoy, e uma joia incrustada em uma bengala, aquela velha jogaria um bebê em cima de mim na mesma hora.
Ela deu um tapa no ombro dele, mas não conseguiu ficar séria, acabando por abrir um sorriso genuíno.
– Pare com isso!
Os dois sorriram e Scabior enlaçou-a pela cintura, depositando um beijo carinhoso em seu cabelo. Hermione corou, sentindo-se protegida e ao mesmo tempo sem graça com o gesto dele. Mas adorou o carinho.
[...]
Para uma noite de segunda-feira, Hermione se sentia até tranquila, mas estava muito cansada. Entrou no apartamento, sendo seguida por ele. Ela pensou seriamente em retirar o feitiço da lareira, para que pudessem usá-la sem que ele precisasse usar a lareira de convidados.
Já passava da hora de fazer aquele tipo de coisa por ele.
Ela jogou a bolsa no balcão da cozinha, retirando de dentro dela o bloquinho de pergaminhos e apontando com a varinha para eles. Eles voltaram ao estado natural, crescendo em cima do balcão e fazendo uma pilha mais alta do que Hermione imaginara. Ela suspirou. Aquilo seria complicado.
– Você vai ler isso agora?
Scabior perguntou e ela acenou negativamente com a cabeça.
– Depois. Estou faminta, vou fazer algo para o jantar. Vou apenas trocar de roupa.
Ela saiu para o seu quarto e ele deu de ombros, retirando o casaco e jogando-o em cima do sofá. Sabia que ela detestava quando ele fazia aquilo. Roupas espalhadas eram algo que irritava a garota. Mas ele adorava vê-la irritada, então apenas ignorou que estava fazendo algo errado.
Bichento veio de encontro a ele, roçando na perna do homem enquanto subia no balcão da cozinha e olhava para a pilha de pergaminhos com um interesse estranho, para depois fitar o homem. Scabior olhou para o animal.
– Sabe que de vez em quando você me dá medo?
O gato continuou olhando para o homem com olhos sábios e o snatcher arqueou as sobrancelhas.
– Você é o animal mais estranho e parecido com o dono que eu conheço. Parece que está lendo nossa mente com os olhos...
Bichento continuou onde estava. Aqueles olhos grandes do gato estavam deixando-o inquieto. Scabior se aproximou.
– Para-de-fazer-isso.
– Está conversando com Bichento?
Ela entrou na cozinha, se divertindo visivelmente com o monólogo que o homem estava travando. Ele passou os olhos pelo corpo de garota de forma quase pecaminosa. Hermione pôde observar as orbes azuis escuras brilhando de malícia, mas ignorou isso. Ela usava um vestido preto e curto, solto ao corpo.
– Não estou conversando com ele. Esse bicho me dá ansiedade quando começa a me olhar assim. Parece aquelas caixas pretas trouxas que vigiam a gente.
– Câmeras?
– Isso... câmeras...
Hermione soltou uma risada, acariciando Bichento. Abaixou-se para pegar algumas panelas e sentiu os olhos do homem praticamente a perfurando quando fez isso.
– Se pretende terminar o jantar, melhor parar de inclinar-se assim com esse vestido.
Ela colocou a panela no fogão, olhando-o de forma séria.
– Controle-se.
Scabior voltou sua atenção para os pergaminhos que estava lendo enquanto Hermione acendia o fogão de forma trouxa e começava a fazer o molho. O resto estava pronto, ela teria apenas que montar o prato. O homem percebeu ali que havia mais crianças do sexo feminino do que sexo masculino para adoção. Perguntou-se o motivo disso.
Realmente, pensando com cuidado, nunca teve uma opinião formada quando o assunto era o sexo do seu filho. Claro que seria legal ter um menino. Ensiná-lo a jogar Quadribol e fazer trilhas pelas florestas, igual ele gostava de fazer na sua infância. Tinha facilidade em conhecer caminhos escondidos entre as árvores. Infelizmente ele havia usado seu dom para atos ruins, virando snatcher. Mas não queria pensar muito naquilo...
– Você prefere uma menina ou um menino?
Hermione estava colocando o tabuleiro no forno quando ele perguntou. Acenou com a varinha para que o forno trabalhasse mais rápido. Um pouco de mágica na cozinha não fazia mal a ninguém. Respondeu sem hesitar.
– Menina.
Ele arqueou as sobrancelhas.
– Por quê?
Ela fechou o forno e contou exatamente cinco minutos para a lasanha ficar pronta.
– Sempre quis ter uma menina. Além do mais, se tivermos um menino, conhecendo você como conheço, posso dizer que a criança vai correr grande risco de se tornar igual ao pai.
– Sensual e irresistível?
Ela olhou para ele de forma séria. Segurava uma faca na mão quando ele perguntou. Scabior levantou as mãos em um gesto de rendimento e voltou sua atenção para os pergaminhos de adoção, tomando mais cuidado quando o documento dizia que se tratava de uma garotinha.
Hermione começou a arrumar a mesa, colocando os pratos e os talheres. Decidiu por tomar refrigerante, algo que ela não tomava há meses. Sentia falta da comida trouxa. Suco de abóbora em demasia às vezes enjoava.
O forno fez um barulho quando a lasanha ficou pronta, um feitiço que Hermione aprendeu nas revistas inúteis bruxas de fofocas e utilidades para o lar. Ela acenou para que a travessa flutuasse até a mesa. Scabior ficou alerta no momento que sentiu o cheiro diferente e delicioso lhe chegar ao nariz.
– Pode vir.
Ele se aproximou e sentou-se à mesa, olhando com visível desconfiança quando Hermione colocou um pedaço da lasanha no prato dele.
– O que é isso?
– Lasanha. É um prato que minha mãe fazia muito quando eu morava com meus pais...
Ela se calou. Não gostava de falar muito nos pais. Havia se afastado um pouco deles quando eles descobriram que ela tinha retirado suas memórias. O convívio saudável voltou aos poucos depois da guerra, mas ainda era delicado. Scabior enfiou o garfo na boca, mastigando a comida.
– Nossa, isso é bom!
Ele deu a segunda garfada dessa vez com prazer e Hermione se descobriu sorrindo para ele, satisfeita em vê-lo comer.
– É a primeira vez que você cozinha...
Ele disse, deixando no ar o pensamento. Ela não respondeu. Aquilo era verdade. Sempre pedia comida ou comia fora. A geladeira estava sempre cheia, mas nunca com algo que ela havia feito. Hermione se sentia bem cozinhando, e perguntou-se por que havia deixado de fazer aquilo.
– Por que você não tem um elfo-doméstico?
Scabior perguntou e ela revirou os olhos, tomando um pouco do refrigerante. Lembrou-se de quando havia criado o F.A.L.E., e tinha insistido para Harry e Rony ingressarem em sua luta por direito aos elfos. Quase sorriu com a lembrança. Até ela perceber que aquelas criaturas realmente gostavam do que faziam foi um custo. Mas ainda achava que os bruxos poderiam tratar os elfos melhor. Claro que muitos haviam percebido que era desumano os elfos serem tratados como animais, mas ainda havia aqueles que achavam que os elfos eram criaturas inferiores.
– Scabior, eu não vou nem entrar nesse tipo de assunto com você.
[...]
Ela estava sentada na cama, lendo os pergaminhos de adoção dessa vez com atenção. Já havia tomado seu banho e escovado seus dentes, ficando pronta para dormir. A semana tinha apenas começado e ela ainda tinha bastante trabalho pela frente. Mas fazia quase três horas que estava ali, lendo aquilo tudo.
Algumas fichas estavam cuidadosamente separadas ao seu lado, mas ela focava sua atenção em uma em particular.
Ele entrou no quarto dela e ela o olhou, correndo rapidamente e de modo discreto os olhos pelo corpo seminu dele. Ele estava usando apenas uma calça preta de pijama. Seus cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo. Sem tranças bagunçadas. Era um belo homem, mas ela preferiu ignorar isso, sabendo que se ele ao menos percebesse como ela o olhava, não teria sossego e não conseguiria terminar de ler a ficha que estava lendo.
– Sente-se aqui.
Scabior entrou no quarto e se sentou ao lado dela. Ele percebeu que ela estava com uma ficha na mão e olhava com atenção para a foto de uma garotinha gargalhando. Era um dos bebês mais bonitos que ele havia visto. Não que tivesse conhecido muitos... mas a criança era... diferente. Algo que ele apreciava e muito.
Hermione sorriu quando a fotografia da menina deu mais uma gargalhada. Scabior percebeu isso. Os olhos castanhos da garota brilhavam apenas em olhar para a fotografia. Ele não via aquele brilho nas orbes dela há tempos.
– Você gosta dela?
Ela não respondeu, apenas pousou a mão delicadamente na fotografia e depois correu os dedos pelas linhas que continham a história da garota. Pais gregos, mortos na guerra. Lutavam ao lado de parentes e amigos quando aconteceu. O pai fora torturado antes disso, por Comensais da Morte, e teve que passar por uma cura intensiva no hospital St. Mungus. E mesmo assim não havia resistido. Não eram nem ao menos britânicos. Mas lutavam pela liberdade dos bruxos, mesmo que ambos fossem puro-sangue. Hermione lembrou-se dos Weasley.
– O que acha de ter uma menina?
Ela perguntou e Scabior respirou fundo.
– E adiantaria se eu quisesse um menino?
Ela não respondeu e ele sorriu. Conhecia a teimosia dela. Ela estava determinada a ter uma menina, e não era ele que iria se opor. Não tinha preferência, e deixaria a escolha por conta dela.
– Onde será o quarto do bebê?
– No seu.
Ela respondeu, voltando a ler o restante da história da criança. Percebeu que ele ainda pensava na resposta dela, revirou os olhos e olhou-o.
– Quero que meu filho ou filha tenha um quarto só para si. – ela começou a colocar os pergaminhos em pilhas e voltou a encolhê-los, deixando apenas uma ficha para fora da pasta. – Então você passará a dormir aqui.
O sorriso dele foi malicioso.
– Quer dizer que esse quarto será meu também?
Scabior se aproximou e depositou um beijo macio no pescoço dela, descendo os lábios por toda a pele daquele lugar. Hermione fechou os olhos.
– Se esse quarto for meu, poderei fazer aqui o que eu quiser... lindeza.
Ela quase perdeu o controle, mas lembrou-se da ficha que estava nas mãos e mexeu a cabeça ligeiramente.
– Controle-se.
Ele sorriu e beijou uma última vez o pescoço dela, dando uma mordida leve no lugar antes de se afastar dela. Se quisesse, tiraria o controle da garota no mesmo momento, mas sabia que ela estava cansada, e determinada a escolher a possível criança ainda naquela noite. Isso se já não tivesse escolhido, julgando a ficha que estava separada em sua mão.
Ela olhou para o pergaminho. A criança que estava na foto deu mais uma pequena gargalhada, caindo no berço por causa do descontrole momentâneo. Hermione sorriu com doçura.
– É ela, Scabior.
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