Obsession
35 Lesão
Lesão
– Duas semanas depois -
Ela saiu do elevador em passos lentos. Evitou olhar para qualquer pessoa que passasse pelos corredores, mas não pôde deixar de perceber que ninguém a olhava de modo estranho. Pelo contrário, algumas pessoas a cumprimentavam como de costume, não direcionando nenhum olhar diferenciado ou questionador. Sentiu-se aliviada com isso.
Já não bastava a exaustão mental e física que estava, não iria aguentar fofocas sobre sua vida pessoal naquele Departamento.
Themis estava com Sophia, como de costume. E Hermione pensou com sinceridade que a filha era a única coisa que ainda a mantinha de pé naqueles dias.
Havia sido beijada à força por um homem que não aceitava seu casamento; seu marido tinha visto a cena, tirado suas próprias conclusões e saído de casa, sem nem ao menos deixar uma carta ou um maldito pedaço imundo de pergaminho dizendo para onde iria. E ela ainda precisava ir trabalhar todos os dias com o mesmo rosto de satisfação, sua máscara de mulher bem-sucedida convencendo a todos.
Continuou andando pelo corredor e percebeu que Archie se aproximava. O bruxo estava com uma fisionomia tranquila, como se não estivesse sabendo de nada. Ele abriu um sorriso para Hermione quando os dois se encontraram.
– Ah, Hermione! Scabior está aproveitando as férias?
Férias? Ele havia tirado férias antes mesmo dela? Como ele tinha conseguido isso? Ele não trabalhava ali há tanto tempo. Archie respondeu as perguntas dela.
– Ele conversou comigo e pediu um adiantamento das férias. Achei justo, visto que você teve licença à maternidade e ele alegou que não aproveitou a filha igual você.
Archie sorriu. Um sorriso tão inocente que até mesmo Hermione acreditou que a história era realmente aquela. Como alguém que se tornara chefe de um Departamento inteiro do Ministério da Magia não conseguiu enxergar a maldade por trás de tudo e as mentiras ditas? Ela resolveu entrar no jogo do snatcher. Sorriu para o chefe.
– Ele está adorando cada segundo ao lado de Themis. Está se tornando um pai coruja... Mas agora preciso trabalhar, Archie.
Archie assentiu e voltou a andar pelo corredor, distanciando-se dela. Hermione respirou fundo, entrando em sua sala.
Ela fechou a porta atrás de si e respirou fundo, sentindo seu corpo relaxar momentaneamente quando percebeu que finalmente estava só. Sua sala era o tipo de local que sempre lhe passava conforto. Cada móvel, objeto e enfeite ali carregava um pedaço dela com ele. Mas nem mesmo em seu ambiente mais particular de trabalho ela estava conseguindo se sentir tranquila a ponto de trabalhar.
Correu os olhos castanhos pelos inúmeros pergaminhos que a esperavam. Depois da maldita reunião, Malfoy havia mandado muitos documentos que continham o que os franceses haviam sugerido, um pedido particular dela. Claro que Archie teve que autorizar o pedido, mas o bruxo havia concordado. Hermione podia saber o que realmente os estrangeiros queriam com o Ministério da Magia da Inglaterra ao ler os documentos.
Mas infelizmente nem isso ela conseguia fazer.
Respirou fundo, apoiando a cabeça na poltrona e pensando no que poderia fazer para resolver aquela situação. Não podia ficar assim, a falta de notícia de Scabior estava deixando-a louca. Ela nem ao menos sabia onde ele estava.
Se ela tivesse pelo menos um meio de descobrir isso...
Uma claridade apareceu em sua mente. Harry. Harry tinha meios de descobrir onde aquele maldito snatcher estava. Bastava que ela pedisse com carinho ao amigo. Mas para fazer tal pedido, teria que contar a briga que tivera com o homem. Mas sabia que podia confiar no amigo.
Pegou sua pena e molhou delicadamente a ponta no tinteiro. Sua mão tremia ligeiramente quando ela pousou-a no pergaminho em branco e começou a escrever uma pequena carta, que mandaria como memorando particular para que o Harry a recebesse de forma segura.
[...]
Ainda faltavam duas horas para o expediente encerrar, mas Hermione já sentia as consequências das horas de trabalho predominarem em seu corpo. Suas costas doíam, seus olhos ardiam e uma leve dor de cabeça estava começando a lhe incomodar. Ela pousou a pena na mesa e esfregou os olhos com os dedos, espreguiçando-se logo em seguida, tentando por meio desses gestos espantar o cansaço e o sono.
Até que escutou um pergaminho entrar por debaixo de sua porta, como se fosse um pequeno rato se espremendo em uma fresta. Logo depois ele se ajeitou, tentando retirar um pouco dos amassados em seu próprio corpo. Voou lentamente em direção a Hermione, e ela reconheceu seu nome gravado ali, e a caligrafia inclinada e masculina de Harry.
Ficou surpresa. Não sabia que o amigo era tão bom em rastrear pessoas. Por outro lado, ela não poderia ter certeza se Harry havia realmente encontrado o local onde o snatcher estava. Não até ler o memorando.
Com mãos trêmulas, ela abriu a pequena carta em forma de coruja e leu apenas três palavras escritas.
“Travessa do Tranco”
Não sabia se sentia-se aliviada, temerosa ou estressada com tudo aquilo. Estava mais que claro que Harry havia lhe escrito da forma mais enxuta possível o local certo, e por isso ela estava aliviada. Não tinha dúvidas de que, quando o amigo queria, conseguia ser discreto. Claro que ela sabia que ele iria procurá-la depois para saber o que realmente havia acontecido.
Por outro lado, temia o lugar em que ele estava. Sabia exatamente o tipo de lugar que a Travessa do Tranco era, e ela também não podia deixar de lembrar queali era onde ele costumava beber muito, e visitar o meio das pernas das prostitutas.
Hermione percebeu que estava amassando o memorando quando o fino pergaminho cortou a sua mão.
– Merda.
Ela fechou o minúsculo corte com um aceno de varinha e incinerou o pergaminho, respirando fundo e pensando com cuidado em qual seria o seu próximo passo. O snatcher estava na Travessa do Tranco, e ela precisava dizer que ficou surpresa com a escolha dele. Ao julgar que agora ele tinha mais dinheiro, ela concluiu que ele poderia ter escolhido um lugar melhor para ficar. Mas no fundo ela conhecia-o bem demais para saber que aquele lugar era o mais próximo do confortável para ele.
E ela não precisava pensar muito para saber onde exatamente ele estaria.
Hermione travou o maxilar, jogando o cabelo para trás com a mão. Sem pensar mais naquela tortura, ela começou a organizar suas coisas. Era uma noite de sexta-feira e iria embora mais cedo daquele maldito Ministério. Archie poderia achar ruim, mas ela não estava dando muita importância a isso. Ele reclamava demais que ela trabalhava mais do que devia, então ela poderia tirar duas horas para si como um bônus.
Selou as gavetas com os feitiços costumeiros e saiu da sua sala, trancando-a e jogando a chave dentro da bolsa. Andou pelos corredores lotados do Departamento. Muitos já estavam se preparando para o fim de semana. Não olhou ninguém. Não podia. Se alguém lhe chamasse, iria usar aquilo como desculpa para não ir atrás dele.
Mesmo que a determinação estivesse agora tomado conta de seu corpo.
[...]
O lugar fedia. Hermione sentia o cheiro horrível e característico de suor, imundice e álcool em demasia. Todos que passavam pelas ruas onde ficava o prédio a olhavam de canto de olho, alguns surpresos por ela estar ali, outros apenas desconfiados. Bruxos com roupas negras e esfarrapadas, bruxas com olhares maldosos. Mesmo que a guerra tivesse acabado, sempre iria existir pessoas de má índole, ela precisava ser realista.
Respirou fundo e subiu os degraus da escada de madeira puída, que rangeram devido à podridão do material e a velhice do prédio. Hermione estava confiante quando entrou pela porta escura e olhou para os lados, analisando o local com mais cuidado e atenção.
Não havia bruxos ali, apenas uma idosa varria o chão com uma vassoura parcialmente destruída. Ela olhou para a garota com interesse, logo sabendo que ela não interagia de forma nenhuma com aquele lugar. A velha apoiou o cabo da vassoura no balcão e andou em direção à garota.
– Posso ajudar?
Hermione sentiu a desconfiança fluir de cada palavra da bruxa. Olhou-a de cima a baixo. Era pequena, menor que a garota. Mas não confiava muito no aspecto frágil que a velha tinha. A última daquela idade havia se transformado em uma cobra e tentado matá-la. Claro que aqueles eram outros tempos, mas se ela havia aprendido algo durante a guerra, era em nunca confiar na aparência de alguém.
– Sim, estou procurando meu marido. Scabior. Sei que ele está aqui. – ela olhou para a senhora com mais atenção. – E quero a chave do quarto dele.
A bruxa olhou para ela com mais curiosidade, e percebeu nos olhos daquela garota um fogo intenso, como se o corpo dela estivesse queimando por dentro. Reconheceu aquele tipo de olhar. Era o de uma mulher furiosa com o marido. Ela parecia disposta a destruir o local para achá-lo.
A bruxa andou calmamente até o balcão e pegou em uma gaveta a cópia de uma chave dourada e velha, entregando-a para Hermione, que agradeceu gentilmente, mas depois se virou e deu as costas para a senhora, andando em passos firmes e furiosos até o elevador.
Ela entrou no elevador e as grades fecharam-se. Lembrava-se daquele elevador, ele fazia muito barulho. Lembrou-se do primeiro dia que havia caído nas garras daquele homem. O elevador continuava barulhento.
Ele estacou e Hermione saltou, temendo que aquele troço caísse e levasse ela junto. Olhou para a chave e constatou que um número fino estava gravado em números mais salientes. Andou até a porta indicada.
Ela respirou fundo duas vezes antes de enfiar a chave na fechadura e girá-la.
O local estava escuro, mas ela conseguiu discernir a silhueta dele de longe. Estava sentado no sofá de aspecto puído, os olhos azuis fitavam a janela grande que o quarto possuía, mas logo ele virou o rosto em direção ao som, um pouco surpreso com o que havia acabado de ver.
Ela bateu a porta atrás de si e andou até o sofá, jogando a bolsa ali e ficando de frente para ele. Ela tentou pensar com clareza, mas vê-lo ali depois do que havia ocorrido fez com que os olhos de Hermione enchessem de água. Ela conteve as lágrimas com sucesso, mas seu corpo logo deu indícios de que ele tinha, sim, um poder sobre ela. E bastava ele estar perto dela para que exercesse inconscientemente esse poder. Sentia saudade dele. Muita.
Scabior fitava Hermione com visível assombro. Como ela havia o achado? Mesmo que aquele hotel fosse o lugar onde ele morava antes e ela fosse inteligente para somar dois mais dois, não tinha como ela subir no andar correto e entrar no quarto exato. Pior, com a chave. Tentou ignorar o coração acelerado. Vê-la ali a sua frente depois de tantos dias sem nem um mínimo contato. Tão alcançável...
Ela se aproximou e Scabior apenas esperou a enxurrada de palavras que ele sabia que a garota carregava consigo. Mas antes de ouvi-la, sentiu as mãos dela plantarem em seu peito, dando-lhe um empurrão e quase o derrubando. Ele realmente não entendeu aquilo. Não era para ele estar com raiva naquela situação?
– Seu filho da puta! – ela praticamente gritou. – Você não tem ideia do que está fazendo!
Ele continuou sem entender a reação dela, mas manteve distância. Conhecia-a o suficiente para saber que ela não era um exemplo seguro de bruxa furiosa. Os olhos castanhos estavam mais escuros, a boca travada formando uma linha fina, os cabelos volumosos e a respiração pesada. Tão linda e perigosa...
– Não se preocupe. Eu devia ter imaginado que Viktor Krum era um homem melhor para você. E ele é.
Scabior disse de forma sincera. Havia pensado nisso por dias. E concluiu que o apanhador era, sim, um homem digno dela. Rico, bem apresentável. Falava diversos idiomas, tinha um cargo bom no Ministério da Magia.
E ele? Um ex-snatcher obtuso. Devia ter imaginado que não demoraria para que ela conseguisse achar alguém melhor para si.
– Seu imbecil! Sempre idiota! Eu detesto aquele homem, eu senti asco ao ser beijada por ele. Eu odiei cada toque dele! Ou você é tão cego que não conseguiu ver que eu tentei sair dos braços dele e até o xinguei?
Scabior havia visto, mas tinha ficado tanto tempo sozinho naquele quarto, que sua própria mente havia elaborado diversas teorias para aquilo. Cada uma mais improvável que a outra. E mais assustadora.
– É claro que eu vi! Mas você pode ser uma bela atriz quando quer. Lembro-me disso quando repasso aquela noite no bar com aqueles homens. Você parecia não gostar de estar nos braços dele no dia da reunião, assim como parecia gostar de estar nos meus aquela noite!
Ela não respondeu. Lembrar-se daquela noite só iria lhe trazer náuseas. Ou melhor. Daquelas noites. A noite em que fora beijada à força, e a noite que foi a causa do seu sequestro. Scabior esperou uma reação dela. Ela andou em direção a ele, mas não falou nada e nem lhe empurrou novamente. Mas seu braço se levantou e Hermione deu um tapa na cara do homem com tamanha força que fez o rosto de Scabior latejar.
Ele olhou incrédulo para ela. Os olhos castanhos que ele tanto amava agora estavam visivelmente marejados.
– Me ataque fisicamente. Tente me estuprar igual você tentou há anos. Me jogue em uma maldita casa cheia de inimigos. Me iluda, me ameace e me chantageie. – as mãos fecharam-se em punho. – Mas não me desrespeite assim. Não como meu marido, alguém que coloquei todo meu sentimento e confiança. Se quiser achar algo de mim, ache como um snatcher filho da puta igual você era para mim. Dói menos.
Ele não respondeu, apenas ficou fitando-a, chocado com as palavras que saíram da boca dela. Eram terríveis de se ouvir, mas pareciam doer mais nela do que nele. Foram ditas de forma sincera, machucadas. Ela pegou a bolsa que havia jogado no sofá e olhou-o uma última vez.
– Themis sente a sua falta.
Ela não esperou uma resposta dele. Virou-se de costas e andou rapidamente pelo cômodo. Batendo a porta com tamanha violência que fez com que a chave do outro lado caísse no chão.
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