O Búlgaro

— São dez galeões, querida. – a bruxa falou gentilmente para Hermione e ela sacou o dinheiro do bolso, depositando as moedas douradas no balcão. A senhora sorriu para ela, pegando a sacola dourada e entregando para Hermione, que retribuiu o sorriso automaticamente.

Depois de ganhar dez galeões apenas por vender um vestido, Hermione sorriria até para Voldemort. Como um vestido poderia ser tão caro? Procurou não pensar muito nesse assunto incômodo, trabalhava muito e passava horas de sua vida no Ministério para ter alguma pena de gastar seu dinheiro consigo mesma. Não que tivesse pouco...

Pegou a sacola da mão da bruxa e saiu da loja, caindo na multidão do Beco Diagonal.

Bruxos e bruxas se amontoavam nas ruas estreitas. Mesmo em um dia de domingo, nenhuma loja estava fechada como acontecia com as trouxas, e Hermione amava isso, já que era o único dia da semana que ela tinha tempo para esse tipo de coisa.

Olhou o relógio de pulso novamente, já eram duas horas da tarde e ela ainda nem havia decidido o que fazer com o cabelo. Suspirou e decidiu voltar para casa, afinal, não gostava de arrumar com pressa. Aparatou de um beco mais tranquilo.

Quando abriu os olhos, reconheceu a fachada do seu prédio e sorriu. Chegou perto do portão e o elfo que trabalhava ali há anos, que se prontificou abrindo o portão.

— Boa tarde, senhorita Granger! – Ele fez uma reverência exagerada e a garota sorriu para o elfo doméstico.

— Boa tarde, Bennie.

O elfo sorriu, extasiado. Ela sempre respondia os cumprimentos da criatura e nunca a tratava mal. Ela percorreu o hall de entrada do prédio e foi em direção à lareira, dizendo o número do apartamento.

Ao abrir os olhos, foi em direção ao sofá, largando a sacola dourada que continha o vestido e caminhando diretamente para a cozinha. Acendeu o fogão com a varinha e murmurou um feitiço para que as panelas começassem a fazer seu almoço.

Depois de tudo comprado, optou por colocar os cabelos presos. Alisá-los era algo difícil e ela não teria paciência. Não iria acompanhada de ninguém, Archie lhe disse que era um jantar de negócios, e ela não gostava de misturar negócios em encontros.

Pegou a sacola dourada e caminhou em direção ao quarto, colocando o belo vestido preto no cabide e pendurando-o em um gancho atrás da porta, para impedi-lo de amassar. Abriu o armário procurando a sandália que já havia escolhido pela parte da manhã e achou-a em um canto jogada. Franziu o nariz ao perceber que a sandália era uma prova de que sua vida social não andava nada bem.

Algo apitou na cozinha e ela foi até o aposento, o almoço estava pronto. Comeu devagar, pensando seriamente se seria tachada de encalhada no jantar, visto que Archie não especificara qual seria o assunto tratado na reunião, mas se bem conhecia seu chefe, a reunião era apenas um pretexto para anunciar as modificações no Ministério.

Deu de ombros e jogou o prato na pia, antes de seguir em direção ao quarto e deitar na cama. Dormiria um pouco antes de ir para o evento, afinal, olheiras estragavam qualquer produção. Respirou fundo e fechou os olhos. Se ao menos tivesse alguém ao seu lado...

Há quanto tempo não saía com um homem? Hermione não poderia responder essa pergunta nem para ela mesma. Seria vergonhoso.

Adormeceu rapidamente.

[...]

— Acho que consegui.

Falou para si mesma, olhando-se no espelho e dando voltas para conseguir observar a produção em todos os ângulos. Estava bonita, isso ninguém poderia negar. Usava o vestido comprado naquela tarde, preto e na altura dos joelhos, alguns movimentos mais bruscos o levantavam e deixavam parte das coxas expostas. Hermione anotou isso mentalmente. O vestido não tinha decote grande na parte da frente, mas o decote nas costas ia até o começo da cintura. As sandálias pretas eram de salto-alto, deixando-a com a postura clássica, e o cabelo estava feito em um coque, que era preso por uma presilha nada chamativa. Estava elegante.

A maquiagem não era carregada, apenas um pouco de sombra, lápis e o blush para tirar a palidez da face cansada. Ela sorriu ao observar o conjunto e colocar o brinco escolhido. Pegou a carteira de mão preta e o casaco, caso estivesse frio, e caminhou em direção à lareira.

— Ministério da Magia.

Jogou o Pó de Flu em seus pés e sentiu as chamas da lareira a engolirem. Abriu os olhos e reconheceu o átrio do Ministério. Caminhou em direção a um elevador, seus saltos fazendo barulho pelo chão de madeira escura, e apertou o botão que levaria ao seu Departamento. A reunião seria na sala principal e ela estava dez minutos adiantada, como sempre. Abriu a bolsa de mão e pegou um frasquinho, espirrando um pouco de perfume perto do pescoço e nos pulsos.

"Nível cinco: Departamento de Cooperação Internacional em Magia".

Saiu do elevador assim que as grades se abriram e respirou fundo, ajeitando seu vestido. O nível cinco do Ministério estava gelado, e mesmo sabendo que o lugar era subterrâneo, as janelas enfeitiçadas estavam escuras. Colocou o casaco no corpo e caminhou em direção à sala de reunião, entrando sem bater.

Apenas cinco pessoas estavam sentadas à mesa de mogno reluzente. Archie sorriu ao vê-la. Além de seu chefe, havia dois búlgaros conversando de forma rápida em seu idioma, que não se deram conta da presença da garota. Uma mulher sentada educadamente com as mãos sobre a mesa acenou para Hermione quando ela se aproximou e a outra pessoa era Draco Malfoy.

Hermione não sabia o que ele estava fazendo na sala de reunião do Departamento em que ela trabalhava. Afinal, como Malfoy sempre fazia questão de falar, ele trabalhava com seu pai e fazia serviços para o próprio Ministro da Magia. Ela cumprimentou a todos educadamente.

Draco Malfoy olhou-a pela primeira vez, ficando um pouco desconcertado ao vê-la tão arrumada. A última vez que a havia visto desse modo fora no quarto ano, no Baile de Inverno, e ela estava bonita. Mas a garota que ele havia notado em Hogwarts não parecia a mesma que estava a sua frente. Essa era mais madura, mais mulher.

Archie caminhou em direção a Hermione e puxou a cadeira para que ela sentasse. Ela sorriu e se sentou de frente para Malfoy, olhando novamente o relógio que havia levado dentro da carteira de mão. Estava quase na hora. A porta se abria de minuto em minuto e o restante das pessoas sentava-se nos lugares vazios. Ela tamborilava os dedos de forma impaciente no mogno.

— Bom, estamos todos aqui?

Finalmente Archie se levantou da cadeira e começou a distribuir pergaminhos para todos os presentes na sala de reunião. Ela abriu o seu com interesse, dando-se conta pela primeira vez do motivo da reunião.

— Redefinição de multas dadas pela Confederação Internacional dos Bruxos? – uma bruxa com o cabelo um tanto quanto peculiar perguntou em voz alta, com um tom um pouco indignado. Archie sorriu para a mulher e gesticulou com as mãos explicando. Quando gesticulava muito, significava que estava nervoso. Hermione sabia muito bem disso e procurou desviar os olhos das mãos do chefe.

— Sim, Clarice. Refaremos todas as multas que a Confederação poderá aplicar, e teremos ajuda para isso.

O silêncio agora era quase sufocante. Havia bruxos de todas as nacionalidades na sala, como era de costume no Departamento, e todos pareciam um pouco estressados por terem sido chamados em um dia de domingo para serem avisados que teriam trabalho em dobro pela semana seguinte.

— Ajuda? – um bruxo negro com um turbante amarelo perguntou curioso, e Archie sorriu, olhando para Malfoy. O garoto se levantou e Hermione desviou os olhos dos presentes para fitar seu antigo colega pela primeira vez. Ele pigarreou e olhou para os bruxos.

— O Ministro pediu para que o Escritório Internacional de Direito em Magia ajudasse vocês a refazerem as regras para a Confederação aplicar as multas e o Departamento trabalhar melhor.

Hermione trancou o maxilar. O que Malfoy tinha a ver com isso tudo? Pelo que ela sabia, ele não fazia parte do Escritório. Todos os bruxos tinham as mesmas expressões que a garota e Archie percebeu isso, acenando de leve para chamar a atenção.

— Malfoy agora é o chefe do Escritório, e durante as próximas semanas dará as coordenadas.

Houve um burburinho pela sala, mas ninguém ousou reclamar. Já estavam sobrecarregados de trabalho e Malfoy parecia a pessoa que tinha a influência certa para sobrecarregá-los ainda mais, se ouvisse alguém insatisfeito.

— Se alguém tiver algo a mais para acrescentar, por favor, fale agora.

Silêncio. Malfoy sorriu satisfeito e Hermione engoliu em seco, apertando a própria mão e respirando fundo. A vontade de socá-lo, igual fizera no seu terceiro ano de Hogwarts, voltou com força total. Archie agradeceu a todos os presentes e dispensou-os. Os búlgaros olhavam tudo com interesse, os bruxos foram se levantando, todos elegantes. Alguns desejaram boa noite, outros caminharam para fora da sala conversando sobre o jantar. Archie caminhou em direção à garota.

— Hermione, tem um momento?

Ela assentiu e ficou de costas para a mesa, dedicando sua atenção ao chefe.

— Há algumas multas complicadas, multas que são consideradas inadequadas. Sabe como é... O próprio Barty Crouch as fez, mas ele estava um pouco atormentado com a prisão do seu filho na época...

Ela apenas assentiu. Ele não precisava dar detalhes. Em memória a Crouch, não gostava quando falavam do antigo diretor do Departamento.

— Preciso de uma pessoa dedicada e fluente em outros idiomas para isso. Pode fazer isso por mim?

Com o salário que ganhava, Archie poderia lhe pedir qualquer coisa. Ela assentiu, dando-lhe um mínimo sorriso e ele respirou aliviado, afrouxando momentaneamente a gravata do pescoço.

— Você salva minha vida, Granger. Amanhã poderemos ver isso?

— Claro.

— Ah! E amanhã preciso rever um assunto com você.

Antes que pudesse evitar, olhou para Archie e ele sorriu sem graça para ela, distanciando-se um pouco, como se temesse alguma reação mais violenta por parte dela.

— Sim...

Ela respirou fundo e apenas acenou com a cabeça. Ele agradeceu e disse pela vigésima vez que Hermione era a mais competente, entregando-lhe um pedaço de pergaminho com o convite e o endereço correto do jantar. Ela sorriu e pegou a carteira de mão, indo em direção à porta.

Caminhou para o elevador, agradecendo que todos os bruxos já tinham ido embora. As grades se abriram e a voz mágica anunciou o nome do Departamento. Ela entrou e fechou os olhos.

— A noite vai ser longa... – pensou alto, enquanto o elevador abria novamente as grades. Andou pelo átrio do Ministério, caminhando para uma lareira, os saltos de sua sandália fazendo barulho.

Abriu a carteira de mão, pegando o endereço e lendo. Entrou na lareira e jogou o Pó de Flu em seus pés, falando em voz alta e clara o destino. Sentiu um pequeno solavanco e abriu os olhos, olhando o ambiente iluminado. O hall de entrada do salão era de mármore branco e estava impecável, elfos domésticos guardavam bolsas e casacos dos bruxos que surgiam da lareira. Bruxos de todos os modos. Hermione poderia distinguir cada nacionalidade de cada bruxo presente.

Ela entregou sua carteira de mão para o elfo e despiu o casaco, exibindo o vestido por inteiro pela primeira vez. Agradeceu a criatura e caminhou para onde os bruxos estavam indo.

Archie correu em direção a ela, tomando-lhe a mão e fazendo um gesto para um lado do salão. Três búlgaros estavam conversando e ela iria reconhecer o terceiro de longe mesmo se passassem anos. Viktor Krum caminhava sorrindo em direção a ela.

Ela corou com o reencontro, mas deu um abraço no antigo amigo, se é que poderia rotulá-lo como tal. Conversaram sobre tudo: trivialidades, contaram novidades e o que estavam fazendo em suas vidas. Viktor ainda tinha o sotaque carregado, mesmo que seu inglês tivesse melhorado, e isso só o deixava mais atraente. Sua barba estava um pouco maior e seus músculos agora eram mais visíveis, se é que aquilo pudesse ser possível.

Ela se surpreendeu quando não conseguiu desviar os olhos do homem.

A conversa fluía de um jeito prazeroso, como se os dois bruxos nunca tivessem se distanciado. Ele contava como a carreira de apanhador havia decolado, e seus planos em um time novo. Hermione não entendia muito bem sobre o esporte, mas gostava de como Viktor falava. Ele a elogiou, tanto sua aparência quanto o seu notável trabalho. Ela já estava acostumada a ser elogiada pelo trabalho, mas seu rosto sempre esquentava quando um homem elogiava sua aparência.

Um barulho de algo chamou a atenção dos dois bruxos jovens. Ela olhou para a origem do som e viu que um bruxo impecavelmente vestido estava com uma taça na mão.

— O jantar está servido.

Viktor estendeu o braço para ela, e ela se lembrou do Baile de Inverno, anos atrás. Ele sempre lhe estendia o braço. Era um cavalheiro, e Hermione apreciava isso.

Conduziu-a até a mesa e puxou a cadeira pesada para ela se sentar. Ela agradeceu, vendo o homem forte sentar-se ao seu lado, e os dois continuaram a conversa. Ela se surpreendeu, ele havia mudado muito, não era mais calado igual era antigamente. Ela sabia que Igor Karkaroff sempre se exaltava quando Viktor se interessava por outra coisa que não fosse sua carreira. Ele estava mais social, e mais bonito.

A comida estava ótima e ela ria dos assuntos corriqueiros dos bruxos. Viktor ficou impressionado quando ela falou fluentemente em francês com uma bruxa ao lado, e minutos depois conversou em alemão com um bruxo mais idoso.

O jantar estava agradável, mas os bruxos não se interessavam mais por conversas na mesa e desistiram de serem educados, saindo do local e indo para cantos diversos para tratar de negócios. Hermione se levantou vagarosamente da mesa, pedindo licenças aos bruxos mais próximos.

Olhou para um relógio dourado que estava perto do hall de entrada: meia noite em ponto. Deduziu que o dever estava feito e já poderia ir embora. Afinal, o jantar era em um dia de domingo e precisava descansar para trabalhar no dia seguinte. Localizou Archie em um canto e caminhou em direção ao chefe. Despediu-se sorrindo e disse que precisava ir.

— Te vejo amanhã.

O chefe lhe disse e Hermione caminhou para o hall de entrada do lugar. O elfo doméstico já estava a esperando com seu casaco e sua carteira de mão, como se tivesse adivinhado que ela fosse embora naquele exato horário. Agradeceu-o e os olhos grandes da criatura brilharam de satisfação. Hermione sorriu, mas antes que pudesse caminhar para a lareira, sentiu uma mão forte e quente pousar em seu ombro.

Olhou para trás e não foi pega de surpresa quando viu Viktor Krum a fitando, um brilho nos olhos que Hermione conseguia distinguir de longe. Já havia visto o mesmo brilho nos olhos de outros homens, e sabia perfeitamente onde isso iria terminar, caso aceitasse a pergunta que ele estava prestes a fazer. Mas era inteligente demais para negar algo a um homem como Krum.

— Pode me acompanhar?

A pergunta saiu de sua boca carnuda com um leve sotaque búlgaro e ela sorriu. Ele estendeu o braço forte e ela não pensou muito antes de dar o seu próprio. Os dois caminharam juntos para a lareira e Krum disse o nome do hotel bruxo onde estava hospedado.

[...]

Hermione acordou com a claridade do quarto. Sabia perfeitamente onde estava, mas demorou um pouco para abrir os olhos, temendo que ele já estivesse acordado. Não gostava de ser observada dormindo.

Ela ficou imóvel, escutou um barulho de respiração masculina e pesada ao seu lado. Foi a confirmação de que Viktor Krum ainda estava dormindo. Abriu os olhos lentamente, fitando o homem que estava inconsciente à sua frente. Ele era lindo. Isso ela não poderia negar. Seus lábios eram carnudos, o corpo era forte, os braços torneados na medida certa, devido aos treinos intensos de Quadribol. Ela sorriu e saiu da cama.

Localizou as peças de sua roupa jogadas uma a uma em cantos diferentes do quarto. Caminhou até sua lingerie e colocou-a silenciosamente, temendo que o homem acordasse. Mas ele estava em um sono profundo. O sono que ela conhecia bem, e já havia visto em muitos homens, no dia seguinte, o sono depois de uma noite prazerosa de sexo.

Infelizmente, ela nunca havia tido um sono como ao que ele estava entregue no momento. E se perguntava mentalmente todas as vezes que isso acontecia, o motivo de nunca se sentir totalmente satisfeita, totalmente esgotada. Seu corpo nunca ficava nessa sensação de torpor prazeroso que todos os homens com que havia compartilhado a cama ficavam. Ela nunca se sentia exaurida.

Tanto que o que Hermione estava fazendo era algo trivial. Ela caminhou já totalmente vestida em direção a uma escrivaninha nobre, que combinava com o resto do quarto do hotel bruxo, pegou uma pena e molhou no tinteiro. Anotou seu endereço e um pedido de desculpas, dizendo que teria que trabalhar.

Olhou para o relógio dentro de sua carteira de mão: oito e meia da manhã. Tinha apenas meia hora para chegar ao Ministério da Magia. Deixaria o banho para depois das horas intermináveis no trabalho. De qualquer maneira, já havia tomado uma ducha antes de dormir.

O cheiro de Krum ainda impregnava sua pele, e isso incomodou um pouco a garota. Não que o aroma fosse ruim, pelo contrário, parecia o cheiro de um perfume masculino caro. Esse era o medo dela. Se Archie estivesse em um dia ruim no Ministério, ele poderia implicar com tudo, até com sua roupa do dia anterior.

Suspirou e olhou novamente o contorno do corpo forte do homem, enquanto pegava o casaco e a carteira, fechava a porta do quarto do hotel e rezava a Merlin para que chegasse ao trabalho a tempo.